Luta pela Arborização
O espaço abrigou uma fazenda de café chamada Monte Alegre. Vista aérea do campus da USP mostra que hoje, a área se destaca pela

Luta pela Arborização

Estudiosos do meio ambiente trabalham pela preservação de árvores em Ribeirão Preto, enquanto a Secretaria Municipal do Meio Ambiente promete cadastrar as espécies existentes na cidade

Em Ribeirão Preto, é possível encontrar árvores antigas em áreas centrais, como na Praça Sete de Setembro, Praça das Bandeiras, Praça XV de Novembro e Avenida Nove de Julho. No entanto, essas árvores poderiam estar condenadas? O que seria preciso fazer para preservá-las? Especialistas debatem o tema e apontam medidas urgentes para manter a diversidade de espécies.

Reinaldo Romero, ambientalista, coordenador da campanha “Tá com Calor Plante Árvores” e ativista da Associação Cultural e Ecológica Pau-Brasil, é um dos especialistas que luta junto de outros ativistas pela preservação de árvores centenárias e por ações que estimulem o replantio. Ele questiona os escassos estudos sobre arborização na cidade. “Não acredito muito em estudos paralelos e, sim, no que vejo nas ruas, principalmente, na periferia, onde há áreas mais desérticas”, destaca.
Segundo Reinaldo, os problemas que atingem uma árvore estão mais ligados ao descuido do poder público
O ambientalista aponta algumas árvores antigas e significativas, como a sapucaia, falsa seringueira, pau-ferro, que se encontram na Praça Sete de Setembro, além de abricó-de-macaco, sibipirunas e palmeiras imperiais na Praça da Bandeira. Já na Praça XV de Novembro, o que resultou em polêmica foi o corte da centenária figueira, em 2018. “Quando você planta uma árvore, ela sofrerá todas as agressões físicas do ambiente: aqueles que batem prego para colocar propagandas, caminhões que passam, poda inadequada, entre outros. Acredito que esses problemas ocorram muito mais pelo descuido do poder público do que em virtude da ação do tempo”, observa. 

O principal objetivo da campanha “Tá com Calor Plante Árvores” é que o Plano Diretor de Urbanização Urbana seja implantado. O projeto está em discussão na gestão do prefeito Duarte Nogueira (PSDB) e, para Reinaldo, vai auxiliar na formatação de leis, unir as secretarias de Saúde e Meio Ambiente para debaterem a arborização. “Falta vontade política. No ano passado, estava previsto erradicar 1800 árvores. Pergunto, o que foi feito para que essas árvores não chegassem a esse estado?”, finaliza o ambientalista. Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente informa que, em relação ao Inventário Arborização Urbana, o Termo de Referência foi concluído pela pasta e está em fase de processo licitatório para contratação de estudos técnicos especializados. 

Dados escassos
Ecólogo e especialista em Ciências ambientais da Secretaria de Meio Ambiente de Ribeirão Preto, Perci Guzzo diz que o último estudo, feito em 2012, aponta 23% de cobertura vegetal na cidade. “Ribeirão Preto apresenta outra situação: estamos nos trópicos, uma situação de relevo que não propicia boa circulação dos ventos. É quase certo que a cidade precisa de mais de 30% de cobertura vegetal para sentir os benefícios. Estamos falando apenas de clima, sem contar que ela contribui para qualidade do ar, de vida, oferece abrigo aos animais e é até antiestresse. Então, seriam necessários, pelo menos, 40% de cobertura para sentirmos uma diferença significante”, analisa.  
“Temos previsão de contratar um serviço que vai atualizar as áreas verdes e, assim, teremos um raio-x da arborização”, destaca Perci
Perci é enfático ao afirmar que não há um levantamento que classifique as árvores da cidade. “Mas temos previsão de contratar um serviço que vai atualizar as áreas verdes, e assim teremos um raio-x da arborização, para saber onde o problema é maior. Esse estudo irá mostrar o grande déficit que temos, e poderemos executar um prognóstico por meio do levantamento de quanto isso nos custaria, o que seria preciso para saldar o que chamamos de passivo ambiental para arborização de calçada”, explica. O Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema) já aprovou a verba. Agora, passará à Secretaria de Administração e logo os especialistas poderão contar com um inventário, que fará parte de um processo de licitação. A previsão é de que até 2020 haja os resultados parciais desse estudo. 

De acordo com Antonio, a retirada de árvores só é necessária caso ela ofereça risco à comunidade
USP
Especialistas também trabalham para preservar um importante espaço de Ribeirão Preto, a floresta do campus da Universidade de São Paulo (USP), onde, também, há inúmeras espécies de árvores centenárias que merecem cuidados. Antonio Justino da Silva, chefe do Serviço de Áreas Verdes e Meio Ambiente da Prefeitura da USP-RP diz que a retirada de árvores que sofrem em razão da ação do tempo é sempre um grande desafio. “Pessoas nos denunciaram por termos cortado uma árvore morta. Há quem passe pelo local e critique, mas não vê que a ação foi necessária”, destaca. A polêmica girou em torno da retirada de uma figueira, em novembro, que oferecia risco a pedestres e carros. Justino lembra que só se tira uma árvore quando esta apresenta riscos à comunidade: ela atravessava a fiação elétrica, de frente para rua, infestada de cupins. Hoje, há apenas quatro exemplares da árvore. “Temos manutenção, tiramos galhos, vigiamos a área. Estamos estudando para fazer um inventário de todas as espécies que podem estar condenadas, há árvores que demandam análises mais profundas”, elucida o especialista. 
Um dos benefícios de uma vegetação é deixar o clima mais ameno, observa Tomas
O biólogo Tomas Ferreira Domingues diz que as árvores em ambientes urbanos estão mais sujeitas à poluição, e isso diminui a expectativa de vida de cada uma delas. As que são espécies antigas poderiam viver mais se tivessem em seu ambiente natural. “Sabemos que entre 2014 e 2015, Ribeirão Preto passou por uma seca grande, tínhamos reservatórios de água muito baixos. Isso pode ter enfraquecido ainda mais as árvores, e uma mortalidade natural ficou elevada nos anos subsequentes à seca, o que refletiu no campus da USP”, lembra Tomas. Segundo ele, a vegetação contribui para atenuar ondas sonoras, a velocidade do vento, deixa o clima mais ameno nas cidades. No campus, por exemplo, pode haver dois ou três graus a menos que em áreas centrais, pois ela mantém a umidade do ar. 

Exemplo de uma copaíba (Copaifera langsdorffii) centenária localizada na Praça Sílvio Passalacqua, considerada um exemplar extraordinário
Levantamento Geral
Embora a Secretaria Municipal do Meio Ambiente não disponha de dados mais concretos a respeito da localização das árvores antigas e quais estariam condenadas à morte, ela vem promovendo o cadastramento das árvores consideradas mais relevantes existentes no município. Os critérios adotados para garantir a relevância são antiguidade, dimensões, caráter histórico-cultural, raridade, ameaça de extinção, entre outros. Já foram cadastradas cerca de 100 árvores. O levantamento de árvores extraordinárias passa a ser previsto pelo Código Municipal de Meio Ambiente — legislação em processo de revisão e atualização. 

Hamilton foi o responsável por plantar a semente de baobá no clube
À Procura do Baobá
Entre espaços amplos e bem arborizados, é possível avistar uma árvore rara em Ribeirão Preto. De grande porte e proveniente das estepes africanas e regiões semiáridas de Madagascar, o baobá se junta a centenas de árvores significativas no Ipê Golf Club. A planta foi largamente divulgada no século XX, por meio da obra “O Pequeno Príncipe”, do escritor francês Antoine de Saint-Exupery. A preocupação do personagem principal era com o crescimento excessivo da árvore, e o medo era de que o baobá tomasse todo espaço existente em seu asteroide. Ficção à parte, Hamilton de Oliveira Junior, engenheiro agrônomo e Chefe da Divisão de Praças e Parques Públicos da Coordenadoria de Limpeza Urbana, foi o responsável por plantar a árvore no local. “No começo do clube, muitas pessoas queriam contribuir com árvores. Muitas compravam mudas e doavam. Em viagem à África, uma delas plantou sementes e as doou para o clube”, lembra. Hamilton explica que a árvore é de desenvolvimento lento e tem aproximadamente 17 anos. Segundo o engenheiro, a fazenda, que é de 1940, apresenta um projeto de arborização bem diferenciado. A taxodium ou pinheiro do brejo é outra árvore centenária, que pode estar na fazenda desde sua criação.
“Antes do campo, a área da fazenda já contava com inúmeras espécies de árvores raras”, lembra Enoch
Segundo Enoch de Paula Junior, presidente do Ipê Golf Club, 22 funcionários se dedicam diretamente à manutenção do campo. O contato com a natureza, na visão dele, é essencial para aumentar a qualidade de vida, sem contar a tranquilidade que o local oferece aos visitantes. “Antes do campo, a área da fazenda já contava com inúmeras espécies de árvores raras e centenárias. Com a criação do campo de golfe, um grande número de espécies nativas foi plantado para a formação do espaço e áreas de preservação. Algumas mudas frutíferas foram trazidas por associados e outras espécies raras de plantas e árvores também”, conclui o empresário.

Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão, Julio Sian, Luan Porto

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