Luta pela preservação da história
Herança da cultura europeia, a arquitetura deixada pelos grandes cafeicultores quase foi extinta, mas ainda há pelo que luta
A paisagem urbana da cidade ainda guarda resquícios de uma época em que a riqueza, vinda dos
imensos cafezais de Ribeirão Preto, inundava suas ruas com luxo e cultura. Os grandes barões do café fincaram raízes e, em alicerces sólidos, ergueram construções inspiradas no Art Decó francês. A crise financeira do final da década de 1920, porém, desacelerou o progresso e minguou o brilho. A ação do tempo e do homem, voraz, corroeu pedra, vidro e metal, levando embora algumas das riquezas arquitetônicas daquele período.Mesmo destruídas, algumas construções ainda permanecem imponentes, sobrevivendo por mais um dia. A preocupação com a preservação e a recuperação, assim como o descaso com o patrimônio histórico e cultural de Ribeirão Preto não é um assunto recente. Ambos já eram discutidos há quase 30 anos.O assunto foi tema, por exemplo, da primeira edição da revista Revide, de julho de 1886, que estampava na capa um vislumbre do hall de entrada da extinta mansão Junqueira Lobato, na rua Américo Brasiliense, esquina com a Visconde de Inhaúma. A reportagem mostra que revista acompanhou, em junho daquele ano, a reabertura e a vistoria da casa, fechada havia 30 anos. Os herdeiros da mansão estavam no local para uma reunião. A decisão sobre o futuro da construção, como relata a edição, foi mantida em segredo, mas a suspeita de um vizinho era de que a casa havia sido vendida e seria derrubada para dar lugar a outro empreendimento. Apesar de uma mobilização social, a demolição aconteceu sob a luz do luar. “Derrubaram a casa com todo o imobiliário dentro, inclusive os lustres franceses. Em 15 minutos, aquele pedaço da história do início do século passado havia sido destruída”, recorda Claudio Henrique Bauso, ex-presidente e atual membro do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Conppac). Dos escombros do casarão, foi erguido um gigantesco edifício, deixando apenas na memória de poucos aquele símbolo arquitetônico.Destino semelhante ao do casarão Junqueira Lobato teria o Theatro Pedro II anos antes se a classe artística não tivesse se mobilizado. Após um incêncio no início da década de 1980, um grupo de empresários cogitou demolir o local para que uma agência bancária ocupasse a área do então terceiro maior teatro de ópera do país. Desta vez, a mobilização resultou no tombamento do lugar como Patrimônio Público Municipal, em 1982, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artísitico, Arquitetônico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat). “Não era para o Theatro existir. Artistas como Kiko Zambiachi, Grupo Nós, Bassano Vacharinni e Magno Bucci chegaram a dormir em frente ao local para evitar a demolição”, recorda Bauso.Após o tombamento, foram aproximadamente 10 anos até o início das obras de restauração do Pedro II, que foi devolvido à população em 1996, ano de fundação do Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural (Conppac). Com a conclusão das obras do Theatro, em 1995, que passou a ser administrado pela Fundação Pedro II, e a criação do Conppac, Ribeirão Preto ganhou novos ânimos para lutar pela proteção de sua história.
NO CENTRO DA DISCUSSÃO

Anos antes da reinauguração do Pedro II, já estava em pauta na Revide um debate que envolvia outros
endereços da cidade a serem preservados: um projeto contemplava a revitalização do centro e a construção de um calçadão que visava a uma solução para o sucateamento da área central. Em abril de 1991, a reportagem de capa anunciava “A nova cara do centro”. Na matéria, assinada pela jornalista Matilde Leone, Ribeirão Preto esperava, havia dez anos, pela execução do projeto do calçadão e pela reformulação daquela região da cidade.Àquele tempo, a esperança depositada nas obras — ainda que o projeto dividisse opiniões entre representantes da igreja católica, dos
comerciantes, de ambulantes e de empresários — evidenciava o desejo dos cidadãos. O projeto da equipe do arquiteto Sergio Coelho incluía “linhas de um traçado mais ousado: a revitalização do centro. Uma obra de padrões europeus numa área de 40 mil m² abrangendo as ruas General Osório e Duque de Caxias, entre a Barão do Amazonas e Saldanha Marinho, com o fechamento também da Álvares Cabral e da Tibiriçá até a rua São Sebastião”, anunciava Matilde.
Prevista para novembro de 1991, a primeira etapa da obra, orçada em 152 milhões
de cruzeiros, foi iniciada em fevereiro do ano seguinte. No entanto, foram necessárias adequações no projeto original, a fim de reduzir os custos. “A execução, a manutenção e a administração da obra não atenderam aos nossos conceitos. A população também não abraçou o projeto. Lembro-meque o projeto era abrangente. Havia jardineiras floridas, cujas mudas, grande parte delas, foram roubadas”, lamenta o arquiteto Sergio Coelho.
O responsável pelo projeto conta, ainda, que sua proposta inicial previa a retirada de todas as fachadas
de alumínio das lojas da região, medida que pode ser considerada precursora da Lei Cidade Limpa. O intuito, segundo ele, era valorizar as fachadas originais. “Muitas delas eram ricas em adornos de influência italiana. Assim, o centro se tornaria colorido, rico e original”, opina. Após as obras do calçadão, a praça XV de Novembro, tombada em março de 1993 pelo Condephaat, juntamente com o “Quarteirão Paulista”, também passou por uma reforma antes da reinauguração do Theatro Pedro II.
No entanto, o centro foi saindo de cena e abrindo espaço para outras áreas da cidade. Sua preservação, consequentemente, foi caindo no esquecimento. Em junho de 1998, a Revide entrevistou a arquiteta e então presidente do Conppac, Valéria Valadão. Segundo a historiadora, na época, o processo de degradação do centro havia começado anos antes, na década de 1980, com a construção de grandes centros comerciais. A aposta de Valéria, no entanto, era retomar essa recuperação, já que o Theatro Pedro II havia atraído de volta a atenção para a área central. Uma das propostas do Conppac era que o antigo Hotel Palace, que havia funcionado até 1992, fosse transformado em uma escola municipal de arte. As obras para transformá-lo em um centro cultural foram concluídas recentemente, em 2011.
O ESFORÇO CONTINUA
Atualmente, Ribeirão Preto possui 88 bens e imóveis tombados ou em processo de tombamento — a maioria deles pelo Conpacc, conselho municipal que se reúne mensalmente para analisar os requerimentos enviados pelos próprios cidadãos. Em abril de 2013, a Revide colocou o tema outra vez no centro da pauta, com a reportagem de capa “Patrimônio Abandonado”, que apontava para a necessidade de investimentos nos bens tombados.
Entre os bens sob regime de proteção estão o Palacete Camilo de Mattos, na rua Duque de Caxias. Tombado pelo Conppac, o imóvel passa por um processo de permuta entre a Prefeitura e o proprietário. Segundo Letícia Ricci,
diretora de Museus de Ribeirão Preto — ligada à Secretaria de Cultura —, a administração municipal apresentou alguns terrenos que podem ser trocados pelo palacete. Caso a permuta se concretize, a próxima etapa contempla a abertura de um edital para dar início a um projeto de restauro. Embora as negociações estejam avançadas, ainda não há uma previsão para a ocupação do lugar. “Algumas ideias estão sendo discutidas, mas nada concreto. O local deverá utilizado para fins culturais”, explica Letícia.
Outro imóvel, o Solar Vila Lobos (Casarão da Caramuru), considerado o mais antigo da cidade (1880), também está prestes a ser restaurado. A Secretaria Municipal da Cultura aguarda o envio do projeto final pela empresa de arquitetura vencedora do concurso, realizado pelo Condephaat, para sua recuperação. Por orientação do próprio Conselho, o projeto, contudo, passa por uma remodelação e será enviado ao órgão de proteção estadual para ser novamente avaliado. Em seguida, uma licitação deve ser aberta para a escolha da construtora.
Letícia Ricci reforça que o projeto respeitará os padrões históricos e arquitetônicos do local. O espaço, ela adianta, também será usado para fins culturais. A intenção é captar verba para a execução da obra junto à iniciativa privada através de editais de isenção fiscal. O valor estimado é de R$ 6 milhões.Em relação a outros bens tombados, a diretora de Museus de Ribeirão Preto afirma que ainda não há novidades futuras. “É importante ressaltar que o proprietário é responsável pelo imóvel, mesmo depois do tombamento. A Secretaria da Cultura serve, na verdade, como intermediadora na negociação com o proprietário, para restauro e permuta”, conclui.

CRECISMENTO DESORDENADO
“Entre 1970 e 1980, o Município protagonizou a destruição sistemática da cidade antiga. Nesse
período, houve um crescimento desordenado e sem planejamento, que resultaram nos problemas atuais. Embora expurgado, o passado permanece como instrumento de reflexão para transformar a nossa cidade num lugar de todos e para todos. Isso implica em incluir nas agendas econômicas e políticas a preservação do patrimônio como uma coluna de sustentação. Forças antagônicas se fazem presente de maneira nem sempre razoável: de um lado os que lutam e cultuam o passado como uma relíquia, de outro, os que extinguem prédios, árvores e as nascentes d’água. Cabe a nós escolher que tipo de relação se pode estabelecer com o passado: se será possível harmonizar o desenvolvimento econômico e urbano com a preservação do patrimônio histórico e natural, ou se seremos assombrados, eternamente, por seus fantasmas.”
Tânia Registro, historiadora
AÇÕES POSITIVAS
“Poderia escrever sobre o estado de má conservação e de preservação em que se encontra parte da história de Ribeirão Preto. No entanto, prefiro deixar o registro das ações que venho acompanhando não apenas como arquiteta e urbanista, mas, também, como cidadã. É importante destacar o Programa de Proteção e Preservação Patrimonial de Ribeirão Preto implantado pela Secretaria da Cultura do Município com propostas consolidadas no Projeto Ribeirão Preto Cidade Histórica que reconhece a partir das pesquisas realizadas pela Rede de Cooperação Identidades Culturais, seis corredores culturais no município: Centro, Vila Virgínia, Vila Tibério, Ipiranga, Campos Elíseos e Bonfim Paulista. Nesse contexto, insere-se o Projeto de Reabilitação do Quadrilátero Central. E, mais, recentemente, a criação e atuação do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), que defende uma parceria público-privada do patrimônio municipal e apresenta um programa de ações com base no conceito de economia criativa a partir das potencialidades culturais que a cidade apresenta e que possam dar sustentação a um projeto de desenvolvimento econômico, mas, também, social.”Rose Borges, professora universitária
POLÍTICAS INTEGRADAS
“O incêndio que degradou o Theatro Pedro II, em julho de 1980, iniciou uma nova fase para o patrimônio
cultural do Município. A tragédia aglutinou artistas, políticos e ativistas em favor da preservação, resultando em seu tombamento como patrimônio histórico do Estado. Tais iniciativas e o restauro do edifício simbolizaram uma nova etapa na mentalidade do ribeirãopretano. Estreitaram-se relações de pertencimento e articularam-se melhor a luta pelo patrimônio. Mesmo que o movimento preservacionista tenha avançado, ainda há muito a fazer. O fundamental é que sejam definidas políticas públicas integradas, envolvendo as secretarias municipais, bem como o governo do Estado, de maneira a atingir resultados mais eficazes na conservação dos prédios históricos já tombados, que hoje se encontram em condições ruins.”
Lilian Rosa, historiadora
CONSCIENTIZAÇÃO
“Estamos nos primeiros passos de um caminho longo e difícil para a preservação patrimonial. Falta à
sociedade, a conscientização sobre a importância histórica e social para a formação das gerações futuras. Acredito que caminharemos a passos largos quando a defesa dos interesses particulares ceder espaço aos interesses sociais, pois a defesa patrimonial deve refletir os anseios de toda a comunidade.”
Claudia Morroni, presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (Conppac)
O PASSADO E A HISTÓRIA
“A cantora baiana, Daniela Mercury, assumiu para si o canto das belezas de Salvador e a variação das
cores deslumbrantes daquela cidade na música ‘O canto da cidade’. Toda vez que a ouvimos, lembramos como a cidade é bonita. Em Ribeirão Preto não é diferente. As cores estão estampadas nos rostos alegres e pungentes de nosso povo. Aos quatro cantos desta cidade, a “musicalidade urbana” que se ouve transborda energia, felicidade e prosperidade. É assim hoje e foi assim no passado. Esse passado alegre e próspero ficou exposto por anos na nossa arquitetura, que aos poucos está sendo destruída. Muitos exemplares desta arquitetura seguiram o caminho do ciclo da vida humana, ou seja, os velhos dando lugar aos novos que chegam para revigorar a vida. Mas não devia ser assim. Uma cidade sem passado é uma cidade sem história, sem cultura. Isso não pode ser aplicado a Ribeirão Preto, uma cidade tão rica de cultura e tão importante na história da região, do estado e, quiçá, do país.”
josé antônio Lanchoti, arquiteto e urbanista
* Publicado em 01/09/2014