Luz, câmera, ação
A produtora audiovisual Roberta Assef, comenta em entrevista exclusiva a diversidade na área cinematográfica
O mundo do cinema, conhecido também como a Sétima Arte, é atualmente uma das carreiras mais concorridas nos principais vestibulares do País. Antes mesmo dos atores iniciarem seus trabalhos, os produtores, diretores e profissionais de audiovisual já estão organizando o projeto como um todo. Nesse mercado, para iniciar algo, primeiro vem a ideia e depois a ação.
É exatamente dessa produção que a professora universitária e produtora audiovisual Roberta Assef, comenta em entrevista exclusiva.
Revide On-line - Quando surgiu sua paixão por essa área audiovisual?
Roberta - No início da adolescência, usava agendas e cadernos para escrever as minhas impressões sobre os filmes aos quais assistia um exercício rudimentar de crítica. Acho que foi quando percebi que gostava muito de cinema. Mas, ainda criança, pedi um gravador de presente pra poder registrar as histórias que escrevia, com narração, diálogos, música, ruídos... Eu ainda não sabia disso, mas essas histórias eram uma espécie de radionovela. Ou de filme, ainda sem imagem.
Revide On-line - Como é estar atrás das produções cinematográficas?
Roberta - Participei de algumas produções de curta-metragem na faculdade e posteriormente, atuando como roteirista, assistente de direção ou na produção. No set, o que mais me impressiona é a capacidade que uma equipe tem de driblar o cansaço, a fome, a falta de tempo, as limitações de recursos, os imprevistos, as diferenças pessoais, enfim, tudo, em função de uma só coisa: fazer o filme acontecer.
A circunstância em que mais gosto de estar no set é ministrando oficinas de cinema. Sinto uma grande alegria ao sentir que estou ajudando alguém a descobrir um mundo novo, uma habilidade impensada, a paixão pelo cinema, da qual compartilho. Ainda não dirigi um filme autoral, mas não tenho pressa. Quero experimentar, como venho fazendo, diversos ofícios e atividades dentre os tantos que o cinema oferece.
Revide On-line - Cite alguns de seus últimos trabalhos?
Roberta - Como disse gosto muito de ministrar oficinas de cinema, nas quais coordeno, sozinha ou juntamente com colegas da área, a realização de curtas-metragens, desde a escrita do roteiro até a primeira exibição. Dá para conferir aqui três vídeos, resultados de iniciativas desta natureza:
- Clarissa
Resultado da oficina “Roteiro: de Aristóteles à Transmídia”, realizada no SESC Ribeirão Preto.
- Abs Trato
Resultado do workshop de produção audiovisual ministrado em parceria com Cid Machado Jr, Eduardo Perdido e Fernando Mello, no SESC Ribeirão Preto.
- A mulher de branco
Resultado da Oficina Fazer Audiovisual, realizada pela Oficina Cultural Candido Portinari em Itirapuã-SP.
Revide On-line - Você tem um gênero preferido? Qual e por quê?
Roberta - Gosto de filmes, independente do gênero, que me instiguem, incomode, resgatem o que há de mais humano em mim. Sempre digo que o pior filme é o que deixa o espectador indiferente quando as luzes da sala de cinema se acendem.
Revide On-line - Como você vê a produção cinematográfica brasileira atualmente?
Roberta - Quanto à qualidade técnica, não há o que questionar. Temos também filmes com méritos narrativos e estéticos, além de produções capazes de levar um grande público para o cinema. O volume de produções aumentou muito nos últimos anos - voltamos a fazer 80, 100 filmes anuais, como nas décadas de 1970-1980 (quando atingimos marcas históricas de público e participação de mercado, devido à atuação da EMBRAFILME e as elevadas cotas de tela).
No entanto, essa produção, salvo exceções, está concentrada no eixo Rio-SP; em sua maioria, não tem uma distribuição comercial adequada - ou seja, por vezes, o filme não chega até o seu público; ainda que seja lançado, é exibido apenas nas capitais e grandes centros urbanos, que é onde os cinemas estão. Nossa preocupação, portanto, não deve ser voltada para a produção somente, mas também para a distribuição e a exibição, ou seja, à cadeia produtiva como um todo, para a consolidação da atividade cinematográfica no Brasil.
Revide On-line - Quais os benefícios que as novas tecnologias trouxeram para o cinema?
Roberta - Os meios de produção se tornaram mais acessíveis a partir da digitalização e da convergência das mídias. Hoje é possível captar imagens e sons com alta definição, editar e finalizar um filme no computador e até disponibilizá-lo para a fruição do público via internet. Tudo isso era impraticável até há pouco tempo.
Em termos da exibição, o 3D serviu à indústria como uma ferramenta para a recuperação do público, mas não é uma tecnologia nova. Resta saber se vai se manter por mais algum tempo ou se perderá, mais uma vez, o interesse.
A digitalização traz outras perspectivas interessantes, como a possibilidade da exibição, no cinema, de filmes que não possuem cópia em película 35mm (uma cópia custa cerca de US$ 1,2 mil) e de outros conteúdos, como eventos culturais e esportivos.
Revide On-line - O que faz o cinema se manter vivo até hoje?
Roberta - A capacidade que o meio tem de se reinventar. O cinema já foi silencioso, preto e branco, perdeu público com o advento da televisão (e mais recentemente, de outras mídias), mas sempre soube incorporar o novo, tanto nas temáticas como na linguagem e no uso da tecnologia.
Revide On-line - Na sua opinião, porque existe essa dificuldade de encontrar filmes brasileiros nas locadoras?
Roberta - Mais uma vez, temos problemas na distribuição de nossos filmes. E ainda não damos o devido valor ao produto fílmico nacional: mal exploramos a janela do cinema, que dirá o vídeo e a televisão. A mentalidade tem de mudar, pois hoje, 75% das receitas de um filme provêm dos mercados acessórios e não da sala de cinema.
Revide On-line - Uma de suas paixões é a sala de aula, você acha que a sétima arte deve estar presente na vida das pessoas desde a educação básica?
Roberta - Defendo a alfabetização também na linguagem audiovisual. O indivíduo precisa conhecer esta linguagem para interpretar as mensagens audiovisuais que recebe a todo instante e reagir criticamente a elas, refletir sobre elas.
Muitas vezes os professores usam filmes como ferramenta didática, mas só discutem o seu conteúdo, sem levantar questões referentes à forma. Mas forma e conteúdo são indissociáveis! Os alunos são capazes de perceber isto e levantar questões para a discussão, à medida que são provocados com este intuito. É o caso, por exemplo, da turma que frequenta o Cine Sabin, coordenado pelo Prof. Rafael Cardoso de Mello, na escola homônima.
Revide On-line - Os cursos envolvendo a área audiovisual tem crescido muito, qual o motivo dessa procura?
Roberta - Penso que, felizmente, as pessoas não procuram mais a faculdade de cinema para aprender a filmar e editar – isso é uma questão de apertar os botões certos, mas para aprender a fazer do audiovisual um meio de comunicação e expressão artística.
Os cursos de audiovisual, como aquele em que leciono, na Barão de Mauá, são fundamentais para promover a circulação de conhecimentos sobre a linguagem cinematográfica e a sua experimentação prática, a formação do repertório, o aguçamento do olhar e da percepção crítica diante dos filmes - e por que não, da vida, do mundo.
Uma particularidade dos cursos de audiovisual é que, pela multiplicidade de ofícios que abrangem, congregam pessoas dos mais variados perfis e habilidades. Conviver com essa diversidade de pessoas e seus pontos de vista pode ser bastante enriquecedor para o aluno.
Revide On-line - Para quem quer ingressar nessa área qual a sua dica?
Roberta - Cinema é feito em equipe, então, é preciso saber ouvir, respeitar e valorizar o trabalho do outro.
Revide On-line - A produção cinematográfica em Ribeirão Preto, englobando animações, documentários e filmes, pode crescer?
Roberta - Temos uma Secretaria da Cultura simpática às questões do cinema na cidade; uma estrutura sendo montada especialmente para a produção de filmes, os Estúdios Kaiser de Cinema; iniciativas como a São Paulo Film Commission e o Cauim, batalhando há anos pela produção e difusão do audiovisual; um grande contingente de pessoas estudando, se preparando para atuar na área, além de profissionais que já trabalham nas produtoras, na televisão e na publicidade.
A conjuntura é toda favorável, mas o meio tem de unir forças e a população, reconhecer o cinema como uma manifestação cultural legítima da cidade. Nessas condições, aliadas à criação de uma Lei municipal de incentivo à cultura e ao apoio da iniciativa privada, o audiovisual terá plenas possibilidades de se desenvolver, contribuindo para a geração de cultura e outras benesses para Ribeirão.
*Confira os cinco filmes que são referências obrigatórias para qualquer cinéfilo na visão de Roberta:
- Um cão andaluz (Luis Buñuel e Salvador Dali, 1928)
- Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder, 1950)
- Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
- O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)
- Fale com ela (Pedro Almodóvar, 2002)
Revide On-line
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Carolina Alves