Manifestação plural
Com cerca de 70 mil pessoas, protesto em Ribeirão Preto não se limitou a pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff ou o fim da corrupção; temas estaduais e locais entraram no ato, que aconteceu
Ribeirão Preto, mais uma vez, surpreendeu e bateu o recorde no número de manifestantes pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff e contra a corrupção. Foram cerca de 70 mil participantes, segundo a Polícia Militar, e de 100 mil, de acordo com os organizadores. O maior ato havia ocorrido em agosto do ano passado, quando se estimou em 50 mil o número de participantes. Os protestos seguintes apresentaram redução de público. Os manifestantes percorreram o mesmo trajeto das passeatas anteriores, pela rua Visconde de Inhaúma, ao lado das praças Carlos Gomes e XV de Novembro, e avenida 9 de Julho até o cruzamento com a Presidente Vargas.
“Estimamos o número de manifestantes em 100 mil pessoas sem medo de errar. A Polícia Militar fez um cálculo com número menor, mas foi porque parte dos manifestantes não foi contabilizada. Estas pessoas estavam nas proximidades da catedral e subiram para a avenida 9 de Julho antes dos trios elétricos e da bandeira e acabaram desconsiderados”, disse Marcos Spínola de Castro, um dos coordenadores do Movimento Brasil Limpo (MBL), principal organizador da manifestação, junto com outros grupos. Segundo ele, as pessoas iniciaram a caminhada antes em função da participação das motos e das bicicletas.
Spínola de Castro lembrou que, além da manifestação pelo impeachment da presidente e contra a corrupção, o grupo homenageou o juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal do Paraná. Também comentou o crescimento do apoio às manifestações e a melhoria na organização. “Desta vez, tivemos um palco fixo e apoio de entidades como o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), entre outras”, afirmou.
Conscientização
Para o presidente da Acirp, Antônio Carlos Maçoneto, que participou da passeata do domingo, a manifestação foi a melhor que Ribeirão Preto e o Brasil já fizeram. “Não foi a melhor objetivamente pelo número de pessoas, mas também pela conscientização dos participantes. Os empresários estão mais alertas e fazem maior empenho para que o Brasil volte a crescer e que se reduza o fechamento de empresas, que hoje provoca desemprego. É preciso lembrar, também, que foi uma manifestação pacífica e ordeira”, apontou.
O diretor regional do Ciesp, Guilherme Feitosa, também elogiou a manifestação de domingo. “Achei fantástica porque já mostrou resultados, pelo que percebemos nas declarações de vários deputados que podem ‘desembarcar’ do governo. O recado foi bastante claro e dirigido a todos os partidos. Tanto é que quem quis se aproveitar foi hostilizado”, afirmou o empresário, lembrando que o senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) foram vaiados em São Paulo e tiveram que deixar a manifestação antes do seu final. Feitosa defende que a pressão sobre o governo continue. “Senão, de nada resolvem as manifestações gigantescas”, complementa.
Para políticos de Ribeirão Preto, a manifestação cumpriu seu papel. “Foi uma manifestação expressiva que demonstrou o descontentamento com o governo federal e com a corrupção”, disse presidente do diretório do PSDB em Ribeirão Preto, Nicanor Lopes. Presidente local do PT, o vereador Jorge Parada considerou a manifestação “expressiva”. “Teve uma participação grande, com muita classe média. Faltou o povão, situação que reflete um certo antagonismo entre as classes”, comentou. O vereador também lembrou que não houve transtornos, “o que demonstra o amadurecimento dos protestos”.
O presidente da Câmara de Vereadores, Walter Gomes (PR), lamentou sua própria ausência na manifestação deste domingo, por motivos de saúde, mas parabenizou os manifestantes pela iniciativa. “Foi muito bom. Parece-me que foi a maior manifestação já registrada no país. Tudo foi feito em torno da contribuição para um Brasil melhor. O recado foi dado, resta apenas os representantes do governo ‘lá de cima’ ouvirem’”, frisou o vereador.
A prefeita Dárcy Vera (PSD) destacou a tranquilidade dos protestos nas cidades brasileiras. “A manifestação ocorreu em todo o País. Em Ribeirão Preto, o evento aconteceu de forma pacífica e democrática. A liberdade de expressão e de protesto foi respeitada, sem nenhum incidente”, salientou a chefe do Executivo.
Outras Denúncias
Além de pedir o impeachment, criticar a corrupção e demonstrar apoio ao juiz Sérgio Moro, a manifestação do domingo também levou às ruas discussões locais que podem refletir nas eleições municipais de outubro. O Movimento Troque Todos, que faz campanha pela não reeleição dos atuais vereadores e coleta assinaturas pela redução dos salários dos parlamentares municipais, atuou em outra frente. Portando faixas e vestidos com camisetas, manifestantes cobraram a apuração de possíveis desvios de recursos na merenda escolar e buscaram envolver também o PSDB nas acusações. Na concentração, chegou a ocorrer uma discussão entre os grupos, mas tudo se resolveu e todos participaram da passeata.
“Cadê o dinheiro da merenda? Nem PT nem PSDB”, estava escrito em uma das faixas. Outra tentou ligar o secretário de Logística e Transporte, o deputado federal licenciado Duarte Nogueira (PSDB-SP), a desvio de recursos da merenda comercializada pela Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), cujas denúncias de pagamento de propina estão em investigação. O secretário chegou a ser citado como um dos investigados, mas já assegurou não ter qualquer envolvimento e defendeu investigação ampla das denúncias.
Para o presidente do diretório municipal do PSDB em Ribeirão Preto, o ex-vereador Nicanor Lopes, a tentativa de citar Nogueira tem o objetivo claro de envolver o governador. “Alguém montou aquelas faixas. Não foram aquelas pessoas simples que as carregavam. Isso me deixa preocupado com o nível de campanha que teremos pela frente”, afirmou. Nogueira disse achar estranho o protesto. “Acho estranho um movimento pegar carona em outro. Alguém mandou fazer as faixas e não teve coragem de aparecer”, comentou o secretário.
Um dos que portavam a faixa, o coordenador do Movimento Troque Todos, Paulo Lourenço, disse que as camisetas, cerca de 300, e as faixas foram patrocinadas por comerciantes que apoiam a causa do movimento. “Eles não querem divulgação de nomes, mas querem ajudar. Como não aceito dinheiro, pedi que fornecessem material”, disse. Ele assegurou que seu movimento é apartidário e imparcial e que ele próprio não tem qualquer interesse eleitoral.
Exemplo de Resistência
O professor de Medicina aposentado, José Eduardo Dutra de Oliveira, de 88 anos, esteve no protesto de domingo, acompanhado da esposa, Maria Helena Dutra de Oliveira, 87. O casal não caminhou os quatro quilômetros da manifestação, mas fez questão de caminhar cerca de cinco quarteirões no início do ato. “Estamos andando. Quando parar é que dana tudo”, disse o professor, caminhando devagar no final da passeata.
Ele considerou que os manifestantes estão fazendo “a coisa certa”. “O protesto está uma beleza. Precisamos acabar com a corrupção para conseguir destinar mais recursos e atenção à saúde, à educação e à segurança. Ribeirão Preto responde bem e questiona o que não foi feito de acordo”, afirmou o professor. Para ele, o País está “uma lástima”, como resultado da má governabilidade. “Não precisamos de 30 ministros. Bastariam dez especialistas nos assuntos de suas pastas”, opina.
Texto: Guto Silveira