Mãos à obra

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Celso Fujioka revela quais foram os caminhos que o levaram a compor a atual diretoria da APAE


Mesmo quem não vive essa experiência na própria pele pode imaginar os desafios de cuidar de um filho com deficiência. A vontade de levá-lo ao máximo de sua potencialidade para, então, tornar-se o mais independente possível é o principal desejo de pais e mães que foram escolhidos para essa missão. Invariavelmente, tantas dificuldades acabam deixando claro para esses progenitores que, mais do que ajudar essas criaturas especiais, eles têm muito a aprender com os filhos. Este é um dos sentimentos que fazem parte da vida da advogada Samira Fonseca e do administrador e economista Celso Fujioka — ela, mãe de Gabriel, de seis anos, e ele, pai de Celsinho, de 22 anos.

Na última semana, a dupla reservou um espaço na agenda para a entrevista a seguir, conduzida por Samira, em que abordam, principalmente, a atual situação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Ribeirão Preto, da qual Celso é diretor tesoureiro desde setembro de 2013. A conversa foi acompanhada por Adalgiza Della Rosa, diretora secretária, e Maria Helena de Godoy, conselheira. Há 15 meses, portanto, faz parte efetiva do grupo de pessoas envolvidas na recuperação da instituição, que enfrenta uma grave crise financeira. Para isso, tem colocado à disposição sua formação em Administração de Empresas e Economia e a experiência de mais de 40 anos de mercado, hoje também utilizada em sua empresa de consultoria. Os dois dividem, também, histórias pessoais emocionantes.

Samira: Como ocorreu o processo de escolha do seu nome para a diretoria da APAE, desde a composição da chapa até a posse no cargo?
Celso:
 Em meados de abril do ano passado, comecei a participar mais ativamente de algumas reuniões na Associação. Naquele momento, a APAE vivia uma realidade muito difícil, de grave crise financeira. Eu, que tenho um filho frequentando a instituição há cerca de 12 anos, confesso que minha participação até então era quase nenhuma — contribuía, por iniciativa própria, apenas com uma mensalidade. Mas com a crise latente, muitos pais começaram a abrir os olhos para a APAE. Eu não conhecia praticamente ninguém, mas comecei a perceber que precisava me envolver mais, apesar da rotina já bastante intensa no trabalho. Assim, passei a entender um pouco mais sobre as dificuldades, no momento em que a diretoria pensava em antecipar as eleições. Diante disso, percebemos que, se quiséssemos que a APAE continuasse seu trabalho, deveríamos nos organizar. Iniciamos o processo de montagem de uma chapa para concorrer às eleições para a nova diretoria, respeitando cada item previsto no estatuto, mas nos surpreendemos com o fato de que não havia tantas pessoas dispostas a se comprometer com isso. Corremos muito para atender a todos os prazos e exigências. Fomos eleitos por aclamação na Assembleia que ocorreu no dia 30 de agosto de 2013.

Samira: Essa dificuldade para formar a chapa o surpreendeu? Depois disso, quais foram os desafios do trabalho?
Celso:
 Sem dúvida, foi uma grande lição. Diziam que começaríamos com nove ou dez pessoas ativas e terminaríamos com duas ou três no final do mandato, o que, de fato, acontece. Mesmo com a intenção de sair já manifestada, a diretoria anterior não dispunha documentos ou relatórios preparados para fazer essa transição. Por isso, o trabalho de diagnóstico foi longo e penoso. Chegamos à conclusão de que não se tratava de má vontade, mas de falta de controle.Por conta disso, dedicamos cerca de três meses ao levantamento de informações sobre a crise da APAE, antes mesmo das eleições. A duras penas, fomos desvendando o problema em partes. Vislumbramos dois caminhos possíveis: esperar que a situação caminhasse para o fim da entidade ou arregaçar as mangas. Nossa chapa foi organizada de acordo com a disponibilidade e as exigências do estatuto. Eu passei a ocupar o cargo de diretor tesoureiro e, hoje, dedico até dois dias da semana integralmente à APAE, que tem como presidente o professor Alcides Nilo Pinheiro.

Samira: Qual o balanço desse primeiro ano à frente da APAE?
Celso: 
Estamos prestes a completar 15 meses na diretoria. Hoje, de fato, são poucos os membros da diretoria com participação efetiva na rotina administrativa da Associação. Desde o início, estava posto o primeiro desafio: entender em profundidade os problemas da Associação. Na nossa chegada, promovemos uma auditoria voluntária. O diagnóstico foi assustador, especialmente em relação às dívidas bancárias — nem todas vencidas, mas já contraídas. Descobrimos um caixa negativo em cerca de R$ 6 milhões, situação imposta, principalmente, pela falta de gestão. Assim, ficou claro que a situação não poderia ser resolvida em um curto espaço de tempo. Mesmo assim, estamos satisfeitos com a evolução obtida nesses meses. Nossa primeira meta era não aumentar a dívida, e conseguimos fazer melhor, diminuindo esse montante. Negociamos intensamente com as instituições financeiras, com grande sucesso. Apesar disso, estamos longe de atingir o cenário ideal. Ainda olhamos pelo retrovisor, tentando alinhar de que maneira iremos sanar todas as dívidas da entidade. O fato é que a APAE ainda vive um problema grave e que, para não piorar, ainda precisa de muita ajuda.


Samira: O serviço voluntário é um tema cada vez mais discutido: fala-se muito em participar de ações voluntárias. Como avalia a evolução dessa questão?
Celso:
 De fato, fala-se muito em voluntariado, mas é preciso ter um pouco mais de critério na utilização desse termo, e mais ainda na hora de assumir um compromisso desses. Antes de mais nada, é preciso ter ciência do quanto dispomos para oferecer a determinada causa. É importante encarar o voluntariado, sua frequência e periodicidade, com muita seriedade. A sobrevivência das entidades está intimamente ligada a esse compromisso dos voluntários, em todos os níveis, seja como doador de recursos ou oferecendo tempo e trabalho. Tenho cada dia mais cuidado ao aceitar ajuda desta natureza, especialmente dos amigos, pois um compromisso mal assumido pode acabar com uma relação de amizade. Na APAE, já tentamos estabelecer várias parcerias com universidades, mas ainda não há nada certo.

Samira: Quais são algumas das necessidades da APAE que poderiam ser atendidas pelo serviço voluntário?
Celso:
 Temos uma área dedicada à digitação de cupons fiscais, fonte de renda importante para nós, que, atualmente, demanda da contratação de funcionários. Temos entre nove e dez digitadores que recebem, em média, R$ 600,00 mensais para desempenhar essa atividade. Tal economia, entre outras despesas rotineiras, poderia gerar um impacto positivo para nós. No entanto, há poucos voluntários dispostos a abraçar ações práticas. Acredito que outra ponta que precisa melhorar é a participação dos pais. Hoje, das 400 pessoas atendidas pela APAE, apenas uma pequena parte contribui como voluntária, inclusive na forma de doadores de recursos. Essa ajuda poderia dar, ao final, um resultado importante.

Samira: Nesse período, como foi a relação com os funcionários, também prejudicados pela crise da Associação?
Celso:
 Foi muito tranquila, pois a diretoria comprometeu-se 100% com a transparência. Desde nosso primeiro dia na APAE, procuramos resgatar uma comunicação direta com os funcionários, que passaram a ser informados sobre a realidade da instituição. Esclarecemos que nosso trabalho, como diretores, é voluntário e que, como eles, queríamos garantir a manutenção das atividades da APAE. Frequentemente, realizamos novas reuniões com os colaboradores para explicar o andamento das ações: as metas cumpridas, as que falharam, os problemas e as soluções. Eles já sabem, por exemplo, que teremos um final de ano difícil e que será complicado acertar os salários atrasados e o 13º salário de 2014 no prazo que gostaríamos. Não passamos esse tipo de informação adiante para parecermos “bonzinhos”, mas, ao contrário, para que eles possam se programar e cumprir seus compromissos pessoais. Hoje, sinto que os funcionários entendem que estamos tentando realizar um bom trabalho ou, pelo menos, o melhor possível. Os colaboradores também sabem que são livres para procurar outro emprego quando quiserem, mas, se decidem ficar, é para construir uma relação de parceria pela recuperação da Associação, inclusive no que diz respeito à nossa credibilidade. Para nossa sorte, a maioria escolheu vestir essa camisa.

Samira: Seu filho é um frequentador da APAE. Como foi, para você e sua família, receber o diagnóstico do Celsinho e aprender a lidar com as mudanças inevitáveis na vida da família?
Celso:
 Meu filho fez, recentemente, 22 anos. A deficiência dele começou com um episódio em seus 45 dias de vida, quando ele aspirou o leite durante a mamada, engasgou gravemente e acabou enfrentando uma infecção bacteriana. Ele foi socorrido e levado ao hospital, mas o médico que o atendeu — muito famoso, inclusive — não pôde acompanhar o caso de perto naquele dia porque tinha que viajar. De qualquer maneira, meu filho ficou internado e medicado, foi transferido de um hospital para outro, teve convulsões e uma série de complicações. Depois de um mês, voltamos para casa sem saber quais os efeitos que aquele processo teria causado na vida dele. Coincidentemente ou não, ele começou a melhorar depois de ser batizado. Conforme o tempo foi passando, minha mulher foi percebendo que as condições neurológicas dele não eram normais — Rosemary já tinha vivido aquela fase com nossas duas filhas, Flávia e Gabrielle. Para conseguir um diagnóstico, tivemos que ir para São Paulo. Buscamos todos os recursos possíveis. Celsinho foi diagnosticado com um autismo moderado, tendo um desenvolvimento intelectual e social bastante limitado. Dos 3 aos 10 anos, passou por diversas escolas de Ribeirão Preto, tentando se adaptar. A adaptação era melhor em uma, pior em outra, mas nunca ideal, e a cada nova mudança, o quadro piorava. Prestes entrar na adolescência, decidimos que ele viria para a APAE, onde ele melhor se adaptou, para a nossa grata surpresa.

Samira: De que maneira o atendimento recebido na APAE o surpreendeu?
Celso:
 Diria que, aqui, lidar com os vários tipos de deficiência faz parte de uma verdadeira filosofia. Sob a perspectiva de diretor, essa convicção cresceu ainda mais. As crianças e os adultos que frequentam a APAE são estimulados o tempo todo. Nesse ambiente, os frequentadores se sentem mais à vontade, pois acabam se reconhecendo uns nos outros. A solidariedade entre eles é fantástica: os que têm menos dificuldade querem ajudar o próximo. Hoje, consigo entender que nossos filhos vieram ao mundo muito mais para nos ensinar do que para receber nossa ajuda. Depois que passei a integrar a diretoria da APAE, fiquei aliviado por ter contribuído, pelo menos financeiramente durante esse tempo. Infelizmente, falta clareza por parte dos pais sobre a realidade de uma Associação como esta. Muitos pensam que a entidade recebe dinheiro público suficiente para a sua manutenção, quando, na verdade, a contribuição dos órgãos públicos não chega a 50% das despesas anuais.

Samira: De que maneira completar essa conta?
Celso:
 Além da participação mais efetiva dos pais, dentro das limitações de cada um, há uma série de possibilidades. Os eventos, como o Leilão da APAE, o APAExone-se e a Feira da Bondade, também são importantes, mas não podem ser a solução dos problemas. Ao contrário, deveriam ser necessários apenas para a criação de reservas, de uma gordura extra. Neste ano, em que as condições econômicas brasileiras não foram favoráveis, o resultado foi ainda pior, em relação às nossas expectativas. Conseguimos atingir somente 50% da nossa meta, empatando com os resultados do ano passado. Nossa principal proposta para o ano que vem, no entanto, sugere um novo modelo. Para aumentarmos nossa arrecadação privada, precisamos encontrar indivíduos que possam ter uma participação fixa por 12 meses, por exemplo. Calculamos que, se 100 pessoas, físicas ou jurídicas, fizerem uma doação de R$ 1 mil por mês durante 12 meses, já conseguiremos avançar significativamente na manutenção da APAE. Atualmente, são 400 usuários, que custam, cada um, aproximadamente R$ 1.200,00 mensais. Eles passam cerca de quatro horas por dia conosco, período em que, além das terapias a que são submetidos, recebem alimentação e toda espécie de cuidados necessários. Para o que é oferecido, imagino que temos um custo adequado.

Samira: Já existe um projeto ou uma campanha cuja finalidade seja fazer essa captação?
Celso:
 Ainda não. Esta ideia surgiu recentemente e ainda não divulgamos apropriadamente. Estamos em busca de parceiros que possam nos ajudar com isso, inclusive. Imagino que o caminho seja mobilizar as pessoas para a nossa necessidade, não só  vinculadas à Associação, mas de toda comunidade. Outro projeto para o qual estamos em busca de parceiros seria o lançamento do livro comemorativo dos 50 anos da APAE, a ser lançado em junho de 2015.

Samira: Pessoalmente, o que essas duas décadas de convivência íntima com a realidade da pessoa com deficiência mostrou em relação à sociedade? Você consegue vislumbrar mudanças positivas?
Celso:
 Quando meu filho tinha em torno de 10 anos, havia mais dificuldade, talvez pelo momento de vida dele, que era mais complicado. Mudamos completamente nossa rotina em função do Celsinho, pois era bem difícil controlar seus instintos mais rebeldes. Agora, na fase adulta, tudo está mais fácil, tanto por conta da evolução dele, quanto minha, como pai, e em relação à sociedade, que já não demonstra tanto choque na presença de um deficiente. Da minha parte, a mudança também foi radical. Se antigamente me preocupava bastante com os outros — o que eles iriam pensar ou coisa parecida — hoje dou mais importância ao bem-estar da minha família. Acredito que por conta do baixo potencial de descontrole atual consegui ficar mais relaxado. Também já não vejo tantas demonstrações de preconceito. Sei que ele está presente, mas já não nos afeta como antes. Para mim, a sociedade evoluiu, apesar de ainda faltar um longo caminho pela frente. O acesso à informação é, sem dúvida, um dos motivos para isso.

MAIS ESPERANÇOSA

“A oportunidade de entrevistar o Celso veio em um momento muito especial da minha vida. Com meu filho autista de seis anos, passei por dificuldades que não me fizeram desistir de buscar um tratamento diferente e efetivo para seu desenvolvimento. Escutando o depoimento do Celso entendi que realmente estou no caminho certo na luta por uma sociedade com oportunidades iguais, e mais: que cada um de nós tem um papel essencial para isso. Ver que temos um pai como ele à frente de uma instituição como a APAE me deixa muito esperançosa. No momento atual,  a esperança é essencial para o progresso da vida de pessoas com deficiência no cenário atual.”Samira Fonseca, advogada.

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian 


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