Massagista de ego

Massagista de ego

Esse é o termo que Neusa Bighetti utiliza para se autodenominar, considerando a satisfação que proporciona a quem figura nas suas publicações

É num escritório confortável e aconchegante que a jornalista e colunista Neusa Bighetti administra o seu trabalho. O espaço é decorado com livros, quadros, troféus — durante a carreira, ela conquistou mais de 50 — e porta-retratos. Entre eles, está uma foto dela com o protagonista do seu segundo livro, recém-lançado, “Um homem quase perfeito”, editado por Matilde Leone. Foi inclusive por conta desse livro que as duas jornalistas estreitaram as relações iniciadas nos bastidores de jornais e de revistas e, posteriormente, nas salas de aula da faculdade. Matilde foi professora de Neusa no curso de Jornalismo. Desta forma, a relação de colegas de profissão evoluiu para aluna e professora e hoje é uma ligação de amizade. Assim como a decoração de seu escritório é cheia de histórias, Neusa também conta várias delas no decorrer na entrevista a seguir.

Matilde: O seu escritório tem uma Nossa Senhora que me chamou muita atenção. Você é religiosa?
Neusa: Eu sou católica apostólica romana. Tenho muita fé em Santa Luzia, que curou a minha filha Larissa, quando tinha nove meses. Ela seria operada por conta de um problema no canal lacrimal. Dois dias antes, eu fui à praça da Catedral, que é onde eu sempre vou, perto de onde morei, e pedi com muita fé para Santa Luzia curar a minha filha. No dia seguinte, ela não tinha nada. A pessoa que conseguira a operação para mim disse: “Você fica com a Santa Luzia no departamento de oftalmologia e os médicos vão cortar cana”. Mas fato é que ela sarou. Por isso, sempre faço meus agradecimentos e pedidos a ela. Não perco uma missa no dia 13 de dezembro. Mas também tenho fé em Santo Expedito, enfim, tenho fé em uma legião de santos. Também faço questão de ir à missa todo domingo. É por isso que eu sou bastante fortalecida. Costumo dizer que sou a filha predileta de Deus.

Matilde: Você fez a sua carreira e chegou num ponto estável. Hoje, é uma pessoa muito reconhecida e conhecida, com muitos clientes e amigos. Você tem mais clientes ou amigos?
Neusa: Eu tenho amigos clientes e clientes amigos.

Matilde: E inimigos?
Neusa: Não podemos dar valor a isso. Se alguém diz que é seu inimigo e você leva aquilo como verdade, está valorizando a pessoa. Assim, eu aprendi que nós é que fazemos as coisas ficarem grandes. Não tenho inimigos. Não guardo rancor nem mágoa de ninguém. Aprendi isso há mais de 20 anos, quando eu estava no auge da carreira e o Júlio Sian, que está registrando essa entrevista, era meu fotógrafo. Foi publicada uma nota muito maldosa a meu respeito. Um colunista social daqui de Ribeirão Preto me disse para não ler mais jornal porque não lendo eu também não sentiria. Eu era alvo porque comecei muito bem como colunista, pois conhecia várias pessoas, o “who is who”, sabia o nome de muita gente. Tinha sido secretária de escola, o que me proporcionou ter acesso a muitas pessoas. Eu conhecia toda a meninada que estudava na Associação de Ensino, no Colégio Metodista, no Senac, o pessoal que estudou Direito comigo, os colegas de Medicina do protagonista do meu livro, enfim, muita gente. Era uma vantagem conhecer bem tantas pessoas, pois nada incomoda tanto alguém quanto o fato de ver seu nome publicado errado.

Matilde: Você acha que por conhecer todo mundo, saber da vida de muita gente, as pessoas têm medo da sua coluna?
Neusa: Medo não, porque eu nunca critico ninguém. Nunca segui por esse caminho. As pessoas admiram o meu trabalho justamente por causa desse posicionamento. Para sair na minha coluna, tem que ser uma pessoa conhecida, ter uma história ou pelo menos despertar o interesse do público. Isso sem desfazer de ninguém, pois eu já coloquei muita gente desconhecida nas colunas de aniversariantes, por exemplo. As pessoas pedem e eu coloco. Assim, o ego fica massageado. Eu falo que sou massagista de ego e não colunista social.

Matilde: Como foi a sua caminhada profissional para chegar até aqui?
Neusa: Eu nunca sonhei em ser profissional da imprensa. Cursei Direito, mas vi que não era a minha praia. Eu jamais poderia ser uma advogada porque não tenho esse perfil. Depois, quando fui morar na fazenda, encontrei o meu lugar, pois quando eu era criança minha família morava no Sítio Mimoso, em Cajuru. Em 1945, quando eu nasci, o mundo estava em guerra e faltou açúcar. Meu pai tinha um engenho de rapadura. Ele ganhou muito dinheiro na época, mas depois, como bom amante dos jogos, da bebida e das mulheres, acabou perdendo tudo. Mas eu fui criada ali e gostava muito daquele ambiente. Por isso que, quando casei, fui morar na fazenda, me encontrei com o fogão à lenha, o café feito no coador de flanela, a criação de porcos e as galinhas que tinham nome. Eu aprendi a fazer tricô e crochê, enfim, era muito feliz lá. Quando fiquei viúva, precisava ter um emprego e a Elmara Bonini me convidou para ser colunista de um jornal que ela ainda ia abrir. Eu topei.

Matilde: Mas você nunca havia trabalhado na área. Como foi esse início?
Neusa: Foi cheio de grandes foras, que muita gente já conhece. O primeiro deles é que o jornal nem existia e eu vendia anúncios, sem nem saber o que era isso. Eu ligava para a Vera Moquenco, do Jornal A Cidade, e perguntava quanto ela cobrava pelos espaços. Os jornais eram cheios de diferenças e eu cobrava o mesmo preço, mas as pessoas aceitavam pagar. Outra grande gafe foi a história do boneco. O meu marido, muitas vezes, usava os serviços de um chofer, chamado Boneco. Quando fui vender um anúncio em uma agência de publicidade, fui questionada se havia levado o boneco do jornal. O profissional se referia a um termo muito usado no jornalismo para definir a estrutura de páginas da publicação. Eu respondi: “Não! Eu mesma vim guiando. O Boneco é chofer do meu marido. Ele tem um ponto de táxi na rodoviária”. E tem mais um fora. Certa vez, fui vender anúncio para outro cliente e ele me perguntou se o jornal era standard ou tabloide. Eu respondi que eram os dois, sem imaginar que os termos eram referência aos diferentes tamanhos de jornal e que ele não poderia ser os dois ao mesmo tempo. Dois anos depois, eu já era diretora comercial do Jornal de Ribeirão e minha coluna, que iniciou com página dupla, passou a ter oito páginas e depois 16. Eu fazia um tabloide de 16 páginas de social sozinha toda semana, em papel sulfite. O restante era standard, em papel jornal. Era um sucesso. Eu vendia as publicidades e ganhava 30% de comissão.

Matilde: Quando o Jornal de Ribeirão fechou, você foi direto para a televisão?
Neusa: Sim, fui para a televisão já criando o meu próprio programa. Eu pedi para uma assessoria de imprensa me dar um apoio e elas queriam me cobrar mais do que a própria emissora. Então, tive que aprender tudo sozinha, assim como foi com o jornal. No início, eu rezava para não fazer entrevista, transpirava muito. Tive contato com grandes artistas e junto vieram os foras também. Um deles foi quando fui entrevistar o vocalista do primeiro João Rock. Na época, a internet era escassa, não pesquisávamos como hoje. Nós éramos avisados da coletiva de imprensa e recebíamos uma pastinha com o release na hora. Cheguei no hotel, não tinha ninguém para me assessorar, olhei para o artista e disse: “Oi, João Rock, como vai?”. Ele me respondeu: “Não, João Rock é o nome do evento. O meu nome é Nando Reis”. Mas, para meu alívio, um colega da região, o chamou de Fernando Reis. Ficou pior, pois o artista rebateu: “Me chamar de João Rock ainda passa, mas de Fernando Reis é demais!”.

Matilde: As pessoas comentam muito sobre o glamour do jornalismo. Você acha que ele existe?
Neusa: Existe sim e eu vivi esse glamour. Sou vice-presidente da Associação Paulista de Colunistas Sociais (APACOS) e tive muitos privilégios. Fiz viagens memoráveis. Conheci o Brasil todo, a América Latina, os Estados Unidos e alguns lugares da Europa. Estive em São Paulo várias vezes, sempre em hotéis cinco estrelas, com tudo pago. Ficava hospedada no Maksoud Plaza, no Fasano, Mofarrej ou Caesar Park. Também conheci os melhores restaurantes. Ficamos quatro dias no Maxim’s, no Rio de Janeiro, a convite da Pierre Cardin. Minhas filhas treinaram durante uma semana para comer escargot, no Copacabana Palace. A convite de Rosita Gonzales, rainha do bolero brasileiro, fomos  ao jantar onde estavam reunidas às rainhas do rádio. Também estive na França, onde conheci Jacques Chirac, quando era prefeito de Paris. Lá também participei da inauguração da Eurodisney. No Brasil, era convidada para todos os lançamentos dos eventos do Ayrton Senna, no Banana´s.

Matilde: Era o auge do colunismo social?
Neusa: Era. Tive privilégios que o pessoal de hoje não tem e nem eu conseguirei mais. Tirei fotos com muitos artistas e recebia vários presentes também. Em um desfile da Zoomp, o Renato Kherlakian me deu toda a coleção, com 60 peças da marca. O Valdemar Iódice, uma vez que meu carro quebrou em São Paulo, mandou um motorista me trazer de volta com uma sacola de roupas da grife dele. A Puket me enviou uma mala cheia de meias e a H.Stern me mandava joias duas vezes ao ano. Sempre viajei de classe executiva. Certa vez, hospedada no Waldorf Astoria, em Nova Iorque, junto com a Larissa e o câmera do meu programa, tomamos o café da manhã ao lado de Sylvester Stallone, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger e Demi Moore. E ganhamos uma camiseta de publicidade do Planet Hollywood, de onde eles eram sócios. Outro grande presente foi me tornar amiga do Miguel Falabella. Fomos muito próximos em um determinado período. Hoje, nos falamos de vez em quando. Só tenho que agradecer por tudo isso.

Matilde: Como você conseguiu criar sozinha duas filhas que hoje estão tão bem encaminhadas?
Neusa: Fiquei viúva aos 38 anos e minhas filhas estavam com nove e dez anos. Eu tinha uma preocupação muito grande com elas porque sempre fui uma mãe apaixonada. Apareceram outros pretendentes, mas eu não quis me casar porque pensava no sofrimento das meninas. Elas já tinham saído da perda do pai e eu não queria trazer qualquer outro incômodo para elas. Apesar de minha casa ter 25 cômodos, não cabe mais ninguém lá, além das minhas filhas e eu. Então, elas me ajudaram muito. Tem muitos detalhes dessa época no meu livro. Eu trabalhei com crochê, papel personalizado, venda de produtos da fazenda, flores, etc. Andando a cavalo, as meninas descobriram, nos pés das árvores, caramujos enormes. Nós buscávamos os caramujos, colocávamos de molho no sabão em pó, limpávamos e vendíamos para a Dalva, do Jardim Contemporâneo. Essa era a forma que as meninas tinham de me ajudar e eu as estimulava a trabalhar. A Leandra cuidava da ordenha das vacas e criava porcos e galinhas. A Larissa vendia as cuecas que minha amiga Cacilda Belentani trazia. Depois, ela passou a vender outros produtos também. A Leandra é muito inteligente, mas não fez faculdade porque precisava trabalhar. A Larissa fez faculdade de Química na Unesp de Araraquara.

Matilde: Como elas estão hoje?
Neusa: Hoje, eu falo para a Leandra largar a ordenha. Com um litro de leite do fornecedor não se compra uma dose de pinga. E o leite é a moeda dela. Ela vende ovos, leitoas e carneiros também. A Larissa é consultora e auditora de uma multinacional.

Matilde: Você passou por tudo isso, criou as suas filhas, teve dificuldades profissionais e atingiu o patamar em que está hoje. Você se sente realizada?
Neusa: Realizada e poderosa. Eu quero frisar o “poderosa” porque, depois de escrever esse livro, descobri que tenho uma rede de amigos maior do que imaginava. Encontrei muitos amigos, pessoas com quem eu me relacionei há muitos anos, desde quando cheguei a Ribeirão Preto, pessoas da minha cidade natal, gente que eu nem me lembrava. Teve uma moça que comprou o livro porque a avó dela é citada nele. As pessoas adoram se reconhecer nessas histórias. Esse livro fez bem para muita gente. Mães que têm filhos homossexuais me agradecem porque reconhecem que o homossexualismo não é uma opção, mas uma condição. Eu aprendi isso e relatei no livro. Assim como conto que o alcoolismo não se cura com médicos, com remédios, mas sim nos Alcoólicos Anônimos (AA).

Matilde: Por que você decidiu escrever um livro expondo boa parte de sua vida pessoal?
Neusa: Porque eu tenho uma história muito bonita e, quando temos algo assim, é preciso contar. Aliás, nesse livro estão duas histórias bonitas: a do protagonista e a do meu marido também. É uma pena que os dois faleceram. Eu me senti muito tranquila em escrever esse livro porque ainda frequento a turma desse rapaz, sou madrinha da 13ª Turma da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, eles me convidam para todos os eventos que realizam. E também acho que, pela nossa lei, ninguém faz prova contra si mesmo. Então, muitos me questionam, querem saber se essa foi a paixão da minha vida. Na verdade, foi a minha paixão naquela época. Eu tive outras paixões, como todo mundo tem. Mas era um moço bonito, uma paixão bonita, uma história bonita, então eu tinha tudo para escrever esse livro.

Matilde: Como as pessoas têm reagido a ele?
Neusa: Eu estou bem confortável. Se alguém quiser fazer uma crítica, pode ficar à vontade porque eu não ligo, mas as pessoas estão falando muito bem. E são pessoas capacitadas, que têm o gosto pela leitura. São pessoas que viveram em Ribeirão Preto, que frequentaram os lugares que eu menciono. Muitos elogios, graças a Deus. É um livro pequeno, assim como os grandes best-sellers, como “A Memorfose”, do Franz Kafka, e “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. Se me perguntarem qual é o meu sonho, eu respondo que é ser citada na Veja como a autora de um livro que figura entre os mais vendidos. Eu vou ter que lutar muito para conseguir isso.

UM NOVO OLHAR

“Quando eu era editora da Revide, a Neusa era colunista, mas nunca tivemos uma relação mais próxima. Nem ali nem em outros jornais ou revistas. Nunca paramos para sentar e conversar. Depois, a Neusa foi minha aluna no curso de Jornalismo, no COC. A partir daí, passamos a nos conhecer melhor. Sempre nos encontrávamos no supermercado também. Participei da sua banca no Trabalho de Conclusão de Curso. Mas nossos laços foram realmente estreitados quando ela me procurou dizendo que estava escrevendo um livro e gostaria que eu editasse. Foi aí que eu conheci uma outra Neusa, outra pessoa, outra mulher. Uma Neusa forte, corajosa, franca. Da minha parte, acredito que aí tenha começado uma grande amizade, pois eu passei a enxergar a Neusa com outros olhos e a ter um respeito muito grande por ela.”
Matilde Leone, jornalista

Texto:
Máisa Valochi
Fotos: Júlio Sian

Compartilhar: