Maternidade por essência
Ana Karina Bartmann esclarece as principais dúvidas sobre a reprodução assistida; para a especialista, maior desafio da profissão é proporcionar um ambiente acolhedor e humanizado às pacientes
Acreditar no sonho de construir uma família. Não é de hoje que profissionais da área da saúde trabalham para proporcionar a alguns casais a chance de terem filhos. A médica Ana Karina Bartmann, especializada em reprodução assistida, trabalha incessantemente para que esse desejo seja transformado em realidade.
Apaixonada pelo tema da reprodução, certa vez ouviu de um professor, ao declarar gosto pela área oncológica, que deveria trabalhar com a vida. Decidiu, então, se dedicar às famílias que sonham em ter filhos — tarefa que também carrega inúmeras complexidades. “Antes, eu pensava que fazia as pessoas engravidarem. A reprodução humana é apenas uma parte de um processo, que, em minha opinião, também é espiritual”, enfatiza. Ana acrescenta que, muitas vezes, é preciso trabalhar com a psicologia da paciente. Muita conversa e paciência são imprescindíveis no processo de reprodução assistida. Há casos em que é importante mostrar o que é a representação do filho para as futuras mães. “Nem sempre os filhos são como imaginavam, ou, em outras situações, simplesmente não vêm. É difícil para a mulher entender a não realização desse sonho”, pontua.
A médica, com especialização em Reprodução Assistida (Fellowship) no Hôpital Antoine Béclère, de Paris, decidiu montar sua própria clínica. Quando retornou da capital francesa, com mais conhecimento e segurança para dar sequência nos estudos, decidiu embarcar no sonho de criar um centro para que pessoas saíssem das residências, mestrados, e pudessem trabalhar com a reprodução, utilizando o laboratório como apoio. Esse ainda é um dos grandes desafios de toda equipe do Centro de Reprodução: congregar clínicas e estimular, ainda mais, as pesquisas voltadas a esse campo. “Eu acho que a parte da biologia da mulher é espetacular. Gosto demais de trabalhar nessa área. Quando a paciente alcança a gravidez, isso não tem preço. Essa felicidade compensa, inclusive, eventuais decepções”, elucida a profissional, que a seguir discorre sobre a paixão pela reprodução assistida e esclarece dúvidas acerca do tema.
Como é lidar com a frustração de pais que não conseguem engravidar?
Eu tive vontade de ser mãe aos 35 anos. Meu marido já tinha um filho do primeiro casamento e para ele não era tão importante quanto para mim. Passei por um aborto aos 36 anos e, nessa fase, comecei a me questionar se conseguiria ter uma gestação. Entendo essa frustração, mas não podemos deixar que esse desejo desestruture completamente nossa vida. Temos um grande percurso pela frente. Sempre oriento os alunos de que a reprodução assistida pode ser bem pesada. Recentemente, tivemos uma paciente que tentou várias fertilizações em outra cidade e, finalmente, ficou grávida. A filha nasceu, no entanto, teve um problema cardíaco e viveu apenas 12 dias. Foi um percurso muito difícil para o casal.
Para pacientes mais velhas que querem engravidar, é comum ter um processo de negação dos fatos?
Se uma paciente de 45 anos quer engravidar, oriento que as chances são pequenas, mesmo na reprodução assistida. Aconselho que recorra a óvulos de doadora. No entanto, algumas querem tentar com óvulo próprio. Isso é recorrente.
O que é a reprodução assistida e quais as principais técnicas?
São procedimentos que os médicos fazem para que casais com dificuldades de engravidar consigam realizar esse desejo. No consultório, o ginecologista pode realizar o coito programado, estimulando a paciente a ter óvulos e marcando o dia da relação sexual. O coito programado, junto com a inseminação, são técnicas de baixa complexidade. Na inseminação intrauterina, colhemos o sêmen em laboratório e colocamos dentro do útero. O espermatozoide tem de encontrar o óvulo na trompa. Na fertilização in-vitro (FIV), colocamos o espermatozoide em contato com o óvulo dentro do laboratório.
É possível escolher o sexo do bebê?
A lei hoje diz que não, mas em alguns lugares do mundo isso é permitido. Para escolher o sexo do bebê, precisamos fazer uma biópsia do embrião e avaliar se o cromossomo é X ou Y. Podemos fazer esse procedimento no Brasil. Mas a legislação diz que não podemos selecionar o embrião por meio do gênero, a menos que tenha uma doença relacionada ao sexo. Por exemplo, se há na família caso de hemofilia, doença relacionada ao cromossomo X, posso selecionar o embrião feminino e transferi-lo.
Por que ocorrem gestações múltiplas?
Porque transferimos mais de um embrião. Dois, três, ou, eventualmente, quatro. Quanto mais embriões, mais chances de engravidar, mas também de ter uma gestação múltipla.
É difícil engravidar na primeira tentativa?
Não. Mas, na primeira tentativa, não conhecemos bem a paciente. Na segunda, ela pode responder melhor ao tratamento. Por isso, digo sempre: dê a chance de a clínica fazer ao menos duas tentativas.
Como funciona o congelamento de óvulos?
O congelamento é uma realidade. Fazemos por meio de uma técnica conhecida por vitrificação. Quando congelamos o gameta, seja espermatozoide ou óvulo, ele para naquele momento. Se a pessoa tem 26 anos, ela congelou os óvulos com essa idade. É como se conseguíssemos parar no tempo. O ideal é congelar até os 35 anos.
E para pacientes com doenças graves, como o câncer, como esse procedimento pode ser feito?
Congelar óvulos nessa situação é uma boa opção. Indicamos essa técnica antes de a paciente fazer quimioterapia, o que nem sempre é possível. Alguns estudos demonstram que pacientes que congelam óvulos, mesmo que poucos, têm maiores chances de cura, porque criam expectativa de que podem sonhar em ter uma família no futuro.
Como funciona a reprodução assistida para casais homoafetivos?
Para a mulher, o processo é mais fácil, porque ela, basicamente, precisa ter o sêmen. Geralmente, nesse caso, elas adquirem o sêmen e uma delas fará a estimulação — captar óvulos, fecundar e engravidar. A outra será a companheira. Mas há casos em que elas preferem fazer diferente. Uma será estimulada e colocará no útero da outra. Teremos a mãe biológica e a que vai gestar. Para homens, é mais complexo. Eles têm o sêmen e é preciso conseguir óvulos de uma doadora, que deve ser anônima, além do útero de substituição de uma parente de 4º grau.
É possível realizar algum procedimento para engravidar gratuitamente?
Temos uma problemática grande em relação a isso. Não temos apoio do Sistema Único de Saúde (SUS). Há até alguns polos de reprodução assistida, mas com até cinco anos de fila de espera e restrição de idade. Em alguns casos, não é totalmente gratuito, pois a paciente deve custear as medicações. Eu quero que as pessoas tenham o privilégio de serem atendidas dentro de um hospital universitário e com custos menores.
É possível dizer que a infertilidade está mais frequente?
A infertilidade está crescendo no mundo. Existem publicações que demonstram a relação entre câncer e infertilidade. Está havendo, também, um envelhecimento ovariano acelerado. Há mulheres jovens com ovários de mulheres de 40 anos, por exemplo. Não sabemos por que isso acontece. Provavelmente tem a ver com o estilo de vida. Uso de plásticos, pesticidas, agrotóxicos, gordura saturada e poluição podem acelerar esse processo.
Qual o grande desafio da profissão?
O maior desafio é termos o resultado de uma gravidez dentro de um ambiente acolhedor e humanizado. Não deixar que a parte técnica suplante o acolhimento da paciente. Nosso lema é “tudo por um filho”.
O que você sente quando realiza o desejo de inúmeras mães de terem filhos?
Eu acho a parte da biologia da mulher espetacular. Gosto de trabalhar nessa área, mesmo com as frustrações. Às vezes, não cobrimos nem nossos gastos, mas se a mulher engravida é motivo de muita felicidade para nós. Vale trabalhar de madrugada, sábado, domingo e feriado. Quando a paciente realiza a maternidade, o valor é maior do que qualquer custo financeiro.
Texto: Bruna Romão Fotos: Luan Porto