Medicina: uma paixão sem remédio

Medicina: uma paixão sem remédio

Francisco Pinghera entrevista o médico José Penteado Mendonça

Bem-humorado e com uma memória invejável, aos 88 anos de idade, o médico José Penteado Mendonça mantém viva a dedicação aos dois amores de sua vida: a Medicina e a esposa Hilda – com elas celebra 62 anos de carreira e 49 de casamento. Foi o exemplo do pai, Hortêncio, também médico, que o inspirou e determinou sua escolha profissional. Formado em 1951, José Mendonça fez sua primeira especialização em cirurgia geral e obstetrícia, e em seguida, cirurgia vascular periférica. Para ele, o “ser médico” não precisa de uma definição, mas do exercício diário da compaixão, da humildade e, acima de tudo, da capacidade de enxergar o outro ser humano.

Com a esposa, que é professora de História e Geografia, teve dois filhos, que já deram ao casal quatro netos. O xadrez, jogado todos os dias com a companheira, e os cuidados com as orquídeas são alguns dos prazeres que a aposentaria permitiu desfrutar com mais intensidade. Por conta da dedicação à Medicina, José Mendonça cativou muitos amigos, como o empresário Francisco Pinghera, que fez questão de mostrar, neste bate-papo, um pouco da sua vida e de seu conhecimento médico, relembrado também nas diversas matérias jornalísticas guardadas por José Mendonça, assim como outros registros, como um tesouro.

Pinghera: Sua história mistura-se à da própria Medicina. Como foi sua vida acadêmica?
José Mendonça: Venho de um tempo em que as pessoas buscavam uma boa formação na escola pública, e não foi diferente na faculdade. Terminei o colegial em 1945 com uma turma de 30 alunos. Entre eles, oito ingressaram na Medicina e eu optei pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Distrito Federal, hoje, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde me formei em 1951. Lembro-me de que tínhamos aulas teóricas até o quarto ano e, nos dois últimos períodos, as aulas eram ministradas nos hospitais. Depois de seis anos, saíamos da faculdade aptos para exercer a profissão. Éramos médicos generalistas e os cargos tinham denominações diferentes. Meu pai foi médico operador e parteiro e, quando eu vim para Ribeirão Preto, também atuei nessa área. Só depois de algum tempo fiz minha especialização em angiologia e cirurgia vascular periférica. No Brasil, naquele tempo, não havia especialistas em cirurgias de varizes e isso só mudou depois da Segunda Guerra Mundial, com a volta dos médicos treinados nas linhas de frente dos combates, entre 1939 e 1945. Só a partir de 1954, a cirurgia vascular periférica difundiu-se no país.

Pinghera: Quando foi seu primeiro contato com a Medicina?
José Mendonça: Considero que meu primeiro contato com a área médica tenha sido ainda muito pequeno, quando operei um galo de briga que ficou gravemente ferido. Meu pai me emprestou a agulha e a linha cirúrgica, mas, para a minha tristeza, ele não resistiu. Já aos 12 anos assisti a minha primeira cirurgia. Um dia, estava no consultório do meu pai quando chegou Odilon, um rapaz que trabalhava como protético, passando muito mal. Ele teve que ser internado na Santa Casa e operado com urgência por causa de uma apendicite. Meu pai me chamou para acompanhar o procedimento e me lembro da cena como se fosse hoje. Como eu era pequeno, fui colocado numa cadeira para acompanhar a cirurgia. Esta foi uma experiência muito marcante.

Pinghera: Que nomes foram importantes para a sua base profissional?
José Mendonça: Muitas pessoas foram essenciais durante minha formação. Um deles foi Paulo Valentie de Oliveira. Nem imaginava que aquele professor que me deixou embaraçado durante um exame no ginásio me convidaria para integrar sua equipe médica, depois de formado, e que seria eu o médico a atendê-lo quando teve um problema vascular. Outro profissional importante na minha carreira foi o professor Mario Degni, que conheci numa conferência em Ribeirão Preto e por quem fui convidado para um curso de cirurgia vascular no antigo hospital Matarazzo, em São Paulo.

Pinghera: Por que escolheu a Angiologia?
José Mendonça: Quando voltei para Ribeirão Preto, não existia na cidade nenhum especialista na área. Os cirurgiões gerais só operavam varizes, mas ninguém fazia correções arteriais. Portanto, naquela época havia um amplo horizonte à frente e acabei deixando a cirurgia geral e a obstetrícia para me especializar em São Paulo. Continuei me aperfeiçoando antes de clinicar e operar na área.

Pinghera: Como foi sua passagem pela Santa Casa?
José Mendonça: Como meu pai já trabalhava no Hospital, encontrei as portas abertas quando voltei à cidade. Comecei como médico residente e me tornei um dos primeiros cirurgiões de varizes da Santa Casa. Na década de 70, fundei o Serviço de Cirurgia Vascular Periférica e, algum tempo depois, assumi a chefia do Serviço de Angiologia. Além disso, fui médico do Pronto-Socorro municipal por três ou quatro anos e tive uma clínica particular.

Pinghera: Como foi sua gestão no Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB)?
José Mendonça: Ainda no início da carreira, fui nomeado médico cirurgião e chefe do ambulatório do IAPB de Ribeirão Preto, uma grande oportunidade para divulgar meu trabalho. Tínhamos a possibilidade de exercer uma Medicina mais humanitária com a qualidade de convênio particular. Fui escolhido para o cargo por conta do bom relacionamento com médicos e hospitais, mas só o aceitei com a condição de continuar a operar. Tínhamos uma equipe de 92 médicos e nunca nos deparamos com qualquer tipo de problema de ordem administrativa ou clínica. Tanto é que fomos eleitos o melhor atendimento do Brasil. O resultado dessa pesquisa foi tema de matéria especial publicada no Jornal do Brasil, em 1978.

Pinghera: A que atribui esse resultado?
José Mendonça: Apesar de a matéria mostrar que naquela época já existia fila para o atendimento médico, nunca registramos nenhuma ocorrência grave. Os médicos eram respeitados e ofereciam um atendimento satisfatório. Na minha gestão, tinha unanimidade da categoria e por isso fiquei 12 anos como chefe do setor. Acredito que um dos fatores que contribuíram para isso foi a escolha do corpo administrativo, composto por um médico de cada hospital da cidade. Não coloquei ninguém da minha equipe e, assim, consegui manter um equilíbrio. Graças à honestidade e à eficiência de todos fizemos um bom trabalho. A cada 15 dias, discutimos os problemas e todos tinham liberdade para dar opiniões. Tínhamos um ótimo relacionamento e considero que este tenha sido um dos maiores méritos da minha passagem pelo Instituto.

Pinghera: Como fez para se dedicar à vida acadêmica?
José Mendonça: Tenho que confessar que nunca fui 100% em todas as minhas funções — e não foi diferente com o professor. Minha passagem nessa função foi curta e ocorreu quando o professor Dutra, escolheu o nosso serviço na Santa Casa para incorporar o corpo docente da Faculdade de Medicina da Unaerp. Na década de 90, ministrei aulas de angiologia e cirurgia vascular para alunos do 4º ao 6º ano, mas saí no final do curso porque estava sobrecarregado.

Pinghera: Os avanços da tecnologia contribuem para a qualidade da Medicina?
José Mendonça: Sem dúvida, a começar pelo diagnóstico. Antigamente, o médico não tinha à sua disposição essa quantidade de exames de hoje e, às vezes, nem instrumentos. O controle dos exames laboratoriais ou de imagens, por exemplo, contribui e muito para a prática de uma Medicina preventiva.

Pinghera: Os médicos atuais têm a mesma paixão de antigamente?
José Mendonça: É muito diferente. Antigamente, a Medicina era mais objetiva: você atendia o paciente e ele te pagava. Com o aparecimento dos convênios, essa equação passou a ser um trinômio. Para sobrevier, o médico é obrigado a atender 20 ou 30 pacientes em um único dia. Às vezes, os médicos mantêm dois ou três empregos. Antes, havia o médico de família e o paciente podia ligar a qualquer hora; hoje, isso é raríssimo. Não havia greves da categoria médica; hoje, além da sobrecarga de pacientes, os profissionais sofrem até agressões no local de atendimento.

Pinghera: Na sua opinião, qual seria a solução?
José Mendonça: A Medicina preventiva. Isso começa com saneamento básico, vacinação e educação para todos. Do contrário, quando não há prevenção, vem a epidemia, que ocasiona elevados gastos e não se resolve o problema — um bom exemplo é a guerra que estamos perdendo para o mosquito da dengue. Planejamento é a solução. Trazer médicos de fora não resolverá a situação sem estrutura adequada ao atendimento. Os médicos daqui ganham mal e nem todos têm os aparelhos necessários para um bom atendimento. O programa “Mais Médicos”, lançado pelo Governo Federal, não resolverá o problema. Estão apagando um incêndio por motivos eleitorais, sem tomar as medidas necessárias para que, novos incêndios não voltem a acontecer.

Pinghera: A saúde virou um grande negócio?
José Mendonça: Acredito que sim para alguns e péssimo para os hospitais filantrópicos. No momento, as secretarias de Saúde fazem o máximo de esforço para ter um bom atendimento, porém ele não é satisfatório. Além disso, só os maus resultados são divulgados e os bons não. Só o que é ruim vira manchete, mas é preciso mostrar que naquele dia, quando ocorreu um fato ruim, quantos foram bem-atendidos e quantas vidas foram salvas? É preciso acabar com a cultura do que é negativo.

Pinghera: Até quando manteve-se ativo na sua clínica?
José Mendonça: Eu parei de atender pacientes há aproximadamente quatro anos, mas ainda presto algumas consultas quando me ligam perguntando se eu poderia abrir uma exceção. Outros pacientes, ao me encontrar, agradecem pelo bom resultado obtido na cirurgia, como dona Lucilda, sua mãe, e Virgínia, sua esposa.

Pinghera: O que o senhor destacaria sobre sua atuação junto ao Rotary Club?
José Mendonça: Fui levado para o Rotary, em 1971, pelo companheiro Waldo Adalberto Silveira, por conta da minha grande vivência e do meu envolvimento com a sociedade. Fui presidente de lá entre 1975 e 1976, época em que tive um grande apoio da mídia local. Fico feliz porque foi uma gestão gratificante, onde contribuí para popularizar a Instituição, considerada muito elitista na época. Um evento diferente foi a palestra do engenheiro e ornitólogo, Johan Dalgas Frisch, um dos maiores especialistas em aves, peixes e flores. Ele foi um dos poucos que conseguiu gravar o canto do uirapuru. Outra inovação foi a palestra “Pernambuco em prosa e verso”, ministrada pela cantora, atriz, instrumentista, folclorista e professora Inezita Barroso. Ainda tivemos as palestras do então, secretário de Saúde de São Paulo, Paulo Gomes Romeu, que falou sobre a Universidade de Ribeirão Preto e o Óscar González-Quevedo, conhecido como Padre Quevedo, que falou sobre fenômenos paranormais.  

Pinghera: Além da Medicina, tem outras paixões?
José Mendonça: As orquídeas que enfeitam minha casa, o xadrez que jogo todos os dias com a Hilda e o vinho que aprendi a gostar com o meu pai, que sempre tomava uma taça de vinho branco no almoço. Sobre a bebida, lembro-me de um fato curioso. Um dia, minha esposa foi operada por um médico da cidade que não cobrou pela cirurgia. Então resolvi presenteá-lo com algo que gostasse: um vinho. Fui em busca de um exemplar do francês Romanée-Conti e, na distribuidora, fui logo pedindo uma caixa. Só não imaginava o custo deste presente e tomei um susto quando a vendedora me falou. Então perguntei se seria a caixa e fui surpreendido novamente: não, a garrafa, e em dólares. Depois deste episódio, resolvi conhecer mais a fundo a bebida. Fiz quatro cursos, entrei para a Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) e me tornei um simples enólogo. Por conta do vinho, já viajei para África do Sul, França, Chile, Argentina, Estados Unidos e o Sul do Brasil. Mas na minha curta experiência, aprendi uma coisa: o melhor vinho é aquele que você mais gostou.

Conduta exemplar
“‘Existem pessoas raras, difíceis de se encontrar. Elas são lindas por fora, mas principalmente, lindas por dentro. São feitas de carinho e recheio de verdade, costumam chegar de mansinho e te conquistam dia a dia, conquistam com verdades e muito amor. Elas não têm medo de competição, valorizam qualidades, não defeitos, querem te ver crescer, querem te ver feliz, querem te ver sorrir. Estão sempre perto, não te deixam só, mesmo quando você não percebe, estão cuidando de você.’ Encontro nas palavras acima a definição para o Dr. Mendonça e sua esposa Hilda. Como tive a sorte de encontrar este contagiante casal, seria muito egoísmo da minha parte não dividir com todos o prazer dos relatos da vida deste maravilhoso profissional, filho orgulhoso, pai exemplar e marido apaixonado.”
Francisco Pinghera, empresário contábil

Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves

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