Medidas estratégicas
Empresários de Ribeirão Preto enxergam oportunidades na crise econômica atual, criando condições para vencer os momentos difíceis que estão por vir
Contrariando o cenário abrandado pela presidente Dilma Roussef, em seu último pronunciamento público, no dia 8 de março, a crise afeta diversos setores, com efeitos maiores sobre a indústria, que registra índices negativos em vários segmentos este ano. Contradizendo a perspectiva da presidente, que vê o “Brasil com todas as condições de vencer estes problemas temporários”, especialistas do setor econômico apontam que o bolso do brasileiro continuará sofrendo os impactos das medidas adotadas pela União, até dezembro.
A inflação oficial poderá ultrapassar a casa dos 8%, impulsionada, por exemplo, pela alta nos preços dos combustíveis da energia elétrica, que já influencia diretamente a alta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que deve fechar março com alta acumulada de 8,4% em 12 meses. Os brasileiros vivem um ambiente retraído, em que, além da inflação em ascensão, a alta dos juros e do dólar, os déficits nas contas públicas, os conflitos no Congresso e os escândalos sobre a corrupção na maior empresa brasileira deixam o cenário econômico ainda mais nebuloso.
Diante deste quadro recessivo, empresários de Ribeirão Preto adotam medidas estratégicas para prevenir problemas e se preparar para os momentos difíceis que estão por vir. Ainda não é possível detectar algum impacto de qualquer natureza na área da saúde. O setor de serviços tende a sofrer uma influência mais tardia, tanto nos crescimentos econômicos quanto durante as crises. Assim, a primeira a sentir os efeitos da crise é a indústria e, depois, o comércio de bens de consumo.
Os serviços de saúde demoram mais para sentir os impactos da crise. As pessoas priorizam estes serviços e os reflexos devem aparecer na perda de empregos e, portanto, dos benefícios dos planos de saúde coletivos e também pelo fim das reservas que permitam manter os planos individuais. Pedro Antônio Palocci, presidente do Grupo São Lucas, afirma que, em suma, ainda não sentiu mudanças, porém acredita que elas tendem a começar a aparecer em breve. “Ainda não tivemos prejuízo diretamente, mas já sentimos significativamente a falta de crédito ou seu custo elevado”, antecipa Pedro.
Segundo o presidente, a direção do Grupo preparou um arrojado plano de redução de custos para os próximos dois anos. Não cortaram investimentos, mas fizeram algumas adaptações quanto à velocidade deles. Entretanto, a crise também pode ser oportunidade. “Não vamos parar de investir, nem tivemos demissões. Estamos avaliando novas possibilidades, já que com a retração do mercado temos a oportunidade de recrutamento de pessoas mais capacitadas por um custo menor, pois as dificuldades de recolocação são maiores nestas crises mais prolongadas”, avalia Pedro.
O presidente do Grupo São Lucas aponta, ainda, um lado positivo deste momento, em que a rotatividade dos funcionários tende a diminuir, pois a situação de pleno emprego tem como efeito colateral um aumento de rodizio do quadro funcional, extremamente prejudicial ao serviço especializado. “O grande trabalho feito e planejado para os próximos dois anos está direcionado a uma drástica e dolorosa redução de custos”, frisa Pedro.
A São Francisco Saúde (SFS) também prefere enxergar oportunidades para a expansão de seus negócios, através da conquista de novos nichos comerciais. Lício Cintra, superintendente da empresa, explica que, se por um lado, a combinação perversa de fatores negativos, como a crise econômica, a elevação dos custos médicos e a ampliação da lista de serviços da Agência Nacional de Saúde (ANS) fez com que o desempenho do setor da medicina de grupo, com raras exceções, fosse afetado em 2014, colocando em xeque a sustentabilidade de algumas operadoras que tiveram planos cancelados, por outro lado, a rápida percepção de que essa combinação oferecia também possibilidades concretas de otimização dos negócios. Isso acabou se transformando num grande diferencial competitivo para a São Francisco Saúde.
Como efetivo exemplo disso, Lício destaca o que aconteceu na região Centro-oeste do país, onde, nos últimos dois anos, a SFS conseguiu uma fatia significativa do mercado, fechando contratos com grandes empresas do setor sucroenergético e de transportes com mais de mil funcionários. Da mesma forma, no Sudoeste, também foram fechados negócios com clientes importantes nas áreas da engenharia, construção e indústria, uma delas brasileira, mas que está presente em 23 países do mundo e conta com 181 mil colaboradores.
Adicionalmente, segundo o superintendente, outros movimentos têm contribuído para este momento crítico e vão continuar influenciando a organização do sistema de saúde suplementar. Entre eles, o fato de que grandes empresas estão com foco na redução de custos e, muitas vezes, impactando diretamente na contenção dos seus quadros de funcionários ou até mesmo fechando as portas. Como resultado, Lício revela que essa massa acaba migrando para o Sistema Único de Saúde, onerando de sobremaneira sua estrutura e qualidade de atendimento, além de impedir um acolhimento satisfatório das demandas pelos serviços públicos de saúde, obrigando a população, insatisfeita, a buscar soluções junto à rede privada de saúde suplementar.
Nesse contexto, com um portfólio de produtos e serviços diferenciados e com suporte de programas permanentes de medicina preventiva e de promoção da saúde, a São Francisco Saúde consegue oferecer planos de assistência médico-hospitalar de qualidade e com uma relação custo-benefício competitiva, agregando valor e eficiência a seus clientes, através da redução do absenteísmo e do aumento da produtividade. “Nos últimos anos, registramos crescimento da ordem de 20%, resultado este que nos consolida entre as cinco maiores operadoras de medicinas de grupo do país, segundo ranking da ANS. No ano passado, foram realizados mais de 6,7 milhões de procedimentos entre exames, terapias, consultas e internações”, enumera o superintendente.
Pautada nesse objetivo, a São Francisco Saúde continua investindo em expansão da rede própria para aliar a melhor gestão de custos à alta qualidade nos serviços assistenciais. Hoje, são cerca de 50 unidades, entre assistenciais (clínicas de especialidades médicas, unidades de pronto atendimento e ambulatórios) e unidades administrativas, em 41 cidades do interior de São Paulo, Sul de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Seu quadro profissional conta com mais de três mil colaboradores. Lício anuncia que novas unidades já estão programadas para este ano, além de desenvolver produtos e serviços adequados às necessidades de mercado, conciliando boa relação custo-benefício e qualidade de atendimento.
MANTENDO O OTIMISMO
João Marcelo de Andrade Barros, diretor financeiro-comercial da Habiarte reforça que o aumento da taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) afetou diretamente a capacidade de compra de produtos imobiliários pela população. No entanto, este efeito é mais sentido nos empreendimentos de padrão mais econômico, cuja clientela depende diretamente da concessão do crédito imobiliário. Já no alto padrão, segmento no qual a Habiarte tem forte atuação, o impacto é baixo, pois os produtos ali ofertados são direcionados para um tipo de clientela que não depende de crédito para aquisição de um imóvel.
Em relação à crise, ele aponta que as consequências que o setor imobiliário vem sentindo, principalmente no padrão econômico, é a desaceleração das vendas e também a incapacidade de pagamento por clientes que adquiriram produtos ainda no lançamento e, agora no momento da entrega, não conseguem acessar linhas de crédito imobiliário para quitação de sua unidade. “Na maioria dos casos, este imóvel acaba voltando para o estoque da incorporadora”, considera João Marcelo, que ainda não observou desaceleração no ritmo de vendas da empresa. Pelo contrário, para ele, houve aceleração. O diretor crê que este movimento esteja relacionado ao direcionamento de recursos para investimento em ativos reais, visto que o país passa atualmente por um momento de crise de confiança.
Ainda otimista com o mercado regional, do ponto de vista operacional, no primeiro semestre 2014, a construtora readequou o tamanho de suas equipes produtivas e administrativas, visando a maior eficiência de custos, mas também se preparando para uma provável desaceleração econômica, decisão que resultou numa redução do quadro de funcionários da ordem de 20%. No entanto, continuam apostando no bom desempenho de vendas de empreendimentos de alto padrão. “Por isso, manteremos nosso plano de negócios para 2015, com o lançamento de, pelo menos, dois empreendimentos, totalizando cerca de R$ 240 milhões em investimentos”, anuncia João Marcelo.
Inserido na economia nacional, o Grupo Santa Emília também encara as dificuldades como desafios. “Somos realisticamente otimistas. Acabamos de inaugurar nova concessionária Toyota, em Franca, com resultados acima do que esperávamos. Preparamo-nos para o cenário atual e temos a certeza de que, com trabalho, enfrentaremos quaisquer adversidades”, pontua Rui Flávio Chúfalo Guião, presidente do Grupo que, além de Ribeirão Preto, atua em outras cidades que se beneficiam do agronegócio.
O aumento do percentual de etanol na gasolina e a diferença de preço entre o etanol e a gasolina indicam uma recuperação da indústria sucroalcooleira, com reflexos positivos para todo o mercado. Porém, a contração do crédito e o custo do dinheiro são variáveis que preocupam o empresário, razão pela qual o Grupo já fez vários acordos com instituições financeiras para manter contínuo o fluxo do financiamento para os clientes. “Nosso Grupo é direcionado ao desenvolvimento das pessoas que colaboram conosco. Em razão disto, estamos bem preparados para atender às necessidades da nossa clientela, com profissionais treinados. Assim, nosso grande investimento, neste ano, é nas pessoas”, conclui Rui.