Medidas ortodoxas

Medidas ortodoxas

Na área econômica, taxa de juros, câmbio, área fiscal e contas públicas devem ser alteradas disse a economista Rosalinda Chedian Pimentel, em entrevista a Marcelo Bosi Rodrigues

Não há como negar que a Economia é uma das áreas mais sensíveis e sensibilizadoras de um país, podendo ser determinante para os rumos da política, da área social e de diversas outras demandas. Mais do que isso, os efeitos econômicos ultrapassam fronteiras geográficas e formam um grande cenário internacional, que exige uma visão extremamente atenta por parte dos especialistas que tomam decisões importantes.

Tratar do assunto, portanto, exige amplo conhecimento e responsabilidade, caso dos administradores e economistas Marcelo Bosi Rodrigues e Rosalinda Chedian Pimentel. No papel de entrevistador, Marcelo utiliza sua experiência como professor, consultor e economista do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincovarp) para conhecer a opinião de Rosalinda, que é atualmente professora convidada da UNESP - Campus de Franca e da Faculdade de Tecnologia em Saúde (FATESA), além de  presidente do Instituto de Estudos e Pesquisas em Administração (Inepad), de Ribeirão Preto.

A professora tem formação em Ciências Administrativas e em Economia, mestrado e doutorado em Planejamento Urbano e Regional, e especialização em  Planejamento Energético, entre outros cursos. Como professora, colaboradora, coordenadora e reitora, passou por instituições como UFRJ e UCAM, no Rio de Janeiro, e Unaerp e Unifran, em Ribeirão Preto e Franca. Fez parte, por 20 anos, da Petróleo Brasileiro S/A, a Petrobras. Tantas e tão variadas experiências a colocam entre os principais nomes da área na região.

Marcelo: Em linhas gerais, como avalia a economia brasileira em 2014?
Rosa: Nossa economia no ano passado foi bastante atípica, em relação ao que vinha acontecendo há algumas décadas. Em 2014, a “marola” mencionada pelo ex-presidente Lula acabou se transformando em um tsunami. Para mim, isso iria acontecer de uma maneira ou de outra, em função da crise que eclodiu entre 2007 e 2008. Naquele momento econômico, estávamos em posição bem mais confortável que a de 2014. O país resistiu bem ao início da turbulência, que acabou chegando aqui com certo atraso. Acresce, ainda, a baixa de preços das commodities, que acarretaram em impactos desfavoráveis no saldo da balança comercial. Também, os últimos a entrar em uma crise nem sempre são os primeiros a sair, e nossa situação em 2014 ficou mais delicada em decorrência das manifestações advindas da cobrança social. Ao comparar com 2013, observa-se que quem estava na linha da pobreza conseguiu ascender às classes D e C. Dá para dizer, ainda, que houve elevação geral em todas as faixas de renda. Ao mesmo tempo, esses cidadãos passaram a almejar mais serviços com melhor qualidade, já que experimentaram oportunidades de consumo, de entretenimento e de lazer inéditas até então.

Marcelo: Essa cobrança que a senhora menciona está representada nos movimentos que tomaram as ruas do Brasil em 2013 e em 2014?
Rosa: Em parte sim. No entanto, o que se viu recentemente foi diferente do que ocorreu em outras épocas, como de 1960 a 1980, quando a ênfase, não apenas residia com a mobilidade social, mas era demonstrada em movimentos mais politizados: o que almejávamos era o retorno da democracia. O que se viu agora não repetiu aquele modelo de movimentos sociais, mas de forma diferente, caracterizaram-se mais como manifestações sociais. Enquanto uns queriam redução das tarifas do transporte urbano, outros reivindicavam melhorias na Saúde, dentre diversas bandeiras. Essa multiplicidade de objetivos acabou por enfraquecer os potenciais movimentos, que se fragmentaram e abriram espaço para a desorganização e o anarquismo, na acepção pejorativa do termo.

Marcelo: Que outros fatores contribuíram para a construção do cenário que se verificou no último ano?
Rosa: Houve um rebatimento da grande crise que ainda afeta, entre outros mercados, a Europa e os Estados Unidos, sendo que alguns países estão começando a demonstrar capacidade de recuperação. Além disso, comércio, negociações, espionagem, entre outros itens, impuseram dificuldades no cenário internacional, fazendo com que antigos aliados passassem a ser observados com desconfiança e cautela. Sob esse aspecto, foi um ano de enfrentamento de várias ordens. A questão religiosa foi agravada por ações extremistas, criando ambiente favorável à corrente divisionista. Tudo isso somado provocou a descrença no êxito da Copa em nosso país, que exigiu investimentos pesados e, logo em seguida, engatou-se o embate político focando-se nas eleições. Nessa área, a situação se mostrou desgastada por conta de resultados econômicos pífios. Nível de inflação aumentando e PIB sistematicamente revisto para baixo formaram bases pouco favoráveis para a situação. Tudo isso deu à oposição a chance de se mostrar como agente de mudança. Assistimos a um embate muito acalorado, nem sempre positivo ou construtivo, de ambas as partes. Verificou-se, durante e depois das eleições, falta de civilidade e baixa preocupação com o tecido social. Por parte da oposição, ficou esquecida a responsabilidade, até pelo quantitativo de votos carregados, de somar, não de ter uma postura puramente oposicionista. Por outro lado, a todo final de mandato, especialmente quando metas não são atingidas, impõe-se uma realidade difícil. Mas nada que um bom diálogo, salutar e construtivo, não possa conduzir para um arremate diferente.

Marcelo: Estão claros os cenários nacional e internacional. Em ambos, o peso que os brasileiros vêm sentindo mostra que há uma mudança ideológica em curso. É a situação econômica, nos dois âmbitos, que traz essa alteração, ou o contrário?
Rosa: Minha leitura é um pouco diferente. Gosto de ressaltar que, em todos os momentos históricos, sempre houve um embasamento econômico para que as mudanças ocorressem — não só no Brasil, mas em todos os países. Os principais confrontos estão apoiados, de uma forma ou de outra, na economia. Dessa vez, no entanto, creio que a cena econômica serviu apenas como álibi, pois a tônica ficou na dimensão política. Estamos inseridos em um mundo globalizado e sofremos as consequências de variáveis imputadas a nós. Na minha percepção, deslocou-se o eixo interno para uma velha rixa histórico-política entre PT e PSDB, oponentes que se depararam com a possibilidade de permanecer ou voltar ao poder, o que fez transbordar mágoa antiga.

Marcelo: Isso significa, então, que a questão está colocada, na verdade, sob o ângulo político?
Rosa: Isso mesmo, em que pese não se tem condições de separar a política da economia. Infelizmente, esse embate não é conjuntural e está sendo deslocado para os próximos quatro anos, o que lamento profundamente. Não vejo a oposição fazendo uma verdadeira oposição, construtiva para o país. Os discursos deixam claro que o objetivo é a oposição pela oposição. Mas e nós, os eleitores? Somos o povo brasileiro, que colocou as pessoas no poder para nos representar, e não, obviamente, para encampar confrontos pouco construtivos para o país. Se quisermos dar mais um passo rumo a uma sociedade mais moderna, justa e equânime, o caminho não é esse.

Marcelo: A vitória de Dilma Rousseff nas urnas, em sua opinião, está ligada aos avanços na área social? Há outros elementos que pesaram a favor da situação?
Rosa: Acredito que a parte menos favorecida da sociedade e que se deslocou na pirâmide social foi o principal ator na eleição da presidente Dilma, mas não apenas esta parcela da sociedade. Há que se considerar vários programas sociais na área da educação e da infraestrutura, que também motivaram a escolha na eleição. As unidades federativas menos partícipes na formação do PIB tiveram oportunidades de melhoria. Como expõe o professor Francisco de Oliveira, da USP, em um texto antigo chamado “Hegemonia inacabada”, São Paulo tinha tudo para alavancar o país inteiro, mas não o fez. Ao abdicar desta relevância, aquilo que teria sido a hegemonia paulista tornou-se um fator de discrepância de renda e de riqueza. Isso ficou explícito nas últimas eleições, em que se levantou, inclusive, ideias de divisionismo e outras propostas discricionárias, que não cabem mais. Somos uma nação formada por instituições fortes e, por mais que tenhamos situações complicadas, como a própria corrupção, há que se respeitar as instituições democráticas. Na democracia, a maioria do povo decide e acolhe o resultado. O que me angustia é saber que ao se manter a postura observada até aqui, pelos próximos quatro anos, haverá corrosão ainda maior do tecido social.

Marcelo: Aproveitando sua experiência profissional, como avalia o escândalo de corrupção envolvendo a Petrobras? Acredita que a maior empresa brasileira irá se abalar?
Rosa: Já abalou, infelizmente. Mas, consigo enxergar um lado positivo nessa história toda: há que se admirar o fato de a Polícia Federal estar atuando com completa autonomia. Antigamente, qualquer fato que se supunha fraudulento não era verificado à exaustão.

Marcelo: O “Petrolão” parece ter chocado os brasileiros por conta dos números revelados.
Rosa: Não apenas pelos valores astronômicos, mas também pelo contingente de pessoas envolvidas. Estarrece verificar que não é só na alta cúpula que a corrupção está presente, mas em todos os níveis profissionais. Corruptos e corruptores estão em todas as esferas e,  até então se mostravam certos sobre a impunidade. É lamentável verificar a generalização da corrupção na sociedade. Mas estamos vivendo um processo de renascimento e, se os fatos estão sendo passados a limpo, deve-se fazer com que uma nova sociedade emerja e, com ela, os padrões éticos e morais reificados, bem como os valores alijados e abandonados há tempos.

Marcelo: Como fazer isso dentro da Petrobras?
Rosa: A empresa tem um corpo de profissionais especial. É um grupo altamente qualificado que está sofrendo as consequências desse processo em curso. Tínhamos orgulho de mostrar que éramos da Petrobras, mas hoje, sei que o pessoal está escondendo o crachá. Há um clima de desconfiança interno generalizado, o que faz com que a tensão aumente. Acredito que quem ocupar cargos gerenciais na organização pensará  muito antes de cada ação, pois os escândalos afetaram o clima e a cultura estrutural da companhia inteira. Certamente, não vai se permitir qualquer deslize. Tenho certeza, também, de que a Petrobras sairá dessa crise fortalecida, uma vez que a empresa não perde, no âmbito internacional, seu posto entre as 10 maiores do mundo na área petrolífera, especialmente por conta de seu quadro de profissionais. Enquanto fiz parte da equipe, ganhamos alguns “oscars” do setor que comprovam seu pioneirismo tecnológico e expertise. Quando, no governo Fernando Henrique Cardoso, houve quebra do monopólio executado pela Petrobras, diversas empresas se interessaram em fazer parcerias e “joint ventures”, não por causa do quantitativo do petróleo brasileiro, mas principalmente pela sua vanguarda tecnológica. Hoje, fala-se nos Estados Unidos em xisto betuminoso, contudo, isso não é novidade por aqui. Quando ingressei na Petrobras, em 1975, já havia exploração do xisto no Paraná e em décadas anteriores em São Paulo. No entanto, às custas de um enorme dano ambiental, o que fez com que a Petrobras se afastasse dessa linha, apesar do domínio tecnológico na área.

Marcelo: Voltando o olhar para a região, qual sua opinião sobre nossa economia? Sempre houve uma grande dependência do agronegócio, especialmente, pelo setor sucroenergético.
Rosa: Sempre cometemos equívocos em relação ao agronegócio, pois não aprendemos as lições com a monocultura do café.  Houve diversificação de culturas e um intenso processo de industrialização, que fizeram  São Paulo disparar à frente do restante do país. Contudo, aquelas tonalidades verdes de anos atrás não são mais vistas, o que foi fortalecido pela mudança na matriz energética brasileira. O etanol tem um aspecto positivo e é combinado à gasolina desde o início do século XX. Permite reduzir a emissão de dióxido de carbono, e o teor de mistura,  em níveis mais elevados, bem como o uso direto do etanol em motores do ciclo Otto, desde o  Proálcool, em 1975, resulta num ponto forte para o país. Hoje, à semelhança dos grandes setores, o sucroenergético é um oligopólio, característica que vem se acentuando. A perspectiva é de crescimento lento, mas continuado, graças à robustez do setor e à sua importância enquanto combustível limpo — apesar da emissão de aldeídos. Acresce também, o reconhecimento de sua importância como combustível, e merecedor de uma política estratégica de longo prazo, com regras definidas, que dê tranquilidade ao setor para operar com efetividade, seja no mercado interno, seja no seu processo de  internacionalização.

Marcelo: A vocação econômica de Ribeirão Preto expõe a cidade a um risco maior de crise?
Rosa: Nossa região é peculiar, de cidades especialistas: Franca e os calçados; Ribeirão Preto e a prestação de serviços; Sertãozinho e a montagem de caldeiras e equipamentos voltados para o setor sucroalcooleiro. Isso tem um ponto favorável — da vanguarda, do pioneirismo –, mas também negativo, como a vulnerabilidade à concorrência internacional agressiva ou a uma queda na produtividade. Em Ribeirão Preto, há alguns segmentos relevantes, como educação, saúde, logística, entretenimento e comércio, entre outros na área de serviços, o que nos deixa  menos vulneráveis comparativamente.

Marcelo: Em relação às políticas públicas, qual sua avaliação sobre a cidade, especialmente na área social?
Rosa: Perdemos a oportunidade. O município tinha saúde para uma boa gestão, mas, infelizmente, acabamos nos desviando em uma série de aplicações sem resultados efetivos. Houve o esvaziamento da capacidade multiplicadora dos recursos orçamentários do governo. Atrasos no pagamento de obrigações da Prefeitura, carência de investimentos em infraestrutura e outras ações acarretaram na defasagem da cidade em relação a outros municípios, o que é lamentável. Penso que não se fez uma análise adequada sobre investimentos e seus impactos sobre a urbe, uma vez que é preciso estabelecer prioridades na distribuição dos recursos municipais. Isso significa escolher esta ou aquela área. É preciso tomar cuidado na seleção do que será feito por conta do efeito em cascata provocado. Caso eleja a educação ou a saúde como prioridade, estou adicionando uma série de valores que melhoram a qualidade de vida da população. Agora, se me limito a resolver problemas pontuais, como tapar buracos, a primeira chuva levará embora o fruto desse investimento.

Marcelo: O que esperar da economia regional e nacional para 2015 e para os próximos anos?
Rosa: Creio que teremos adaptações e correções de rumo. Acredito que medidas ortodoxas devam ser tomadas, em que pese, muitas vezes, doer no bolso da população. A alta de juros, que acontece, era esperada. Teremos mais ajustes nas áreas fiscal e cambial — até porque, os efeitos das alterações nas taxas de juros estão praticamente esgotados e esse item acaba realimentando o processo inflacionário, uma vez que a matéria-prima e o capital se tornam mais caros, assim como o processo de modernização da indústria, através de linhas de crédito para importação de máquinas e equipamentos, ficam mais distantes. Imagino que o governo seguirá o processo de adoção de políticas tradicionais. O câmbio deverá ficar em um patamar mais alto e, com isso, talvez o país tenha problemas na importação; a exportação, em decorrência, deverá ser estimulada. Outro ponto diz respeito às renúncias que o governo vinha praticando e, acredito, que a desoneração fiscal deva cessar. Cuidar e reduzir contas públicas, principalmente renegociar a dívida interna, também é de suma importância. Esse repensar, muitas vezes, vai significar postergar determinadas ações na área social. Mas, não há outra receita, se não a ortodoxa, o que já está sendo feito.  Acredito que os ajustes serão realizados com a cautela de não comprometer ganhos e avanços conquistados, mas algumas áreas vão se ressentir. Milagre não se faz. É fundamental que se tenha consciência que, para se construir um país sustentável, todos os cidadãos devem participar e, tão somente desta forma, seremos um Brasil grande de fato e, não de apenas promessas e sonhos.

UMA VERDADEIRA AULA

“Fazer essa entrevista foi, para mim, um grande presente. Não conhecia pessoalmente a Profa. Rosalina e confesso que entrevistá-la foi um prazer. A suavidade de sua voz e a clareza de suas ideias nos tornou, naqueles breves momentos, alunos de uma aula VIP sobre a economia e a política de nosso país, nem percebemos o tempo passar. Pena que momentos como esse sejam tão raros. Obrigado Revide e muito obrigado Profa. Rosa.”
Marcelo Bosi Rodrigues, administrador e economista

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian

Compartilhar: