Memória sinfônica

Memória sinfônica

O documentário “Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória”, de Hossame Nakamura, propõe uma viagem pela história da música sinfônica em Ribeirão Preto

Previsto para ser lançado em abril, o quarto documentário do ribeiraopretano de Hossame Nakamura “Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória” propõe uma viagem pela história da música sinfônica em Ribeirão Preto. O projeto foi selecionado pelo Programa de Incentivo Cultural (PIC) 2011, da Secretária Municipal de Cultura,e  desenvolvido ao longo de um ano e meio pela produtora pseudovideo.

O projeto cultural contou com o apoio de profissionais da música como Gisele Haddad (pesquisa musicológica), José Gustavo Julião Camargo (consultoria musical), além de instituções como a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) e o Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (FFCLRP).

O documentário promete emocionar. “Meu desejo é mostrar o cruzamento da vida cotidiana em Ribeirão Preto, desde sua fundação em 1856, com as atividades relacionadas à música, inicialmente nas praças e coretos até chegar às salas de concerto”, ressalta Nakamura.

Documentário

Narrado por compositores contemporâneos, familiares de antigos músicos, pesquisadores e pessoas historicamente ligadas às “sociedades sinfônicas”, o documentário “Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória”, de Hossame Nakamura, revela um panorama artístico-cultural, a partir da fundação de Ribeirão Preto, no século XIX, com o objetivo de evidenciar a diversidade de agrupamentos de instrumentistas que fizeram a história da música orquestrada na cidade.

“Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória” aborda desde a tradição das potentes bandas de coreto, passando pelas diminutas jazz bands e formações maiores de orquestra até a chegada ao meio acadêmico. A chamada música sinfônica, apesar de sua conhecida estruturação formal, ganha um status mais popular por meio das atividades sociais e estabelece uma relação direta com a vida cotidiana, impulsionada pela efervescente economia e importância política da cidade.

O filme parte do universo particular de seus personagens e busca dar voz a fragmentos de memória para, então, estabelecer uma trajetória comum dessa produção musical, muitas vezes, erroneamente, chamada de “clássica”, uma vez que há também a influência da cultura popular nesse tipo de atividade.

O principal suporte metafórico da narrativa, um álbum de fotografias, faz o recorte espacial e estabelece uma relação entre afeto e temporalidade. Confeccionado artesanalmente, nos anos 30, pelo taxista Manoel da Silva, o “Álbum da Saudade” é reconstituído no documentário. Hoje, um importante objeto de pesquisa, esse livro de memórias, preservado pela família, expõe o sentimento saudosista acerca da “Belle Époque Caipira” e o sincretismo cultural herdado das diferentes correntes migratórias ocorridas principalmente no auge do café. Maneco, como era mais conhecido, traduz o espírito diletante dos artistas relembrados. Maestros, compositores e instrumentistas que viveram o amadorismo na música, no melhor sentido da expressão.

Dessa forma, por meio de depoimentos, material histórico, recuperação de partituras e um toque de ficção, buscam-se conceitos de diacronia e sincronia sugeridos no título do filme. Embora a grafia e a sonoridade de “Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória” remetam ao hermetismo da erudição que ronda o assunto, a intenção é desconstruir estereótipos formados pela segmentação elitista, que, durante muito tempo, em seus programas de concertos, propagava slogans como “A boa música educa o povo”.

“O que se tenta, na verdade, é contar uma história antiga que, aparentemente nova, é abastecida por lembranças quase esquecidas”, afirma Hossame Nakamura.

Exclusiva
A seguir, confira entrevista do documentarista para o portal da Revide:

"Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória" - De onde saiu esse nome?
Hossame Nakamura -
É um nome subjetivo, mas justificado. Na verdade, é um título com uma intenção de sonoridade (Já leu em voz alta?) e de "brincadeira séria". Diacronia e sincronia são conceitos mais acadêmicos que eu preciso de certa forma deixar presente no documentário, mas para não ficar tão sério, eu fiz essa brincadeira de colocar no plural (Diacrônicas Sinfônicas) para ficar parecendo nome científico, sabe? Os relatos orais (memória) dos entrevistados também são importantes para a coerência, mesmo que para a subjetividade proposta. Os depoimentos obedecem a certos critérios de sincronia para garantir o didatismo da narrativa.

E o projeto, qual foi a origem dele?
Hossame Nakamura - O tema aconteceu por sugestão de uma pessoa do meio. No início eu não sabia quase nada sobre música de orquestra, então tive que investigar bastante e pedir a colaboração de pesquisadores. O que eu espero é que as pessoas reconheçam o documentário como parte dessa história de Ribeirão Preto que ainda não foi contada. Não é uma história definitiva e sim uma tentativa sincera de resgate musicológico. A minha intenção com os documentários é sempre servir de inspiração para outros pesquisadores. Oferecer um começo para outros viéses, outras revelações históricas. Eu falo isso porque boa parte dos materiais de pesquisa com os quais trabalho são originários de acervos familiares, guardados ou esquecidos em caixas, baús e armários.

O que nota de diferente, de amadurecimento do seu trabalho, e de evolução desse mercado na cidade?
Hossame Nakamura - Esse é o meu quarto documentário autoral, desde a criação da produtora. Eu tento mudar um pouco a linguagem, embora as pessoas digam que é possível dizer que um trabalho é meu, mesmo sem eu revelar. Deve ser o estilo e olhar. Acho que o amadurecimento do meu trabalho está diretamente relacionado às minhas reflexões sobre verdade e mentira e interesse público versus privado. Um tipo de reflexão que não se resolve de um dia para o outro, só o tempo solidifica esses conceitos. Quanto ao mercado, noto que o documentário se tornou bastante popular nos últimos 10 anos, principalmente quando muitas pessoas perceberam que ele não precisa ser, necessariamente, chato. Embora seja um estilo cinematográfico que aborda a realidade, ou a utiliza como "matéria-prima", é possível e aceitável, que ele traga ficção como recurso narrativo.

O que considera mais difícil na produção de documentários?
Hossame Nakamura - O improviso, porque na produção de documentário não existe controle absoluto das situações quando se está gravando, além da responsabilidade de retratar situações históricas "inéditas". A abordagem colocada nos filmes é a versão dos fatos, até que alguém prove o contrário. Outra responsabilidade importante é lidar com o tempo e as fontes, por exemplo. Muitas vezes, os colaboradores requerem uma disponibilidade de tempo que a produção na maioria das vezes não tem. Pouco investimento institucional e de patrocinadores também é uma dificuldade.

Você se espelha em alguém?
Hossame Nakamura - Eu me espelho em documentaristas brasileiros do Cinema Novo/Direto (muitos ainda em atividade), além de estrangeiros como Wim Wenders e muitos outros contemporâneos: João Moreira Salles, Carlos Nader, José Padilha, Fernando Meirelles, etc. Em Ribeirão Preto, eu admiro outras produtoras que também produzem conteúdo autoral, como a Usinanimada e o cartunista Thomate, por exemplo.

Quer deixar sua marca como documentarista em Ribeirão Preto?
Hossame Nakamura - Sim, eu quero deixar uma marca de obras documentais autorais relevantes para Ribeirão Preto. Foi assim com “Hanko” - 2008 (documentário sobre a imigração japonesa na região, pioneira no Brasil), também com “Blues Everyday”- 2009 (que narra a importância desse estilo estadunidense num contexto local e nacional) e com “Todas Dimensões de Bassano Vaccarini” - 2010 (documentário sobre a vida e obra do mais importante artista moderno que aqui viveu, inclusive determinando características urbanas e arquitetônicas para a cidade).

Qual o próximo trabalho, já tem algo em mente?
Hossame Nakamura - O próximo trabalho autoral está indefinido. Considero a necessidade de alçar projetos mais ambiciosos no tocante ao orçamento e apoio institucional. Depois de cerca de 10 anos produzindo documentários, é necessário um respaldo e reconhecimento maior sobre a importância desse tipo de atividade, que acaba sendo de importância científica e histórica.

E a meta para os próximos anos?
Hossame Nakamura - Aprimoramento de linguagem.

Assita o teaser do documentário neste endereço: https://vimeo.com/58863443

Revide Online
Foto: Júlio Sian

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