Menos efeitos colaterais

Menos efeitos colaterais

Um grupo de pesquisa da USP, liderado pelo professor Cláudio Costa-Neto, avança na criação de uma nova geração de remédios com menos sintomas adversos

Tendo a investigação como parte integrante do aprimoramento profissional e também no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, o professor Claudio Costa-Neto, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP ganhou notoriedade nacional e internacional com suas pesquisas. A mais recente delas venceu o prêmio BioBusiness Brasil 2015. Trata-se da “Descoberta e desenvolvimento de novos medicamentos com propriedades de sinalização seletiva: uma nova geração de medicamentos com menos efeitos colaterais.”

O concurso foi promovido pela Fundação Instituto Polo Avançado da Saúde (Fipase), e pela Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de Ribeirão Preto (Supera). O resultado foi anunciado no final de julho. As pesquisas no laboratório do professor Costa-Neto levaram à descoberta de novas moléculas sintéticas que quando testadas em receptores celulares chamados GPCRs (do inglês “G Protein Coupled Receptors”), resultaram em atividade de sinalização seletiva, ou seja, ativaram vias de sinalização benéficas e bloquearam vias de sinalização não benéficas, as quais poderiam trazer efeitos colaterais. “Nossas descobertas mostram moléculas com perfis bioquímicos e farmacológicos mais interessantes se comparadas com outras já existentes no mercado”, observa o professor.

O professor explica que moléculas com esse perfil de sinalização se mostraram mais eficazes, com menos efeitos colaterais, podendo ser de interesse em várias doenças. As primeiras moléculas identificadas pelo grupo do professor Costa-Neto são direcionadas a doenças cardiovasculares. Costa-Neto explica que cerca de 40% de todos os medicamentos, atualmente no mercado, agem através da modulação ou bloqueio da sinalização de receptores do tipo GPCRs, os quais ainda são os principais alvos na descoberta de novas drogas.

O laboratório coordenado pelo professor Costa-Neto é referência no estudo de sinalização de GPCRs, inclusive em um dos temas mais atuais em pesquisa e desenvolvimento de descoberta de novas drogas, os chamados agonistas seletivos, ou seja, moléculas capazes de seletivamente ativar algumas vias de sinalização ao mesmo tempo em que bloqueiam outras. “Dessa forma, é possível prever para um futuro próximo o desenvolvimento de medicamentos para diversas aplicações que bloqueiem vias de sinalização prejudiciais ao paciente e que consigam manter ativas as vias benéficas”, explica o professor.

Costa-Neto diz ainda que no laboratório são realizados o desenho, síntese e caracterização de novos ligantes, e muitos deles possuem características de grande interesse farmacológico e biotecnológico, tornando-os compostos líderes (do inglês “lead compounds”) para desenvolvimento de futuros medicamentos com sinalização seletiva. As pesquisas do Laboratório do professor Costa-Neto são financiadas por meio de Projeto Temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Futuro e relevância

O próximo passo para as pesquisas do grupo será estimular a criação de uma startup (empresa de base tecnológica) para dar sequência ao desenvolvimento de tecnologias para a produção dessas moléculas. Sobre a importância do trabalho, o professor explica que é comum acreditar que pesquisas básicas não possuem aplicações comerciais, mas ressalta a importância de perceber os potenciais de cada descoberta e as possíveis aplicações, como nesse caso.

Outro fato comemorado pelo professor é que o laboratório está formando jovens pesquisadores com competência para o desenvolvimento de novas tecnologias, caso dessa pesquisa premiada. “Temos pouquíssimas empresas no Brasil onde jovens cientistas possam trabalhar de fato no desenvolvimento de novas tecnologias. Na Universidade, temos produção de conhecimento com estrutura de primeiro mundo, formamos recursos humanos competentes, mas é fundamental que isso possa ser transferido para o setor produtivo”, finaliza Costa-Neto.

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