Mercado competitivo
Mais de 150 pessoas estiveram no Salão Nobre da ACIRP para assistir ao debate
No dia 27 de julho, a Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP) organizou um debate sobre o segmento de veículos, destinado a empresas ligadas direta ou indiretamente ao setor. O evento foi mediado pelo coordenador do Instituto de Economia da ACIRP, professor Antônio Vicente Golfeto, e contou com a presença dos empresários Rui Flávio Chúfalo Guião, presidente do Grupo Santa Emília Veículos, Henry Visconde, presidente do Grupo Eurobike, e da gerente comercial da Jac Motors, Pâmela Tasca.
Com a proposta de discutir o investimento e as perspectivas do desenvolvimento econômico do segmento de veículos, além de propostas e sugestões para melhorias do setor, o debate foi dividido em cinco etapas: dados estatísticos; análise dos dados e perspectivas do setor para 2011/2012; participação dos veículos importados, representatividade das grandes empresas e importância das asiáticas; tributação alta, custo de produção e logística; e trânsito.
Dados estatísticos mostraram a concentração de veículos no Estado de São Paulo e a posição de Ribeirão Preto nesse quadro, apontando a ascendência da cidade em comparação a outros municípios paulistas do mesmo porte. Com 410 mil veículos, Ribeirão Preto tem um carro para cada 1,5 habitante, considerando os dados divulgados pelo último censo que apontam a população da cidade em 605 mil habitantes. Trata-se de uma proporção muito acima da média nacional. A cidade está em quarto lugar no Estado em operações de crédito e em financiamentos de veículos.
O mercado de veículos na cidade gera uma receita de, aproximadamente, R$ 2,8 bilhões ao ano, o que corresponde a 17% do Produto Interno Bruto (PIB) de Ribeirão Preto, cujo total é de R$ 16 bilhões. “Ribeirão Preto passa a ser, do ponto de vista econômico, uma esfinge sem segredos”, avaliou Vicente Golfeto. De acordo com Henry Visconde, a economia de veículos no município é 100% formalizada. “A qualificação de mão de obra é fundamental, um ganho que a cidade passa a ter e que perpetua a economia em várias cadeias. O desafio é continuar progredindo”, afirma o empresário.
Chinesa
Instalada em Ribeirão Preto há três meses, a Jac Motors está satisfeita com a receptividade dos consumidores e deseja atingir uma participação de 3% do mercado de veículos da cidade até o final do ano. “Já vendemos muitos veículos e estamos despertando a curiosidade do público. Os compradores fazem questão de entrar em contato conosco para dizer que estão gostando dos modelos e não tivemos nenhum problema”, pontua a gerente comercial. Até agora, a concessionária da montadora chinesa oferece três modelos.
Atuando no Brasil desde março de 2011, a Jac Motors anunciou, recentemente, a construção de uma fábrica no país, com capacidade de produção de 100 mil unidades por ano, já que hoje, a principal dificuldade da empresa, segundo Pâmela, é o volume de impostos para a importação. “Na hora de trazer o carro para o Brasil, há muitas taxas embutidas. No custo da produção, conseguimos diminuir os custos, mas da tributação não há como fugir”, afirma.
Importados
Ao debater a participação de veículos importados no mercado ribeirãopretano, que cresceu mais de 50% nos últimos anos, Henry Visconde aponta o aumento do poder de compra, não somente das classes C e D, mas também por causa do desejo pelo luxo — um carro é considerado de luxo quando tem preço acima de 120 mil reais. Segundo o empresário, há uma nova massa de consumo para a qual o mercado premium precisa se adequar. “Temos clientes que não imaginávamos ter e, por isso, precisamos entendê-los melhor. Este cliente que ascendeu economicamente lutou para adquirir aquele produto e quer qualidade. Os importados vieram para ficar. O grande desafio é equacionar serviço, atendimento e custo”, constatou o empresário, reforçando que a elevação da renda da população amplia a busca por serviços.
De acordo com Henry, o Brasil passou a ser uma vitrine para as montadoras de carros importados. “Enquanto o mundo está estagnado, aqui o poder de compra aumenta. Percebendo isso, a BMW estuda a possibilidade de trazer uma fábrica para o nosso país, a primeira fora da Alemanha”, releva o empresário, lembrando que as maiores importadoras do Brasil são as próprias montadoras, que trazem cerca de 80% do total de veículos comercializados.
Qualidade
A diversidade de produtos somada à ascensão econômica das classes sociais, à chegada das montadoras asiáticas e às estratégias de marketing das concorrentes geram certa dificuldade às empresas tradicionais do mercado de automóveis. Segundo Rui Flávio Chúfalo Guião, estes fatores não ameaçam as vendas de empresas já consolidadas, desde que se preze a qualidade. “Em primeiro lugar, temos o marketing dos coreanos, trazendo carros completos e vendáveis. Em segundo, as classes com poder de compra aumentando, crescendo a participação dos carros de luxo no mercado. Depois, vieram os carros chineses, com a estratégia de produto barato e completo. Isso desarruma as grandes montadoras brasileiras, trazendo uma fase de readaptação. Atualmente, cabe às fabricantes tradicionais oferecer carros mais completos. O consumidor tem que sentir valor agregado àquilo que está comprando”, relata o presidente da Santa Emília Veículos. O empresário também destacou o surgimento de grupos de concessionárias, que acabam centralizando custos administrativos como uma saída para ampliar a competitividade.
Trânsito
À medida em que a renda aumenta e os clientes se tornam mais sofisticados, as concessionárias buscam conquistar mercados fora dos grandes centreos urbanos. “Impossível uma concessionária oferecer conforto ao público dentro da cidade. Quanto a isso, também estamos em fase de transição”, afirma Rui Flávio. “Antes, nosso sonho era ter uma concessionária em um ponto central, mas isso mudou em função de problemas como trânsito e poluição visual, observa Henry Visconde.
Para os especialistas, o trânsito intenso não prejudica o mercado de veículos, que sempre recebe novidades capazes de atrair consumidores. “O carro tem um sentido único para o ser humano e a indústria encontra uma saída para tudo”, afirma Henry. “Na hora de comprar um carro, sensações como liberdade e paixão são determinantes e nunca serão deixadas de lado, que nunca serão tirados, mesmo no dia em que houver transporte coletivo de ponta”, concluiu o presidente do Grupo Eurobike.
Texto: Marina Rezende | Fotos: Ibraim Leão