Mercado em transição
Três empresas, representadas por duas gerações de empreendedores, avaliam o passado, o presente e o futuro da construção civil em Ribeirão Preto
O setor da construção civil de Ribeirão Preto vive uma fase próspera há alguns anos e continua em expansão. O número de lançamentos na cidade cresce a cada dia, assim como a variedade de empreendimentos, entre eles, os edifícios residenciais verticais e os horizontais, os loteamentos e os prédios corporativos. As novas técnicas e tecnologias possibilitam a criação de imóveis cada vez mais completos, atrativos e bem elaborados. A grande oferta e as facilidades nas condições de pagamento atraem um público consumidor amplo, o que resulta no aquecimento da economia e em maiores investimentos.
Apesar de consolidado de maneira positiva, o mercado passa por uma importante fase de transição em diferentes aspectos. Por ser extremamente dinâmico, registra mudanças relevantes como, por exemplo, no formato dos empreendimentos, que passa por inovações constantes e exigem atualização das empresas dessa área para acompanhar a demanda de clientes informados e exigentes. As regiões de expansão também mudaram. As parcerias entre as construtoras para a realização de uma obra são outra tendência, já que Ribeirão Preto se destaca nacionalmente no segmento imobiliário, o que atraiu a atenção de incorporadoras de outras partes do Brasil, que decidiram atuar na cidade em conjunto com empresas locais.
Mais um item expressivo que motiva essa mudança é a inclusão de jovens empreendedores, que trazem novos ares e novas ideias para o segmento. Como a maioria das construtoras do município tem tradição familiar, os negócios passam de pai para filho, uma receita que alia experiência e modernidade e tem sido bem-sucedida. Para falar sobre esse tema, contando um pouco da história da construção civil de Ribeirão Preto, o presente e os planos para um futuro próximo, a Revide convidou empresas que se enquadram nesse perfil para um bate-papo informativo: a Jábali Aude, representada por Iskandar e Eduardo Aude, a Perplan e a Bild, representadas por Adilson e Fábio Villas Bôas e a Stéfani Nogueira, representada por Marcelo e Nilo de Stéfani.
O início
As construtoras convidadas têm, em média, três décadas de atuação e participaram ativamente da evolução urbanística e imobiliária de Ribeirão Preto. Iskandar Aude, diretor da Jábali Aude, lembra que logo no início a construtora, fundada por ele em parceria com Luiz Roberto e Nicolau Jábali, tinha como foco a realização de casas e edifícios residenciais baixos, perfil um pouco diferente do atual, que engloba grandes obras. “Com muito trabalho e buscando a inovação, tivemos uma atuação efetiva na construção civil do município desde os nossos primeiros anos. A cidade foi crescendo e se reinventando. Nós fomos protagonistas nesse processo, principalmente no que se refere à expansão vertical do centro”, afirma Iskandar. Tendo construído mais de um milhão de m², a Jábali Aude ainda conta, em seu diversificado portfólio, com a restauração de um patrimônio histórico e cultural do município, o Theatro Pedro II.
A Stéfani Nogueira também alterou seu segmento de atuação de acordo com as modificações do mercado. “Quando começamos, nosso maior foco eram as indústrias sucroalcooleiras e as de suco de laranja. Com o tempo, mudamos o foco da empresa, investindo mais em incorporações de prédios verticais e condomínios de casas horizontais de alto padrão. Hoje também atuamos fortemente na área de loteamentos em todo o Estado de São Paulo e estados vizinhos”, explica o diretor da construtora, Marcelo Teixeira De Stéfani. O empresário ainda faz uma análise de como estava o setor quando a Stéfani Nogueira foi criada. “Na década de 80, o Brasil contava com uma inflação absurda. Tivemos sucessivos planos monetários mirabolantes e o país representava muitos riscos para os empresários. A falta de financiamento para a construção de novas moradias fazia com que as empresas desse segmento crescessem em ritmo bem moderado”, comenta.
A mesma realidade foi vivenciada por Adilson Perdiza Villas Bôas, diretor administrativo financeiro da Perplan, empresa formada pela Perdiza Villas Boas e pela CP Construplan. “Com a crise do petróleo, a construção civil andou de lado por muito tempo. Ficou difícil trabalhar, pois os preços da construção foram aviltados por causa da concorrência. Muitas empresas faliram e obras não foram entregues. Com o início do Plano Real e a queda da inflação, o setor imobiliário começou a andar, estimulado, principalmente, pelo acesso mais fácil de todas as camadas sociais, inclusive as mais populares, ao tão sonhado imóvel. Fizemos diversos empreendimentos para esse público, alguns em parceria com a COHAB. Esse era o cenário nacional daquele período e Ribeirão Preto acompanhava essa tendência”, explica. A partir de 2000, a Perplan começou a desenvolver projetos de urbanização, implantação de loteamentos, condomínios, edificação de alto padrão e tecnologia em construção civil.
Atualidade
A facilidade de financiamento para a construção e o repasse dessas unidades construídas para o cliente final, juntamente com a estabilidade econômica, o crescimento do poder aquisitivo da população e o auxílio de programas como o “Minha Casa, Minha Vida”, do Governo Federal, alavancaram a construção civil de maneira bastante significativa nos últimos anos. Assim, as empresas que estavam preparadas para absorver esse crescimento vivem um momento de expansão acelerada. “Ribeirão Preto é um importante polo regional dentro do estado mais rico da nação. Sendo referência em setores como educação, saúde e comércio, o município atrai pessoas para viver e trabalhar aqui e a construção civil se beneficia com essa demanda. Justamente por isso, a cidade foi eleita pelas maiores construtoras do país o lugar ideal para realizar investimentos”, indica Marcelo.
Nesse cenário, a chegada das construtoras de outras partes do país a Ribeirão Preto fortaleceu ainda mais o setor. Muitas delas atuam em conjunto com as empresas locais. “São parcerias que têm dado muito certo. Eles contribuem com o que têm de melhor e nós fazemos o mesmo. Todos saem ganhando, principalmente os consumidores, que recebem produtos com ainda mais qualidade e maior inovação. A união de empresas se tornou necessária para atender o formato dinâmico do mercado imobiliário”, relata Iskandar. A área de expansão mudou, com destaque absoluto para a zona sul, com imóveis que já estão localizados além do Anel Viário. Os tipos de empreendimentos também sofreram adaptações, como o melhor aproveitamento dos espaços, a preocupação com a segurança e a valorização da qualidade de vida.
Depois de aproximadamente 30 anos de tradição e com uma base sólida erguida, as três construtoras buscaram fôlego para acompanhar as tendências do mercado. Para isso, a visão e o dinamismo de novos empreendedores se tornaram fundamentais. “Essa nova geração é muito bem vinda. Tem boa formação acadêmica, ética profissional, vontade, entusiasmo, novos conhecimentos e coragem para enfrentar desafios, o que me lembra de quando começamos no meio. Eles nos ajudam a quebrar padrões, trazendo algo novo para a cidade e para o nosso público. Entretanto, não estão à frente dos negócios sozinhos. Contam sempre com nossa experiência para manter o crescimento constante e sustentável. É um processo de sucessão inevitável para a continuidade da empresa”, esclarece Adilson. Para o empresário, essa fórmula, com equilíbrio, gera bons frutos.
A nova geração, composta pelos filhos dos empresários, já está atuando e fazendo a diferença. Graduado em Administração de Empresas, Eduardo Aude é hoje gestor de projetos da Jábali Aude. “Sentimos que havia chegado a hora certa, tanto para mim, quando para o meu pai e para a empresa. Adquiri conhecimento ao longo dos últimos 15 anos trabalhando no mercado financeiro, nas áreas comercial, de gestão de produtos e marketing e trouxe essa bagagem para a Jábali Aude. Trabalhar com meu pai é uma grande satisfação”, indica.
Formado em Engenharia Civil, Nilo Vilhena De Stéfani assumiu o cargo de diretor de urbanização da Stéfani Nogueira. Segundo ele, foi uma decisão muito natural. “Respiro construção civil desde que nasci. Gostava desse ambiente e sempre quis ser engenheiro. Durante a faculdade, senti o quão dinâmico e diverso é este mercado e percebi que tinha feito a escolha certa. Estou feliz por fazer parte dessa nova geração. É muito gratificante dar continuidade a um trabalho que movimenta a economia, gera empregos e vem transformando a cara da cidade”, revela.
Fábio Villas Bôas se formou em Engenharia Civil e é diretor de novos negócios da Bild Desenvolvimento Imobiliário, incorporadora independente, porém derivada e parceira da Perplan. “Por conviver com meu pai, admiração natural, decidi seguir a mesma profissão. Depois de estudar e trabalhar em São Paulo aprendi mais sobre o setor e passei a entender melhor o mercado imobiliário. Sabia que o desenvolvimento que estava claro na capital também viria para o interior e que Ribeirão Preto teria muito destaque nesse cenário”, comenta Fábio, que acrescenta que a relação com o pai, que é de extrema amizade e companheirismo, tornou-se positiva também na área profissional e empresarial.
Novos tempos
Eduardo, Nilo e Fábio revelam que é um desafio seguir os passos dos pais buscando trilhar um caminho próprio, mas garantem que os resultados são gratificantes. Totalmente integrados ao ramo onde atuam, falam com propriedade do mercado atual, do público-alvo, dos segmentos de crescimento e dos planos para o futuro. “Podemos dizer que o mercado está ótimo. As vendas de imóveis estão crescendo em todas as faixas de renda, do público com até três salários mínimos até o de alta renda, o que sinaliza um amadurecimento da construção na cidade e no país, além do desenvolvimento da economia de uma maneira geral”, analisa Fábio. O empresário está otimista quanto ao futuro de seus negócios e confirma que ainda há muito espaço para o setor imobiliário crescer. “O volume de crédito imobiliário frente ao PIB no Brasil está em torno de 3,5% em 2010. As previsões das diversas fontes relacionadas a esse setor apontam esse índice em torno de 12% a 14% em 2014. Em países como México e Chile, esse valor está próximo de 20% e nos países desenvolvidos, acima de 40%. Portanto, ainda temos muito trabalho pela frente”, justifica.
Nilo também tem boas expectativas para os próximos anos. “O mercado está cada vez mais aberto e criativo para atender aos vários sonhos e expectativas existentes. Os imóveis de hoje não são apenas uma ótima opção de moradia ou de trabalho, mas também uma excelente escolha para quem quer investir. A liquidez é rápida e segura e a valorização é superior aos demais investimentos financeiros conservadores. Estamos animados com o leque de possibilidades que temos”, garante. Eduardo divide o mesmo entusiasmo que os companheiros. “O público de Ribeirão Preto está cada vez mais exigente e conhecedor de suas opções.
É bom poder trabalhar para consumidores assim, pois temos um estímulo a mais para buscar a superação em cada projeto”, conclui Eduardo.
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Texto: Paula Zuliani | Fotos: Carolina Alves