Mesma cidade, novas regras

Mesma cidade, novas regras

Retomada parcial do comércio em Ribeirão Preto dá fôlego para a economia, mas preocupa especialistas que apontam para o provável avanço da Covid-19

Texto: Paulo Apolinário


A maioria dos moradores de Ribeirão Preto já foi ao Centro fazer compras em um sábado de manhã, em grandes lojas de departamento e eletrodomésticos ou pequenas lojas de roupas e presentes. Talvez tenham tomado uma garapa, um sorvete ou um chope. Esse era o normal até o dia 23 de março deste ano, quando o primeiro decreto de calamidade publica e que suspendia os serviços não essenciais foi publicado. De lá para cá, muita coisa mudou: mais de 100 mil pessoas morreram no Brasil, enquanto os óbitos no mundo chegam a 750 mil. Fala-se em um “novo normal” e há até quem teorize sobre uma novo modelo econômico e reorganização dos potenciais no tabuleiro da política internacional. Apesar da turbulência mundial, o Centro de Ribeirão Preto vem registrando uma movimentação “normal” desde o sábado, 8 de agosto. A data marcou a reabertura do comércio na cidade, com o avanço da Direção Regional de Saúde (DRS) XIII para a fase amarela do Plano São Paulo. 

Entre o dia 23 de março e 1º de junho, a maior parte dos estabelecimentos comerciais permaneceu fechada em Ribeirão Preto. Com a implementação do Plano São Paulo no final de maio, foi anunciado que a região de Ribeirão Preto começaria a retomada consciente da economia já na fase laranja do Plano, com a abertura parcial do comércio. O Plano São Paulo prevê a retomada gradual da economia em cinco etapas: vermelha, laranja, amarela, verde e azul. Sendo a vermelha a mais restrita, e a azul o funcionamento considerado normalizado. Durante a fase laranja, o comércio pôde funcionar apenas quatro horas diárias e com regras rígidas. A redução no horário de funcionamento fez com que mais pessoas procurassem as lojas no mesmo horário, causando aglomeração. Em entrevista coletiva concedida no dia 6 de agosto, o secretário municipal de Saúde, Sandro Scarpelini, admitiu que a medida foi um erro. "A impressão que a gente tem é que quanto mais a gente restringe e diminui os horários [de funcionamento], mais a população tem a ânsia de frequentar aqueles lugares", declarou. Com isso, os lojistas tiveram de fechar as portas novamente no dia 15 de junho. 

Secretário municipal de Saúde, Sandro Scarpelini, admite que redução de horário do comércio não é a melhor forma de evitar aglomerações

A reabertura ocorreu após quase dois meses, em anúncio feito no dia 7 de agosto. "Temos boas notícias. Nas últimas duas semanas houve uma queda na quantidade de óbitos no interior de São Paulo. Era a região que mais nos preocupava. Ela continua a nos preocupar, porém, agora temos um horizonte", declarou o governador João Doria (PSDB). Durante a entrevista em que anunciou o avanço da região, a secretária de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, explicou que, excepcionalmente, o comércio poderia voltar a funcionar no sábado, e não na segunda-feira, como fora realizado nas semanas anteriores. A medida tinha o intuito de garantir as vendas do Dia dos Pais para o comércio. As lojas puderam funcionar com 40% da capacidade de lotação máxima e, para tentar evitar novas aglomerações, o governo municipal autorizou o funcionamento dos estabelecimentos por até oito horas. Originalmente, o Plano São Paulo prevê o funcionamento de até seis horas na fase amarela. "A ideia é que a gente fique com duas horas a mais para dar mais chances para as pessoas irem nos melhores horários para si e não numa corrida com um horário pequeno", explicou Scarpelini.

Como se Ribeirão Preto tivesse “voltado ao normal”, parte da população foi às lojas e passeou pelo Calçadão. Rapidamente, as imagens das ruas General Osório e Álvares Cabral lotadas se espalharam e preocuparam as autoridades. O incômodo foi tanto que, na segunda-feira seguinte, o prefeito Duarte Nogueira (PSDB) deu uma "bronca" em quem desrespeitou o distanciamento social e foi às ruas sem necessidade. “Coisa de maluco, de gente irresponsável. Que não tem zelo com a própria vida nem com a dos familiares. A quarentena não acabou, ela precisa ser ainda mais cuidadosa agora", frisou o chefe do Executivo durante transmissão ao vivo nas redes sociais. "A última vez que isso aconteceu foi no dia 1º de junho e vimos o número da Covid-19 evoluir a chegarmos com 99% da taxa de ocupação de UTI", completou. Nogueira ainda "lavou as mãos" sobre a possibilidade de regressão da região para uma fase mais restritiva do distanciamento social. Ele afirmou que o Executivo tem feito o possível para manter a cidade na fase amarela, e que a responsabilidade por uma eventual regressão será dos cidadãos que não cooperaram com o distanciamento social. "A responsabilidade é sua, que não está agindo corretamente", criticou o prefeito.

Prefeito Duarte Nogueira fez duras críticas a quem viola as regras de distanciamento social sem necessidade: “coisa de maluco, de gente irresponsável”FÔLEGO PARA A ECONOMIA 

A loja em que a vendedora Eny de Fátima Oliveira Melo trabalha sempre foi uma das mais movimentadas do Calçadão. Com localização privilegiada, em frente à Praça XV de Novembro, até quem não pensa em comprar nada se aproxima para conferir as prateleiras lotadas de produtos eletrônicos, presentes, maquiagens e itens de decoração. Mesmo com a movimentação intensa, Eny estava animada no primeiro dia de retorno ao trabalho. "Eu acho muito bom [a reabertura], porque a gente precisa, sabe?", comentou. Segundo ela, a loja em que trabalha adotou um limite de 25 clientes por vez, com uso obrigatório de máscara e medição constante de temperatura. "Ficamos fechados desde março. Abrimos um pouco em junho, também, mas, graças a Deus, reabrimos. Espero que fique um bom tempo aberto", salientou a vendedora. A vendedora Eny de Fátima comemorou a reabertura do comércio do Centro de Ribeirão Preto

Apesar da animação da lojista, o cenário ainda é de incertezas para o comércio. Dados do Ministério da Economia indicam que, desde março, a cidade perdeu 9,8 mil postos de trabalho, no saldo entre admitidos e desligados. Em relação a empresas, as estatísticas são um pouco mais defasadas e o cenário ainda é incerto. Ainda assim, alguns levantamentos setoriais mostram perdas significativas, com o fechamento chegando a atingir aproximadamente de 30% das empresas de determinados setores.

Economista Gabriel Couto estima que recuperação econômica será tão longa quanto a da crise de 2015 e 2016Um levantamento feito pela Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp), em julho, mostrou que cerca de 10% das empresas consultadas já haviam encerrado as atividades ou estavam em processo de encerramento. Para Gabriel Couto, economista da Acirp, é difícil precisar um período para a recuperação da economia, principalmente, porque a crise atingiu de maneira muito diferente os diversos setores da economia da cidade. “É muito provável que as perdas de 2020 fiquem em patamar próximo ao acumulado em todo o período de 2015 a 2016, última recessão vivida pelo país, cuja recuperação ainda não havia sido realizada totalmente. Assim, podemos afirmar que a trajetória de retomada será bastante longa”, comparou Gabriel. Dorival Balbino, presidente da Acirp, ressaltou que as experiências em outros países mostram retomadas com 30% ou mesmo de 20% do faturamento em alguns setores. "Como ficamos fechados por muito tempo, talvez mais que qualquer outra cidade, daqui para frente teremos de entender, na prática, como será o comportamento do mercado para cada segmento", disse.

Dorival Balbino, presidente da Acirp, comenta que, apensar da reabertura, cenário para o comércio ainda é incerto

INDICADORES

A abertura de novos leitos e a redução no número de novos casos por dia foram os principais fatores que contribuíram para o avanço da região no Plano São Paulo. No entanto, o físico e professor do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), Domingos Alves, alerta que, apesar da queda nos últimos dias, os números não eram estáveis no momento da reabertura. "De maneira nenhuma, os casos, óbitos e, particularmente, o número de internações foram estabilizados. Entramos na fase amarela com pouco mais de 16 mil casos, o que mostra que nós estamos correndo o mesmo risco quando nós passamos para a fase laranja, em junho", advertiu. Domingos lembra que, quando o comércio foi reaberto em junho, o número de casos e a ocupação de leitos subiram consideravelmente. 

O pesquisador Domingos Alves explica que os indicadores de novos casos, mortes e ocupação de leitos ainda não estão estabilizadosNa data em que foi divulgada a promoção da região, o indicador "Capacidade Hospitalar" recebeu a classificação “Verde”. Segundo dados do governo estadual, a cidade possuía ocupação de 72,5% nos leitos de UTI e uma oferta de 22,8 leitos para cada 100 mil habitantes — a quarta melhor oferta de leitos do estado. No indicador "Evolução da Pandemia", que engloba o número de casos, internações e óbitos, a região estava na classificação amarela. Na contagem de novos casos, a região recebeu uma classificação verde. Por outro lado, a DRS apresentava um índice de 68,6 internações para cada 100 mil habitantes, considerado amarelo. Por fim, o pior indicador da região foi o número de óbitos, que figura na laranja, com 14,1 óbitos por 100 mil habitantes. No fechamento desta edição, em 12 de agosto, a taxa de ocupação era de 69,7% na UTI e 61,4% na enfermaria. Observando apenas os leitos públicos, a ocupação estava em 72,1% dos leitos de UTI e 88,3% dos leitos de enfermaria. 

Regras 

Com a reabertura do comércio, os estabelecimentos precisarão respeitar regras de limite de público e distanciamento social entre os clientes, assim como o uso obrigatório de máscaras. 

Shoppings
12h às 20h, de segunda a  sábado com 40% da lotação

Comércio de rua
9h às 17h, de segunda à sábado com 40% da lotação

Bares e restaurantes
11h às 17h, de segunda a sábado com 40% da lotação

Salões de beleza e similares
9h às 17h, de segunda a sábado, com 40% da lotação

Academias
Poderão funcionar por até 8 horas por dia, com 30% da lotação e sem atividades físicas em grupo

Abertura noturna de bares e restaurantes 
só poderão funcionar quando a região completar 14 dias na fase amarela

Eventos, convenções e atividades culturais

só poderão funcionar quando a região completar 28 dias na fase amarela

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