Meu corpo, minhas regras

Meu corpo, minhas regras

A nutricionista Maria Fernanda Laus explica a relação do indivíduo que sofre de transtornos alimentares com a aparência

“A relação com o corpo e a aparência determina o modo como as pessoas se relacionam e reflete nas atitudes de uns com os outros”, expõe FernandaConforme os anos avançam, a sociedade passa por inúmeras transformações. No meio de tantas mudanças, os padrões estéticos também se alteram e vão ganhando novos contornos. Ultimamente, essa transformação vem acontecendo de forma cada vez mais contundente e rápida, em função da grande influência da publicidade e das redes sociais. As características da sociedade contemporânea, em constante exposição na web, aumentaram, de maneira geral, a vaidade e o culto ao corpo. Tais ingredientes estão intimamente relacionados à relação que as pessoas estabelecem com a alimentação e seus reflexos estéticos. 

Foi pensando em desvendar esses laços que a nutricionista Maria Fernanda Laus realizou um estudo sobre a influência da estética na satisfação das pessoas com o próprio corpo. As pesquisas começaram durante a graduação, quando Fernanda desenvolveu um projeto de iniciação científica para investigar quais eram os fatores de risco para transtornos alimentares em estudantes da área da saúde. Depois disso, cursou uma Especialização em Nutrição e ingressou no Mestrado, em 2006, pelo Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da USP, sob orientação do Prof. Dr. Sebastião de Sousa Almeida e da Profa. Dra. Telma Maria Braga Costa.
 
Com a intenção de aprofundar os conhecimentos sobre imagem corporal, Fernanda idealizou um projeto que objetivava avaliar a relação entre prática de atividade física, estado nutricional e percepção da imagem corporal em adolescentes. Ingressou no doutorado e, em 2013, defendeu a tese intitulada “Influência do padrão de beleza veiculado pela mídia na satisfação corporal e na escolha alimentar de adultos”. No ano seguinte, iniciou um Pós-doutorado no mesmo departamento para investigar a relação entre imagem corporal e relacionamentos amorosos, em um estudo transcultural. Parte do estudo foi desenvolvido na Universidade de Wisconsin, em Milwaukee, nos Estados Unidos. Atualmente, Fernanda divide sua experiência lecionando no Curso Técnico em Nutrição e Dietética da Escola Técnica Estadual José Martimiano da Silva.

Revide: Por que optou por estudar a vertente da nutrição vinculada ao comportamento?
Fernanda:
A relação com o corpo e a aparência determina o modo como as pessoas se relacionam e está expressa nas reações e nas atitudes de um indivíduo em relação a outro, tanto no ambiente profissional quanto social, bem como nos relacionamentos afetivos. A imagem corporal é formada pela percepção que uma pessoa tem sobre seu tamanho, formato e peso em relação ao seu tamanho real. Além disso, fazem parte da autoimagem os sentimentos e as emoções daquele indivíduo em relação ao seu corpo; as crenças e os pensamentos sobre como a aparência influencia seu valor pessoal e social; a satisfação ou a insatisfação com o peso, a forma ou alguma parte específica do corpo; e, ainda, os comportamentos de evitação de situações que possam induzir preocupações com a imagem. A insatisfação com o corpo é fator de risco para depressão, baixa autoestima, ansiedade, alterações de humor e tentativas de suicídio. Além disso, pode levar a uma série de comportamentos prejudiciais à saúde, como comportamentos alimentares inadequados, e uso incorreto de medicamentos. Todas essas questões são importantes se considerarmos que mais de 70% da população apresenta algum grau de insatisfação com a própria aparência, incluindo crianças a partir dos 5 anos de idade. Dessa forma, o entendimento das causas e das consequências de uma imagem corporal negativa em populações não clínicas (sem patologias ou transtornos mentais) é essencial para que possamos desenvolver programas de intervenção capazes de minimizar o problema e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Qual foi o objetivo da pesquisa que compara o nível de satisfação dos entrevistados antes e depois do contato com padrões de beleza veiculados pela mídia?
Estávamos interessados em avaliar a influência do padrão veiculado pela mídia na satisfação corporal e na escolha alimentar de universitários. Para isso, conduzimos um estudo experimental com duas turmas de estudantes, sendo um deles um grupo de comparação. A pesquisa foi realizada no campus da USP de Ribeirão Preto e entrevistou 159 universitários de ambos os sexos. Primeiramente, foi necessário estabelecer o que, de fato, homens e mulheres julgavam que a mídia veiculava como ideal para seu próprio sexo. Um projeto piloto foi conduzido e 40 fotos de cada sexo exibindo pessoas de diferentes tamanhos e formatos corporais foram apresentadas aos participantes, que deveriam julgar o quanto cada uma delas representava o padrão de beleza veiculado pela mídia. Embora tenha havido fotos de mulheres “saradas”, que vêm surgindo como um novo padrão de beleza nos últimos anos no Brasil, as imagens femininas selecionadas pelas participantes corresponderam a modelos magras, enquanto as masculinas, a modelos magros, porém bastante definidos e em formato “V”. Já os estímulos neutros, apresentados ao grupo de comparação, traziam imagens de objetos. Os estudantes deveriam responder ao instrumento que avalia a satisfação com a própria imagem — a Escala de Figuras de Silhuetas — que consiste em 15 figuras de cada sexo, representando silhuetas que variam de muito magras a muito obesas. O participante deveria escolher a silhueta que melhor representava o corpo que ele tinha no momento e a silhueta que gostaria de ter. Foi aplicado também um instrumento de escolha alimentar que consiste em 22 fotos de alimentos. Os participantes deveriam selecionar três alimentos a serem consumidos no lanche da tarde. As escolhas foram, então, classificadas de acordo com a maioria das respostas em “saudável” e “pouco saudável”. Depois de respondidos os instrumentos, os participantes eram submetidos a um slideshow com os estímulos de acordo com o grupo.

Quais os resultados obtidos através desse estudo?
Nossos resultados demonstraram que a exposição a imagens representativas do ideal de beleza pode contribuir para um aumento da insatisfação com o tamanho do próprio corpo. Uma porção representativa das mulheres relatou um desejo por uma silhueta mais magra após entrar em contato com as imagens e quase 60% dos homens desejaram uma silhueta diferente — estes, mais divididos entre os que optaram por uma silhueta mais larga ou mais magra. Além disso, a visualização das imagens alterou a escolha alimentar dos participantes. Os que foram expostos a fotos de modelos tenderam a selecionar alimentos mais saudáveis no período pós-exposição em comparação ao período pré-exposição. É provável que a escolha por esses alimentos se deve ao baixo valor calórico, e não ao fato de serem saudáveis. Os jovens universitários têm conhecimento de que alimentos desta natureza são frequentemente utilizados em dietas para perda ou controle de peso e que, portanto, podem atender a essas expectativas.
 
No pós-doutorado, a nutricionista participou de uma atividade para promover a aceitação e a apreciação corporal entre alunos da Universidade de WisconsinOs transtornos alimentares estão diretamente associados à própria imagem corporal?
A imagem corporal negativa é um aspecto importante a ser considerado em alguns transtornos, mas, ao contrário do que se pensa, ela não causa a doença. Essa imagem é proeminente nesses quadros porque muitas pessoas com transtornos alimentares dão demasiada importância à aparência física na determinação de seu autovalor. Perturbações na avaliação do peso e na forma corporal são critérios diagnósticos para anorexia e bulimia, mas não para a compulsão alimentar. Outra questão importante a ser considerada é que a insatisfação corporal é um dos fatores de risco mais importantes para a prática de dietas restritivas que estão entre as principais desencadeadoras e mantenedoras da anorexia e da bulimia. Por outro lado, muitas pessoas que não têm transtorno alimentar apresentam uma imagem corporal negativa. A percepção irreal do próprio tamanho corporal, aspecto central e um dos critérios diagnósticos de diversos transtornos alimentares, é observada em grande parte da população. Dados do nosso grupo de pesquisa demonstram que mais de 70% das pessoas não são capazes de estimar corretamente o tamanho de seus corpos. De maneira geral, as mulheres tendem a surperestimar seu tamanho, enquanto os homens são mais divididos entre aqueles que se percebem maiores e os que se percebem menores. Portanto, os distúrbios da imagem corporal são mais comuns do que se imagina e têm sido observados não apenas em indivíduos com transtorno alimentar ou que fazem parte de populações com maior risco de desenvolvê-los. Esse fato é preocupante porque essas pessoas podem desenvolver uma obsessão pelo corpo, levando-as a práticas não saudáveis em relação à comida. Esse quadro é conhecido como “comer transtornado”, definido como um padrão alimentar desequilibrado e pouco saudável. Essas práticas geralmente não alcançam o resultado desejado (física ou emocionalmente) e podem resultar em sentimentos intensos de desapontamento, vergonha, culpa, ansiedade e depressão e, em última análise, aumentam o risco de desenvolvimento de um transtorno alimentar completo. Pesquisas sugerem que mais de 50% da população relata relacionamentos problemáticos ou desordenados com a comida, o corpo e os exercícios físicos, enquanto a prevalência dos transtornos alimentares propriamente ditos é muito menor, estimada entre 1% e 3% da população.

Em que medida o padrão de beleza estabelecido pela sociedade de consumo interfere no surgimento dessas doenças?
Antes de mais nada, é preciso esclarecer os mecanismos pelos quais a sociedade influencia a imagem corporal de um indivíduo. Alguns autores sugerem que a insatisfação com o próprio corpo é resultado de uma diferença entre a forma como o indivíduo se vê e o corpo que ele considera ideal. A mídia cria e perpetua um padrão de beleza e apresenta mensagens sobre como características positivas estão associadas ao ideal sociocultural de atratividade, levando as pessoas a acreditarem que, ao conseguirem este ideal, terão alcançado o sucesso não só na profissão, mas também nos relacionamentos sociais e amorosos. Sob uma perspectiva sociocultural, a família e os pares também têm uma participação importante neste processo, demonstrando de forma implícita ou explícita a preocupação com o próprio peso e o peso dos filhos/amigos,  reafirmando que as imagens veiculadas pelos meios de comunicação são ideais. Assim, embora a mídia não seja a única fonte de transmissão desses ideais, é ela quem cria e perpetua o padrão de beleza vigente. Universalmente, as pessoas tendem a comparar a própria aparência com a de outros indivíduos considerados por elas mais atraentes. Entretanto, para que a insatisfação ocorra, a pessoa tem que acreditar que aquilo que está sendo veiculado é de fato ideal. Damos a este fenômeno o nome de “internalização”. Se considerarmos que o padrão de beleza atual é praticamente inatingível para a maioria das pessoas, é muito provável que a insatisfação surja. 

Muito se fala na busca pelo corpo perfeito, mas, o que é corpo perfeito? 
O conceito de beleza é subjetivo. Esse padrão é cultural e mutável, sendo que cada sociedade possui o seu, sob influência de questões históricas, crenças religiosas, sistemas econômicos, entre outros fatores. Entretanto, com o advento dos meios de comunicação em massa, as particularidades de cada população vêm desaparecendo e o que vemos hoje é uma homogeneização desse padrão, uma “ocidentalização” da beleza. Na natureza, a beleza é um indicativo de bons genes, o que confere vantagens na seleção de parceiros. Neste sentido, ela é considerada como um marcador de que o parceiro em potencial apresenta grandes probabilidades de sucesso reprodutivo. Um bom exemplo é a simetria facial e corporal que, desde a Antiguidade, era cultuada pelos gregos como uma beleza idealizada, mas que, na realidade, indica um indivíduo livre de doenças genéticas/congênitas. Outro bom exemplo é a questão da juventude, extremamente valorizada atualmente, mas que, biologicamente, corresponde ao período reprodutivo em potencial. Entretanto, essas teorias evolucionistas explicam bem as preferências estáveis através da história e das culturas, mas fornecem apenas parte das respostas sobre quem ou o que é considerado atrativo atualmente. Com todas as mudanças na sociedade, o padrão de beleza tem mudado cada vez mais rapidamente. Se antes o corpo considerado ideal para a mulher refletia uma silhueta curvilínea, com cintura fina e quadris e seios fartos, bem representado pela atriz Marilyn Monroe, o Fernanda é uma das organizadoras e autora de alguns capítulos do livro “Psicobiologia do Comportamento Alimentar”aumento da importância dada às modelos a partir de 1960 deu espaço a um corpo cada vez mais magro e sem forma, como da modelo Twiggy, ícone fashion da década, e o desaparecimento das curvas. 

É possível afirmar que, hoje, esses padrões foram globalizados?
De fato, a globalização normatizou a beleza ideal, tornando-a um produto de consumo, resultante da propagação de mensagens pelos meios de comunicação, que atingem desde as sociedades tradicionalistas até aquelas que vivem em áreas mais isoladas. A mídia tem um enorme poder de persuasão, sendo capaz de transformar em poucos anos padrões estabelecidos durante séculos. Alguns estudos já foram conduzidos em populações antes isoladas para avaliar esses efeitos. Por exemplo, há cerca de 15 anos, foi publicado um estudo interessante comparando a prevalência de transtornos alimentares nas Ilhas Fiji antes e depois da chegada da televisão no país. Os resultados deste estudo demonstraram que, quando a população ainda não tinha acesso a esse meio de comunicação, havia relato de apenas um caso dessas doenças e, três anos após a chegada da televisão, a taxa de adolescentes praticando algum tipo de dieta aumentou de zero para 69%. Esses dados evidenciam claramente a influência da mídia nesta questão. 

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