Mídia renovada
Em tempos de dificuldades econômicas e incertezas políticas, em 1986, Ribeirão Preto ganhou uma nova publicação com fibra e independência para apurar os fatos e fôlego para preencher uma lacuna
O ano era 1986, uma época em que os brasileiros enfrentavam tempos difíceis, com uma inflação galopante que ultrapassava a casa dos 235% por ano, economia instável e na política, incertezas com a chegada do governo de José Sarney. Era o começo do período democrático, após a traumática morte de Tancredo Neves antes de assumir a presidência. Na tentativa de driblar as turbulências e retomar o crescimento do país, o presidente Sarney lançou, no dia 28 fevereiro daquele ano, o Plano Cruzado, criado pelos ministros da Fazenda, Dilson Funaro, do Planejamento, João Sayad, e do Trabalho, Almir Pazzianotto. O nome surgiu por conta da nova moeda que foi instituída no país. Saia de cena o Cruzeiro (Cr$), dando lugar ao Cruzado (Cz$).

Assim um Cruzado equivalia a 1.000 Cruzeiros (novos), com a volta também dos centavos, abolidos em 1984, devido à desvalorização do Cruzeiro. Em seguida foram lançadas as novas cédulas de Cz$ 100, Cz$ 500, Cz$ 1.000, Cz$ 5.000, Cz$ 10.000, bem como as moedas de 0,01; 0,05; 0,10; 0,20; 0,50; 1,00; 5,00 e 10,00 cruzados. Novidades que tiraram o Brasil totalmente da crise. Iniciou uma nova fase de incertezas, com congelamento de preços, confisco de boi no pasto, prateleiras vazias nos supermercados e a convocação dos “fiscais do Sarney”. Forma que o presidente encontrou para que a população a fiscalizasse o comércio de forma mais efetiva, na tentativa de coibir as remarcações de preços, comuns daqueles dias.
Mudanças que, Ribeirão Preto sentiu de forma positiva, em especial, para o mercado imobiliário que se tornou fonte atrativa de investimentos. Somente no quadrilátero entre as avenidas Independência, Francisco Junqueira, Gerônimo Gonçalves e 9 de julho, começaram a ser erguidos 42 dos 53 projetos autorizados pela Prefeitura para serem construídos. Até junho de 1986, a Secretaria Municipal de Obras possuía 15 novos projetos em análise, com preços entre CZ$ 6 e CZ$ 9 mil o metro quadrado. Motivo de euforia para os 150 corretores de imóveis que atuavam na cidade naquele ano.
Tema que foi um dos destaques editoriais do primeiro exemplar da revista Revide, publicada em junho de 1986. A matéria do jornalista da equipe, Delcy Mac Cruz, apontava o município, como o terceiro mercado de investimentos no país e a primeira cidade do interior de um estado a ter uma regional da Bolsa de Valores, instalada no número 54 da avenida 9 de julho. Com o título “Frestas do passado”, na mansão Junqueira Lobato, outro destaque editorial da publicação ficou sob a responsabilidade da jornalista Mônica Marques. A matéria tratava das idas e vindas de iniciativas públicas e privadas, no sentido de resgatar a importância histórica do imponente casarão localizado na esquina entre as ruas Américo Brasiliense e Visconde de Inhaúma.
Com layout arrojado e muita disposição para ser fiel à linha editorial, aos poucos, a Revide conquistou os leitores, políticos e também os empresários da cidade, que viram na revista uma alternativa para divulgarem as iniciativas e produtos de forma clara e segura. Empreendedores como Rui Flávio Chúfalo Guião, presidente do Grupo Santa Emília, que naquele ano, estava à frente da gestão da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP). Admirador do trabalho da empresária Isabel de Farias (Bel), fundadora da Revide, Rui admite que foi cético quanto a oportunidade de se ter uma revista semanal na cidade. “O trabalho e a perseverança da Bel e seus companheiros resultaram nesta comemoração de hoje”, comenta o empresário, lembrando que naquele ano a Associação enfrentava um esvaziamento político.

Até então, a Instituição tinha sido a única representante da sociedade a contribuir com ideias e reivindicações. Com o surgimento de outros parceiros na vida da cidade, Rui decidiu que a ACIRP deveria voltar seus serviços mais para os comerciantes e industriais da cidade, sem abandonar a posição política. Assim, com auxílio do José Arnaldo Laguna, que o sucederia na presidência, iniciou a informatização da entidade, começando com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) até então todo controlado por fichas escritas.
Rui destaca que no último ano do seu mandato, o ex-prefeito João Gilberto Sampaio aumentou o imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) de forma ilegal, o que o motivou a fazer um plano para envolver também 18 entidades, liderando um movimento de ressurgimento da entidade. Aconteceram várias reuniões com a sociedade civil. O setor jurídico foi colocado à disposição dos cidadãos para, gratuitamente, recorrerem da cobrança do imposto. “O movimento, segundo ele, teve dois grandes sucessos: o prefeito voltou atrás e a entidade recuperou sua força política como representante não só da classe, mas também da sociedade”, relembra Rui.

Com o Plano Cruzado, o presidente da ACIRP aponta que veio o congelamento de preços e algumas mercadorias sumiram das prateleiras. “Houve até confisco de gado, mas o mal-estar foi passageiro”. A população estava cansada da inflação e houve várias manifestações de controle popular. “Porém, sem a gravidade de capitais, onde o povo fechou supermercados. Devo enfatizar que o comércio local, em graus variados, apoiou o plano desde o início”, recorda Rui.
Sede própria

Pedro Abraão Alem Neto, lojista, e naquele ano, tesoureiro na ACIRP e diretor do Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto (Sincovarp), concorda com Rui Flávio que um dos fatos mais impactantes daquele ano foi realmente a criação do Plano Cruzado. Para sua instituição, o início das obras da sede própria, seria um marco para a entidade de abrangência regional. O projeto realizado com recursos próprios, em parceria com o presidente, Orlando Rodrigues, levou nove anos para ser concluído. Pedro lembra ainda da chegada de várias empresas à cidade em 1986, como Magazine Luiza e Droga Center Distribuidora de Medicamentos.
Implemento de campanhas em datas especiais, como a Semana do Freguês já era sucesso entre os empresários da época. Atuante no comércio e participante do Sindicato desde 1978, Pedro revela que sempre apoiou iniciativas que beneficiassem a coletividade. Um exemplo disso foi a reivindicação do calçadão na região central da cidade, o aumento efetivo dos policiais militares, a criação de um distrito industrial, inovações no aeroporto Leite Lopes, entre tantos outros projetos, também destacados pela Revide. “A revista era um semanário indispensável e presente na vida do ribeirãopretano, que tinha na publicação, uma voz pra seus anseios e reivindicações”, frisa Pedro.

Coragem acirrada
Em uma manhã de julho de 1986, duas jovens surpreenderam o prefeito João Gilberto Sampaio. Foram ao se gabinete, no Palácio Rio Branco, e queriam mais do que uma entrevista, pretendiam entender como funcionava o governo municipal. Foi aí que ele conheceu as jornalistas Isabel de Farias e Mônica Marques. Falaram do desafio de lançar uma revista mensal, de grande tiragem, e com foco centrado nas editorias de política e negócios. “Gostei da coragem e da audácia das meninas. Não me admira que, após 32 anos, a Revide se transformou em uma das mais dinâmicas publicações do interior brasileiro”, ressalta João, que tem acompanhado essa trajetória.

Segundo o ex-prefeito, hoje, a Revide faz parte do cardápio de comunicação de Ribeirão Preto, levantando denúncias, apontando caminhos e revelando grandes talentos. “Impossível imaginar um final de semana sem Revide, ela faz parte de nosso dia a dia”. Advogado aposentado, João Gilberto recorda que, na semana de lançamento da Revide, chegou a cidade o então presidente José Sarney, que veio conhecer o projeto do governo municipal. “Foram seis anos de administração com a construção de viadutos e avenidas, além de inovações para as áreas de educação e saúde”, aponta o ex-prefeito.

Foi o prefeito que implantou a escola em tempo integral, baseado no governo carioca de Leonel Brizola e sob as bênçãos de Darcy Ribeiro. Por conta disso, inclusive, foi homenageado com seu nome no Centro Municipal de Educação Infantil – Cemei -, João Gilberto Sampaio. “No mesmo dia, Sarney foi chamado às pressas em Brasília, e, duas horas após deixar a cidade, lançava o Plano Cruzado. Antes disso, em uma conversa reservada, no Palácio Rio Branco, o presidente antecipou-me algumas mudanças que pretendia implantar no sistema monetário brasileiro”, relembra João Gilberto.
Vida pública

Com 34 anos dedicados à vida política, em especial como vereador, o advogado Barquet Miguel, pelo sétimo ano, estava à frente da presidência da Câmara em 1986. A carreira advocacia, de 50 anos, foi compartilhada com o trabalho na casa de leis e com o futebol. “Alternando as posições de meia direita e esquerda, tive minhas glórias no esporte amador, sendo campeão varzeano pelo Floresta Futebol Clube e pelo saudoso Clube Paulista, que na época fica na avenida da Saudade, ambos no Campos Elíseos, onde também residia”, relembra Barquet.
No Legislativo, o vereador destaca que cumpriu, rigorosamente, diversos mandatos, sempre defendendo um trabalho sério, muitas vezes, ressaltado também nas publicações da Revide. Em 2001, deixou a Câmara para trabalhar como advogado na área criminalista. “Foram mais de 30 anos de atuação no tribunal de júri”, observa Barquet. Na Câmara, o então presidente da casa, aponta a aprovação de importantes projetos de lei de 86, como o de número 767 que considerou o prédio da rua caramuru, 232 como de valor histórico e cultural para Ribeirão Preto.

Já o projeto 843 autorizou a cessão de uso de imóveis à Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto (Ceterp) para edificação de centrais telefônicas, sendo uma área no Alto da Boa Vista e outra no Ipiranga. No mesmo ano, o Cine Clube Cauim foi declarado de utilidade pública municipal e a Prefeitura criava o parque ecológico Maurilio Biagi.