Missão possível
Transformar o mundo num lugar melhor, por meio da ação voluntária, da doação de tempo e de conhecimentos não é uma missão impossível para Maria Beatriz Oliveira e Mariana Aude Jábali
Amigas de longa data, Mariana Aude Jábali e Maria Beatriz Oliveira compartilham muito além do respeito e do afeto mútuo. Juntas, elas dividem a responsabilidade de gerir e definir os rumos do trabalho desenvolvido pelo Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto (que integra a rede Brasil Voluntário), com pensamento bastante afinado acerca da atividade voluntária, seu desenvolvimento no país e o impacto na sociedade.
Mariana, uma das fundadoras da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), criada em 1999, sente-se bastante incomodada com a visão assistencialista, do ponto de vista da manutenção da relação do forte e do fraco, do protegido e do protetor. “É justamente a inversão desses papéis que me encanta, essa troca, por isso, sempre fui engajada nesse olhar de melhorar a vida da comunidade”, afirma. Maria Beatriz Oliveira, entrevistada pela amiga, demonstra, a seguir, o bom uso que faz de seu potencial comunicativo, da capacidade de organização e da persistência. “Li em algum lugar e tomei para mim uma mensagem que dizia: os incomodados que mudem o mundo”, revela.
Mariana: Você nasceu em São Paulo. Como foi a sua vinda para Ribeirão Preto?
Beatriz: Vim para Ribeirão em 1979, acompanhando meu marido, que queria sair de São Paulo. Sempre gostei da ideia de criar os filhos no interior, achava que a vida seria mais tranquila, e meu filho caçula nasceu aqui. Moramos na cidade por 26 anos, depois voltamos para São Paulo, onde ficamos por mais oito anos, e agora estou de volta, novamente, há pouco mais de um ano, por opção. Gostamos muito da cidade e me considero ribeirãopretana de coração. Até meus filhos que não nasceram aqui, quando perguntados, dizem que são de Ribeirão Preto.
Mariana: Qual a origem do seu envolvimento com o trabalho voluntário. Ele tem influência familiar?
Beatriz: Exerci, por alguns anos, a advocacia, mas sempre gostei muito do trabalho social. Desde mocinha, no colégio de freira onde estudava, trabalhava como voluntária no período gratuito que eles abriam à tarde. Minha mãe fez algum trabalho voluntário, mas algo pequeno. A influência maior foi o incentivo do colégio mesmo. Trabalhei também, em São Paulo, como secretária do Dr. Antônio Clemente, marido da Dona Jô Clemente, fundadores da APAE. Ele me contava como tudo começou e do esforço deles para fundar a entidade, que hoje todo mundo conhece, abre qualquer porta e motiva qualquer pessoa. Isso desabrochou em mim o prazer pelo trabalho voluntário.
Mariana: De que forma iniciou o seu envolvimento com o trabalho voluntário em Ribeirão Preto?
Beatriz: Quando me mudei para cá, aos 29 anos, grávida do terceiro filho e conhecendo pouca gente, comecei a ficar um pouco angustiada. Faltava algo. Meu marido disse que eu precisava trabalhar, que estava sentindo falta do que fazer e, como estava grávida, logo pensei no voluntariado. Foi através da Maria Lúcia Junqueira Reis, já falecida, que encontrei a Casa das Mangueiras. A entidade tinha tido seu auge no trabalho com menores infratores, mas estava um pouco abandonada. Um padre visitava a casa de vez em quando, dois monitores faziam trabalho de marcenaria com os meninos, mas não havia um projeto educativo, um projeto social com uma visão mais ampla de futuro para esses meninos. Eles ficavam ali apenas passando o tempo, porque tinham uma pena a cumprir. Achei que ali havia um campo legal para fazer um trabalho. Fui com a Maria Lúcia atrás da Sueli Danhone, uma das fundadoras, para nos ajudar. Contratamos uma assistente social, reunimos recursos financeiros e humanos, e levantamos a Casa das Mangueiras.
Mariana: Nessa época, conheci você e o José Carlos. Chamou minha atenção, até por experiência própria, ver um casal fazendo algo junto pela comunidade. Vemos poucos casais como vocês, hoje em dia.
Beatriz: O Carlinhos sempre apoiou o trabalho social e me estimulou a desenvolvê-lo. Também arregaçou as mangas e foi junto comigo sempre que pode e tem me ajudado cada vez mais. União é sempre importante, em todos os sentidos. Quando estava na organização Casa Nova, conversava com outras entidades e sentia que tínhamos que nos unir, então, fundamos uma associação chamada União das Entidades Sociais Particulares de Ribeirão Preto (UNEP), com a Neide Riso, da Creche Pingo de Leite e a Julieta Taranto, da Creche Modelo. Muitas outras pessoas estavam envolvidas, mas agora não consigo lembrar. Toda semana tinha reunião para pensar de que forma poderíamos melhorar, não mais apenas cada um lutando por si, mas todas juntas lutando por uma causa comum.
Mariana: Com toda a sua experiência, como você vê a evolução do voluntariado?
Beatriz: Vejo o voluntário hoje muito mais profissional do que ele era. Ainda existe o voluntário assistencialista, mas acredito que estamos conseguindo disseminar outro olhar para a questão do voluntariado e do compromisso que ele exige, através dos cursos de capacitação oferecidos pelo Centro de Voluntariado. Incentivamos que as entidades também façam isso, que capacitem seus voluntários, para que eles assumam o compromisso com a ação voluntária, para que a entidade possa contar com seu serviço e se desenvolver mais do que poderia sem o trabalho desse voluntário.
Mariana: Sem dúvida, o comprometimento é essencial, algo que você demonstrou pelo exemplo. Durante os anos em que esteve em São Paulo, foi nossa diretora, mesmo à distância, não se desligando, e isso mostra, realmente, o voluntário comprometido que toda instituição precisa.
Beatriz: Houve uma época, aqui em Ribeirão ainda, em que tive uma empresa de eventos e me distanciei um pouco, fiquei afastada do dia a dia nas entidades, até chegar um momento em que decidi que o meu negócio mesmo era o trabalho social. Foi quando procurei você, pois já ouvia falar e acompanhava o trabalho do Centro de Voluntariado.
Mariana: A entidade procurar voluntário era mais comum do que ser procurada por ele. Foi uma grata surpresa ter você, a Maria Helena e a Maria Tereza Araújo batendo na nossa porta. Eram pessoas que já vinham com uma bagagem, um olhar, principalmente, muito próximo do nosso, do voluntário como agente transformador e da questão da cidadania participativa.
Beatriz: Acho que nosso trabalho se integrou porque cada uma de nós tem o perfil para fazer um determinado tipo de tarefa, uma foi complementando a outra e formamos uma equipe muito boa, que está lá até hoje.
Mariana: Nosso compromisso com o Centro de Voluntariado só cresceu, tanto que hoje você é nossa presidente. Acho muito produtivo ter outra cabeça à frente, outro olhar, para darmos novos passos. Comente um pouco sobre nossos projetos.
Beatriz: Hoje, temos três projetos em andamento. O “Contadores de Histórias”, baseado no trabalho da Associação Viva e Deixe Viver, de São Paulo, que teve sua primeira turma formada há dez anos e já cobre toda a rede hospitalar, com o setor de pediatria, da cidade. São 90 voluntários que contam histórias para crianças internadas. No “Ouvidores de Histórias”, que já está na sétima turma, capacitamos voluntários que preferem lidar com pessoas idosas. Temos 40 ouvidores e também estamos cobrindo todos os lares para idosos de Ribeirão Preto. Mais recentemente, temos o projeto “Acolher”, que surgiu da necessidade de atender idosos que não estão institucionalizados, mas que são vítimas de violência doméstica ou abandono. Ficamos sabendo de alguns casos através da Pastoral do Idoso, de vizinhos ou da Secretaria Municipal de Assistência Social e resolvemos abrir mais um projeto, fazendo um trabalho domiciliar individualizado, em que um assistente social faz os encaminhamentos que o idoso precisa de saúde, documentos, entre outros, enquanto o “acolhedor” dá atenção a ele, conversa e estimula a sociabilização. Nossa capacidade de atendimento, por enquanto, é de 23 idosos e temos dois voluntários.
Mariana: A questão da sociabilização do idoso é muito difícil. Ele se entrega muito rápido, com frequência, à sua própria condição e à depressão. Você também avalia desta forma?
Beatriz: Com certeza. Esse idoso está sozinho e tem uma necessidade incrível de atenção, sofre de uma carência enorme, mas o assistente social não tem tempo, precisa resolver os problemas, então, o papel do voluntário acolhedor é essencial. No momento, temos a possibilidade de ter um assistente social e 23 é o número que ele consegue atender. Se tivermos uma verba maior, para contratar mais um assistente social, podemos ampliar o programa. Nossa ideia é ter um local onde possamos criar um Centro de Convivência. Este é um dos sonhos ainda por realizar.
Mariana: Neste primeiro ano de presidência, qual foi seu maior desafio no Centro de Voluntariado?
Beatriz: Quando cheguei de volta, vi um Centro de Voluntariado muito maior do que havia deixado. Já não havia mais apenas um projeto em andamento, mas quatro. Um deles, que aborda a direção e a bebida, está sendo repensado. Então, fui conhecer o funcionamento de cada programa para pensar de que maneira poderia contribuir para seu crescimento. Há, ainda, outro braço do trabalho, que não é algo nosso, mas está pipocando no Brasil inteiro e que nossos projetos já fazem: a humanização da saúde. Fizemos um simpósio, no dia 20 de março, para tratar deste assunto. Entendemos que o profissional precisa cumprir as tarefas para o bom atendimento do paciente, mas uma das palestrantes fez um comentário bastante pertinente acerca do inacreditável de se ter que “humanizar os humanos”. Tão estranho como se tivéssemos que “cachorrificar os cães” ou “gatificar os gatos”.
Mariana: Quais os planos e as metas de trabalho da sua gestão?
Beatriz: Ainda mantendo esse olhar dentro da humanização da saúde. Temos um projeto para colocar em prática — um sonho —, de termos voluntários nos hospitais, assim como existem nos hospitais Sírio Libanês e Albert Einstein, em São Paulo, trabalhando desde a chegada do paciente, durante todo o período de seus atendimento, até a sua desinternação, acompanhando-o, dando uma palavra de carinho, um apoio, ajudando em alguma dificuldade. Estamos querendo implantar isso aqui em Ribeirão Preto também, pois acho que complementaria nosso trabalho e auxiliaria os profissionais da saúde.
Mariana: Qual é a mudança mais significativa que notou no perfil do voluntário com o passar do tempo?
Beatriz: A mudança maior foi das instituições em relação aos voluntários, o interesse da instituição em contratar voluntários mais comprometidos, mais profissionalizados. Antes, qualquer voluntário servia. Agora, as instituições estão muito mais exigentes e isso faz com que o voluntário também dê uma resposta à altura. Valdir Cimino, presidente da Associação Viva e Deixe Viver, conta, em seu livro, que levou um susto quando chegou a um hospital em Nova York querendo ser voluntário e eles responderam que veriam se o queriam ali. Hoje, é assim que o voluntário é recebido na instituição: “veremos se o que você pode oferecer é o que estamos precisando”.
Mariana: Levantamos esse ponto, em nosso Simpósio, sobre estar exigindo muito do voluntário. Precisa haver um equilíbrio entre a necessidade e a vontade. Você lembra?
Beatriz: Com certeza. Não estou falando apenas do voluntário que tem uma profissão liberal, mas do que leva esse trabalho como um profissional levaria, com compromisso, com horário, afinal, a pessoa atendida, idosa ou criança, fica na expectativa. Se o voluntário não tem esse comprometimento, não aparece no compromisso agendado, é mais uma frustração na vida difícil que ela está tendo naquele momento.
Mariana: Não podemos esquecer que, no Brasil, não temos essa cultura para o voluntariado cidadão, não somos ensinados desde criança a valorizá-lo, por isso, diante da primeira dificuldade, a pessoa deixa de fazer o trabalho voluntariado. Essa instabilidade não cria uma desmotivação nas instituições?
Beatriz: Isso melhorou, tanto da parte do voluntário quanto da instituição, que já deixa isso bem claro para ele logo no início. Algo que as entidades podem se atentar para diminuir a instabilidade é manter organizada a atuação desse voluntário, ter um trabalho determinado para ele fazer. Sem um serviço certo, ele desanima. O voluntário tem que saber o que vai fazer na instituição e sentir que está sendo importante. A instituição precisa deixar claro para ele que sua capacidade de atendimento é 10, mas, por causa do seu trabalho, está conseguindo atender 12. Essa é a remuneração do voluntário.
Mariana: Na sua visão, o trabalho voluntário está evoluindo?
Beatriz: Acho que vem crescendo ano a ano. Em países de primeiro mundo, o trabalho voluntário é muito valorizado, contando até como currículo. A globalização e os intercâmbios estão espalhando essa cultura. A imprensa também colaborou muito, mostrando o trabalho organizado, anônimo e sistematizado de muitas pessoas e instituições.
Mariana: Também vejo isso, mas a que você atribui esse crescimento quando o associamos ao Centro de Voluntariado?
Beatriz: Vejo que o Centro de Voluntariado cresce à medida que nos mostramos organizados. Quando fazíamos grupos de voluntários para outras instituições, bem no começo, as pessoas iam para outras entidades e perdíamos um pouco o contato. A partir do momento em que começamos a organizar os nossos próprios voluntários, eles sentiram que ali tinha um projeto com começo, meio e fim, e se animaram a fazer parte. Por isso, hoje, temos salas cheias em nossas capacitações.
Beatriz: Invertendo um pouco os papeis, gostaria que você, Mariana, comentasse como as empresas reagiram ao voluntariado nesses 20 anos?
Mariana: Nesse período, as empresas ficaram muito mais atentas e abertas à questão do voluntariado. Hoje, temos empresas que querem investir num bom projeto social, ajudando a comunidade, incentivando seus funcionários a participarem e também criando seu próprio projeto social. No voluntariado corporativo, todos ganham: a comunidade, a empresa e os funcionários, pois há um outro olhar.
EXEMPLO PARA NOVAS GERAÇÕES
“Foi muito prazeroso fazer esta entrevista com a Maria Beatriz, carinhosamente Tiz, por poder trazer para os leitores um pouco desta mulher sensível e realizadora. Conheço-a há muito tempo, em diferentes momentos de sua vida, de sua trajetória, e hoje ela é presidente do Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto, com muito gosto. O que mais admiro nela é sua capacidade de organização, aliada ao otimismo e à responsabilidade. Um lado que ressalto na entrevista e que sempre me encantou é o jeito de Tiz e de José Carlos, seu marido, terem um projeto em comum, de casal, prontos a ajudar, fazendo sua parte, conscientes de sua responsabilidade social. Isso é muito gratificante e serve de exemplo para as novas gerações. Quando participamos, não ficamos alienados e podemos transformar para melhor a realidade que nos inquieta”.
Mariana Aude Jábali, vice-presidente do Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto
Texto: Yara Racy
Fotos: Ibraim Leão