Mortes no trânsito

Mortes no trânsito

Ribeirão Preto fechou 2017 com alta no número de vítimas fatais no trânsito: 92 pessoas perderam a vida no ano passado, ante 82 em 2016, o que significa um aumento de 12,2%

Utilizar o cinto de segurança ou o capacete, acionar a seta antes de mudar de faixa, nunca dispensar os equipamentos de segurança para bebês e crianças, respeitar os limites de velocidade, observar atentamente o semáforo: essas e outras atitudes ajudam a garantir um fluxo de veículos civilizado e seguro. No entanto, o índice alarmante de acidentes em Ribeirão Preto indica que a postura de motoristas, motociclistas e pedestres não está nem próxima da ideal. Para os especialistas, as causas dos altos índices de acidentes, inclusive fatais, não devem ser atribuídos apenas à imprudência e ao desrespeito às leis, mas também à falta de mobilidade urbana e de planejamento. 

Segundo pesquisa realizada pela Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP), por meio do Departamento de Inteligência Competitiva, e pelo Instituto de Economia Maurílio Biagi, a frota de veículos na região já ultrapassa 900 mil unidades. Somente em Ribeirão Preto, há registrados mais de 500 mil veículos para 682.302 habitantes, o significa que há um carro para cada 1,2 habitante.

Nos últimos 20 anos, a frota cresceu 148%, de acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (DetranSP), passando de 215.043 automóveis, em 1997, para 532.814, em dezembro de 2017. No mesmo período, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população ribeirãopretana cresceu aproximadamente 48%. 

Em maio deste ano, os motociclistas lideraram as estatísticas de acidentes fatais no trânsito, correspondendo a 35,2% das vítimas (157 acidentes), seguidos pelos pedestres (27,6%), ocupantes de automóveis (22,9%) e ciclistas (9,6%). A maior parte dos acidentes ocorre durante a madrugada (54,3%) e nos finais de semana (37,8%). Jovens com idade entre 18 e 29 anos correspondem a 28,3% das vítimas (126 ocorrências) e os homens representam 82,3% dos casos.

O Infosiga, banco de dados de acidentes do governo estadual, aponta 47 óbitos de janeiro a junho deste ano — uma morte a quatro dias. No mesmo período do ano passado, os números chegaram a 44 mortes registradas, sendo 39  homens e cinco mulheres.

As vias municipais matam mais que as rodovias: 64% dos acidentes fatais deste ano aconteceram na cidade, contra 28% em 2017. Segundo a pesquisa, o sábado é o dia da semana em que mais acontecem acidentes fatais — 16 no total, de 47 até o sexto mês do ano.  

Não é fatalidade 

Os exemplos ilustram a incidência de mortes, principalmente, entre os motociclistas: a cada 11 dias, um deles perde a vida no trânsito da cidade. Segundo o Infosiga, entre janeiro de 2015 e abril deste ano, das 281 pessoas que perderam a vida, 104 eram motociclistas, o que representa 37% do total de mortes ocorridas nas vias municipais.

Nesta semana, uma estudante de 33 anos morreu depois de se envolver em um acidente de moto. De acordo com Boletim de Ocorrência (B.O.), a jovem estava na Avenida Doutor Plínio de Castro Prado, no Jardim Paulista, na Zona Leste de Ribeirão Preto, quando um taxista virou na rua Síria e colidiu contra a moto. A vítima foi socorrida e encaminhada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Treze de Maio e, em seguida, à EU-HC, onde permaneceu internada com fraturas pelo corpo. A estudante  não resistiu aos ferimentos. 

Na segunda quinzena de julho, outro motociclista perdeu a vida após bater contra um carro em cruzamento entre as ruas Padre Anchieta e Coronel Camisão, no Monte Alegre, Zona Oeste de Ribeirão Preto.  A moto foi jogada contra um poste de energia elétrica e o condutor da moto morreu. 
Para Luiz Gustavo, faltam investimentos em segurança viária, fiscalização, sinalização e programas de educação no trânsito no município
A falta de gestão e de investimentos em pessoas e em equipamentos são grandes problemas, na avaliação do especialista em trânsito, Luiz Gustavo Correa. Embora a imprudência seja um fator muito importante quando se busca explicações para o alto índice de acidentes, vale a pena garantir, segundo Luiz Gustavo, em fiscalização. “Apesar da elevada frota de veículos, Ribeirão Preto possui somente 30 agentes de trânsito, o que significa que cada um deles precisa dar conta de 176 mil veículos. Fica claro, portanto, que a quantidade de fiscalizadores é insuficiente para atender à necessidade do município. Os condutores sabem que a fiscalização do trânsito na cidade é falha e acabam cometendo muitas infrações, o que facilita a ocorrência de acidentes”, comenta.

De acordo com o Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), 90% dos acidentes ocorrem por falhas humanas — que podem envolver desde a desatenção dos motoristas até o desrespeito à legislação. Os exemplos são claros: excesso de velocidade, uso do celular, falta de equipamentos de segurança como cinto de segurança ou capacete, consumo de bebidas antes de dirigir e até dirigir excessivamente cansado.

Para Luiz Gustavo, o município está na contramão de outros municípios paulistas de mesmo porte, que já verificam índices de acidente mais baixos graças ao modelo de gestão e aos investimentos em segurança, fiscalização, sinalização e educação no trânsito. “A formação do condutor deve ser melhorada e iniciada nos primeiros anos escolares, como disciplina obrigatória na grade curricular. A sociedade trata o acidente como fatalidade, mas não é. Essas ocorrências podem ser evitadas se a segurança no trânsito for realmente levada a sério”, completa. 

A mobilidade urbana também é um desafio a ser vencido pela gestão municipal capaz de colaborar para a diminuição dos acidentes de trânsito. De acordo com o especialista, faixas exclusivas para ônibus — realidade em muitas cidades menores para atrair o cidadão e reduzir a utilização de veículos individuais — e amplas avenidas com canteiros centrais que ofereçam ciclovias para o cidadão que deseja abandonar os veículos são algumas iniciativas possíveis. “Investir em Mobilidade Urbana é muito mais do que construir pontes: é apresentar alternativas para os munícipes”, conclui.

Em nota, a Empresa de Trânsito e Transporte Urbano de Ribeirão Preto S/A (Transerp) informa que tem reforçado ações educativas, objetivando alertar sobre as infrações e conscientizar sobre a redução de acidentes no trânsito. Entre as ações estão o programa Siga Consciente, que alcançou mais de 19 mil pessoas no primeiro semestre do ano, e o Habilita Seguro, que realiza palestras nos Centros de Formação de Condutores (CFC) com foco, principalmente, em acidentes envolvendo motociclistas por meio de fotos, vídeos, estatísticas e alertas sobre as infrações mais registradas. “Este projeto é uma das diversas medidas que têm sido adotadas pela empresa para contribuir na redução dos acidentes. Além deste momento educativo nos CFCs, a Transerp tem realizado blitze educativas, principalmente, em datas alusivas ao trânsito, como Carnaval Seguro, Maio Amarelo, julho (Dia do Motociclista e do Motorista), setembro (Semana Nacional do Trânsito) (...). No Maio Amarelo deste ano, a Transerp, juntamente com o grupo de prevenção de acidentes, alcançou mais de dez mil pessoas em mais de 40 ações realizadas em todas as regiões da cidade. Em 2018, a Transerp intensificará os trabalhos de prevenção aos acidentes de trânsito por meio do seu programa educativo”, segue a nota.

R$ 4 milhões em saúde

Esse é o valor que os pacientes que chegam à Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas (UE-HC) de Ribeirão Preto custam ao Sistema Único de Saúde (SUS). A média de cada um deles gira em torno de R$ 2 mil. Segundo o diretor de trauma do HCFMRP-USP, Maurício Godinho (CRM: 108.740), quando os acidentes não resultam em mortes, os pacientes permanecem, muitas vezes, mais de 30 dias internados, afastam-se do trabalho e necessitam de um período de reabilitação de três meses para se recuperarem. Muitos, ainda, precisam aprender a conviver com sequelas definitivas, que demandam assistência especializada pelo resto da vida. “O número de eventos traumáticos que chegam à Unidade de Emergência vem se repetindo nos últimos anos. Recebemos cerca de três mil casos do gênero por ano e, entre eles, aproximadamente mil são considerados graves. O impacto não acontece exclusivamente dentro do ambiente hospitalar, mas, também,  no atendimento pré-hospitalar e na reabilitação dos doentes”, comenta o médico. 
Segundo Maurício, os custos de pacientes acidentados também impactam no atendimento pré-hospitalar e no processo de reabilitação
Depois do atendimento ambulatorial, os pacientes continuam o tratamento junto a diversas especialidades, passando por acompanhamento constante, exames, novas intervenções cirúrgicas e, em muitos casos, fisioterapia durante um longo período da vida, o que gera um custo ainda maior. 

Diante de tantos desdobramentos, fica ainda mais clara a necessidade de ampliar os investimentos na formação de condutores. Segundo Maurício, este é um problema nacional, que também passa pela mudança de comportamento. “Precisamos investir em prevenção. Um bom exemplo é o programa canadense chamado PARTY, realizado em diversas cidades — inclusive em Ribeirão Preto — que tem como missão a conscientização de jovens frente aos riscos no trânsito relacionados a atitudes impensadas e seus agravos à saúde, no plano individual e coletivo, principalmente, quando envolve o consumo de álcool”, conclui.

Texto: Cristiane Araujo | Fotos: Julio Sian e José Cruz/ Agência Brasil | Arte: Tiago Leite | 

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