Motor da economia
Mercado imobiliário local deve encerrar o ano com saldo positivo de movimentação, mesmo com a crise causada pelo novo coronavírus, e tem boas perspectivas de crescimento para 2021
Em um ano de transformações profundas na sociedade e na economia, o mercado de imóveis também precisou se reinventar, mas passou ao largo dos fortes impactos da crise e ainda encontrou espaço para crescimento. Em Ribeirão Preto e região, o cenário de preços favoráveis e juros baixos tornou a compra do imóvel um negócio atrativo e, tendo a tecnologia como aliada, ajudou a manter a economia ativa.
Com resultados positivos mesmo em um cenário macro desfavorável em 2020, as perspectivas para 2021 no mercado de imóveis seguem otimistas.
Na entrevista a seguir, o professor Doutor em Finanças da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Inepad da Axis Health Finance, Alberto Borges Matias, analisa o mercado local e explica como o setor voltará a se consolidar como forte motor da economia.
A pandemia do novo coronavírus atingiu a economia mundial e vários setores sofreram as consequências. Porém, mesmo em um cenário geral desfavorável, índices apontaram resultados positivos no mercado imobiliário. Isso realmente aconteceu? Quais fatores explicam esse comportamento?
Realmente aconteceu, e é visível na construção de casas e apartamentos. Em razão da pandemia, foi fomentado o home office, trabalho no escritório em casa. Como a maioria das residências não tem escritório, ocorreu uma demanda por espaços maiores, em condomínios e prédios. E por que não procurar um lugar mais agradável no interior dos estados e às margens do mar? Assim, temos também um êxodo para o interior, no qual a cidade de Ribeirão Preto cativou a atenção. O Governo Federal fomentou a enorme queda da taxa de juros, tanto a Selic quanto taxas de operações de crédito para pessoas físicas e jurídicas, e liberou depósitos compulsórios das carteiras para fomento ao crédito imobiliário. É ao que estamos assistindo. Nesta demanda forte do setor falta mão de obra, faltam materiais, faltam terrenos disponíveis, faltam imóveis disponíveis para atender a demanda. Os preços subiram, a inflação do setor imobiliário subiu. É o retorno do crescimento econômico ao setor, que só precisa organizar demanda e oferta, e o mercado realiza esse equilíbrio via preço.
Qual foi o peso e de que maneira a taxa de juros influenciou o mercado imobiliário neste ano?
Com a queda da taxa de juros básica da economia, a Selic, houve queda da taxa de juros de aplicações de renda fixa — CDBs, RDBs, Fundos de Renda Fixa, dentre outros — forçando esses investidores a procurarem outras aplicações, como ações, fundos imobiliários e imóveis, o que explica parte do crescimento da demanda do setor. Por que esse investidor tem que aceitar ganhar 2% de juros ao ano, contra 3% de inflação pelo IPCA — Índice de Preços ao Consumidor Amplo —, se pode tentar ganhar mais em ações, fundos imobiliários e imóveis? Política de juros baixos e disponibilidade de crédito são essenciais ao crescimento do setor.
E qual foi o papel do governo nesse cenário?
Foi fundamental o papel do governo federal neste cenário, foi um brilhante projeto do Ministério da Economia, da Presidência da República, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, muito bem administrados. Esse é o resultado de uma boa gestão, que falta em muitas empresas. O grande órgão fomentador para o setor é a Caixa Econômica Federal, e ela atuou fortemente para viabilizar a retomada do setor.
Há perspectiva de o mercado imobiliário encerrar o ano de 2020 com saldo positivo em movimentação, tendo em vista a queda na economia? Podemos, de maneira geral, dizer que o setor sofreu “menos danos” e fechará o ano com resultado satisfatório?
Ocorreu essa queda na economia apenas ao final do primeiro trimestre e durante o início do segundo trimestre, e foi bem menor do que era previsto, o que animou o mercado consumidor, de bens, serviços e imóveis. Eu acredito que, entre o aumento do desemprego desse período e o aumento do emprego atual, poderemos fechar o ano sem aumento de desemprego no total do ano. O mercado imobiliário irá fechar o ano de 2020 acima do ano de 2019, o que poderá ser arrefecido por uma possível segunda onda do Covid-19 após a eleição. O problema está sendo atender a demanda em bens específicos. Esse crescimento do setor é de extrema importância ao fomento do emprego e da renda do país.
Dentro do mercado de imóveis, quais foram os segmentos que ganham destaque durante os negócios neste ano? E quais não conseguiram bons resultados?
O fomento da demanda ocorreu ao início em espaços maiores, próprios ao home office e ao êxodo provocado. Assim, terrenos residenciais maiores, condomínios, apartamentos maiores tiveram crescimento na procura. O lado negativo ficou pelos espaços empresariais, escritórios e espaços de rua e shopping. Está havendo aumento de demanda para instalação de dark stores [pontos de estoque e distribuição do comércio virtual] para fazer frente a espaços para atendimento de aplicativos de entrega de alimentos, cosméticos e outros.
A tecnologia foi uma forte aliada durante a pandemia. De que forma ela também impactou o setor?
Hoje a tecnologia existe em praticamente tudo no setor: na busca de imóveis por aplicativos, na venda do imóvel por plataformas de comunicação, na apresentação do produto pelo site, na simulação da mobília por aplicativos, na elaboração do projeto de construção e decoração do imóvel, na elaboração da documentação inclusive com assinatura digital, no treinamento dos funcionários da obra por plataforma de ensino. Ah, para limpar o imóvel também há tecnologia.
Em Ribeirão Preto e região, mesmo com todas as adaptações de trabalho exigidas pela pandemia, o setor imobiliário também teve essa resposta?
Foi criado o e-commerce imobiliário, com atendimento aos clientes por plataformas de vídeo conferência, sites mais expositivos dos produtos imobiliários e até simulações de vista. O setor local se adequou muito rápido para atender essa demanda.
A movimentação no mercado de imóveis neste ano teve um perfil mais investidor ou de pessoas que compraram com o intuito de morar e construir?
Tivemos todos os agentes operando o crescimento do mercado, e todos são importantes: investidores e compradores finais. Estamos vivendo um importante momento, e o Brasil será modelo nesta retomada.
Em relação às expectativas para o mercado no próximo ano, já é possível traçar tendências em relação aos preços, movimentação de vendas em Ribeirão Preto e região? Há estimativa de bons negócios?
Estamos vivendo um momento de muitos comentários sobre forte elevação da inflação e forte crescimento da dívida pública. O IPCA deve fechar este ano ao redor de 3,5%, ao ano, e ao redor deste mesmo valor em 2021, ou seja, inflação sob controle para 2021. Alguns produtos que venham a ter maior demanda ou produção menor devem ter crescimento de preço. As previsões do mercado financeiro são de crescimento do PIB superior a 3% ao ano — é uma taxa pequena, mas é um grande estímulo aos empresários. E o setor imobiliário voltará a se consolidar como forte motor da economia.