Mudança de estratégia

Mudança de estratégia

Segundo Chaim Zaher, próximos investimentos estarão focados na educação básica

Texto: Luiza Meirelles | Fotos: Carolina Alves

Quem acompanhou o noticiário na última semana sabe que Ribeirão Preto foi palco de uma das maiores negociações no segmento da educação dos últimos tempos. O Centro Universitário UniSEB, até então integrante do Sistema Educacional Brasileiro S.A. (SEB), passou a fazer parte do Grupo Estácio, rede que possui 40 anos de tradição no Ensino Superior, com sede no Rio de Janeiro e investimentos em todo o país. A transação, anunciada no dia 12 de setembro, foi fechada em R$ 615 milhões, cifra que aguarda a liberação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), autarquia vinculada ao Ministério da Justiça responsável pela avaliação dos negócios de grande porte diante da legislação brasileira. Metade desse valor será pago em ações da empresa.

À frente do negócio está o empresário Chaim Zaher, detentor do maior grupo de educação básica do país — como explica ele mesmo — em relação ao número de alunos em unidades próprias. O empresário, no entanto, continuará integrando o UniSEB, já que receberá parte dos recursos em ações do Grupo, o que será suficiente para fazer dele o maior acionista individual. “Digo que foi uma venda, mas não é bem isso. Considero que a venda se concretiza quando eu pego o dinheiro e vou embora. Nesse caso, continuarei fazendo parte da Instituição, como membro do Conselho e como principal acionista individual, depois da aprovação do Cade”, explica Zaher, que criou as Faculdades COC, de onde surgiu o UniSEB, em 1999.

De acordo com o empresário da Educação, a decisão foi tomada por uma questão de posicionamento. “No Ensino Superior, não posso dizer que estava entre os maiores, mas também não era pequeno. E nos negócios, não há meio termo. Até poderia investir e fazer frente aos grandes grupos, mas isso tomaria muito tempo e dinheiro. Por isso, escolhi me associar a um grande Grupo e me adequar à tendência que se verifica no Ensino Superior”, argumenta. Para o empresário, antecipar-se aos próximos passos do mercado e enquadrar-se o quanto antes é o segredo para continuar crescendo. Com seus 37,8 mil alunos, incluindo cursos presenciais e a distância (EAD), o UniSEB ajudará o grupo Estácio a ganhar ainda mais corpo, já que a rede já ultrapassou 313 mil alunos, sendo quatro centros universitários, 34 faculdades e 52 polos de ensino à distância em 20 estados. O principal valor agregado será a entrada definitiva da rede no Estado de São Paulo, onde o Grupo carioca tinha pequena penetração.

Depois de autorizada a operação, a Instituição de Ensino Superior ribeirãopretana deverá ser incorporada ao grupo Estácio. No entanto, Zaher garante que nada vai mudar. “Por ser uma marca forte no interior paulista, o nome UniSEB deve ser mantido, assim como nosso corpo docente e estrutura. Na prática, nada vai mudar para os nossos alunos”, garante o empresário.

De acordo com Chaim, o que acontece hoje no Ensino Superior — e que deve ser ainda mais definitivo em três ou quatro anos — é o mesmo movimento que aconteceu no passado com os cursinhos pré-vestibulares. “Na década de 1970 e 1980, observou-se a chegada dos grandes cursinhos da capital ao interior. Quem não manteve-se ligado a essa movimentação e se associou aos grandes, sumiu ou sobreviveu com dificuldades”, recorda o empresário, que começou a ver sua trajetória na educação se consolidar justamente nessa fase.

“Maktub”
Para entender melhor o caminho bem-sucedido do maior empresário da educação de Ribeirão Preto, é preciso voltar no tempo e viajar a Araçatuba, ou melhor, ao Líbano. Este é o país de origem de Chaim Zaher, como sugere seu nome pouco familiar aos ouvidos brasileiros. De lá, veio com a família para o Brasil depois que o pai e o mais velho dos sete irmãos já haviam se estabelecido em Araçatuba. “Essa trajetória começou como muitas outras histórias de imigrantes. Aos poucos, meu pai conseguiu construir um comércio sustentável e trouxe a família toda para junto dele”, relembra.

Mas um mau negócio — o investimento em um restaurante árabe chamado “Quibelândia”, nicho que não fazia parte das expertises da família — levou todos de volta à estaca zero. “Essa experiência me ensinou uma lição: o importante é ser bom naquilo que você gosta e sabe fazer. Não adianta inventar”, ensina o empresário, que chegou a trabalhar de garçom, balconista e diversas outras funções naquele negócio. Mas foi outra experiência ainda bem jovem que tornou evidente seu dom para os negócios. Mascateando, assim como os irmãos, conseguia um resultado muito superior à média dos demais, mas não contava seu segredo, um dia descoberto. Ao chegar à cidade nas redondezas de Pereira Barreto, onde passou a morar, dirigia-se à praça da cidade e oferecia um bom negócio aos engraxates locais: ele passava aos garotos parte dos produtos que deveria vender — uma espécie de calendário em material plástico com dizeres de fé —, colocava uma margem sobre eles e terceirizava à venda. “A caixa de trabalho, eu tomava como garantia”, conta.
A perspicácia para os negócios também se confirmou quando, de volta a Araçatuba a convite do irmão estudante de pedagogia, passou a trabalhar em um cursinho. A ascensão de porteiro a vendedor de matrículas não demorou e a técnica, de sair pela cidade em busca de novos alunos, foi dando cada vez mais certo. “Um dia, meu irmão ficou sabendo que estava para chegar à cidade uma grande rede da capital, a Equipe, cogitando que eu me associasse a ela. Mas, sem capital para investir, resolvi propor para o proprietário do cursinho onde eu trabalhava, que fossem feitos novos investimentos para se tornar mais competitivo.  Resultado: fui demitido”, relata Zaher, que decidiu, então, criar o próprio cursinho, chamado Convequipe.

Ainda em Araçatuba, uma parceria com o grupo Objetivo foi o próximo passo do empresário, que tornou-se amigo e sócio de João Carlos Di Genio — seu padrinho de casamento —, proprietário do Grupo. A sociedade apareceu quando Chaim foi convidado a mudar-se para Ribeirão Preto e comandar uma unidade do Grupo. Em dois anos, a escola estava estabelecida e Chaim voltou a assumir sua escola em Araçatuba.  “Mas adquiri a certeza de que estava preparado para encarar um desafio em um centro maior. Nesse momento, fui procurado pelos proprietários do COC para adquirir o negócio. Resisti por um tempo em respeito a Di Genio, mas acabei me desligando do Objetivo e adquirindo o COC em 1986”, conta.

Para a aquisição, Zaher investiu tudo o que tinha, mas o negócio deu certo. Naquele momento, eram 1.800 alunos, sendo 900 bolsistas, e o empresário apostou todas as suas fichas em publicidade. “Quitei meu investimento, que correspondia a quatro caminhões financiados com as matrículas do primeiro ano. E assim fomos evoluindo rapidamente”, recorda.  Segundo o empresário, essa trajetória já estava escrita, como define a palavra árabe que repete: “maktub”.

De olho no mercado
Manter-se atento às tendências do segmento é um dos segredos de Chaim. “Se você fizer o que gosta, terá condições de estar um passo à frente”, ensina o empresário, que já demonstrou grande sensibilidade para antecipar-se. Um exemplo foi ter sido pioneiro na adoção de novas tecnologias em sala de aula. Já no início dos anos 2000, os alunos do COC podiam acompanhar diversas aulas utilizando tecnologia 3D, uma ideia que nasceu em uma viagem com a família. “Estava com as minhas filhas na Disney quando imaginei que a novidade poderia ser utilizada na educação”, lembra Chaim, confessando que, em alguns momentos, a antecipação foi até excessiva. “Mas acertamos muito mais do que erramos”, avalia. Outra sacada que surgiu em um momento de lazer, há 21 anos, foi a COClândia, que tornou-se referência na educação infantil. “Estava viajando com as minhas filhas, quando me deparei com ‘A cidade das crianças’. Mais uma vez, aquilo me pareceu extremamente viável como ferramenta didática”, acrescenta o empresário.

Entre as mais recentes antecipações de Chaim está a abertura de capital, empreendida em 2007. “Quase desistimos da operação, por conta de uma instabilidade no mercado financeiro global, mas seguimos adiante e levantamos recursos para novos investimentos”, recorda. Com a IPO (da sigla em inglês para Oferta Pública Inicial, que significa o lançamento de ações na Bolsa de Valores, o que permite que diversas pessoas físicas e jurídicas se tornem uma espécie de “sócio” da empresa em questão, injetando recursos), o agora Sistema Brasileiro de Ensino (SEB) COC ganhou novo fôlego para crescer. Em dois anos, foram investidos quase R$ 200 milhões em diversas aquisições e a empresa triplicou de tamanho.

Além da marca SEB COC, o grupo passou a comandar a rede Dom Bosco, no Paraná, Pueri Domus, na capital paulista e Inei, em Brasília. Atualmente, o Grupo SEB está presente em mais de 15 cidades, com unidades próprias, apenas com educação básica e média, que voltam a ser a prioridade de Zaher. “Eu gosto mesmo é da educação básica e, nesse sentido, ampliaremos nossos investimentos”, antecipa. Em Ribeirão Preto, o grupo irá inaugurar uma nova unidade, na Zona Sul, em um formato ainda mais inovador: com ensino bilíngue. “Esta proposta já existe nas nossas unidades Pueri Domus, e de forma eficaz. Esta será também uma tendência para os próximos anos”, garante. O empresário não tem medo de errar porque entende muito bem a cartilha. “A família brasileira está mudando. Os pais contemporâneos querem uma instituição de ensino em período integral, mas não apenas um depósito de crianças e adolescentes. Além disso, falar inglês já não é diferencial, mas obrigação para quem quiser se dar bem em um mercado global”, afirma Zaher. O formato que será aplicado prevê aulas de matemática, física e química, entre outras disciplinas, em inglês. “Além disso, por meio de parcerias com high schools americanas e inglesas, daremos aos alunos a possibilidade de continuar os estudos no exterior”, acrescenta.

A iniciativa, que deverá ser replicada Brasil afora, pretende consolidar ainda mais o grupo no segmento. “O movimento que estamos vendo hoje no ensino superior, da criação de grandes grupos como referência, com certeza chegará também às outras etapas da educação. E quando a hora chegar, terei condições de me tornar um forte consolidador”, planeja o empresário que, aos 59 anos, nem pensa em parar. “Muitos me perguntam se planejo encerrar a carreira ou tirar férias indefinidas. Mas, para quem cresceu acostumado ao trabalho, para quem é verdadeiramente um empreendedor, planos como estes não existem”, explica. Muito pelo contrário, aliás. Zaher revela que seu projeto para a educação básica não se limita às fronteiras geográficas brasileiras. “Já temos algumas tratativas com escolas no México, por exemplo, e também vislumbramos outros países da América Latina e até os Estados Unidos”, acrescenta.

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