Mudando a realidade

Mudando a realidade

A ONG oferece para as crianças aula de balé, percussão, teatro, artesanato e complementação escolar

O desejo de um empresário ribeirãopretano de contribuir para a formação da sociedade tomou forma e proporções que superaram expectativas. Eduardo Valeriano da Silva, em meados de 1996, iniciou um trabalho que culminou, anos mais tarde, num movimento de nível nacional.

Com o apoio da iniciativa privada, Valeriano passou a ministrar palestras gratuitas em empresas da cidade. O intuito do projeto era promover uma interação entre a família, a empresa, a escola e a comunidade e, através de suas palestras, previnir os pais da má influência de brinquedos perigosos, armas virtuais e games que incentivam a violência, usados com frequência por seus filhos.

A ideia era conscientizar os pais, e futuros pais, sobre a importância da participação afetiva na vida dos filhos, através do diálogo e de reuniões familiares. Suas palestras enfatizavam a importância do comprometimento no ambiente de trabalho como extensão do lar, além da importância da qualificação, do trabalho em equipe, do relacionamento interpessoal e motivação na busca do equilíbrio profissional.

Através das palestras, buscava orientar e apresentar alternativas como: brinquedos pedagógicos e didáticos, em substituição aos brinquedos que incentivam a violência, beneficiando a todos que participam.  

No final da década de 1990, Eduardo Valeriano buscou apoio do empresariado da cidade e, com importantes parcerias - como a que conseguiu com a fábrica de brinquedos Big Star, passou a oferecer kits exclusivos de brinquedos educativos aos pais que participavam das palestras.

Neste período, a iniciativa do empresário passou a chamar a atenção de palestrantes de todo o país e mais colaboradores se juntaram à causa. Profissionais nos estados de São Paulo, Paraná, Rio Grande do Norte e Bahia passaram a ministrar as palestras desenvolvidas pelo empresário.

“Sei que no íntimo do Eduardo, desde muito jovem, havia a vontade e o sonho de fazer algo para a sociedade, retribuindo todas as chances e oportunidades que lhe foram dadas. E foi o que ele fez”, conta a esposa, Luzia da Silva, proprietária, ao lado da filha Clarice Vanessa Silva Facioli, do Projeto Criança Feliz.

Nasce uma ONG
Foi com o sucesso das palestras que Eduardo Valeriano percebeu a necessidade de criar uma ONG que atendesse as crianças e adolescentes e oferecesse suporte às famílias. Assim nasceu o Projeto Criança Feliz, mantido com o dinheiro da venda dos Kits Exclusivos de Brinquedos Educativos.

Contudo, cinco anos após a abertura da ONG, em 2010, para a tristeza de todos os envolvidos no Projeto, o empresário faleceu aos 54 anos e, sem a figura inspiradora do criador do Criança Feliz, muitos dos colaboradores do projeto, deixaram de participar para trabalhar em projetos pessoais.

A equipe, formada por psicóloga, assistente social, coordenadora pedagógica, educador físico, pedagogos, médica pediatra e auxiliar limpeza, viu-se com um grande desafio: manter a ONG funcionando. Então, para cobrir os gastos e manter os projetos, como o curso de Informática para a comunidade, curso de corte e costura, horta comunitária, educação ambiental, curso de panificação e escola de futebol, a coordenação passou a buscar, ainda sem sucesso, incentivo junto a instituições através de editais.

“Com a morte do sr. Eduardo deixamos de ser mantenedores para nos tornarmos colaboradores da ONG. Estamos à procura de mais colaboradores para que continuemos trabalhando com sucesso”, explica Márcio Gonçalves, diretor do Projeto Criança Feliz.

O diretor entrou no projeto à convite de seu irmão Silvio Gonçalves, diretor financeiro do “Criança Feliz”. Assumindo a diretoria, Márcio se tornou responsável pelos conteúdos das palestras motivacionais e da coordenação e treinamento dos palestrantes e viaja o país em busca de novos colaboradores. “É como trabalho de formiguinha em que se trabalha duro para ter bons frutos”, ressalta o diretor.

Os maiores desafios da ONG apareceram em 2010, após a morte do idealizador do “Criança Feliz” pois, segundo o diretor, os projetos continuaram crescendo e recebendo mais crianças e adolescentes, no entanto, a receita da organização não acompanhou tal crescimento e ainda tiveram o desligamento de alguns palestrantes colaboradores.

À procura de recursos
O gerente da Caixa Econômica Federal e diretor financeiro do Projeto Criança Feliz, Silvio Gonçalves, está trabalhando duro para conseguir recursos financeiros e realizar um dos maiores sonhos dos colaboradores da ONG: A construção de uma creche e uma sede própria para o projeto.

A dra. Flávia Pileggi Gonçalves, docente adjunto do curso de medicina da Universidade Federeal de São Carlos, esposa de Silvio e vice-presidente da ONG, afirma que as duas casas que o projeto ocupa no bairro Quintino Facci I já não suportam todas as atividades oferecidas por eles.

A ONG oferece para as crianças aula de balé, percussão, teatro, artesanato e complementação escolar. “Além destes cursos, utilizamos a quadra e o campo do bairro para ministrar aulas de esporte com o professor Valtinho”, pontua a vice-presidente.

Flávia é médica pediatra e conta que um trabalho de saúde preventivo é realizado com as crianças e adolescentes. Ela avalia e orienta no cuidado dos jovens e o dentista Edmilson Bersanti disponibiliza profissionais de sua equipe para orientar na saude bucal dos frequentadores da ONG.

As famílias dos jovens assistidos contam ainda com sessões de acupuntura, realizadas pela professora Raquel.

Na rota do tráfico
O empresário Eduardo Valeriano da Silva, quando idealizou a ONG juntamente com a Dra. Flávia Pileggi, pensou que seria melhor começar por um bairro com alto risco social. Escolheram o Quintino Facci I, que é circundado pelos bairros Jardim Aeroporto, Salgado Filho, Parque Avelino, entre outros bairros do entorno. A vice-presidente afirma que a ONG, no início, não era bem vista pelos moradores do bairro, pois a vizinhança não aceitava a circulação das crianças de outros bairros dentro do Quintino I. “O bairro faz parte de uma rota de tráfico, por isso, tinham medo. Mas agora perceberam o bem que estamos fazendo às crianças”, diz.

A médica pediatra lamenta a perda de algumas crianças para o tráfico, mas comemora o fato de ter conseguido mudar a realidade de muitos jovens que foram aliciados pelo tráfico. “Muitos deles saíram das ruas e voltaram pra nós”, conta emocionada.  

Em busca de um futuro melhor, as crianças, quando não estão na escola, estão aproveitando o tempo para aprender novas atividades. A ONG mantem ainda uma parceria com o SENAC e a prefeitura de Ribeirão Preto e, através do transporte que o projeto conseguiu por meio de doação, jovens são levados para participarem dos cursos disponíveis pelo SENAC e pela Prefeitura.

Estruturação
Nascido em família simples, Eduardo Valeriano da Silva fez conquistas importantes ao longo da vida. E o projeto inciado por ele, há quase 20 anos, está prestes a dar um passo importante: tonar-se  o Instituto Crescer Cidadão. “Meu pai cumpriu sua meta e todas as suas missões em vida! Foi muito rápida sua passagem, mas viveu com muita intensidade e sabedoria. Deixou seu legado, através de suas ações, e temos que continuar o que ele começou”, ressalta Clarice Facioli.

Para ajudar
A ONG mantem uma parceria com a empresa de brinquedos Big Star e também com a Itograss, empresa que fornece grama para os campos utilizados para o projeto de futebol "Meninos da Vila", realizado em parceria com o time do Santos Futebol Clube.

Os empresários interessados em abrir suas portas para receber as palestras do Projeto Criança Feliz, devem procurar o diretor do projeto, Márcio Gonçalves, pelo telefone (16) 3877-1113, (16) 9794-6510 ou pelo e-mail [email protected] .

Os interessados em participar, direta ou indiretamente, podem entrar em contato pelo telefone da ONG (16) 3996-8653.

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Texto: Bruno Silva
Foto: Júlio Sian e Arquivo

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