Muita história para contar
Em uma entrevista descontraída concedida à Maria Amélia Busnardo, Nilson Curti conta sobre o início da carreira, analisa a situação atual do setor educacional e
 (9).jpg)
Nascido em Santa Albertina, uma pequena cidade no interior de São Paulo, Nilson Curti aprendeu logo cedo a importância e o poder da educação. A infância foi modesta e repleta de aventuras.
Morou em diversas cidades, acompanhando o pai, José Curti, técnico em eletrônica, um empreendedor nato e com alma de artista, que se aventurava em um campo ainda relativamente novo na década de 60: a televisão, participando de lutas livres.
Nilson cresceu nos bastidores do meio artístico e fazia as lutas de abertura com outras crianças nas participações especiais que seu pai realizava em circos, em função do sucesso alcançado através do programa “Gigantes do Ringue”, exibido pela TV Tupi.
Mesmo atarefado, o pai nunca se descuidou dos estudos do filho, que correspondia às expectativas com disciplina. O esforço no passado resultou no sucesso profissional que Nilson atingiu no presente.
Como diretor superintendente do Sistema Educacional Brasileiro (SEB), uma das maiores redes de ensino do país, hoje contribui para disseminar cultura e conhecimento. Por essa rica história, a hairstylist Maria Amélia Busnardo, amiga de longa data, o escolheu como entrevistado.
Maria Amélia: Há quanto tempo você trabalha na área educacional? Como ingressou e quais as suas primeiras experiências no setor?
Nilson: Há 36 anos. Comecei a trabalhar muito cedo. Desde criança, já sabia que queria ser um executivo em uma grande empresa. Não tinha a mínima aptidão para ter o meu próprio negócio. Meu pai me ajudou muito nesse sentido porque fazia com que eu estudasse todos os dias. Na minha casa, livros não eram feitos para enfeitar a estante. Tínhamos o compromisso de ler. Quando estava prestes a prestar os exames para o vestibular, fui convidado para trabalhar no departamento de pessoal de um grupo educacional em Jales. A adaptação ao serviço foi rápida. Tanto que, depois de apenas três meses, quando a diretoria precisou de uma pessoa para assumir um cargo de confiança em uma nova empresa adquirida em Araçatuba, fui o escolhido. A minha missão era organizar tudo. Deu certo. Estava com 17 anos e tive que ser emancipado para assumir o cargo de diretor geral. Cuidava de quatro faculdades. Foi um período de sete anos que posso descrever como enriquecedor.
Maria Amélia: Você chegou a prestar o vestibular?
Nilson: Prestei e passei na 1ª turma de Engenharia Elétrica em Ilha Solteira. Inclusive, fiz um curso técnico em eletrônica como formação no nível médio. Tinha muita vontade de fazer faculdade e de morar em um campus universitário. Entretanto, quando chegou a hora de passar por essa experiência, minha realidade já era outra. Optei por continuar trabalhando. Tempos depois, fiz Direito e especialização em Administração, mas o passado se mantém fresco na memória. Frequentemente, fico fascinado por tecnologia e mexo nos aparelhos eletrônicos de casa, para tentar entendê-los e tirar o máximo deles.
Maria Amélia: Em algum momento você pensou em seguir outra profissão?
Nilson: Quando o grupo em que eu trabalhava em Araçatuba foi vendido, tive a chance de me tornar sócio de algumas faculdades e de escola de educação básica em lugares mais distantes, como Barra do Garça, Alta Floresta, Palmas, entre outros, que precisavam ser desbravados. Só que não era isso o que eu queria. Decidi, então, seguir novos rumos. Fui para a indústria de laticínios. Distribuía mais de 60 mil litros de leite por dia em São Paulo, além de produtos laticínios. Era bem diferente. Operar no mercado de produtos perecíveis exige máxima disciplina. São muitas regras e controle rígido. Com o dia a dia, notei que a minha vocação era na área de educação mesmo. Logo que retornei, iniciei a minha parceria com o Chaim Zaher. Já são 26 anos integrando a equipe SEB.
Maria Amélia: O que mais te fascina nesse meio?
Nilson: O poder transformador da educação. Posso atestar isso por experiência própria. O saber nos dá a oportunidade de ir além, de conquistar nossas metas, de superar desafios, de chegar aonde nem ousamos imaginar. Basta levar a sério, com dedicação e comprometimento.
Maria Amélia: Ter no currículo uma formação de peso é importante para encarar o mercado competitivo?
Nilson: Investir em educação é essencial para que o profissional obtenha sucesso. É preciso contar com uma boa formação técnica, graduação e pós-graduação. Isso é requisito básico. Como diferenciais, podemos citar os cursos de idiomas e os cursos na área de relacionamento. Temos que destacar que as empresas vão muito além do currículo. Analisam a vida do profissional, em todos os aspectos. Qualidades como equilíbrio psicológico para lidar com a pressão e a habilidade de verbalizar ideias são bem valorizadas. Nós começamos a construir nossa carreira muito antes do que imaginamos. São as decisões e a postura que tomamos ainda jovens, na sala de aula, que vão determinar a nossa história no futuro. E não adianta se acomodar. Tem que buscar atualização constante, estar aberto para aprender sempre. Os conceitos que não eram necessários ontem podem se tornar imprescindíveis hoje.
Maria Amélia: Quais foram as principais mudanças do sistema educacional nos últimos anos?
Nilson: De uma forma geral, a educação mudou pouco. Há 20 anos, o maior avanço de uma escola era trocar o ventilador por um ar condicionado. Há 10 anos, o diferencial era ter um projetor e uma lousa branca com pincel, ao invés da tradicional quadro negro e do giz. Há uns quatro anos, esse processo foi intensificado e as modificações passaram a ser mais significativas. Antes, as escolas se rotulavam através de modelos pedagógicos. Não havia liberdade para tentar novos recursos, como o uso da tecnologia, por exemplo. Dizer que você ia disponibilizar parte do conteúdo pedagógico on-line era um absurdo. O sistema era engessado. Hoje, poucas instituições ainda se prendem a esse método arcaico. A maioria navega no universo das boas práticas educacionais para que o aluno tenha em suas mãos todas as ferramentas de aprendizado. A entrada do computador na sala de aula, isso sim, foi uma revolução. Com um computador por aluno, temos à disposição uma quantidade infindável de informação e de conhecimento. É preciso filtrar bem esse acesso e evitar o exagero, mas os benefícios são diversos. Foi uma quebra de paradigma.
Maria Amélia: Acredita que a tendência é evoluir ainda mais?
Nilson: Sim. A parte impressa, com livros e apostilas, não vai acabar. Porém, vai diminuir ainda mais. O conteúdo digital é uma realidade e, em breve, será predominante. Aqui temos um contraponto interessante. Muitos professores eram resistentes à inserção dos computadores, pois acreditavam que a máquina iria atrapalhar. Para eles, o correto seria lecionar em uma sala reduzida, para que pudessem acompanhar tudo de perto, individualizando o aprendizado. E foi justamente isso o que a tecnologia propiciou. Podemos dizer que realizamos o sonho dos educadores, pois agora cada aluno é único. As lições ficaram personalizadas. Mesmo em uma classe de mil estudantes, cada um consegue absorver as informações no seu tempo, do seu jeito. Há uma dinâmica diferente. Os exercícios são corrigidos instantaneamente. Assim, é possível avaliar melhor as habilidades e as dificuldades para traçar uma estratégia de ensino mais efetiva. O mundo avança rapidamente. Temos que seguir no mesmo compasso.
Maria Amélia: Quais são as suas impressões sobre Ribeirão Preto?
Nilson: Tinha vindo para Ribeirão Preto algumas vezes a passeio. A mudança mesmo ocorreu em 1986. É uma cidade bonita, que conserva alguns aspectos típicos do interior, o que colabora para que seus moradores tenham melhor qualidade de vida. Diferente do que acontece nas metrópoles, aqui não tem tanto drama em questões como trânsito e violência. Os problemas existem, só que são mais pontuais. Claro que ainda há muito a ser feito. É preciso atitude para colher resultados positivos. De nada adianta ter mão de obra qualificada se não oferecemos infraestrutura básica para que o desenvolvimento se instale de vez. O caso do Aeroporto é um exemplo claro disso. A internacionalização traria inúmeros benefícios para a cidade, mas o processo ainda caminha a passos lentos. Veja o progresso que Campinas teve a partir da reformulação do Aeroporto de Viracopos. Estamos em um ponto geográfico estratégico. Em apenas uma hora de voo estou em São Paulo ou no Rio de Janeiro ou, ainda, em Belo Horizonte. Eu posso sair da minha casa 20 minutos antes do embarque sem medo de me atrasar. Isso é fantástico. Temos que nos valer dessa condição. Várias empresas têm interesse de vir para cá. Porém, esbarram em limitações práticas. Se esses pequenos obstáculos forem ultrapassados, o Município vai sair dos 650 mil habitantes para um milhão, dois milhões de habitantes. O potencial de crescimento é enorme.
Maria Amélia: E sob a perspectiva pessoal?
Nilson: Mudar de cidade sempre gera uma certa expectativa, mas fui muito bem acolhido. Fiz vários amigos. Encontrei pessoas que também não eram daqui e, assim como eu, tinham vontade de se relacionar, de formar novas amizades. Houve uma grande identificação. Hoje, sinto-me realmente em casa, junto com a minha família. Tanto é que, em 2010, quando fui presidir a Pearson, em São Paulo, optei por continuar morando em Ribeirão Preto. Assim que meus compromissos da semana terminavam, voltava correndo.
Maria Amélia: A cidade é considerada um polo na área educacional. O que contribui para isso?
Nilson: Ribeirão Preto tem uma característica forte na área de serviços, especialmente no ramo da Educação e da Saúde. Para que isso continue assim, é necessário mão de obra especializada, de excelência. Os institutos de formação tendem a ficar próximos de onde a demanda está. Por isso, a cidade abriga universidades que são referência nesses segmentos. Não temos indústrias pesadas por aqui. Se tivéssemos, com certeza o número de institutos técnicos seria muito maior. Além disso, as próprias características do município são fortes atrativos para os grupos educacionais. Ribeirão Preto é a capital do interior, que proporciona tranquilidade, praticidade, segurança e qualidade de vida. Várias redes de ensino têm o maior interesse de vir para cá.
Maria Amélia: A formação cultural também é importante?
Nilson: Sim. Independente da profissão, temos que ler, diariamente, pelo menos dois jornais diários, revistas, assistir TV e acessar a internet. Mesmo que os assuntos sejam repetidos, cada veículo tem uma linguagem específica, um dado exclusivo, um viés diferente. Informação é algo valioso. Quanto mais, melhor. Só conhecendo os fatos podemos formar uma opinião e construir argumentos sólidos para sustentá-la. Livros, cinema, teatro e música ajudam a enriquecer esse repertório. Também não basta apenas ter o conhecimento. É preciso saber verbalizar, ter a percepção do que é importante e do que não é. A comunicação é uma ferramenta poderosa. Quem a domina está sempre em vantagem. Se a pessoa tem algum tipo de deficiência nessa área, tem que ser humilde e procurar aperfeiçoamento. Hoje em dia, há soluções para tudo. Ninguém é perfeito ou acerta tudo o tempo todo. A receita é: aprenda com os erros e busque progredir constantemente.
Maria Amélia: Em uma agenda tão repleta de compromissos, você consegue arrumar um tempo para relaxar? Se sim, o que você gosta de fazer nessas horas livres?
Nilson: O trabalho exige muito de mim. A pressão e o estresse estão sempre presentes, pois participo diretamente de grandes negociações, onde erros não são permitidos de forma nenhuma. Por isso, preciso de uma válvula de escape. Se for necessário, fico o dia inteiro no serviço, sem problema. Mas quando o expediente se encerra, desligo-me completamente. Como a adrenalina do dia a dia é alta, escolhi mantê-la em níveis elevados nos meus momentos de folga. Consigo isso através dos esportes radicais: automobilismo, rapel, mergulho, esqui, paraquedismo, entre outros. É uma ótima maneira de extravasar e um excelente treino para controlar fortes emoções.
Maria Amélia: Você tem algum sonho que ainda não realizou?
Nilson: Claro que sim. Tenho vários. O dia em que não tiver mais sonhos é porque a vida acabou. São eles que dão sentido à nossa trajetória, tanto pessoal quanto profissional. Lutamos para conquistá-los. Quando conseguimos, partimos para o próximo e, assim, sucessivamente. Traçar objetivos é fundamental para todo ser humano e é preciso coragem para transformar as ideias em prática. Mesmo que seja algo extremamente simples, como comprar um sapato, por exemplo. Na minha lista atual, tenho duas metas que estão mais em evidência. A primeira é saltar de paraquedas no dia 7 de setembro, em Boituva, local bastante procurado pelos apaixonados pelo voo. Nessa data específica, há um evento comemorativo na cidade que reúne os principais profissionais dessa modalidade esportiva para competir e realizar saltos artísticos. Quero muito ter essa experiência. A segunda é saltar da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro.
Maria Amélia: Para finalizar, quais foram os momentos mais marcantes da sua vida?
Nilson: Tenho 53 anos, ou seja, já passei por muita coisa. Mudei de cidade, troquei de emprego, casei, tive filhos. Na minha trajetória na Educação, também vivenciei experiências intensas. Em 2007, o SEB foi uma das primeiras empresas do setor de educação do país a abrir capital na Bolsa de Valores de São Paulo (BOVESPA). Poucos profissionais tiveram a oportunidade de atuar em uma transação desse porte. Isso fez com que eu me sentisse privilegiado, orgulhoso. Em 2010, foi a vez do grupo editorial britânico Pearson adquirir o sistema de ensino e parte dos ativos do SEB, outra grande negociação que tive o prazer de participar diretamente. Mais recentemente, destaco a negociação do ensino superior para o grupo carioca Estácio Participações. Esses são apenas alguns tópicos. Tenho muita história para contar. Dá até para escrever um livro.
UM BOM AMIGO
“A maioria das pessoas que convivem com o Nilson Curti o descreveria como um profissional brilhante. E isso é a mais pura verdade. Inteligente, arrojado, decidido e com uma incrível habilidade de liderar grandes negociações, ele se tornou referência no ramo educacional não só em Ribeirão Preto, mas em todo o país. Sinônimo de credibilidade e seriedade. Acompanho e admiro sua carreira. Porém, gostaria de destacar o lado pessoal do Nilson. Ele sabe separar muito bem os momentos de trabalho e de lazer. Nas horas de folga, é uma pessoa extremamente descontraída, divertida e atenciosa. Tenho o privilégio de poder chamá-lo de amigo.”
Maria Amélia Busnardo, hairstylist