Muito além dos oito segundos
Hoje, são 1.600 eventos do gênero realizados anualmente no Brasil
Texto: Máisa Valochi | Fotos: Júlio Sian e arquivo Viola Show | Diagramação: Lucas Chaibub | Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido | Agradecimentos: Centro Hípico Guega – (16) 3637.8841 e Puro Country Hipismo – (16) 3911.7632
Na arena, são os intermináveis oito segundos em cima do boi ou do cavalo que definem os vencedores das provas. Fora dali, são os anos de experiência na organização de rodeios que permitem colocar no ar esse espetáculo do universo sertanejo. Apesar das críticas à prática, a competição dos peões caiu no gosto do brasileiro e o público das arenas chega a desbancar o dos estádios de futebol, reconhecido como uma paixão nacional. Anualmente, os rodeios espalhados pelo Brasil atraem um público estimado em 30 milhões de pessoas.
Esse público é atraído por uma dobradinha que deu certo: montarias e shows. Foi a partir desta fórmula de sucesso que os rodeios ganharam ainda mais notoriedade e cresceram tanto em quantidade quanto em qualidade. Hoje, são 1.600 eventos realizados anualmente no Brasil, principalmente entre abril e setembro. Apesar de não haver números oficiais que comprovem as cifras, as especulações com quem trabalha no setor indicam números próximos dos R$ 6 bilhões anuais.
Em Ribeirão Preto, é neste ramo que vive e trabalha Matheus Calil, proprietário do Viola Show, empresa que, além de realizar rodeios, capta patrocínios para eventos sertanejos e coordenada a carreira de artistas do segmento. A empresa ainda cria e desenvolve plataformas de rodeio para grandes marcas e planeja ações de marketing para esses eventos. São 19 anos de experiência na área, o que possibilitou que seu nome se tornasse referência no assunto.
A afinidade de Matheus com o universo sertanejo começou a ser moldada quando era criança. “Desde moleque, sou apaixonado por música sertaneja de raiz e sempre gostei de ir para a fazenda, curtir o campo com a minha família”, conta. Foi a partir desse gosto que o empresário trilhou o seu caminho profissional. Em 1994, fundou o Clube da Viola, uma associação voltada para a organização de eventos do segmento. As rodas de viola entre amigos transformaram-se nas famosas Terçanejas, realizadas em choperias e boates que marcaram época em Ribeirão Preto.
Frequentador assíduo dos rodeios e das exposições que aconteciam na década de 90, logo ele passou a empresariar duplas sertanejas e, dez anos depois da criação do Clube da Viola, nascia o Viola Show, desta vez com o foco mais voltado aos grandes eventos da área. Hoje, sua empresa é responsável pela realização de reconhecidos festivais da música sertaneja, como o Ribeirão Country Fest, além de rodeios como o de Ribeirão Preto, de Sertãozinho, de Cravinhos, entre muitos outros. No seu portfólio, está também o Ribeirão Rodeo Music — apontado pela revista Globo Rural como o segundo maior do Brasil —, os 21 eventos do Circuito Bavária de Rodeio, outros 16 eventos do Circuito Claro Sertanejo e o Camarote Arena Premium em Barretos. O evento mais distante que a empresa promove é em Rio Branco, no Acre, e faz parte do Circuito Barretos de Rodeio.![]()


A realização de eventos de grande porte acontece graças às parcerias que mantém com empresas do segmento. É através dessas uniões que torna-se possível colocar em prática não só as grandes festas como também seus subprodutos, como as cavalgadas, as queimas do alho, os concursos de mulas “traiadas” e os fetivais de música caipira. “Nos últimos oito anos, o mercado se desenvolveu muito. O público quer lazer de qualidade e nós queremos atender além dos anseios do público”, reforça Matheus.
E a paixão do empresário vai além. Os negócios no Viola Show vão muito bem, empregando 19 funcionários — entre eles alguns que cuidam especificamente de materiais de divulgação — e colocando a empresa como pioneira e referência na área em que atua, mas o envolvimento de Matheus possibilitou que ele expandisse para adiante dos eventos. Ele é criador de mulas e de gado Gir leiteiro e tem boiada de rodeio. Também faz questão de mostrar os LPs de música sertaneja, ponto de partida de todo o seu envolvimento nesse universo. Na última tiragem, o colecionador contabilizou 1.750 exemplares.
Para ele, o entusiamo, a paixão e a critividade são elementos essenciais para manter-se nesse tipo de negócio. É preciso não só planejar e desenvolver ações voltadas para os rodeios, mas também vivenciar as mais diversas experiências para acumular conteúdo e proporcionar o que há de melhor para o público. Seguindo esse pensamento, o empresário e integrantes da sua equipe estão de viagem marcada para Las Vegas, no estado americano de Nevada, em outubro, quando acontece a final do campeonato mundial do Professional Bull Riders (PBR), considerado o rodeio mais importante do mundo.
Quem também vai assistir à final do PBR são os amigos Caio Valochi e Eduardo Gallati. Eles planejaram a viagem com uma turma de forma que estivessem em Las Vegas para acompanhar esse momento. Durante o passeio, também pretendem assistir a uma prova de Team Roping do circuito United States Team Roping Championships (USTRC), no estado de Oklahoma. Nas proximidades de Ribeirão Preto, faz parte do calendário anual deles conferir de perto os rodeios de Sertãozinho, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Barretos. Quando têm oportunidade, incluem outras cidades na programação.
Além de acompanhar a atuação dos profissionais, eles também se arriscam na arena, praticando a modalidade Team Roping, também conhecida como laço em dupla. Desde cedo, por influência do tio Marcos Mussim, Eduardo se envolveu nesse universo. Já praticou equitação, salto, tambor, Team Penning e, agora, laço. Caio começou há cinco anos e, antes do laço, fazia Team Penning. Outro integrante da turma é Tiago Moreno, que também se dedica à montaria e atividades relacionadas desde criança. Eles treinam juntos de três a quatro vezes por semana.
O Team Roping é a modalidade em que os cavaleiros imobilizam um novilho com uma laçada na cabeça e outra nas patas traseiras, no menor tempo possível. A prova é realizada em dupla: o cabeceiro, que deve laçar a cabeça do novilho, e o peseiro, competidor que laça as patas traseiras. Os laçadores só devem partir depois que o boi desarma a barreira e, neste momento, é acionado o cronômetro. O tempo limite da prova é de 60 segundos e podem ser lançadas três cordas, não sendo permitido refazer a laçada. A terceira laçada pode ser de um ou outro componente da dupla.
Eduardo e Tiago atuam na posição de cabeceiros e Caio é peseiro. Ao lado de Fred Pocodo, Lord Array e Smart Jay Twist, seus cavalos, respectivamente, eles praticam a modalidade como hobby e também para competir como amadores. Antes do Team Roping, os três já competiram profissionalmente — e venceram — provas de Team Penning, nos rodeios de Ribeirão Preto e de Sertãozinho.
Segundo eles, para ter resultados satisfatórios nas competições, é preciso treino, técnica e um bom cavalo. São essas características que buscam e que também observam no papel de espectadores. Quando não podem estar no local das provas, acompanham pela televisão e também por aplicativos no celular. “O USTRC, por exemplo, tem aplicativo para iPhone e iPad e nós acompanhamos as aprovas por ali”, comenta Tiago. Entre as modalidades oficiais dos rodeios, Eduardo aponta a Bareback como sua preferida.
Apesar dos três já terem se machucado durante os treinos — inclusive Tiago acaba de fazer uma cirurgia na mão direita —, eles continuam praticando. O custo alto para manter o hobby também não os faz desanimar. Eles explicam que os gastos incluem basicamente a estadia dos cavalos e os equipamentos dos cavaleiros, como luva e laço. “Os animais são muito bem tratados. No haras, eles recebem alimentação à base de feno, ração e suplemento, e também vacinas, vermífugo, ferradura, enfim, tudo o que for necessário para a saúde e o bem-estar dos cavalos”, afirma Caio.
O gosto que os amigos levam para os bretes e as arenas também se faz presente no dia a dia. Mesmo que discretamente, é fácil perceber que eles fazem parte da “turma da bota”. Primeiro, porque esse é o calçado que mais usam, depois por detalhes mais sutis como o jeito de falar, os lugares que frequentam e, claro, as músicas que mais ouvem: country e sertanejo. Assim como Matheus, eles difundem o gênero e, há três anos, promovem a festa Bezerro Mamado, embalada ao som de violeiro e dupla sertaneja. A próxima edição do evento acontece no dia 5 de outubro, em Sertãozinho.![]()
Na vitrola
O gênero sertanejo embala não só os rodeios como compõe a trilha sonora da vida dos cowboys e de muita gente que simpatiza com o estilo. No som dos amantes desse ritmo, tocam desde os clássicos Chitãozinho & Xororó, passando por artistas mais jovens, como Fernando & Sorocaba, até chegar às revelações como Lucas Lucco. Seguindo os passos dos cantores nacionais, artistas de Ribeirão Preto também colocam seus nomes nas paradas de sucesso.
Apesar de não terem nascido em Ribeirão Preto, é na cidade que vivem João Bosco e Vinícius, iniciantes da renovação do gênero sertanejo no Brasil, com o chamado “sertanejo universitário”. Além de apresentações internacionais, João Bosco e Vinícius contam com a indicação a dois Grammys Latinos. Assim como eles, Carlos Henrique & Daniel também se consolidaram no mercado sertanejo universitário como uma das duplas mais talentosas da nova safra. Naturais de Ribeirão Preto, estão prontos para despontar no cenário nacional.
Os irmãos João Lucas e Mateus, que começaram cantando em grupos de oração, nas rodinhas de escola e nas festas de amigos, hoje se apresentam em casas de shows e eventos de grande porte, como a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. Na estrada desde 2007, a dupla Tom & Arnaldo começou a carreira como brincadeira, tocando em festas de faculdade, em churrasco de amigos e eventos informais. Porém, depois decidiram seguir carreira profissional e hoje os meninos de Ribeirão Preto têm notoriedade no circuito sertanejo, principalmente no interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, com destaque para os eventos universitários. A cidade também é berço das duplas Julio Cesar & Adriano, Mauricio & Marcelo, entre outras.![]()
Se no cotidiano deles a paixão pela montaria está evidente, isso é elevado a muitas potências no caso dos competidores profissionais. Gabriel Melhado, por exemplo, monta em touro e este ano participou da competição no rodeio de Barretos. “Quando eu era criança, meus ídolos eram os campeões de Barretos. No Brasil só existe isso com o vencedor de Barretos. Quem ganha tem fama garantida e convite para as principais competições do país. Alguns conseguem ir até para o exterior”, diz o atleta que saiu de Camapuã, no Mato Grosso do Sul, para a competição barretense. Gabriel não ficou entre os cinco finalistas, mas realizou o sonho de infância.
Barretos, o maior rodeio da América Latina
Considerada a mais importante referência cultural sertaneja do interior brasileiro, a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos foi o primeiro evento do gênero realizado na América Latina, em 1956. Da estrutura montada embaixo de uma de lona de circo, o evento ganhou grandes proporções e, atualmente, tem repercussão internacional, compondo o Calendário Mundial de peões de todos os cantos. Realizada pelo clube Os Independentes, a Festa recebe todos os anos 900 mil visitantes, calculando todos os dias do evento.
Este ano, em sua 58ª edição, a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos acontece de 15 a 25 de agosto. As principais atrações são o rodeio e as provas, com disputas nacionais e internacionais, feitas em três oportunidades. No primeiro fim de semana, de 15 a 18 de agosto, aconteceu a final do Circuito Barretos de Rodeio, com as montarias em touro, etapa da Associação Nacional de Três Tambores (ANTT) e provas de Team Penning. Já de 19 a 21 de agosto foram realizadas as finais do Campeonato Barretos de Team Penning, Campeonato Barretos de Três Tambores e o Top Brasil Rodeio entre Estados. O auge esportivo da Festa acontece neste fim de semana, de 22 a 25 de agosto, com a 21ª edição do Barretos International Rodeo.
Outra atração são os mais de 100 shows, que acontecem em cinco diferentes palcos. Entre os destaques da programação estão shows inéditos como o do Projeto Villa Mix que reuniu nove atrações no mesmo dia, em mais de 11 horas de música. Também inédito é o show que coloca no mesmo palco duas das maiores duplas de música sertaneja do país: Chitãozinho & Xororó e Bruno & Marrone. Empossados como Embaixadores do Rodeio de Barretos, os quatro músicos apesentam um show exclusivo no dia 24 de agosto. Os palcos também estão sendo tomados por Jorge & Mateus, Gusttavo Lima, Fernando & Sorocaba, João Bosco & Vinicius, Luan Santana, Michel Teló, Munhoz & Mariano, Paula Fernandes, Maria Cecília & Rodolfo e João Carreiro & Capataz.
A Festa é do peão, da tradição, mas também não faltam espaços de luxo e requinte. Um deles é o Camarote Arena Premium, conhecido por atrair personalidades, celebridades e o público vip da Festa. Localizado em um espaço privilegiado do Estádio de Rodeios, o local tem capacidade para 1.200 pessoas e consegue unir o rústico ao glamour. Um dos organizadores do espaço é o empresário Matheus Calil e quem comanda o cardápio gourmet é o Buffet Renato Aguiar. O Camarote abre sempre no período noturno, mas no dia 25, domingo da grande final do Barretos International Rodeo, o espaço oferece o almoço da final.
A cultura do peão estradeiro é mantida pela organização da Festa com competições de toque do berrante, queima do alho, dança catira e disputa no pau de sebo. As crianças têm seu espaço dentro do evento com o Rancho do Peãozinho, que reúne diversão com atividades socioeducativas.