Muito por fazer

Muito por fazer

Apesar de ter dedicado à vida ao próximo e comandar uma equipe de responsáveis pelos cuidados das pessoas, a assistente social Joana Cordeiro do Amaral sabe que ainda tem muito trabalho pela frente

Joana dedica-se ao cuidado com pacientes em estado intermediário e terminal há mais de duas décadasA compaixão é um dos sentimentos que movem a assistente social Joana Cordeiro do Amaral desde a infância. Quando criança, ainda em sua terra natal, no Norte do país, acompanhava o pai, veterinário, a todos os lugares e dedicava boa parte de seu tempo aos animais. Já adolescente, aos 16 anos, entrou para a vida missionária e circulou por muitas regiões pobres brasileiras, prestando assistência a crianças carentes, adolescentes grávidas abandonadas pela família e muitos outros públicos.

Foi a vida missionária que rendeu a Joana, também, o gosto pelos estudos. Se até então havia tido a oportunidade de concluir apenas o ensino primário, a partir do contato com as freiras da missão retomou os estudos e não parou mais. Foi a Faculdade de Assistência Social que a trouxe ao Sudeste e, mais tarde, a aprovação em primeiro lugar em um concurso público que a trouxe para Ribeirão Preto.

No Hospital das Clínicas da cidade, atuou na Unidade Coronariana e na Unidade de Queimados. Apesar da intensa rotina de trabalho, encontrou tempo para cursar  Direito e Teologia, graduações que não concluiu. Fez, ainda, os cursos técnicos de Enfermagem, Nutrição e Administração Hospitalar, conhecimentos que, hoje, coloca em prática diariamente à frente do Hospital de Retaguarda Francisco de Assis.

A dedicação ao próximo em Ribeirão Preto a acompanha há 44 anos. As primeiras duas décadas foram dedicadas às crianças, recebidas no Lar Francisco de Assis, onde chegou a ter simultaneamente mais de 100 acolhidos. A criação do Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente, no entanto, que iniciou um bom trabalho junto a esse público, sinalizou para Joana que era hora redirecionar seu olhar solidário. Inspirada pela fé, entendeu que devia passar a cuidar de pessoas enfermas em estado intermediário e terminal. Assim, segue dedicando sua vida ao próximo.

Há quantos anos está à frente do Hospital de Retaguarda Francisco de Assis?
Esse trabalho começou há quase 25 anos, depois de uma inspiração de fé, um chamado franciscano, ordem missionária que guia meus passos desde a juventude. Depois de mais de 20 anos me dedicando às crianças, trabalho que sempre me deu muito prazer, entendi que era hora de olhar para esta população doente e sem perspectivas de sobrevivência. 

De que maneira se preparou para isso?
Na verdade, não me preparei especificamente para este trabalho, mas os cursos que fiz durante minha trajetória acabaram me trazendo até aqui. Além de ser formada em Serviço Social, cursei Direito e Teologia alguns anos, mas não concluí. Fiz, também, cursos técnicos em Nutrição, Enfermagem e Administração Hospitalar. Sigo estudando até hoje. Atualmente, tenho realizado pesquisas sobre a mente e a psique humana. Aqui no Hospital de Retaguarda, atuo nas três frentes: gestão, enfermagem e assistência social. Como presidente e fundadora, sou judicialmente responsável pela casa. 

Qual é a estrutura reunida pelo Hospital de Retaguarda?
Atualmente, atendemos a aproximadamente 20 pacientes, distribuídos em enfermarias infantil, feminina e masculina. Estamos equipando uma nova ala feminina e, em breve, devemos receber outras oito pacientes. Para prestar o atendimento adequado a todos eles, que dependem de cuidados 24 horas por dia, sete dias por semana, mantemos uma equipe multidisciplinar com 105 funcionários. Prestamos apoio, também, às famílias dos pacientes, quando necessário. Fazem parte deste time dois médicos paliativistas, nutricionista, fisioterapeutas, assistentes sociais, enfermeiros e técnicos de enfermagem, que são o coração do Hospital. Entre os integrantes da nossa equipe, metade possui nível superior. Temos, também, o serviço de marketing e telemarketing, muito importante para a nossa manutenção. 

De que maneira os pacientes são encaminhados até aqui?
Geralmente, os pacientes são encaminhados pelas próprias instituições de saúde. Quando recebemos uma solicitação, fazemos uma avaliação para ver se o paciente se enquadra no perfil da nossa instituição. Feito isso, ele é encaminhado ao Hospital de Retaguarda. Damos prioridade aos doentes que chegam através de outros hospitais porque sabemos que, quando esses pacientes deixam seus leitos, abrem espaço para que muitos outros sejam atendidos. Além disso, conseguimos mantê-lo confortável, sem dor ou fome, por um custo muito mais baixo.

De onde vêm os recursos do Hospital?
Nós recebemos um repasse do Sistema Único de Saúde (SUS), que gera em torno de R$ 25 mil mensais. Temos, também, alguns convênios importantes, como com a Estácio de Ribeirão Preto, que rende outros R$ 20 mil por mês. Da Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência (FAEPA), ligado ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto — de onde chegam aproximadamente 70% dos nossos pacientes —, recebemos ajuda para cobrir os gastos gerais, que representam aproximadamente R$ 12 mil mensais. No entanto, os recursos não são suficientes porque nossas despesas são elevadas. Para se ter uma ideia, apenas nossa folha de pagamento gira em torno de R$ 230 mil mensais.

Alguns dos mais de 100 colaboradores do Hospital de Retaguarda Francisco de Assis

Como contornar o déficit?
Todos os meses, faltam entre R$ 60 mil e R$ 70 mil para fecharmos as contas do Hospital de Retaguarda. Como eu já mencionei, o departamento de telemarketing é muito importante para nossa manutenção e costuma gerar em torno de R$ 18 mil todos os meses. Vivemos contornando as dificuldades como podemos. Negociamos com os funcionários, realizamos promoções, fazemos empréstimos. Dessa forma, vamos sobrevivendo.

As famílias dos pacientes ajudam?
A maioria deles não tem condições de contribuir. Apenas de quatro pacientes, podemos contar com as aposentadorias, um direito da pessoa. Outra família contribui com R$ 2 mil mensais, mas não há uma exigência. Os pacientes custam aproximadamente R$ 19 mil mensais, pois dependem dos cuidados de muitos profissionais e estão, muitas vezes, conectados a diversos equipamentos. Posso afirmar que só conseguimos sobreviver até aqui em função da ajuda que recebemos da sociedade. 

Existe uma agenda de eventos em prol do Hospital de Retaguarda?
Todos os anos, procuramos realizar ações sociais convidando toda a população de Ribeirão Preto a nos ajudar. Neste momento, além do nosso bazar permanente, acontece a venda de 
pizzas. Nosso objetivo é acertar os salários atrasados dos funcionários. Como nossa prioridade é, sempre, a vida dos pacientes, quando eles estão garantidos, corremos atrás das outras necessidades. Infelizmente, não conseguimos promover muitas ações, pois nossa equipe já está sobrecarregada. Não há quem conduza, por exemplo, um departamento de eventos. Seria muito bom se pudéssemos contar com uma boa equipe nesse sentido. 

O Francisco de Assis não possui um corpo de voluntários?
Não, o que poderia ser muito útil, sem dúvida. Hoje, contamos apenas com o departamento de marketing, formado por oito profissionais responsáveis pela captação de recursos. Através desse serviço, as pessoas podem doar a partir de R$ 5,00. Estamos tentando reforçar essa fonte para aliviar nossa agonia. Além disso, recebemos muitas doações pelo nosso site ou diretamente no Itaú, agência 0865, conta corrente 43.737-0, e Banco do Brasil, agência 2890-8, conta corrente 110.222-2. 

O Hospital recebe ajuda da Prefeitura?
Iniciei meu trabalho social em Ribeirão Preto há 44 anos, portanto, este é o 11º prefeito a assumir a administração municipal. Para todos eles, eu pedi ajuda. Nos últimos anos, venho solicitando que a cidade colabore com o pagamento dos salários dos enfermeiros, que representam a maior fatia da nossa folha de pagamento. Meu pedido está embasado na grande economia que geramos à Saúde do município. Isso porque os pacientes no Hospital de Retaguarda custam menos do que custariam no sistema público de saúde. As pessoas acolhidas em nossos leitos representariam um gasto aproximado de R$ 45 mil aos cofres do município. No ano passado, geramos uma economia aproximada de R$ 7,1 milhões. Além disso, quando acolhidos aqui, esses doentes deixam livres os leitos nos hospitais. Por esses e outros motivos, posso garantir que valeria a pena investir no Hospital de Retaguarda. No entanto, a resposta que ouvi de todos eles foi que não há brecha para nos atender.

Há outros projetos engavetados aguardando por recursos para saírem do papel?
Entre tantas ações importantes, meu maior desejo, nesse momento, é conseguir uma casa para onde eu possa levar os pacientes que sobreviveram à morte. Falo daqueles doentes que já tiveram a vida estabilizada, mas cuja família não pode ou não quer levá-lo de volta para casa. No momento, temos cinco pacientes estabilizados, que poderiam dar lugar a outros doentes necessitando de cuidados. No entanto, eles não têm para onde ir. A eles, chamamos de pacientes de longa permanência, internados aqui há oito ou dez anos. Essas pessoas estão estabilizadas e não precisariam estar aqui. Na outra ponta, há pessoas morrendo em condições precárias porque não há espaço para acolhimento.

Atualmente, o local abriga 20 pacientes, divididos entre as enfermarias infantil, feminina e masculinaO que falta para concretizar esse projeto?
Se Ribeirão Preto, que é uma cidade muito fraterna, estiver lendo, peço que me arrume uma casa para onde eu possa levar essas pessoas, seja perdoando o aluguel ou doando esse pagamento. Eu ficaria responsável por toda a papelada judicial e pelos cuidados com esses pacientes. Posso garantir que não tenho interesse em pegar nada de ninguém. Aqui, investi todo o meu patrimônio familiar, portanto, jamais faria isso. Além disso, gostaria de criar uma comunidade de mães e pais sociais. Essas pessoas poderiam ajudar a suprir um pouco das necessidades dos pacientes aqui dentro, não apenas materialmente, mas também emocionalmente. Pequenos materiais de higiene, por exemplo, poderiam ser bons presentes, assim como 20 minutos de companhia e oração. Certamente, iniciativas assim seriam capazes de suprir um pouco do abandono que muitos deles sentem.

Há, também, um projeto que visa à construção de um grande Hospital de Retaguarda?
Sim, nosso gigante está no papel. Precisamos de R$ 15 milhões para erguer o maior hospital dedicado aos cuidados paliativos da América Latina. Vale lembrar que Ribeirão Preto não possui instituições de saúde destinadas ao atendimento de crianças e de idosos enfermos e as enfermarias oferecidas não são suficientes.

Qual é a sua visão sobre a morte?
Um dia, duas pessoas faleceram nos meus braços, uma situação muito difícil de lidar. Quando questionei Deus sobre o porquê daquele sofrimento, entendi que a vida é uma energia e que a morte, nada mais é do que seu esgotamento. Nosso papel, no Hospital de Retaguarda, é, justamente, minimizar o sofrimento humano causado pelo fim dessa energia. Nesse sentido, nós, da enfermagem, precisamos estar preparados para não deixar os pacientes passarem fome e nem sentir dor. Nosso papel é garantir que o esgotamento da vida aconteça em condições confortáveis. Posso dizer que, entre os internos, somente 30% irão se recuperar. Nossa missão é garantir que os outros 70% morram sem sofrimento. Quando o corpo não tem mais nada a oferecer àquela pessoa, diria que sua partida causa certo alívio, uma vez que o estado físico nada mais é para aquele paciente do que um instrumento de dor. 

Considera-se uma pessoa religiosa?
Não, sou apenas uma pessoa de muita fé. Não sinto necessidade de vínculo com igrejas ou doutrinas. Faço questão de reforçar, também que o Hospital de Retaguarda Francisco de Assis é um local ecumênico, portanto, aberto a toda e qualquer religião. Pessoalmente, minha necessidade está em viver os ensinamentos de Cristo no dia a dia. Sinto-me como uma vassoura na mão do gari. Não sei exatamente explicar como, mas sei que vim ao mundo para fazer exatamente o que eu faço. Minha atividade não é uma escolha, mas uma missão de vida. Além disso, quanto mais eu faço, mais reconheço quanto ainda há por fazer. Nesse sentido, vivo acompanhada por uma grande angústia. Meu coração se acalma porque sei que estou fazendo minha parte, embora seja uma contribuição pequena, na tentativa de minimizar o sofrimento das pessoas. No entanto, não dá para esquecer que há inúmeros sofrimentos a serem minimizados.

Ainda sobra espaço para a família?
Sim, um pouquinho. Tenho dois filhos biológicos e outros dois de criação e cinco netos, sendo quatro meninos e uma menina. Meus filhos, Ângela e Isaías, foram praticamente criados e ainda atuam no Hospital. Ela possui mestrado em enfermagem e ele é doutor em Informática Biomédica. Nunca quis influenciar as escolhas deles, mas creio que o envolvimento no meu trabalho ajudou a se descobrirem. Sou muito grata por isso. 

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