Muito trabalho envolvido
Apesar do glamour aparente e da atração que exerce sobre muitas pessoas, a carreira de modelo, seja nas passarelas ou fora delas, não é tão simples quanto parece
Quando perguntadas sobre o que desejam ser quando crescerem, muitas meninas — e meninos também — manifestam a vontade de se tornarem modelos. De fato, a profissão vem chamando a atenção de um número cada vez maior de jovens, seja por causa dos diversos exemplos de sucesso, seja pelo charme e pelo glamour que este universo transmite.
Nesse cenário, o Brasil é uma forte referência desde os anos de 1950, quando Vera Barreto Leite e Mimi Ouro Preto dominavam os desfiles da alta costura francesa. O país se consolidou ainda mais como celeiro de modelos de destaque depois do longo domínio de Gisele Bündchen, mas não apenas dela. O casting de modelos brasileiros de enorme sucesso é extenso e inclui nomes como Isabelli Fontana, Adriana Lima e Alessandra Ambrósio, entre as mulheres, e Álvaro Jacomossi, Evandro Soldati e Alexandre Cunha, entre os homens.
Na construção de carreiras reconhecidas no mundo inteiro, a passarela costuma ter grande importância, mas não é o único caminho. Também faz parte da profissão dominar as lentes das câmeras e estampar publicações respeitadas do mundo da moda e do comportamento. A lista de ingredientes que compõem a receita para se tornar um supermodelo é extensa e, como a maioria das profissões, exige muita dedicação e esforço.
Segundo a empresária Geovana Borges, da First Agency Models, o glamour é, sim, um elemento a ser destacado na vida de modelo. “Muitos modelos são presenteados pelas marcas que representam e recebem tratamento de realeza. Entretanto, por trás de um espetáculo de 20 ou 30 minutos, há meses de planejamento e trabalho árduo, inclusive dos modelos, como em qualquer outra profissão”, comenta.
Apesar de o mercado estar mais flexível, geralmente a idade para uma garota iniciar a carreira é em torno dos 14 anos — lembrando que modelos menores de idade devem estar sempre acompanhados pelos responsáveis —, mas há exceções. O que não costuma mudar é o ciclo da carreira, que passa pelo processo de lançamento, crescimento, maturação e redução no volume de trabalhos. “Exige tempo, paciência e dedicação. Não há uma tabela que determine a idade certa para isso ou aquilo, mas há preferências. Os modelos comerciais, por exemplo, podem começar a partir de oito meses e terminar como modelo sênior. O perfil fashion é que tende a ter início aos 14 anos”, explica Geovana.
Há casos em que o jovem é abordado por um olheiro, ou scouter, aceita o convite para fazer um teste e se torna um modelo de sucesso. No entanto, a maior parte das pessoas que desejam trilhar esse caminho deve estar bem preparada e buscar as oportunidades. Faz parte desse processo conhecer as agências e se inscrever para os famosos castings. Os diretores da Agência André Pereira Models, Sidiney Moura e André Pereira, reforçam que, para ser um bom profissional, é necessário desempenhar um trabalho sério, árduo e preciso. “Não pode faltar vontade e dedicação na hora de se preparar para a carreira. Nesse momento, cercar-se de bons profissionais é fundamental. A partir daí, o trabalho se transforma em uma parceria: o modelo evolui para que sua agência consiga inseri-lo no mercado”, explicam os diretores.
Quem chega até esta etapa certamente já sabe que o glamour e a sofisticação estão ligados a uma parcela bem pequena da rotina de um modelo. A correria pode ser promissora e trazer estabilidade financeira, mas não é fácil. Especialmente quando se está fora dos grandes centros, que concentram o maior fluxo de trabalho. “É possível sair de
uma agência do interior diretamente para uma carreira bem-sucedida, mas o processo precisa ser bem direcionado”, esclarece André.
Além das passarelas
Como em boa parte das profissões, a carreira de modelo é competitiva e exige muito. Para se destacar, não basta ter um rosto bonito e um corpo desenhado segundo os padrões vigentes; é preciso ter, pelo menos, um portfólio diferenciado e muita presença de cena. Nas seleções, o modelo deve transmitir segurança e carisma, ser educado e comunicativo. Ainda não existe um curso regulamentado para a formação de modelos, mas as agências percorrem outras vias para manter seu casting atualizado.
Os workshops, por exemplo, costumam oferecer fundamentação teórica e prática aos profissionais. “Na agência, disponibilizamos aulas de comportamento e de passarela, transmitimos noções de fotografia e de comunicação. Graças a essas atividades, é possível ver o desenvolvimento de quem participa ativamente de tudo aquilo que é oferecido”, revela Geovana. Esse empenho é fundamental para encarar as passarelas e também — aliás, principalmente — as demoradas seleções direcionadas a editoriais de revistas, comerciais de televisão e até presença em eventos.
Cada um desses objetivos segue padrões de altura e medidas pré-estabelecidos. Mulheres com menos de 1,70 m e que não estejam entre os manequins 36 e 38 não costumam ter chances como modelo. Entre os homens, a altura mínima exigida costuma ser 1,80 m, com manequim 38. Desenvoltura, comunicação empática e, no caso das mulheres, andar
bem de saltos altos são apenas alguns dos demais requisitos. Para desfiles infantis não a tabela. “Sabemos que beleza e competência independe das normas impostas e trabalhamos para melhorar a imagem do mercado e oferecer oportunidade a todos”, prioriza Geovana.
Entre as alternativas que se apresentam estão o mercado de modelo fotográfico, de eventos e de ator ou atriz, uma vez que quem atua nessas áreas costuma ter muitas características em comum. A empresária Milena Del Arco, da DOT. Marketing Promocional, explica que para ser promotora de eventos é preciso gostar do público e ter beleza, postura e simpatia. Também é importante se cadastrar em uma agência especializada. “No caso da modelo que também trabalha com eventos, o glamour quase não existe. Pelo contrário, é um trabalho pesado, cansativo e desgastante. Só quem trabalha com isso diariamente pode saber como fica o corpo depois de passar muitas horas em cima do salto, com um sorriso no rosto e cumprindo outras diversas tarefas ao mesmo tempo. Também é necessário ter muito jogo de cintura para lidar com situações desconfortáveis”, ressalta a empresária.
Em Ribeirão Preto, há muitas oportunidades nessa área. Além das grandes feiras agrícolas que atraem pessoas do mundo todo para a região, a cidade é sede de muitos eventos esportivos, musicais, sociais e corporativos, o que faz aumentar a demanda por receptivos e promotores de eventos. “Sem contar as inúmeras empresas ribeirãopretanas, sempre em busca de pessoas capacitadas para ajudar na divulgação de seus produtos e serviços”, lista Milena.
Assim como toda profissão, ser modelo tem uma série de prós e de contras. Quem está pensando em dar os primeiros passos nessa direção precisa estar atento às falsas agências, tomar cuidado com a obsessão pela magreza e saber lidar com a instabilidade profissional. Segundo os próprios modelos, recorrer a uma agência é sempre o caminho mais seguro para entrar no mundo da moda. André e Sidiney destacam, ainda, que o candidato precisa entender o meio e se identificar com ele. Cuidar do corpo e da mente fará parte do dia a dia desse profissional, que também precisará entender que os frutos não serão colhidos imediatamente. “É necessário ter confiança no seu trabalho, estar sempre disponível e ficar o mais confortável possível longe de casa. Maturidade é a palavra-chave para uma carreira como modelo de sucesso”, recomendam os diretores.
Do outro lado da lente
Altura e peso ideais são só os primeiros atributos que levam meninas e meninos a procurarem uma agência de modelo. Coragem e apoio da família também são ingredientes indispensáveis para começar a modelar. Aceitar que a filha de apenas 15 anos, na época, passasse uma temporada de seis meses na China foi o primeiro grande desafio dos pais da modelo Bruna Barcelos, superado pela confiança depositada na agência escolhida para comandar a carreira da filha. “O mais difícil é não ter muito tempo para se adaptar à nova realidade. É preciso chegar e logo incorporar os hábitos locais, por mais diferentes que eles sejam”, comenta Bruna.
Para a modelo Letícia Procópio Vilas Boas, que nasceu em uma família de fotógrafos e modelos, a adaptação à carreira
escolhida foi mais tranquila. Segundo ela, a profissão deve ser encarada como qualquer outra que requer esforço, disciplina e dedicação. “A diferença é que precisamos aprender a ter maturidade mais cedo, pois iniciamos na carreira muito jovem”, argumenta.
Iniciada a carreira, começam as viagens, os desfiles e as campanhas publicitárias, que não deixam muito espaço na rotina para a monotonia. Para lidar com a agenda atribulada e conquistar novos trabalhos, é preciso ter foco, paciência, dedicação e força de vontade. Ainda que as modelos apareçam lindas, bem penteadas, maquiadas e com um andar confiante, a realidade no backstage é sempre diferente. Incontáveis profissionais, entre empresários, maquiadores, cabeleireiros, estilistas, fotógrafos e assistentes, aglomeram-se entre araras e bancadas correndo contra o relógio para que tudo esteja pronto em tempo. “Nosso dia a dia é muito agitado, mas a carreira proporciona bastante liberdade. Acredito que, antes de mais nada, é importante que cada modelo, homem ou mulher, descubra seu brilho próprio”, pontua Bruna.
Determinação e atitude ajudam, e muito, a triunfar nesse disputado mercado. Buscando uma possibilidade de renda, a modelo Ana Carolina Cyrino identificou na vaga de promotora uma ótima oferta para concluir a faculdade em tempo integral e trabalhar com o que gostava. “Gosto dessa área por ser dinâmica. Estou sempre lidando e conhecendo novas histórias, pessoas e empresas, mas a maior satisfação é receber um feedback positivo da marca que estou representando”, analisa.
Para a modelo, a dificuldade está nos horários. Muitas vezes, é necessário abrir mão de finais de semana, feriados e momentos especiais, porém, isso não torna a profissão melhor ou pior do que muitas outras carreiras. “Na minha opinião, a principal chave para o sucesso nesse mercado é o profissionalismo e a postura. Quem entra achando que apenas a beleza vai abrir portas acabará se decepcionando”, frisa a modelo. Assim como Ana Carolina, Letícia também está apostando em outras áreas para seguir adiante com a carreira. “Amo estar em frente às lentes, tanto que há dois anos iniciei um curso de interpretação para TV e cinema em São Paulo”, revela.
Assim como qualquer profissão, diversas preocupações fazem parte do dia a dia do profissional. Além do cuidado com o corpo, valores como pontualidade, assiduidade e responsabilidade jamais podem ser esquecidos, pois a imagem do modelo é a base para o trabalho e todas suas ações contribuem para preservar uma boa imagem. “Penso em dois fatores importantes para quem quer seguir a carreira de modelo: primeiro, ter certeza de que esse é o caminho que deseja e, segundo, procurar profissionais sérios e com credibilidade”, conclui Letícia.
Uh que beleza!
Como o próprio substantivo sugere, a profissão de modelo está intimamente relacionada a padrões, a começar pelos de beleza. Como os próprios mudam o tempo todo, seja para se adequar aos conceitos de moda, para entrar no clima da propaganda ou por outras razões, os profissionais desse mercado também precisam se adaptar com rapidez e eficiência. Para ilustrar a agilidade com que as transformações do segmento ocorrem, basta dar uma olhada para alguns dos principais símbolos de beleza das últimas décadas.
1. Mulheres da renascença: chamavam a atenção pelas fartas curvas.
2. Marilyn Monroe: marcou os anos 50 com suas curvas generosas.
3. Camila Queiroz: o ar misterioso e a beleza saudável da modelo ribeirãopretana conquistaram as capas de revistas, as passarelas e a TV.
4. Cindy Crawford: a supermodelo trouxe para as lentes o ar sexy e o corpo curvilíneo.
5. Kate Moss: conhecida por sua beleza indefinida, a modelo reformulou o conceito de sex appeal.
