Mulheres soberanas
Do direito ao voto até a ocupação da cadeira máxima do Executivo Municipal, essas mulheres comemoram a trajetória política e muitas outras conquistas
Juntas, elas movimentam mais de R$ 2,2 bilhões. Suas decisões afetam quase 750 mil habitantes. Nas proximidades de Ribeirão Preto, são a representação fiel da força da mulher na política, ocupando a principal cadeira do Executivo em cidades do interior do Estado que tem o maior Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Pelos mais variados motivos, essas mulheres se envolveram com a história de suas cidades e, através dos resultados das urnas, foram escolhidas para representar a comunidade onde vivem.
Com 73 % dos votos, a empresária Cleide Berti foi eleita prefeita em seu terceiro mandato. Antes de vencer as eleições de 2012, já havia ocupado o cargo soberano em Américo Brasiliense em 1997 e em 2001. Também foi vereadora, inclusive tendo atuado como presidente da Câmara. Mas sua ligação com a política começou muito antes. Ainda na juventude, Cleide participou da emancipação política de Américo Brasiliense. “Eu tinha um tio vereador, muito empenhado na emancipação da cidade e acabei me envolvendo nesse desafio também”, recorda. Hoje, prestes a fazer 65 anos, orgulha-se de ser a primeira prefeita da cidade.
Célia Ferracioli é bem jovem, tem apenas 31 anos, mas sua carreira na política não é tão recente. Ela já trabalhou como advogada da Cohab de Ribeirão Preto, entre 2009 e 2011. “Recebi muitos ensinamentos da Dárcy”, diz. O tio, Clarindo Ferracioli, mais conhecido como Belão, sempre esteve envolvido na política e foi prefeito de Restinga quatro vezes. O pai de Celinha foi prefeito de São José da Bela Vista, em 2004 e 2005, mas faleceu no segundo ano de mandato. A advogada entrou na política justamente para dar continuidade ao trabalho que o pai iniciou na cidade. “Desde criança, vivo no ambiente político”, conta.
A prefeita de Cássia dos Coqueiros, Rosa Gonçalves da Silva, de 36 anos, também tem a política no sangue: o pai foi prefeito da cidade. “A vontade de querer ajudar vem de dentro da gente. Eu aprendi com o meu pai que, na política, eu poderia fazer mais. Por isso, resolvi seguir a carreira”, afirma a comerciante, que, antes de assumir a Prefeitura, era açougueira, assim como a mãe. Durante a sua campanha, Rosa foi de casa em casa, inclusive na zona rural, até conquistar a maioria dos votos nas urnas. Antes disso, já havia sido vereadora por dois mandatos.
Dárcy Vera, a prefeita reeleita de Ribeirão Preto, com 45 anos, sempre foi muito participativa. “Fui radialista, líder de classe, tenho esse perfil empreendedor”, ressalta. Há um ano, Dárcy também descobriu que teve um familiar envolvido na política: Nestor Vera, que foi morto na Comissão da Verdade. A trajetória pública começou em 1992, quando disputou pela primeira vez uma vaga na Câmara dos Vereadores. O cargo foi assumido em quatro oportunidades: 1995, como 1ª suplente, 1996, 2000 e 2004. Em 2006, foi eleita deputada estadual e, em 2008, elegeu-se prefeita de Ribeirão Preto pela primeira vez.
Um perfil muito parecido com o de Dárcy define Sílvia Meira, prefeita reeleita de Monte Alto. “Nasci para executar”, frisa a ex-professora, de 44 anos. Silvia despertou para a carreira política quando foi presidente do Fundo Social de Solidariedade. Depois, foi eleita vereadora. Mais tarde, tentou o cargo de prefeita, até conquistá-lo, nas eleições de 2008, e novamente nas eleições de 2012. “Mulher tem a determinação e a coragem de abrir a porta. Nós encaramos de frente”, reforça Sílvia.
Diferente delas, Flávia Mendes Gomes, de 45 anos, não idealizou tornar-se prefeita. “Esse nunca foi o meu objetivo de vida. Eu me envolvi com isso por ver a necessidade das pessoas em ter quem lutasse por elas. Para mim, a política é mais uma missão do que um ideal”, confessa. Flávia era psicóloga da rede pública de Orlândia e sentiu a necessidade de participar mais ativamente da administração da cidade. Na época, estava acontecendo uma reestruturação na Prefeitura e ela estava filiada a um partido. Por conta da porcentagem de mulheres no partido, foi convidada a participar das eleições. Assim, em 2000, tornou-se a única vereadora de oposição na Câmara de Orlândia. Como encontrou muitas dificuldades como vereadora e se frustrou bastante, não buscou a reeleição. Porém, em 2012, entrou novamente em campanha, destacou-se nas urnas e conquistou o cargo de prefeita.
O motivo que tanto abalou Flávia é o mesmo que afeta as outras prefeitas. “Mulher apanha muito”, dizem. A cobrança feita a elas é muito grande. Para explicar melhor, Dárcy Vera cita Hillary Clinton: “Há uma cobrança muito maior das mulheres em cargos públicos. Não sei se pelo poder e pela capacidade de produzir muitas coisas ao mesmo tempo, mas é natural essa cobrança”. No início, a prefeita de Ribeirão Preto pensava que isso só acontecesse com ela, mas depois percebeu que outras amigas prefeitas passavam pela mesma situação. “Existe essa cobrança maior, mas isso não vem do homem. É da própria mulher que se expõe mais também. Eu acabo me colocando muito à frente dos problemas para tentar solucioná-los”, afirma. Cleide concorda e diz que isso acontece porque a mulher se envolve mais, por ser generosa, emotiva. “Mulher entende mais de gente”, completa.
Outro fato que incomoda Dárcy é quando a sua aparência ganha mais importância do que as questões políticas. “Fico furiosa quando, diante de tantos resultados positivos da minha administração, ouço elogios à minha aparência. Dão mais importância para o meu sapato do que para o meu trabalho. Com o homem, destacam o trabalho. Isso me incomoda muito”, expressa. Silvia também passa por isso e diz que, novamente, quem cobra isso é a própria mulher. “Nós queremos que sejam valorizadas as nossas competências e não os nossos acessórios”, anuncia a prefeita de Monte Alto.
Porém, como Sílvia mesmo costuma dizer, é com o trabalho que se dá a resposta. Por isso, tem se empenhado com afinco para fazer novamente uma boa administração. O foco da sua administração está na Educação. Sílvia levou uma Escola Técnica (ETEC) para Monte Alto, conseguiu a obra da escola do Sesi, ampliou os cursos técnicos profissionalizantes, está buscando levar uma nova faculdade para o Município, entre outras ações. Também está investindo pesado nas creches. Além disso, está implantando no Ensino Fundamental um programa chamado Escola da Inteligência, que trabalha a saúde emocional das crianças, desenvolvido por Augusto Cury. “É um projeto que não descerra placa, mas é a minha menina dos olhos”, explica Sílvia.
Dárcy também orgulha-se de seus feitos. “Eu consegui trazer a Agrishow de volta, estou conseguindo trazer uma seleção para treinar aqui na Copa de 2014, como cidade base, conquistei o primeiro hospital da cidade, o Santa Lydia, fiz a maior obra de combate à enchente, construí 22 escolas em quatro anos, criei cursos profissionalizantes de primeiro mundo”, lista. Ainda assim, a prefeita afirma que a mulher, por natureza, tem uma insatisfação muito grande. Ela diz que sempre falta algo mais a ser feito.
A grande conquista de Cleide foi na área da saúde. A empresária conseguiu fazer um hospital em Américo Brasiliense com dois centros cirúrgicos totalmente equipados. A prefeita também orgulha-se por sua cidade ter sido a primeira a municipalizar o ensino na região e a implantar laboratório de informática em todas as escolas, o que aconteceu na sua primeira gestão, em 1998. Diante dos méritos de Cleide, Silvia lembra que o melhor de ser prefeita é quando consegue, através de suas ações, transformar a vida do outro para melhor.
Porém, não é só de momentos de glória que elas vivem. As conquistas fazem parte de seu cotidiano e os desafios as movem para mais além. Só que as fragilidades também existem. “Temos o lado sensível, a mulher que chora, que precisa do travesseiro. É da natureza do ser humano. Temos as nossas fragilidades”, aponta Dárcy. Ela, assim como todas as outras prefeitas, cita a distância da família como uma das principais dificuldades. Dárcy é casada e tem quatro filhos. No dia 28 de março, nasce o seu primeiro neto. “Só pude acompanhar a minha filha duas vezes à loja de bebês”, conta. Por isso, nos fins de semana, tenta preencher essa lacuna, participando mais ativamente e estando próxima da família.
Rosa, de Cássia dos Coqueiros, tem o mesmo sentimento. Outro dia, o filho Miguel pediu que ela cozinhasse para ele. “Quando ele pediu para que fizesse macarrão porque estava com saudade, meu coração ficou partido”, revela. Por isso, agora ela está aprendendo a separar melhor as atividades e pretende se dedicar mais à família. Foi exatamente isso que Cleide ensinou aos filhos: a mãe da rua é a prefeita; a mãe de casa é a Cleide. Desta forma, separa as personalidades e se dedica às duas funções com o mesmo afinco. A fórmula parece dar certo, já que está em seu terceiro mandato e o casamento já dura 43 anos.
Silvia, de Monte Alto, estabelece prioridades e se mantém forte. “Nós somos exemplos, somos pilares. Precisamos ter estrutura para aguentar isso. As fragilidades, embora tenhamos, muitas vezes, ficam escondidas”, declara. É com esta convicção que ela divide-se nas tarefas de mulher, mãe, filha e prefeita. Celinha, de São José da Bela Vista, diz que a cobrança do marido é grande. “Imagino que não deve ser fácil para ele, tanto diante das reclamações quanto diante dos elogios”, observa. A situação de Flávia, de Orlândia, nesse caso, é ainda mais delicada, pois o marido é vereador. Ela também concorda que a família é quem mais sofre com as críticas e as cobranças.
Para buscar equilíbrio, todas acreditam que a força maior esteja no caminho espiritual. Flávia conta que, todas as manhãs, faz orações no gabinete e cada vez mais funcionários participam desse momento. Dárcy também faz orações em seu gabinete e pede para que seja feita a vontade de Deus. Na sua cabeceira, está o livro “Nunca Desista”, da pastora americana Joyce Meyer. Silvia comenta que não há outro caminho para o equilíbrio que não seja o espiritual. “Nós sabemos que precisamos da orientação divina, da sabedoria, do discernimento”, pronuncia.
Entre conquistas e desafios, forças e fragilidades, carreira e família, estas seis mulheres representam não só as comunidades que as fizeram vitoriosas nas urnas, mas todas aquelas que vivem situações de essência tão singular e que, no dia 8 de março, comemorando ou não, têm um dia dedicado a elas. “Eu acredito que o Dia Internacional da Mulher é importante por ser uma forma de despertar as mulheres para os seus direitos”, destaca Dárcy, que, através de um blog e de um site, enaltece o trabalho da mulher. Celinha também concorda com a data comemorativa. “A mulher tem que ser valorizada e ela tem direito de ter um dia especial”, finaliza.
Célia Maria Ferracioli dos Santos
Profissão: advogada
Estado Civil: casada
Filhos: nenhum
Município: São José da Bela Vista
Número de habitantes: 8.400
Orçamento: R$ 14 milhões
Na política desde: disputou sua primeira eleição em 2008, porém é engajada na política desde a adolescência
Partido: PTB
Pontos fortes do município: potencial agrícola
Um pouco de sua história: Em 2005, formou-se em Direito pela Unip, em Campinas. Na cidade, também trabalhou por dez anos na administração da empresa Uninget. Nos últimos quatro anos, trabalhou na Cohab de Ribeirão Preto. Em 2010, fundou a ONG Sonho Possível, de São José da Bela Vista, que anualmente realiza festividades e distribui brinquedos a crianças carentes. Em 2012, venceu as eleições e se tornou prefeita de São José da Bela Vista
Para ser prefeita é preciso: coragem, dedicação e amor ao povo para, assim, enxergar as necessidades da população e atendê-las
Cleide Aparecida Berti Ginato
Profissão: empresária
Estado Civil: casada
Filhos: 2
Município: Américo Brasiliense
Número de habitantes: 40 mil
Orçamento: R$ 67 milhões
Na política desde: muito jovem
Partido: PTB
Ponto forte do município: cana-de-açúcar
Um pouco de sua história: como a maioria das mulheres contemporâneas, Cleide divide-se entre diversas tarefas: é mãe, empresária e prefeita. Na carreira política, já passou duas vezes pela Câmara dos Vereadores. Atuou, inclusive, como presidente da Câmara. Em 2012, foi eleita para o terceiro mandato como prefeita de Américo Brasiliense, tendo sido uma das primeiras mulheres da região a ocupar o cargo
Para ser prefeita é preciso: ter coragem e determinação; saber a hora exata para dizer sim ou não
Dárcy Vera
Profissão: jornalista
Estado Civil: casada
Filhos: 4
Município: Ribeirão Preto
Número de habitantes: 604.000
Orçamento: R$ 1,9 bilhão
Na política desde: 1992
Partido: PSD
Pontos fortes do município: comércio, agronegócio e educação
Um pouco de sua história: Dárcy trabalhou na colheita de algodão, foi vendedora de panelas e, assim, entrou na faculdade de Jornalismo. Como locutora de rádio, cada vez mais se apaixonou pelo contato com as pessoas. Começou sua vida política como candidata a vereadora, em 1992, tornando-se suplente. Desde então, foram quatro mandatos como vereadora, um como deputada estadual. É a primeira prefeita eleita da história de Ribeirão Preto e hoje está em seu segundo mandato
Para ser prefeita é preciso: tratar da cidade com o mesmo carinho com que trata de casa. E tratar da população com o mesmo respeito com que trata a família
Flávia Mendes Gomes
Profissão: psicóloga e advogada. Atualmente, cursa pós-graduação em Gerente de Cidades
Estado Civil: casada
Filhos: 2
Município: Orlândia
Número de habitantes: 39.700
Orçamento: R$ 139 milhões
Na política desde: 2000
Partido: PSB
Pontos fortes do município: esporte e localização privilegiada, às margens da Rodovia Anhanguera
Um pouco da sua história: Flávia foi presidente da Associação do bairro Jardim Teixeira, onde iniciou a vocação em cuidar dos interesses do próximo. Além disso, é voluntária na Pastoral da Criança como psicóloga há mais de 20 anos. Na vida política, foi vereadora de 2000 a 2004 e vice-prefeita de 2008 a 2012. Esteve à frente do Fórum de Desenvolvimento Econômico da região da Alta Mogiana e, em janeiro de 2013, assumiu a Prefeitura de Orlândia
Para ser prefeita é preciso: Coragem, determinação, dedicação, desprendimento e sensibilidade para perceber as necessidades das pessoas
Silvia Aparecida Meira
Profissão: professora
Estado Civil: divorciada
Filhos: 2
Município: Monte Alto
Número de habitantes: 46.600
Orçamento: R$ 93 milhões
Na política desde: 1993
Partido: PTB
Pontos fortes do município: indústria, comércio, agricultura e turismo
Um pouco da sua história: Silvia é professora e começou o curso de Direito, mas interrompeu para se dedicar à carreira política. Iniciou a vida profissional aos 14 anos, como empregada doméstica. Foi balconista, vendedora, representante comercial e bancária. Esteve à frente do Fundo Social de Solidariedade e foi fundadora da APAE de Monte Alto, juntamente com a presidente Maria Isabel Buchi Cestari. Em 2000, tornou-se vereadora e, em 2008, foi eleita a primeira mulher a governar o município de Monte Alto
Para ser prefeita é preciso: coragem, garra, sabedoria e muita determinação
Rosa Maria Gonçalves da Silva
Profissão: açougueira
Estado Civil: casada
Filhos: 1
Município: Cássia dos Coqueiros
Número de habitantes: 3.300
Orçamento: R$ 11 milhões
Na política desde: 2005
Partido: PTB
Pontos fortes do município: turismo e agricultura
Um pouco de sua história: filha de político tradicional da cidade, trabalhou no comércio desde os 13 anos, ingressando na vida política de Cássia dos Coqueiros aos 25 anos. Foi eleita vereadora por dois mandatos, sendo que no primeiro foi a candidata mais votada. Líder da bancada do PTB nos últimos quatro anos, aceitou o desafio de concorrer ao cargo no executivo e, nas eleições de 2012, tornou-se prefeita da cidade
Para ser prefeita é preciso: primeiramente, ter fé em Deus, determinação, paciência e acreditar que vai fazer o melhor pelo município


Texto: Máisa Valochi
Fotos: Júlio Sian e arquivo pessoal
Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido
Agradecimento: UneRobusti