Multiplicador da esperança

Graças ao envolvimento de médicos e de colaboradores, orquestrados por Henrique Prata, o Hospital de Câncer de Barretos é motivo de orgulho nacional

Homem de fala simples, um brilho intenso nos olhos e uma honestidade que transborda e convence. Apesar de ter nascido na Capital Paulista, Henrique Prata carrega a essência de quem, desde os três anos, mantém um contato próximo com o campo e com o jeitinho típico do interior. Este é o homem que transformou o pequeno Hospital São Judas Tadeu, criado por seus pais, os médicos Paulo e Scyla Prata, em 1962, na maior referência em tratamentos de câncer da América Latina, no quarto maior hospital do gênero do mundo.

Mas nem sempre a relação do empreendedor com o Hospital foi de amor pleno. Na infância e na adolescência, foi difícil para Henrique e para os irmãos entenderem os motivos que levavam seus pais a colocarem a relação familiar em segundo plano, dedicando-se integralmente à Instituição Médica que criaram. “Eu não entendia porque meu pai, especialmente, podia empenhar tanto esforço a um hospital deficitário. Eles trabalhavam mais de 12 horas por dia e não davam aos filhos sequer um centavo. Meu pai sempre deixou claro para os cinco filhos que havia escolhido o Hospital como missão de vida”, recorda Henrique que, por sua forte formação cristã, respeitava a postura do pai, mesmo sem compreendê-la totalmente. “Eu me questionava: onde está escrito na Bíblia que não se pode ter lucro com o trabalho? Para que tamanha dedicação a uma Instituição que não sai do vermelho?”, confessa o empreendedor, que reconhece em si mesmo um dom para os negócios, já que era, desde criança, um bom articulador, ótimo comerciante e excelente financista.

Seus talentos foram aprimorados na escola do avô, Antenor Duarte Vilela, por quem foi praticamente criado. Homem simples de Minas Gerais, deixou suas origens para migrar para o interior de São Paulo, onde investiu na pecuária extensiva, tornando-se um homem muito bem-sucedido. “Saí da escola aos 15 anos e fui aprender na prática, com meu avô, tudo o que precisava saber”, revela. Em sua trajetória empresarial, ligada ao agronegócio, também conquistou sucesso.

Sua relação com a realização de seu pai só teve início depois de um infarto do criador do Hospital São Judas Tadeu. “Em 1985, precisei colaborar na gestão do Hospital para ajudar meu pai, mas confesso que não passava pela minha cabeça assumir a Instituição, já que eu sabia que aquele negócio não gerava lucro”, acrescenta Henrique. Mas três anos depois, um colapso financeiro acometeu o Dr. Paulo Prata e sua responsabilidade cristã falou mais alto. “O bispo da cidade, que era meu mentor espiritual, convenceu-me de que, como filho, eu precisava acudi-lo”, afirma o empreendedor. Com as contas em dia novamente, era chegada a hora de fechar a Instituição Médica. “Mas, às vésperas de encerrar as atividades do Hospital, fui procurado por um médico que me mostrou que, mesmo leigo para assuntos de saúde, eu poderia salvar muitas vidas. Ao acordar no dia seguinte, passei a sentir a mesma convicção de meu pai e o compreendi totalmente: definitivamente, minha missão era, como a dele, salvar vidas”, relata Henrique. Tal certeza revelou-se tão forte que Henrique acabou convencendo milhares de pessoas em sua trajetória.

Um modelo a ser copiado
Ao comemorar 50 anos, o Hospital de Câncer de Barretos acumula vitórias e números impressionantes. Os 2.400 m² que deram origem à instituição se transformaram em 100 mil m² de área construída e integralmente voltada ao atendimento de pacientes com câncer vindos do Sistema Único de Saúde (SUS). Para cumprir sua missão de forma eficiente, o Hospital reúne 250 médicos dedicados exclusivamente a essa atividade e 2.500 colaboradores — que serão 3.000 até o final de 2012 —, realizando cerca de 3.000 atendimentos por dia a pacientes vindos de mais de 1.300 municípios dos 27 estados brasileiros.

Em sua estrutura, o Hospital de Câncer de Barretos reúne 17 pavilhões, além de manter o próprio Hospital São Judas Tadeu, onde são oferecidos cuidados paliativos. Entre as mais recentes conquistas está a ampliação do atendimento infantil, prestado desde 2000. Agora, as crianças são recebidas no Hospital de Câncer Infantojuvenil Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aumenta em 400% a capacidade de atendimento dos pequenos em Barretos com qualidade máxima, como as crianças merecem.

Motivos de orgulho, também, são o Instituto de Ensino e Pesquisa e o moderno Instituto de Treinamento em Técnicas Minimamente Invasivas e Cirurgia Robótica, em parceria com o Hospital Universitário de Estrasburgo, na França, que só se encontra igual no local de origem e na China. “Não conquistei nada disso sozinho. O que fiz foi disseminar essa visão, que chamo de cristã, de que temos responsabilidade direta pela forma como vivem as outras pessoas. Assim, cada um fazendo sua parte, deu no que deu”, avalia Henrique.

Mas não foi fácil percorrer esse caminho vitorioso. Segundo o empreendedor, a maior dificuldade enfrentada foi provar para a classe médica que era possível praticar uma medicina de ponta em Barretos, independentemente de quanto ela custasse. “Qualquer gestor conta com a razão como forte argumento. Planejamento, números e projetos são fundamentais. No entanto, meu plano não seguia esse modelo, mas era construído de fé, como continua sendo. Sempre soube que se eu fosse honesto como meu pai havia sido perante a Deus, eu gozaria dos mesmos benefícios, como o de ter as portas sempre abertas”, afirma o gestor.

Ainda assim, seu poder articulador sobressaiu-se e Henrique conquistou um voto de confiança dos médicos. “Pedi que eles deixassem o tempo passar e tentassem junto comigo. Assim, foi possível construir o maior hospital para tratamento de câncer da América Latina”, orgulha-se, garantindo que as conquistas só foram possíveis por estarem ligadas a um nobre propósito cristão: oferecer ao próximo exatamente aquilo que gostaria que fosse oferecido a si mesmo.

Em Barretos, hoje é realizada a Medicina Personalizada. Isso quer dizer que os pacientes do Hospital são integralmente rastreados antes de iniciar qualquer tratamento. “Nenhum remédio é aplicado sem a certeza de seu resultado. Posso dizer que esse é um dos diferenciais que não se encontra em nenhum outro hospital brasileiro, público ou particular”, garante Henrique, destacando que a instituição abriga mais de U$ 40 milhões em equipamentos de ponta.

A prioridade da equipe do Hospital é seguir os mais modernos protocolos médicos, sem pensar nos custos. Além da tabela defasada do SUS, este é um dos motivos geradores do déficit de R$ 6,5 milhões mensais. Mas isso já não é problema na gestão do Hospital, deficitário desde sua origem. “Tudo o que parece impossível, eu tenho intimidade com Deus para buscar”, acrescenta o empreendedor. Segundo ele, os leilões realizados em mais de 300 municípios em todo o país são a principal fonte de renda complementar do Hospital.

Outra importante ferramenta para equilibrar as contas da instituição médica é a participação ativa de grandes artistas brasileiros. “A primeira contribuição com que contamos foi da dupla Chitãozinho e Xororó, em 1991. Depois vieram Sérgio Reis, Almir Sater, Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo. Mas foi com a Xuxa, a primeira madrinha do Hospital, que conquistamos grande repercussão na mídia”, relata Henrique. A partir de 1994, a Rainha dos Baixinhos e o apresentador Gugu Liberato juntaram-se ao empreendedor em busca de recursos para o Hospital através do envolvimento da classe artística. Essa participação só cresceu desde então e, hoje, mais de 50 artistas estão ligados à causa. “Realizamos mais de 20 shows por ano, sendo que cada um gera de R$ 200 mil a R$ 300 mil ao Hospital de Câncer. Sem esse suporte também não teríamos chegado onde estamos”, garante o gestor, ressaltando que, atualmente, não é incomum ser procurado pelos artistas quando demora a solicitar ajuda.

Dedicação integral
Tino comercial e capacidade de gestão são algumas das habilidades natas que Henrique colocou à disposição do Hospital assim que o assumiu, há quase 25 anos. Junto com os resultados e a expansão da instituição de tratamento de câncer veio, também, a exigência da dedicação integral. “Atualmente, quando tenho uma semana de férias e consigo fugir para uma fazenda, sinto-me como se estivesse na Disney”, brinca o empreendedor. As atividades do Hospital não terminam em horário comercial de segunda a sexta-feira, mas seguem pelo final de semana, com cursos e treinamentos médicos, com direito a recepções internacionais mensalmente, entre outras atividades. Viagens internacionais — de quatro a cinco todos os anos — também fazem parte da sua atividade como gestor.

No entanto, a atenção de Henrique está mesmo voltada para dentro do Hospital de Câncer de Barretos. “Posso afirmar, sem medo de errar, que comando uma empresa com cerca de 95% de colaboradores muito satisfeitos”, orgulha-se, mais uma vez. Parte da satisfação conquistada se deve à natureza do trabalho, que é salvar vidas.  Além disso, Henrique faz questão de conhecer cada colaborador do Hospital. “Periodicamente, tomo café da manhã com pequenos grupos de funcionários. Sei que me conhecer pessoalmente, ouvir minhas ideias e poder me dar opiniões move cada um deles, e a mim também”, acrescenta. Expandindo suas atividades, estão sendo inaugurados, também, hospitais dedicados ao tratamento de câncer em Jales e em Porto Velho.

Apesar de tantas atividades, Henrique antecipa que está trabalhando em um projeto paralelo particular: a implantação de uma fundação, com recursos próprios, para dar suporte às crianças que passam por tratamento de câncer. “Por conviver com o dia a dia dos pacientes, fui percebendo que existe muita discriminação com as crianças que passaram por esse tipo de tratamento. A ideia de que a doença pode voltar ou que a saúde é mais limitada são pensamentos comuns sobre elas. Quero que, através dos estudos, essas crianças tenham condições de seguir uma vida normal e cheias de boas perspectivas”, aponta. Para isso, o empreendedor já trabalha na elaboração de um estatuto.

Segundo Henrique, tanto trabalho se justifica pela intimidade adquirida com Deus. “Não há dinheiro que pague esse sentimento, esse orgulho de saber que estou vivendo dentro dos princípios que eu acredito. Sinto-me feliz por saber que recebi um talento e estou conseguindo utilizá-lo em benefício ao próximo”, conclui o gestor, deixando a todos uma última lição. “Deus dá a todos um dom, mas também irá cobrar, na mesma proporção, sua sentença. Quem vive o egoísmo de utilizar seus talentos apenas para si mesmo, sem dúvida, irá se arrepender”, ensina.

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian e arquivos do Hospital de Câncer de Barretos

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