Multitalentos para a luta

Multitalentos para a luta

As Mixed Martial Arts, ou MMA, têm audiência garantida em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil; nesse universo, Ribeirão Preto conta com representantes que merecem destaque

Quem é o campeão dos campeões? Qual estilo de artes marciais seria mais eficiente em uma situação real de luta sem armas? Foi para responder questionamentos como esses que surgiu, na década de 80, o Vale Tudo. Com pouquíssimas regras restritivas, como o próprio nome já sugeria, o esporte unia, no mesmo ringue, oponentes das mais diversas modalidades e com perfis completamente distintos. O combate não tinha limite de tempo e só terminava por nocaute ou por desistência de uma das partes. O alto nível de rivalidade e a dinâmica dos golpes, tanto em pé, quanto no chão, atraíam cada vez mais atletas e espectadores. Em pouco tempo, essa mistura de habilidades ganhou o mundo, evoluiu em seu formato e passou a ser conhecida pela sigla MMA, abreviação do termo inglês “Mixed Martial Arts”, em português, Artes Marciais Mistas.

A família Grace, especialista em jiu-jitsu, foi a grande responsável por disseminar essa prática. A técnica apurada de Carlos, Hélio e Carlson superou inúmeros adversários e fez surgir uma verdadeira dinastia, que se manteve em alta por muitos anos. Em 1993, um dos filhos de Hélio, Rorion, que morava nos Estados Unidos, decidiu oficializar e padronizar as competições, criando o “Ultimate Fight Championship”, o UFC, que viria a ser o maior e mais famoso campeonato do segmento. Como não poderia ser diferente, o primeiro campeão do evento foi um Gracie. Royce protagonizou duelos memoráveis e se sagrou vencedor em três edições, inspirando várias gerações que vieram em seguida.

Um desses admiradores é Edgard Castaldelli. Exatamente quando o ídolo estava no auge, o ribeirãopretano, então com 16 anos, tornava-se faixa preta em taekwondo. “Naquela época, não havia tanta divulgação como hoje. Só quem realmente gostava do esporte sabia o que estava acontecendo nesse meio onde o Royce era a maior estrela. O que me chamava a atenção nas disputas dele era o leque de técnicas utilizadas, totalmente opostas às que eu dominava. Por isso, comecei a aprender jiu-jitsu. Como meu objetivo já era ser um lutador de MMA, sabia da importância de ser um atleta completo”, explica. Aos 18 anos, surgiu a oportunidade de estrear no octógono, em uma luta de Vale Tudo profissional. Na cidade, o atleta foi pioneiro ao ingressar nesse universo. “Quando venci, senti que estava no topo do mundo. Foi indescritível”, lembra.

O triunfo motivou Edgard a continuar se aprimorando. Entrou para o boxe, onde conquistou títulos significativos como amador e profissional. Depois veio o muay thai, que enriqueceu ainda mais o seu repertório. “Seguir por esse caminho não é fácil. A rotina de um atleta de MMA exige disciplina máxima, pois somos testados em vários itens, como condicionamento físico, força, resistência, explosão e flexibilidade. Tudo tem que funcionar em perfeita harmonia. Fora do ringue, também nos privamos de muita coisa para manter esse estilo de vida”, revela. Porém, a dedicação vale a pena. Vê-se pelos bons resultados que ele vem conquistando. O cartel de Edgard, que foi apelidado de Magrão, conta com 22 lutas e 18 vitórias: 11 por nocaute, quatro por pontos e três por interrupção médica.

Enquanto construía sua carreira, o atleta acompanhou de perto os avanços e a modernização do MMA, que virou um verdadeiro fenômeno mundial. O UFC ganhou status, popularidade e se transformou em uma superprodução. No ano passado, Edgard se candidatou e garantiu uma vaga para o concorrido “The Ultimate Fighter Brasil” (TUF), onde vários talentos batalham por um contrato com a famosa organização. Ele participou da terceira edição do reality show exibido pela TV Globo. “Ficamos confinados em uma casa, com câmeras ligadas 24 horas. Foi difícil me acostumar. O dia a dia era desgastante, pois os treinos eram intensos. Competi em uma categoria acima da minha de origem, a peso pesado, e havia pouco tempo de recuperação entre as lutas. Não venci, mas, de toda maneira, foi uma experiência incrível, que valorizou o meu trabalho”, resume. Além de se preparar para o próximo combate, agendado para março, Edgard se mantém ocupado no comando da Equipe Núcleo de Lutas e ministrando aulas de artes marciais.

No mesmo programa, outro lutador que teve seu potencial revelado em Ribeirão Preto, Ricardo Abreu, o Demente, ganhou notoriedade. Bem-sucedido no jiu-jitsu, ele se desafiou a ultrapassar os limites da modalidade. “Sempre esteve nos meus planos lutar MMA. Queria ver como era, mas não sabia se conseguiria me adaptar. Aos poucos, tomei gosto, especialmente porque aprendi com atletas de referência, como Anderson Silva, Fabrício Werdum, Ronaldo Jacaré, Erick Silva, Tito Ortiz, Michael Bisping, Rafael dos Anjos, entre outros”, comenta. Na atração, Demente foi até a semifinal. “Tive que passar por inúmeras etapas, sendo várias delas eliminatórias. Um misto de tensão, expectativa e ansiedade tomava conta do ar. Ninguém queria perder, pois todos os competidores estavam ali atrás de um sonho. A pressão era imensa”, descreve Demente.

Porém, o maior adversário que teve que enfrentar durante esse período foi a balança. Exatamente como aconteceu com Edgard, Demente teve que se adequar em uma categoria diferente da habitual, que é a meio pesado, até 93 kg. “Cerca de 30 dias antes da disputa para entrar na casa, a produção me avisou que só havia vaga para atletas de peso-médio, até 84 kg. Tinha consciência que seria complicado, mas aceitei”, comenta.

Através de uma dieta rigorosa, conseguiu eliminar 18 kg. Mesmo fraco e debilitado por causa desse processo, o atleta reagiu e esteve envolvido nos melhores combates do show. O desempenho apresentado despertou o interesse dos dirigentes do UFC, que logo o convocaram para integrar o elenco de feras. Feliz com a mudança no rumo da carreira, Demente treina pesado em Las Vegas, nos Estados Unidos, e não vê a hora de retornar para o cage ainda mais contundente e perigoso.

Em algumas ocasiões, o público local já conferiu de perto o lutador em ação. Uma delas foi a segunda edição do Brazilian Fighting Championship (BRFC). A vitória aconteceu com apenas 24 segundos de combate, sobre Léo Rocha. Com uma completa infraestrutura e atletas experientes, o evento faz parte do calendário da cidade, que conta com um número expressivo de apaixonados por MMA. Desde o início, em 2011, o campeonato tem crescido sistematicamente. A edição mais recente, o BRFC 4, realizada em outubro de 2014, foi acompanhada por mais de três milhões de pessoas, ao vivo, e retransmitida em vários canais nacionais.

Quem estava presente no Espaço Quintalinda foi ao delírio com tantos nocautes e finalizações. O ponto alto da noite ficou por conta de um atleta da casa, Alexandre Zaneti, da equipe ZFT – Zaneti Fight Team, que desbancou o então favorito, Luiz Cané, o Banha, ex-UFC, levando o cinturão para casa. “Essa foi a luta mais importante até agora. As chances estavam contra mim e, mesmo assim, venci. Quando caminhei pelo corredor que leva até o octógono, pensei em todo o treinamento que fiz e isso me deu confiança e tranquilidade. Sabia que tinha dado o meu máximo. Tinha certeza de que estava pronto. O amadurecimento traz esses benefícios”, afirma Zaneti, que tem um cartel com 12 lutas, sendo 10 vitórias. Todas devidamente registradas no cadastro de lutas oficiais no Sherdog.

As aulas de judô, aos 13 anos, com o técnico Olegário Parente, foram os primeiros passos rumo ao MMA. Estudante aplicado, enxergava no esporte o caminho para um futuro melhor. Em seguida, o jiu-jitsu veio como um conhecimento complementar, assim como o boxe e o muay-thai. Porém, além de dominar todas as modalidades, o atleta aponta um item que muita gente não leva em consideração, mas que é essencial para os profissionais que sobem no ringue: a estratégia. “Existe um planejamento traçado com base no estudo do adversário, feito juntamente com o técnico, o corner e os outros componentes da comissão. A intenção é tirá-lo da zona de conforto, explorando suas limitações. Além dos músculos e da técnica em dia, o lado psicológico deve estar forte para esse ambiente de rivalidade e a mente precisa estar afiada”, opina. Segundo ele, nem sempre o oponente com mais preparo físico é quem leva a luta e é na imprevisibilidade que está a beleza do MMA.

Atualmente, Zaneti realiza uma série de exercícios específicos para sua participação no maior torneio de boxe amador da América Latina, “A Forja dos Campeões”, sediado em São Paulo, na primeira quinzena de março. “Será um grande teste”, prevê. Em breve, também será agendado o próximo compromisso de MMA, contra Gerônimo Mondragon. “Estou animado. Pretendo continuar em ritmo acelerado, conquistando ótimos resultados”, finaliza.

UMA TENDÊNCIA QUE VEIO PARA FICAR

Leonardo Andrião tinha apenas dez anos quando começou a frequentar as aulas de Kung Fu. A identificação com o esporte foi tão grande que as premiações logo vieram. Entre os muitos títulos, foi campeão paulista, brasileiro e sul-americano. Em seguida, uma outra modalidade surgiu e ganhou espaço na vida do atleta: o muay thai. Depois de se formar com o mestre Rogério Castaldelli, irmão de Edgard, Leonardo lutou e venceu o principal campeonato em vigor, o Valiant F.C., em 2011. Mas, ao contrário dos exemplos citados nessa matéria, ele optou por não continuar na jornada para se tornar um competidor de MMA.

Isso não quer dizer que ele não aprecie as artes marciais mistas, pelo contrário. Assim como a maioria das pessoas hoje em dia, é fã confesso desse tipo de combate. Tanto é que, há dois anos, investiu no setor ao inaugurar, ao lado de alguns sócios, a Núcleo Academia Gold, onde também atua como professor. O espaço, voltado para o universo das lutas, faz sucesso entre os ribeirãopretanos. Na programação, aulas de boxe, muay thai, jiu-jistu e, é claro, MMA. “Conseguimos atender tanto quem está à procura de uma atividade física para melhorar a qualidade de vida quanto quem almeja seguir a carreira de atleta profissional. A procura tem sido enorme, o que mostra a popularidade dessa tendência que, sem dúvidas, veio para ficar”, conclui Leonardo.

DESTAQUE FORA DO OCTÓGONO

Mesmo nos dias em que o card impressiona pela alta qualidade técnica e pelo talento dos competidores escalados, o espetáculo do MMA não fica restrito ao que acontece dentro do octógono. Nos intervalos, são as “Ring Girls” que dominam a atenção dos espectadores. As meninas passam por um rigoroso processo seletivo para integrar o elenco. É preciso ter beleza, simpatia, carisma, educação e desenvoltura, tanto diante do público, quanto das câmeras. Para completar, é essencial gostar e entender todas as facetas desse rico universo das lutas. Além de desfilar com as placas indicando os rounds e entreter a plateia, elas ajudam a divulgar os próximos eventos e o esporte em si, com dicas de boa alimentação, exercícios e hábitos de vida saudáveis.

Ribeirão Preto tem uma representante de destaque nesse cenário. Jhenny Andrade ingressou na carreira de modelo com seis anos. Aos 15, assumiu a apresentação de alguns programas em emissoras locais. Pouco tempo depois, mudou-se para São Paulo, onde protagonizou campanhas publicitárias para grandes marcas nacionais e internacionais. Apesar de ser uma apreciadora do MMA, nunca imaginou que faria parte dele. “Surgiu um teste na minha agência. Participei sem pretensão alguma. Passei para a segunda etapa, no Rio de Janeiro, onde fui entrevistada pelos presidentes e diretores do UFC”, lembra Jhenny. A contratação aconteceu em julho de 2013.

Entre os principais combates que participou, a Ring Girl aponta a disputa do cinturão entre Lyoto Machida e Chris Weidman, em Las Vegas, em julho de 2014, como o mais importante. Porém, o título de melhor embate vai para a revanche de José Aldo contra Chad Mendes. “Foram cinco rounds intensos. Um clima surreal tomou conta do Maracanãzinho, que estava lotado naquele dia. Não é a toa que está concorrendo no ‘World MMA Awards’, considerado o Oscar do MMA, como a luta do ano”, revela. Nessa mesma premiação, o nome de Jhenny aparece na categoria “Ring Girl”. É a primeira vez que uma brasileira está entre as cinco indicadas. “Não poderia estar mais feliz com esse reconhecimento. Amo meu trabalho e me dedico para realizá-lo da melhor maneira possível. Quero muito trazer esse troféu para o Brasil”, ressalta. Os resultados serão divulgados no dia 30 de janeiro.

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian
Produção: Marcela Versiani
Modelo: Alexandre Tiba (dotmarketing.com.br – tel.: 16 3446.5742)
Acessórios: Núcleo Academia Gold (tel.: 16 3237.8952)

 

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