Murais a céu aberto

Murais a céu aberto

Arte urbana colore Ribeirão Preto e recebe apoio de instituições e da população, que apreciam uma cidade com mais poesia

As cores têm o poder de deixar um ambiente mais aconchegante, alegre e habitável. Seja pintando as paredes de um quarto, de uma casa ou algo ainda mais complexo, o fato é que a escolha pela cor se torna sempre bem-vinda aos olhos e aos corações. Com a cidade, não é diferente — os grafites, advindos da cultura do hip hop vestem municípios com desenhos, arte, cultura e muita cor.

Há quem não goste do movimento, mas não é possível negar que, realmente, o grafite colore e dá outra cara aos prédios, muros e viadutos. Em comemoração aos 163 anos de Ribeirão Preto, em 2019, grafiteiros presentearam a cidade com muita arte e educação. “A Secretaria da Cultura foi presenteada pelos artistas do grafite, que, através do SESC, ministraram cursos na Escola de Artes do Bosque e finalizaram as ações no dia do aniversário da cidade, pintando um enorme mural no local escolhido por eles, o muro lateral do Teatro Municipal”, afirma a Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto.

Obras de arte a céu aberto, os grafites e as pinturas muros afora dão de presente ao município uma galeria de arte gratuita, de livre acesso e de grande valia — artistas escolhem colorir para se manifestar, mostrar o trabalho e alegrar e avivar as ruas e os bairros.

NANIE AGUIRRE

Nanie e seu filho Cadu em frente a um trabalho da grafiteira

Nanie começou no grafite em 2014, quando, ao procurar por mulheres que pintavam, só encontrava uma pelas ruas da cidade. “Sempre me questionava sobre isso. Comprei umas latas de spray, um látex e comecei a sair para pintar sozinha”, conta a artista, que lida com seus sentimentos e questionamentos enquanto pinta. “De uma maneira mais pessoal, a autossabotagem também é uma das dificuldades. Muitas vezes, penso que não vou conseguir. Vou lá, faço e penso: ‘olha só, consegui, deu tudo certo’”, relata Nanie.

Ela, que foi uma das artistas que presenteou a cidade com uma arte no viaduto Jandyra Camargo Moquenco, próximo à Avenida Meira Júnior, afirma que, pelo fato de ser mulher, a segurança precisa ser redobrada. “Como na maioria das vezes eu pinto na rua, uma das dificuldades está nas pessoas, que muitas vezes marginalizam o que fazemos”, explica Nanie.

O estilo da artista vem do grafite, advindo da cultura hip hop. Nanie pinta letras, com cores que são suas. “Sempre uso muito rosa ou cores bem fofinhas. Eu grafito letras, que é o grafite em sua real essência. Para mim, é o que mais me encanta. Parece ser super fácil, mas, quando você começa a fazer, vê que não é tão fácil assim. É algo que me deixa mais próxima da rua, lugar onde eu mais gosto de estar”, pontua.

Nanie é uma das artistas que colore a cidade, com seu jeito único, que diz muito sobre o local e sobre ela mesma. “É algo mágico, poder transformar um lugar que às vezes passava batido. Quando você pinta, as pessoas passam a olhar para aquele local. Poder pintar as ruas da periferia também me aproxima muito de quem eu sou e de onde eu vim. Levar cultura e arte para quem não tem acesso é transformador”, conclui.

MANOLO PLANET

Manolo Planet pintando muro em parceria com outros artistas da cidade

A relação de Manolo com a arte começa em sua primeira infância, ao criar histórias desenhadas sob influência de Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica. “O grafite se manifesta como uma forma de expressar minha indignação com injustiças sociais do país e minha visão de mundo e humanidade”, conta o artista. “Há 15 anos, fiz minha primeira arte na rua usando o material mais simples e acessível: rolinho e tinta látex. Era uma arte referencial à cultura hindu, que faz parte do conteúdo simbólico dos Filhos de Gandhi”, relembra Manolo.

O artista enfrenta dificuldades na hora de pintar, mas ressalta que o enfrentamento é uma característica inerente ao movimento do grafite desde sua origem. “Driblar repressões em vários níveis por conta de preconceitos e ignorâncias é parte do jogo, independente se você está começando ou já é experiente", explica Manolo, que acredita, também, na liberdade de expressão para abordar assuntos urgentes ou simplesmente tornar as cidades mais bonitas e mais coloridas.

O estilo de Manolo Planet é marcante por seu personagem. “Crio um universo de seres que são uma miscelânea de culturas e referências, que vão desde Mitologia Yorubá a avatares contemporâneos, como uma literatura ampla que descreve uma aldeia heterogênea e miscigenada. Um novo povo, de uma nova era, com muita cor”, explica o artista. Outra marca do grafiteiro são os olhos, em sua forma e simbolismo. “Por vezes eu grafito apenas eles e as pessoas já identificam”, relata.

Para o grafiteiro, colorir a cidade é um ato que se relaciona com o urbano e tem papel fundamental na cidade. “É muito bacana participar do processo evolutivo da cidade em relação à artes visuais. Nossa função, como grafiteiros, tem caráter urbanístico, como um ambientalista, arquiteto ou engenheiro. Sabemos do efeito incrível de grafitar na periferia, assim como estampar uma arte bem contemporânea num bairro novo ultraplanejado”, finaliza Manolo.

APOIO À ARTE APOIO À ARTE

Bro da Silva, em conjunto com outros artistas da cidade, como Tchork, Lelin e Ton, pintou a Unaerp com diversidade, ciência, integração e educação

Segundo a assessoria de imprensa da Unaerp, o muro foi uma parceria entre a instituição e o curso de Arquitetura e Urbanismo. “A Instituição, além das necessidades de manutenção e das reformas para adaptar salas, clínicas e laboratórios às novas normas de segurança sanitária para enfrentamento da Covid-19, como faz normalmente, investiu, também, no apuro estético da área interna e no entorno do campus”, explica a assessoria.

O professor Edson Salerno Junior, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unaerp, pontua que a ação foi um sinal de boas-vindas aos alunos. “É uma ação que partiu da reitoria com o curso de Arquitetura e Urbanismo para trazer mais cor e ritmo, inclusive para inserir a Unaerp nessa arte urbana. Foi um sinal de boas- -vindas aos nossos alunos e é também um presente que a Universidade deu e dá à cidade, pois este é um dos maiores murais de grafite do município”, finaliza Edson.

JOY

Joy é muralista, mas gosta e aprecia o grafite, participando de festivais e conhecendo trabalhos

Joy, apelido de Joyce, é muralista. “Como o grafite vem do hip hop, eu sou considerada muralista e não grafiteira, mas estou sempre participando dos eventos e de festivais de grafite”, afirma. Joy começou a pintar na rua com 15 anos. Natural de Sertãozinho, no interior de São Paulo, ela era integrante de um grupo que participava da Semana Portinari, em Brodowski. “Depois de me formar em Arte, eu parei de pintar na rua e nos quadros e passei aproximadamente 12 anos em sala de aula”, conta.

O hiato da artista a fez ter experiências diferentes e amadurecer ideias e questões internas. “O tempo que passei fora das ruas não foi ruim. Hoje tenho uma vivência diferente de quando tinha 15 anos”, explica. Hoje, aos 34, Joy pinta as ruas de Ribeirão Preto e enfrenta algumas dificuldades enquanto trabalha. “Acontece de homens pararem e perguntarem se eu estou pintando sozinha mesmo ou se tem outro homem me ajudando. Essas são algumas dúvidas em relação ao meu trabalho. Há assédio também, passando e buzinando ou assobiando”, explica a muralista.

Joy pinta mulheres. “Percebi que tinha de ter minha identidade. Depois de participar de festivais e conhecer trabalhos de outros grandes artistas, consegui encontrar a minha marca”, relata. Ela conta que sempre via mulheres, nas artes, sendo representadas de diversas formas que nem sempre a agradavam, por isso resolveu pintar figuras femininas coloridas, com cabelos esvoaçantes, poderosas e marcantes. “O meu objetivo é valorizar o feminino”, detalha.

A artista gosta de cores. “Não tenho uma paleta de cores específica. Depende do entorno, do local. Se estou num festival e vejo artistas usando certas cores, gosto de me diferenciar e usar outras. Tom de pele também não é algo relevante, posso pintar uma mulher azul, verde, de qualquer cor”, conta Joy. Ela sempre encara o último trabalho como o melhor, mas busca enxergar a evolução de suas obras. Joy entende a arte não só como algo que dá cor, mas, também, algo que se expressa e protesta, deixando seu rosto estampado pela cidade.

LELIN ALVES

Lelin começou a pintar ainda novo, sob influência do grafiteiro Ton

Lelin iniciou no grafite por meio do skate e do hip hop. “Eu e alguns amigos começamos pichando pelas ruas, era o acesso que a gente tinha à cultura”, explica o artista. Desde pequeno, Lelin desenha e, então, envolveu-se com esse movimento e a arte pela Casa do Hip Hop, em Ribeirão Preto. Lelin pinta há 21 anos, mas só há dez conseguiu se estabilizar como profissional. “Eu vim de família humilde e, para estruturar, viver e pintar com material de qualidade, leva um tempo. Nos primeiros anos, foi difícil conseguir o reconhecimento”, pontua.

O artista pinta um personagem que, ao longo dos anos, passou por transformações e Lelin começou a pintar ainda novo, sob influência do grafiteiro Ton adaptações. “Chamo ele de caçador de flores. É inspirado em mim, cresceu na periferia da cidade, mas ama muito a natureza e sempre a procura na cidade. As flores que brotam no concreto, os passarinhos que fazem ninho nos fios, os rios, tudo o que tem vida”, explica Lelin.

O grafiteiro gosta de colorir Ribeirão Preto. Por andar de skate e conhecer muitas partes da cidade, ele tem um contato vivo com ela. “É o lugar em que mais me sinto à vontade para pintar. Cresci e me desenvolvi aqui, e gosto muito. É onde tem mais portas abertas para mim”, relata.

O trabalho preferido, como o da maioria, é o último que realizou. Lelin gosta da liberdade do spray, pelo traço, pelas forças e pelo movimento da ferramenta. É o que o artista respira: a tinta, a lata, o movimento de vai e vem de suas mãos na pintura e de seus pés no skate. Ribeirão Preto abraça o caçador de flores em cada canto em que algo vivo nasce.

BRO DA SILVA

Bro da Silva começou novo no grafite e hoje faz trabalhos pela cidade toda

Como Lelin, Bro da Silva também começou novo e com o artista Ton como inspiração e mentor. “Comecei aos 14 anos, a partir de oficinas ministradas pelo Ton, grafiteiro precursor do movimento na cidade”, conta Bro, que acredita que sua marca principal nos trabalhos é a liberdade. “Meu tipo preferido de desenho é tudo o que posso elaborar com liberdade. Além da minha assinatura, minha marca é meu traço e as mãos que desenho”, explica o artista.

Bro trata seu trabalho com liberdade e com asas para voar. Já estampou diversos muros pela cidade e o clima é seu empecilho, seja do tempo ou do ambiente. “As dificuldades que enfrento são o sol, a chuva e os curiosos. Opiniões de fora, principalmente, e alterações de projeto”, conta o grafiteiro. A sensação de colorir a cidade, para ele, é de calor extremo.

O artista tem diversas obras em andamento por Ribeirão Preto e acredita que seu melhor trabalho é o último que fez e o próximo que irá fazer. Recentemente, Bro da Silva, em conjunto com outros artistas, como Tchork, Lelin e Ton, estampou o muro da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), na avenida Leão XIII. O muro, que era azul, tornou-se colorido e cheio de vida.

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