Museu da Biodiversidade

Museu da Biodiversidade

Projeto inicial do museu está avaliado em R$ 130 milhões

Em volta de uma mesa de reuniões, no Laboratório de Ictiologia, Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP),  de Ribeirão Preto, estão os  professores Flávio Bockmann, Ricardo Macedo Corrêa e Castro, Eduardo Almeida e Milton Groppo. Os quatro são integrantes da Comissão pela Implantação do Museu da Biodiversidade. Completam o grupo os professores Max Langer, Dalton Amorin e Tiana Kohlsdorf.

A comissão, formada em junho de 2010, é a concretização de um sonho que vem sendo debatido desde 1994: a abertura de um museu de história natural em Ribeirão Preto.

O sonho da criação do museu, segundo Flávio Bockmann, atual presidente da comissão, surgiu da similaridade e do modelo de trabalho dos pesquisadores da universidade. “Percebíamos um desconforto, pelo fato da demora na divulgação das pesquisas geradas dentro da faculdade à sociedade, que é a grande interessada, pois é a parcela que paga a conta”, explica Bockmann.

Milton Groppo, Eduardo Almeida, Flávio Bockman e Ricardo Macedo Corrêa e CastroTodos os integrantes da Comissão têm experiência com museus, tanto dentro como fora do Brasil. O professor Milton Groppo, que em uma de suas viagens visitou o Millenium Seed Bank, Surrey, Inglaterra. Ele conta que na Inglaterra, assim como nos Estados Unidos, há leis que obrigam a divulgação, através de exposições, das pesquisas realizadas em instituições.

Groppo explica que os pesquisadores do Millenium mantêm um dos maiores acervos de sementes do mundo e, se por ventura, houver a necessidade de repovoar alguns lugares do planeta, eles têm as sementes da vegetação de várias regiões.

“A sociedade não tem acesso ao banco de sementes, que é mantido resfriado no subsolo, mas existe uma exposição onde são apresentadas as espécies ao público. Então, o Museu da Biodiversidade, idealizado por nós, vem para responder à seguinte pergunta: Afinal de contas, o que vocês estão fazendo na USP?”, ressalta o botânico.

O zoológo Eduardo Almeida, recém integrado à comissão, salienta que a filosofia do museu encontrará apoio na ideia da divulgação, segundo ele, “de um dos maiores acervos biológicos do Brasil”.

Buscando apoio
O projeto arquitetônico do museu foi desenvolvido pela equipe do arquiteto Fernando Rivaben, e foi orçado, inicialmente, em R$ 135 milhões. “Este valor é só uma estimativa, pois, na verdade, ninguém jamais construiu um museu com essas proporções no Brasil”, explica Flávio Bockman.

Para a construção do museu, a comissão conta com a promessa de investimento do governo federal e da reitoria da própria universidade, cada um custeando metade do projeto. O acordo, segundo Bockman, foi acertado verbalmente em dezembro de 2012, quando os integrantes da comissão se reuniram com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); o ministro da educação Aloízio Mercadante; João Grandino Rodas, reitor da USP; com Fernando Mantelatto, diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP-RP; e o Deputado Federal Arlindo Chinaglia (PT). O responsável pela articulação da reunião foi o ex-vereador, e atual consultor do projeto, José Alfredo Carvalho.

“Saímos daquela reunião com a missão de entregar um plano museológico com orçamentos dos projetos executivos. O documento foi entregue em fevereiro deste ano e agora aguardamos a resposta para já começarmos a construir”, revela Flávio Bockmann.

O plano museológico, enviado ao ministro Aloízio Mercadante, está orçado em R$ 28 milhões (este valor não faz parte dos R$ 135 milhões), e será destinado aos projetos complementares de engenharia, arquitetura e de museologia com a primeira exposição de longa duração na inauguração do Museu.

Projeto arquitetônico
Para que o projeto ganhasse força, a comissão também buscou o apoio da iniciativa privada, e através da parceria com o advogado tributarista Brasil Salomão, os pesquisadores conseguiram apresentar o projeto ao arquiteto Fernando Rivaben, que mostrou-se entusiasmado e, após reunião realizada em março de 2012, designou uma equipe de arquitetos para trabalhar especificamente no projeto: Aline Gonçalves. Carla Cavarzan, Daniela Souza e Érica Pinheiro.

Fernando Rivaben e Érica Pinheiro “Tínhamos nas mãos um programa complexo, que envolvia pesquisa, exposição e educação. O trabalho em conjunto com a comissão do Museu foi fundamental para entendermos a complexidade do programa e traduzirmos a complexidade em projeto”, conta Érica Pinheiro, arquiteta e coordenadora da Rivaben Arquitetura.

O presidente da Comissão pela Implantação do Museu, Flávio Bockmann, salienta que, diferente da maior parte dos museus, que adaptam seu acervo a um projeto arquitetônico já existente, o Museu da Biodiversidade da USP-RP foi desenhado especificamente segundo a filosofia e o acervo da universidade para ser um museu com modernidade, tecnologia e sustentabilidade. “O Museu é realmente um projeto inovador e ousado, diferente de todos os projetos já idealizados até mesmo para Museus”, completa a arquiteta Érica Pinheiro.

O prédio será uma construção de alta sustentabilidade, com cobertura verde, reutilização de água, aproveitamento de iluminação, amplamente acessível e multidimensional, atendendo à pessoas com diferentes deficiências e diferentes faixas etárias. Érica Pinheiro acredita que a finalidade a que o museu se destina já o torna grandioso.

Localização
O museu será construído no Campus da universidade, na Avenida Governador Lucas Nogueira Garcez, localizada na parte marginal do campus.

Sobre a equipe
Pelo menos 20 docentes trabalharão diretamente com pesquisas ligadas ao museu. Cada um desses docentes coordenará, aproximadamente, dez alunos em diversos níveis. Portanto, a equipe do museu terá entre 200 a 250 pessoas trabalhando permanentemente em pesquisas para manter o acervo do museu sempre atualizado. A museóloga Cecília Machado e a ex-secretária da Cultura Adriana Silva também contribuíram para a área museológica e de comunicação visual.

Segundo o professor, Ricardo Macedo Corrêa e Castro, todos os grandes museus do mundo mantêm um intenso trabalho de pesquisa e, segundo ele, é o que a USP sempre buscou, pois na opinião do pesquisador, esses profissionais são obrigados a se manterem atualizados com as mais recentes informações e descobertas da sua área.

“Essa vontade política, demonstrada pelos governantes que nos receberam, de capacitar o Brasil na área de pesquisa, é derivada do fato de o Brasil ser, entre outros países, o lugar com a maior fração da biodiversidade terrestre de água doce do planeta”, ressalta Corrêa.

Além do acervo de animais e plantas, outro fato que chama atenção para o projeto do museu são as dimensões. O prédio terá 38 mil m² de área construída, em uma área total de 16 mil m². “Nossa intenção é torna-lo mundial e não só um museu para a região. Claro que trabalharemos com elementos locais, mas a Biodiversidade é um patrimônio mundial e não político ou regional”, salienta Bockmann.

O presidente da comissão revela ainda que os pesquisadores, futuramente, poderão contar com parceiros importantes no ramo da biodiversidade. Segundo Bockman, pelo menos 30 das principais instituições museológicas e de pesquisa do Brasil e do exterior demonstraram interesse em trabalhar junto do Museu da Biodiversidade da USP. Flávio Bockman destaca, entre elas, o Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA); o Museu Emilio Goeldi/CNPq, do Pará; o Museu de Zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); o Jardim Botânico do Rio de Janeiro; e o Instituto de Botânica de São Paulo; além da UNICAMP e os diversos campus da UNESP.

No exterior, Bockman cita o American Museum of Natural History, de Nova Iorque, EUA; o National Museum of Natural History/Smithsonian Institution, de Washington D.C., EUA; a California Academy of Sciences, San Francisco, EUA; a Academy of Natural Sciences of Philadelphia, EUA; o New York Botanical Garden, Nova Iorque, EUA; a University of California, Berkeley; o Raffles Museum of Biodiversity Research, Cingapura; o Royal Botanical Gardens, Kew, Inglaterra; o Bayerischen Staatssammlung für Paläontologie und Geologie e Senckenberg Museum, Alemanha; o Museo de Zoologia - Universidad de Costa Rica; e o CSIRO, Canberra, Austrália.

A comissão também conseguiu a aprovação de alguns projetos pela Fundação de Amparo à Pesquisado Estado de São Paulo (Fapesp), pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e também pela própria USP. “Estes projetos são voltados para a organização e cuidado do acervos científicos que, antes da idealização do projeto, estavam espalhados pelo Campus, mas que agora serão reunidos sob o mesmo teto”, explica.

O professor Ricardo Corrêa e Castro aponta que a intervenção do advogado Brasil Salomão e de outros membros da sociedade foi de extrema importância para convencer o reitor de que a implantação de um museu era necessária. “Somos capazes de fazer, mas a população também deve se mostrar interessada em receber este projeto. pois precisaremos do apoio de todos”, conclui.

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Texto: Bruno Silva
Fotos: Carolina Alves, Ibraim Leão e Arquivo

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