Música de desenho
Com o advento da tecnologia do áudio no cinema, as projeções dos desenhos deixaram de ser acompanhadas por orquestras
As pessoas que, mesmo por alguns instantes, tiveram acesso aos desenhos animados do final da década de 1920, com certeza, já se imaginaram caminhando sob o som de uma orquestra. É fato, assim como em Tom e Jerry, Mickey Mouse ou Pernalonga, muitos dizem haver uma trilha sonora para as suas vidas.
Por outro lado, algumas pessoas podem não ter a consciência da importância da trilha sonora, para o cinema e para os cartoons, os famosos desenhos animados do início da década de 1930, que, sem nenhuma fala, tinham como fio condutor músicas compostas especialmente para eles.
Com o advento da tecnologia do áudio no cinema, as projeções dos desenhos deixaram de ser acompanhadas por orquestras, que tocavam ao vivo, como parte da sonoplastia e a trilha sonora passou a ser incorporada aos desenhos, tornando-se uma parte fundamental do período clássico da sétima arte, com direito a grandes produções.
Atraída por esta época, a música Carolina Leão, formada em piano pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), escolheu defender como tese de seu mestrado, o tema “Trilha sonora do período clássico do Cartoon”.
Carolina “descobriu” o tema durante uma aula da disciplina de Trilha Sonora. “Os cartoons sempre estiveram presentes na minha vida. A música dos cartoons me motivava a estudar piano quando pequena. Os temas clássicos, os temas de jazz. Essa coisa lúdica e todos os signos que os desenhos têm me cativaram”, explica.
Um pouco da história
O primeiro filme de animação da história a ser projetado tinha pouco mais de um minuto e foi lançado em agosto de 1908 pelo francês Émile Cohl que, em 1912, após se mudar para uma cidade próxima a Nova York, espalhou a sua técnica pelos Estados Unidos.
No entanto, foi somente no final dos anos 1920, com o surgimento dos grandes estúdios como Warner Bros., MGM e Walt Disney, que os desenhos animados atingiram o seu apogeu. Com o surgimento de Mickey Mouse (Walt Disney, 1928), Looney Tunes e Merrie Melodies (Warner Bros., 1931) e Tom e Jerry (MGM, 1940). Nesta época, como explica Carolina, destacaram-se os compositores e arranjadores Carl Stalling (1891-1972) e Scott Bradley (1891 - 1977).
Carl Stalling foi compositor dos estúdios Walt Disney e Warner Bros. Na Disney, teve participação fundamental nos primeiros episódios de Mickey Mouse e nos primórdios da série Silly Symphonies. Nos estúdios Warner, compôs para a série Merrie Melodies e Looney Tunes ,até se aposentar em 1958.
“Stalling se fez conhecido por seu grande talento em colagens e trocadilhos musicais. Por exemplo, quando Pernalonga aparecia bêbado, Carl sempre colocava a canção popular norte-americana ‘How dry I am’. Quando a coelhinha Bugs Bunny surgia, toda charmosa, vinha a música ‘the lady in red’, isto já acionava uma comicidade ao público, que conectava o significado das músicas com a cena”, explica.
Scott Bradley teve seu ápice com o cartoon Tom e Jerry – de 1940 a 1956. Bradley misturava composições que iam da música erudita ao jazz. Além de ter desenvolvido técnicas não utilizadas anteriormente, como a utilização poética da pista sonora de ruído, substituindo o som natural por algum som orquestrado. Bradley era habilidoso em conduzir o cartoon por meio da narrativa através da música. “A composição de Scott Bradley fazia uso de signos e símbolos. Fazendo com que o espectador entendesse perfeitamente cada cena de comédia, cada pensamento, através da articulação entre música e imagem”, ressalta.
Assista alguns desenhos do período clássico
- Mickey Mouse: Steamboat Willie (1928)
- Merrie Melodies: You Don’t Know What You’re Doin’! (1931)
- Dough Nuts (Tom & Jerry)
Análise
Estudante das trilhas dos clássicos desenhos animados das décadas de 1920, 1930 e 1940, Carolina Leão se considera uma mera espectadora dos desenhos animados da atualidade. Afirma que a trilha sonora dos desenhos atuais é muito variada e não segue um padrão, além disso, há a presença fundamental e constante de diálogos, diferente dos desenhos estudados por ela.
A estudante avalia que alguns desenhos até perpetuam o uso da trilha musical como condução narrativa e poética, no entando, não há uma inovação. “Vejo um movimento ‘sonoro’ inovador vindo da área do cinema, espero que, futuramente, os estúdios de desenhos animados abram espaço para experimentar esta inovação. Sinto falta de uma evolução sonora nos cartoons atuais”, argumenta.
Projetos paralelos
Com um trabalho muito diferente do que realiza na universidade, Carolina Leão mantém, ao lado dos músicos Edu Guimarães (Acordeom) e Edmar Pereira (Sax), um trio de tango, intitulado Tangoleón.
Foi por influência dos pais que Carolina começou a ouvir Carlos Gardel e, consequentemente, Astor Piazolla. “O tango sempre esteve presente na minha vida. Não teve como eu não me apaixonar por Piazzolla e caminhar para o gênero”, recorda.
O Tangoleón surgiu após muitas tentativas de Carolina de encontrar músicos que se identificassem com o estilo. Procurando por alguns músicos pelo campus da Universidade, ela conheceu alguns amigos que gostaram do projeto. “Encontrei amigos que além de muito talentosos, estavam dispostos a montar um grupo de tango com a nossa identidade, a nossa maneira de ouvir os clássicos. Assim surgiu o Trio Tangoleón”, diz.
O trio já tocou nos mais diversos lugares. Em Campinas, na Unicamp, em projetos que divulgam o artista, que ocorrem na hora do almoço, em sarais culturais e abrindo festas alternativas que acontecem pela Universidade. Mensalmente o Tangoleón se apresentava em Ribeirão Preto, no Espaço A Coisa e chegaram a tocar também no Teatro Santarosa e Sesc Ribeirão Preto. Na capital paulista, tocaram no Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro (CCSP) e também no Sesc Campinas.
O Tango no Brasil
Carolina explica que o tango é um gênero que ganha cada vez mais espaço no Brasil, por ser um estilo com muitos aspectos em comum com a música popular brasileira como o Chorinho e o Maxixe (também conhecido como tango brasileiro).
A pianista usa como exemplo a trilha de abertura da novela global “A Favorita”, exibida entre 2008 e 2009. A música tema foi composta por um grupo de tango eletrônico chamado Gotan Project. “Depois disso, o mercado para o tango eletrônico cresceu exponencialmente no Brasil. Com todos estes elementos, acredito que os artistas brasileiros, no geral, têm bastante informações para reproduzir grandes clássicos e criar algo novo com elementos marcantes do tango”, afirma Carolina.
O tango eletrônico, na opinião da pianista, foi o estilo responsável por desmistificar a teoria de que o tango era ‘’música de velho’’. Com base nisso, o Tangoleón objetiva atingir o público mais jovem. “Acredito ser importante a utilização de novos elementos para as músicas consagradas. Diferentes sonoridades, novas concepções para a dança, entre outros detalhes, mas principalmente, aprender sobre o passado, digerí-lo e criar uma música, dança ou espetáculo com uma identidade própria”, salienta.
Público
Carolina conta que muda o repertório de acordo com o local em que o Tangoleón toca. Em locais mais badalados ou eventos culturais, eles fazem um show mais descontraído e despreocupado, pois perceberam, ao longo da carreira, que o público jovem gosta de espontaneidade. Para shows maiores, onde eles são a atração principal, fazem um show mais concentrado e até que mais denso. “Talvez por esse motivo, nossa música sempre foi muito bem recebida. Dependendo do local que tocamos, direcionamos o show para um público específico”, diz.
Atuando ainda como educadora e produtora musical, Carolina também participa do espetáculo teatral Mala de Mamulengo, um tipo de fantoche, típico do nordeste brasileiro, especificamente do estado de Pernambuco. O projeto, aprovado para apresentação durante a Feira Internacional do Livro deste ano, poderá ser conferido de perto pelo público de Ribeirão Preto e da região.
Agenda
O trio se apresentará em breve em duas unidades do Sesc. Confira:
Sesc Santo André
Dia: 23 de Maio ás 20 horas
Sesc Ribeirão Preto
Dia: 28 de junho às 20 horas
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Texto: Bruno Silva
Foto: Ibraim Leão e Divulgação