Música na essência
Fomentar a música popular brasileira e lutar para que essa arte seja usada como ferramenta educativa são alguns dos desejos do músico Alan Silva
Mais do que atualmente, a Música Popular Brasileira viveu áureos tempos quando embalava famílias inteiras unidas em torno do rádio. Composta por diversos ritmos, a MPB consagrou-se, também, no exterior: em diversos países, é possível encontrar apaixonados por bossa nova, samba, choro, entre tantos outros ritmos tipicamente nacionais. Por aqui, Alan Silva é um dos artistas que mantém viva a cultura brasileira embutida em notas musicais.
Natural de Brodowski, localizada a 30 km de Ribeirão Preto, Alan tem memórias relacionadas à música desde a infância. Entre as que guarda com grande carinho estão as valsas, os boleros e os sambas que ouvia no rádio na companhia do avô. Aos 10 anos, e sozinho, começou a estudar mais sobre os sons que gostava de escutar e não parou mais. O extenso currículo inclui um curso de violão erudito e choro no Conservatório Dramático Musical Carlos Campos, em Tatuí (SP). Em sua trajetória, acumula participações no show do grande bandolinista Izaias Bueno, no Festival Sesc Choro da Casa, e apresentações ao lado do violonista José Vicente, com quem tocou em diversos cantos de Santa Catarina e de São Paulo.
Como integrante do “Projeto Choro da Casa”, formado por músicos de Ribeirão Preto em 2012, participa de pesquisas, composições e divulgações do gênero musical na cidade e na região. O projeto foi responsável, por exemplo, pela realização grandes festivais de música brasileira, trazendo e acompanhando algumas das maiores referências nacionais do estilo, como Hamilton de Hollanda, Zé da Vilha e Silvério Pontes, Pedro Amorim, Maurício Carrilho, Toninho Carrasqueira, entre outros artistas.
Por acreditar que a música, além de uma importante ferramenta cultural, é um meio de expor os mais profundos sentimentos, Alan fundou o grupo Regional Ginga Ligeira, que desenvolve um trabalho autoral ligado à música instrumental e mescla variados ritmos, como choro, valsa, frevo e samba. Em fevereiro, o projeto “Vamo que Vamo” foi contemplado pelo Edital ProAc 21/2017 para a gravação de álbum inédito e a realização de espetáculos de música popular instrumental. Na entrevista a seguir, Alan comenta sua trajetória em busca da disseminação da MPB e sobre a importância do estudo para entregar um bom trabalho aos ouvintes.
Revide: Como começou sua trajetória na música?
Alan: Comecei a estudar música aos dez anos, em casa, com o violão dos meus irmãos mais velhos. Meu irmão, Alexandre João, foi minha primeira referência musical. Era ele quem me acompanhava no violão, o que despertou minha vontade e minha curiosidade pelo instrumento. Aos 15 anos, passei a estudar com o professor Vitor Daniel, que me ensinou a ler partitura e a tocar alguns choros para violão solo. Em 2008, aos 17 anos, ingressei no “Conservatório Dramático Musical Carlos Campos”, em Tatuí (SP), no curso de violão erudito com a querida Márcia Braga e, em 2010, aos 19 anos, iniciei no curso de violão de Choro com Alexandre Bauab, também pelo Conservatório de Tatuí. Após minha formatura no violão erudito, em 2011, comecei minhas atividades profissionais como músico e professor em Florianópolis (SC), integrando o grupo “La Chorona” e dando aulas em algumas escolas de música da cidade. Em 2015, fui para Avaré, a convite de um professor do Conservatório de Tatuí, e passei a integrar o “Clube do Choro de Avaré”, como violonista. No mesmo ano, retornei para Ribeirão Preto, onde passei a tocar em grupos de samba e de choro e a dar aulas no “Projeto Guri”. No “Projeto Choro da Casa,” conheci o trabalho de produção cultural ao lado da atriz Poliana Savegnago, que atualmente é minha esposa e mãe do meu lindo filho Benjamim.
Por que se interessou pela música instrumental?
Eu amo música, dos mais variados gêneros. Cantada ou instrumental, desde samba, sertanejo raiz, baião e tantas outras, mas meu carinho pelo choro realmente é diferente. O que sinto ao ouvir um Choro sendo tocado é mágico.
Após o contato com a produção musical, sua carreira mudou muito?
Comecei a compor meus próprios choros e a tocar nas rodas da Praça XV de Novembro, às segundas-feiras. Convidei alguns amigos para formarem comigo o grupo “Regional Ginga Ligeira” e desenvolvermos composições próprias. A partir daí, com a ajuda de minha esposa, decidi inscrever o grupo em festivais, editais, concursos, shows e praças públicas, SESCs e teatros pelo Brasil. O grupo já passou pelo Festival da Alta Mogiana (FAM), de Ribeirão Preto, com a música “Vamo que Vamo”; pelo Festival Sesc de Música Cidade Canção (FEMUCIC) em Maringá (PR), com a música “De Zé para Zé”; pelo Festival Jacarezinhense de Canção (FEJACAN), em Jacarezinho (PR), com a música “Bom dia meu Amor”. Todas essas canções são de minha autoria. Além disso, comecei a me apresentar em outras cidades, como São José dos Campos, Registro, Campinas, Taubaté, Porto Ferreira e, por fim, nossa maior conquista, que chegou ao fim de 2017, a premiação do edital nº 21/2017, do Programa Ação Cultural do Estado de São Paulo (ProAC), que contemplará a gravação do nosso primeiro CD, com composições minhas e arranjos do Regional Ginga Ligeira, direção musical do grande bandolinista Agnaldo Luz. Contará ainda com a participação especial do consagrado violonista Alessandro Penezzi.
Além do seu irmão, quais foram suas principais influências?
Acredito que minha maior influência na música foi o professor Alexandre Bauab, do Conservatório de Tatuí, e a minha maior influência na vida é minha esposa, Poliana.
Quando começou a compor?
No final de 2015, compus o meu primeiro choro, intitulado “Nem demorou tanto assim”. De lá para cá, estou sempre compondo e já tenho aproximadamente 25 choros de autoria própria.
Como foi o início da Regional Ginga Ligeira?
O Regional Ginga Ligeira é uma alegria em minha vida profissional. Fundei o grupo em maio de 2016 e, de lá para cá, foram muitas alegrias. A intenção era criar um grupo onde pudesse tocar, principalmente, músicas próprias dos atuais compositores de choro de Ribeirão Preto. Então, convidei os amigos Lucas Oliveira (violão de 7 cordas), Alexandre Peres (cavaco) e Ricardo Peres (pandeiro) para formar um quarteto. Porém, diante da necessidade de timbres variados no grupo, decidimos convidar, também, Conrado Bruno (trombone) e Everton Campos (flauta transversal). Agora, a formação está do jeito que imaginávamos. O principal estilo do grupo é o choro, porém, fazemos pesquisa e criação bem abrangentes, passando por diversos ritmos brasileiros e passeando, também, por outros estilos, como o frevo, a polca, valsa, o maxixe, o baião, a folia de reis, entre outros.
A gravação do CD, contemplada no Edital do ProAc, já aconteceu?
Sim. Esse processo foi uma realização tão emocionante que, desde o resultado publicado no Diário Oficial, em 30 de setembro do ano passado, até hoje, não teve um só dia que não tenha pensado nesta conquista. A gravação, na verdade, começou com os ensaios gerais, entre os dias 27 de fevereiro e 2 de março, com gravação oficial no dia 3 de março, finalizando no dia 6. Para mim, foi uma experiência sem igual, diferente de qualquer realização profissional que já tenha vivido.
Programas como o ProAc fomentam efetivamente a cultura brasileira?
Essas iniciativas são importantíssimas para a manutenção e o desenvolvimento da cultura do país. É fundamental que se crie novos programas e mecanismos de incentivo como este.
O Projeto Choro da Casa, de fato, encontra espaço em Ribeirão Preto e região?
O Projeto Choro da Casa existe em Ribeirão Preto desde 2012. Sou integrante do projeto desde a criação, porém, fui me tornando mais ativo no grupo quando retornei para a cidade, em 2015. Diria que há espaço para o estilo, mas, infelizmente, é pequeno, se levarmos em conta o tamanho e a riqueza desse patrimônio cultural. O que está acontecendo, hoje, é a valorização do produto cultural comercial, que atinge a grande massa consumidora, e a desvalorização da cultura. Com isso, o espaço para projetos como o nosso acaba sendo reduzido.
As dificuldades afetam todos os estilos musicais?
Sim. Na verdade, a dificuldade está em todas as áreas de trabalho, assim como a possibilidade. Infelizmente, para alguns estilos que trabalham com tradição popular e com as raízes dos musicais, o espaço é menor. Por conta disso, nossa busca por possibilidades é muito mais intensa do que a corrida dos estilos mais comerciais, por exemplo. Ainda assim, vale ressaltar que é plantando que se colhe.

Acredita que a MPB pode viver um novo período de glória, como foi entre os anos 30 e 70?
Na minha opinião, a riqueza da música brasileira é incomparável, entretanto, o que é entregue à população para veiculação na mídia nunca nos levará a um momento de glória, como já aconteceu.
Há uma ideologia envolvida no trabalho musical das gerações atuais?
Acredito que há sim. Certamente esta ideologia de vida expressada em forma de música é o fio condutor da identidade de muitos grupos musicais no Brasil e no mundo. Porém, por mais que eu saiba que isso exista, não consigo encontrar essa força em muitos profissionais, independentemente do estilo.
Qual a importância da formação para o músico?
A formação na música, para mim, pode acontecer de duas maneiras: a formação acadêmica, que acontece em instituições públicas ou privadas, e a formação “de rua”, que se conquista em rodas musicais, festas, bares, encontros despretensiosos, entre outros. Essas duas formações são importantíssimas para a evolução de quem quer estudar e trabalhar com música.
A inclusão da música na educação básica faz diferença? De que maneira?
Creio que a inclusão da música nesse contexto, pois além de possibilitar a vivência de experiências lúdicas e leves em um ambiente de frequência diária, ajuda no desenvolvimento emocional e intelectual da criança, estimulando o lado intuitivo do ser.
Qual a sua leitura da música atual?
No contexto geral, de tudo o que aparece na mídia, eu me sinto um pouco triste com as opções disponibilizadas para apreciação, mas acredito fielmente que este cenário vai mudar, assim como girou muito dos anos 30 até hoje.
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian, Luccas Martins e Renata Prado