Na garupa da natureza

Na garupa da natureza

Motociclistas buscam aventura, liberdade e enriquecimento cultural em suas viagens

Contato com a natureza, sensação de liberdade e curvas agradáveis são o sonho de qualquer motociclista. Não basta acelerar, é preciso sentir o vento no rosto e desfrutar de situações impossíveis de serem vividas durante a correria do dia a dia e do estresse de compromissos cotidianos. Encarar longos percursos, alterações climáticas — frio, chuva ou calor intensos — e cruzar fronteiras são a maior aventura de motociclistas de diversas idades. Muitos deles aguardam ansiosamente por viagens sobre duas rodas e visitam locais deslumbrantes em países da América do Sul, como Argentina, Chile e Peru.

Austen Torres Campos já havia feito duas viagens de moto, para Buenos Aires, na Argentina, e para Santiago e região sul do Chile. Mas, aos 67 anos, ainda queria conhecer San Pedro de Atacama (Chile), próximo ao Deserto de Atacama, e Ushuaia, na região da Patagônia, Argentina, conhecida como a Terra do Fogo, ou Fim do Mundo. “Em Janeiro de 2012, convidei vários amigos motociclistas para me acompanharem até San Pedro, mas não houve nenhuma adesão. Então, resolvi enfrentar o trajeto sozinho”, conta Austen, que equipou sua V-Strom 650 e, dias depois, saiu de viagem com destino a Foz do Iguaçu-PR, embaixo de chuva.  Foram oito dias viajando, somando seis mil quilômetros.

No início de 2012, aos 65 anos, o aposentado José Mário Achite fez sua quinta viagem de motocicleta. Jota, como é conhecido, juntou-se ao filho Christiano Achite e ao amigo Luiz Fernando Ferrari para cumprir um roteiro de 23 dias rumo a Macchu Picchu, no Peru. O trio rodou aproximadamente 10 mil quilômetros. “Partimos de Ribeirão Preto, passando por Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, até chegar ao Peru. Visitamos a região de Macchu Picchu e atravessamos o país, chegando ao Oceano Pacífico. Depois, atravessamos uma parte do Chile, passando pelo Deserto do Atacama. Continuando, chegamos à Argentina, depois passamos pelo Paraguai e retornamos ao Brasil”, conta Christiano, o Chitão, que viajou a bordo de uma Suzuki Boulevard 1500 cilindradas. Jota utilizou sua Honda Shadow 750 cilindradas e Luiz Fernando, o Lui, uma Suzuki V-Strom 1000 cilindradas. 

Acomodação improvisada faz parte do roteiro e no caminho não é fácil encontrar postos de gasolina estruturados como no Brasil. “As estradas são ótimas, mas precisamos levar reserva de combustível”, revela Chris. “Motos não pagam pedágio, porém os postos não aceitam cartão de crédito, somente a moeda local. Além disso, teve um trecho em que a cada quatro postos, apenas um tinha gasolina”, recorda Austen. Jota também lembra que um cuidado fundamental é não dirigir à noite. “Levamos barracas para qualquer dificuldade para encontrar hospedagem, mas ficamos mesmo em hotéis. Alguns eram bons, mas outros, muito ruins. Tem hora que não há escolha e isso é que dá mais aventura à viagem”, comenta ele.

Já o empresário Adriano Araújo, de 48 anos, costuma planejar seus roteiros, incluindo passeios culturais e mais conforto. “Costumo mesclar a viagem de moto com turismo cultural e gastronômico. Além disso, priorizo conforto na hospedagem”, diz Adriano, que é formado em História. Sua primeira viagem foi em 2007 e durou 23 dias, com um total de 8.853 quilômetros rodados por diversos lugares da América do Sul. “Antes da viagem, é importante estudar a cultura do país ou da região que será conhecida e incluir visitas a museus, pontos pitorescos e históricos. Viajando de moto, de carro, ou até de mochila, a pessoa terá oportunidades que dificilmente obteria nos roteiros convencionais”, explica o empresário.

A região dos Lagos Andinos, em sua opinião, foi uma das mais lindas que visitou, além da cidade de Pucón, no Chile. Na ocasião, viajou em uma Suzuki V-Strom 1000 cilindradas, que julga ter um excelente custo-benefício. Fatores como baixas temperaturas, ventos fortes e altitude elevada são minimizados quando comparados à natureza deslumbrante das regiões visitadas. “A falta de oxigênio não me tirou o fôlego, mas a beleza da paisagem, sim”, brinca Austen.

“Além dos picos nevados, mesmo em janeiro, no verão, os Salares (salinas) superam 3000 km² de extensão. A fauna com guanacos, vicunhas e lhamas são de uma beleza indescritível”, lembra ele, que esporadicamente cruzava com outros veículos e trafegou sob uma temperatura de nove graus centígrados. “Minha moto até caiu quando estava parada”, conta Chris, sobre os ventos fortes. “A beleza influencia nos quilômetros rodados diariamente, porque, às vezes, se gasta um bom tempo apreciando a paisagem”, recorda Jota. A intensidade das curvas também conta muito no rendimento da viagem.

Grupos menores
A sintonia do grupo de motociclistas é fundamental para uma viagem agradável. Por isso, a maioria prefere planejar os roteiros em, no máximo, quatro pessoas. “Organizamos tudo com seis meses de antecedência e estabelecemos regras com seriedade”, diz Jota. “Os roteiros são extensos e os gostos e ideias devem convergir”, explica Chitão. Segundo Adriano, é importante trabalhar com mínimo risco, pois acidentes podem acontecer por falta de planejamento. “É preciso ter rigor em relação às regras estabelecidas e isso precisa ser absolutamente respeitado pelo grupo”, acrescenta o empresário.

Em função das férias ou de oportunidades, Chitão diz que nem sempre é possível viajar com os mesmos companheiros. “Em viagens curtas não há qualquer empecilho em formar grupos maiores, mas em longas jornadas os problemas se multiplicam à medida em que aumenta o número de viajantes”, aponta Adriano. Afinal, são muitas opiniões e vontades diferentes que entram em jogo, que passam desde o estilo de pilotagem, velocidade, respeito na hora de esperar pelo companheiro, escolha de hotéis, entre outros. “Tem que ter espírito alegre e bom astral o tempo todo, dentro do possível, e se o imprevisto ocorrer, ser 100% solidário”, completa o empresário.

Texto: Marina Rezende
Fotos: arquivos

Compartilhar: