Na melodia certa
Convidado a reger orquestras estrangeiras em 2013, Reginaldo Nascimento revela sua história como maestro
Apaixonado pela singularidade das notas musicais desde pequeno, o maestro-assistente da Orquestra Sinfônica, Reginaldo Nascimento coleciona premiações, histórias e muitas alegrias com a carreira escolhida.
Em entrevista para o portal da Revide, Reginaldo conta um pouco de sua história como maestro, sobre os convites para reger fora do Brasil, a surpresa ao receber a medalha Ordem do Mérito Carlos Gomes — homenagem concedida aos artistas que se destacaram no cenário nacional e internacional — e a tradicional apresentação de Natal da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto.
- Quando começou a se interessar pela música?
Reginaldo: Comecei a me interessar pela música lá pelos meus quatro anos de idade quando ganhei um órgão eletrônico da minha tia. A partir daí a música não saiu mais da minha vida. Ainda pequeno, assistindo a um desenho animado, fui tocado pela ária “Mio babino caro” da ópera Gianni Schichi de Puccini, e então decidi que seria músico.
- Como aconteceu esse processo?
Reginaldo: Inscrevi-me na Universidade Livre de Música em São Paulo e fui bolsista da Orquestra Jovem do Estado, o que viabilizou meus estudos. Posteriormente integrei outras orquestras, entre elas a Sinfônica de Ribeirão Preto, e fiz o curso de Licenciatura em música da Faculdade de Filosofia Ciências e letras da USP de Ribeirão Preto. Fiz cursos de regência na Polônia e na Hungria e nessa última participei de um concurso e conquistei o segundo lugar, concorrendo com 15 maestros de todo mundo. Como prêmio, regi a MÁV Symphony Orchestra em Budapest.
- Qual o seu compositor favorito?
Reginaldo: Meu compositor favorito é o alemão Johann Sebastian Bach. Mestre do Barroco, ele é um gênio que equilibra bem a razão e a sensibilidade. Suas obras se tornaram imortais, tais como as Paixões e Cantatas, bem como sua vasta música instrumental. Para violino, escreveu as célebres “Sonatas e Partitas” para violino solo “senza basso acompagnato”, que são as peças para violino mais geniais de todos os tempos, que elevaram o status do instrumento. Na época de Bach, o senhor de todos os instrumentos era o órgão.
- Que obra da música erudita é a sua favorita? Por quê?
Reginaldo: Minha obra favorita é sem dúvida alguma a Paixão segundo São Mateus de Johann Sebastian Bach. Obviamente que o tema religioso me cativa, mas o material musical é genial. Está ao lado da Nona de Beethoven como patrimônio cultural da humanidade. Nessa obra, Bach se utiliza como era comum na época, das figuras de retórica, ou seja, elementos musicais que traduziam situações e sentimentos aumentando ainda mais a dramaticidade da obra. Ele o faz de maneira tão genial que coloca sua paixão num grau de dramaticidade semelhante ao da ópera.
- Quais as suas atuais atividades como maestro?
Reginaldo: Atualmente eu sou regente assistente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto e tenho atuado como maestro convidado da Orquestra Jovem do Estado, a convite do Maestro Claudio Cruz. Esse ano tive a oportunidade de reger na Sala São Paulo e no Teatro São Pedro, dois dos mais importantes teatros de São Paulo.
- Como foi receber a medalha Ordem do Mérito Carlos Gomes?
Reginaldo: Receber a medalha Ordem do Mérito Carlos Gomes foi uma surpresa. Trata-se de uma grande honra, pois artistas como o violinista Natan Schwartzman, o maestro Diogo Pacheco, o maestro João Carlos Martins também a ganharam. Agora eu sou confrade de todos eles. É um grande privilégio para mim, pois não fiz nada pela música no Brasil ainda, se comparado com a obra desses gigantes da música. Espero poder fazer muito pela música em nosso país para poder ser digno de ser contado entre essas celebridades.
- Além deste prêmio você foi convidado para reger duas orquestras estrangeiras, como é ver seu trabalho tomar essas proporções?
Reginaldo: Tive dois convites para reger fora do Brasil, a orquestra de Murmansk na Rússia e a Filarmônica de Honduras. Estou muito feliz e empolgado, pois ser convidado para estar à frente de orquestras fora do país não é nada fácil. Mas nos dois cursos que fiz na Europa causei boa impressão e acho que gostaram de mim. Estabelecer-se como regente é muito difícil. É um caminho longo e é preciso trabalhar muito e com muita seriedade. Até que minha carreira seja consolidada, terei que me esforçar muito. O apoio dos músicos, da diretoria da OSRP, do público de Ribeirão Preto tem sido essencial para alavancar minha carreira. Sem esse suporte, a dificuldade seria tremenda.
- Em relação à receptividade do público ribeirãopretano quando o assunto é música clássica qual a sua opinião?
Reginaldo: O público de Ribeirão Preto é um apreciador da música erudita, até porque assiste aos concertos da OSRP há 74 anos. O trabalho feito pela OSRP de levar a música aos bairros, periferias, centros públicos, além de projetos de ensino musical, tem feito com que mais pessoas tenham acesso a essa arte. As óperas feitas em Ribeirão Preto tanto pela OSRP em parceria com a Quartim de Moraes e Matiz Eventos, sempre tem aberto récitas para escolas e entidades gratuitamente, levando-os ao Pedro II. Há de se destacar também o trabalho da CIA Minaz que, além de abrir para os jovens e crianças o mundo da ópera e da música vocal, tem revelado talentos que tem se destacado no cenário nacional. Hoje também temos a Faculdade de Música em Ribeirão Preto, o que atrai muitos jovens estudantes para a cidade e muitos se estabelecem aqui. Enfim, temos um celeiro de atividade musical de excelência, e isso faz com que o público se interesse cada vez mais e frequente os concertos realizados na cidade. A predileção do público ainda é pelo período Romântico, mas temos feito um trabalho de divulgação da música barroca e da música contemporânea que tem tido ótima receptividade.
Revide On-line
Texto: Pâmela Silva
Fotos: Bruna Zanuto e Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto