Na roda com bambas
Apesar de popular, o choro é essencialmente instrumental: as características mais apreciadas são o virtuosismo e a capacidade de improvisação dos chorões

Um banquinho, um violão, uma roda de amigos — para muitos, principalmente no mercado atual, em que a produção de mitos pela indústria fonográfica é meteórica, essa cena é puro romantismo, coisa do passado. Mas não é bem assim. Serestas, barzinhos com rodas musicais e amigos sempre são bem-vindos.
Infelizmente, para quem vive da música, o sucesso não é tão explosivo, especialmente se a preferência é pela música raiz. Edu Cardoso (foto no alto) é um dos artistas que, desde a década de 80, anima as noites ribeirãopretanas. Já teve conjuntos musicais, já compôs duplas e, hoje, faz show com o companheiro violão, no Bar do Alvino. “Tem algumas casas que ainda valorizam a música ao vivo, mas a música eletrônica ganhou muito espaço”, afirma.
Como muitos bambas, é autodidata. Aprendeu a tocar com amigos: Peri, Jacaré e Jorginho, entre outros. Hoje, quando vê os “meninos” do Choro da Casa resgatando a tradição fica feliz. “Esse pessoal está de parabéns, assim como o Grupo Evocação, o Sexteto Colibri e Os Roxinóis. O choro é uma música que vem do nosso povo, é coisa brasileira”, afirma.
Sangue novo
De fato, o choro, essa música tão brasileira até então associada ao passado romântico, está de volta à cena musical ribeirãopretana com sangue novo, como frisa Edu, pelas mãos hábeis de rapazes de 20 a 30 anos. Para o Choro da Casa, tudo começou com o grupo Samba da Casa, formado por Alexandre Peres, Filipe Cardozo, Ricardo Perez, João Roberto e Marcio Bahia. “Com a necessidade de aprimorar o samba e o conhecimento musical, buscamos estudar e pesquisar o choro, que é praticamente o pai do samba. Foi assim que surgiu o projeto Choro da Casa, que apresentamos às sextas-feiras no Choro da Villa”, conta Alexandre Peres. O grupo é formado por ele no cavaco, por Danilo Gowald (bandolim), João Roberto (violão de sete cordas) , Ricardo Perez (pandeiro) e outros integrantes, como Marcio Bahia, Luis Cipriano, Gabriela Francheck, Rafael Martelli, Alessandro Amaral, Filipe Cardozo e Jefferson Roani.
As rodas começaram naturalmente, entre 2010 e 2011, na Fábrica de Extintores, onde surgiu o Samba da Casa, e nos quintais dos amigos. Apesar do choro ser pouco executado, nunca tiveram dúvidas quanto ao sucesso do projeto. “O pessoal tem necessidade da música boa, ninguém aguenta mais essa imposição da mídia, que nos empurra o que há de pior”, ressalta, afirmando que os costumes são riquezas culturais que devem ser preservadas.
Para Alexandre, samba e choro são como o futebol: naturalmente brasileiros. “Nunca saíram de moda, foram apenas afastados pela mídia. Hoje, os jovens correm atrás porque está ‘caindo a ficha’ da galera, com a internet”, acrescentando que não é à toa que o choro se mantém, apesar de seus mais de 150 anos.
E vive graças aos chorões, que o levam aos bares e coretos, influenciando as novas gerações. “Quando voltei a morar em Ribeirão Preto, em 2010, conheci a Sueli de Lazzari, que fazia rodas em sua casa. Ali, sempre vi tocarem a Clélia do violão sete cordas, o Luciano do cavaquinho, o Caburé, o Tiãozinho do cavaco e o Sandro Cunha. Aprendi muito e ainda aprendo nessas rodas”, reforça. Para Alexandre, é nesses contatos com a velha guarda que o conhecimento é ampliado. “Aprendemos com a vivência deles: o que alguns têm de música, a gente não tem de idade. Precisamos ter, no mínimo, um grande respeito”, acrescenta.
Essa mistura de tradição e jovialidade reflete no repertório do grupo, que mescla músicas autorais com obras de compositores como Eduardo Gudim e Nei Lopes, e dos grandes mestres Cartola, Pixinguinha e Nelson Cavaquinho. Na roda, só tem uma ressalva: “nada de pagode!”.
O som dos coretos
De fato, esse charmoso estilo musical nunca saiu de cena: pode ser apreciado, às sextas-feiras, nos coretos da Praça XV de Novembro ou da Praça Sete de Setembro pelas mãos prodigiosas dos integrantes dos Grupos Evocação e Sexteto Colibri, ou aos domingos de manhã, no Museu do Café, através do projeto “Café com Chorinho”, com Os Roxinóis. 
O Sexteto Colibri existe há 13 anos e é composto por Clélia da Cruz Coimbra (violão sete cordas), Sebastião Góes, o Tiãozinho (cavaquinho), Nélia Nery Paterno (teclado e piano), Giba Gomide (pandeiro), Ricardo Junta Perez (percussão) e Terezinha de Biagi (acordeão). A proposta do grupo era, na verdade, beneficente: Clélia, Tiãozinhho, Nélia e Terezinha se apresentavam em instituições da cidade. A ideia de tocarem profissionalmente surgiu em 2001, curiosamente, em Ubatuba. Estavam descontraídos, tocando os instrumentos, os donos do La Vechia Villa ouviram e os convidaram para tocar na pizzaria. Lá permaneceram de 2001 a 2006.
Na época, fizeram um curso pela escola Portátil de Música do Rio de Janeiro, em que tiveram contato com grandes nomes da música, como Yamandu Costa, Hermínio Bello de Carvalho, entre outros. “Todos gostávamos de choro, mas quando conhecemos, de fato, esse universo, mudou nossa maneira de tocar e de interpretar a música brasileira. Conseguimos perceber as nuances do choro, o que faz o diferencial do grupo”, conta Clélia.
A partir de então, passaram a tocar o choro em todos os lugares, inclusive em eventos como o Festival Zequinha de Abreu, do qual participam desde 2002. Conforme Tiãozinho, é possível ver refletida nas pessoas a magia do choro. “O Brasil está com saudade do Brasil. Estamos querendo resgatar nossas origens. Essa garotada que hoje está difundindo o choro está querendo amar nosso país. E o choro é a música mais brasileira de todas, vem da miscigenação de tudo que é o nosso retrato. Ficamos tristes ao ver que a população não tem acesso”, destaca.
Apesar de popular, o choro é essencialmente instrumental: as características mais apreciadas são o virtuosismo e a capacidade de improvisação dos chorões — coisas de bamba, que tem em seus representantes mais famosos Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim e o mestre Pixinguinha.
Formado por Délcio Teixeira (cavaco), Antônio Bolzoni (violão sete cordas) e José Carlos Minto (vocal), o Grupo Musical Evocação está agora na expectativa de arrumar novo percussionista. A primeira apresentação do grupo foi em agosto de 1999. “A gente se reunia para tocar, simplesmente, até que aconteceu o primeiro evento e nunca mais paramos: passamos a tocar em casamentos, bodas, inaugurações e, através da Secretaria Municipal de Cultura, realizamos eventos na Praça XV e na Rômulo Morandi, nos Campos Elíseos, por nove anos”, conta Antônio, acrescentando que o projeto foi suspenso quando Dárcy Vera assumiu a Prefeitura. Realizam, também, apresentações itinerantes pelos bairros Manoel Pena, Jardim Paulista e Vila Tibério, que são independentes da Secretaria.
Assim, “indo aonde o povo está”, com seu repertório que abrange músicas que embalaram as décadas de 50 a 70, o grupo divulga o choro e a seresta. “Em nossas apresentações há muitos jovens. Procuramos dar o melhor de nós para o público, que é a nossa principal razão”, afirma o músico, destacando que também realizam shows mensais na praça em Patrocínio Paulista.
A música do Evocação também transpôs barreiras pelas ondas do rádio: já fizeram programa na Rádio 79, na Rádio de Batatais e de Brodowski e participaram de programas televisivos da EPTV, da TV Unaerp e da TV Thathi. Como os próprios participantes do grupo comentam, não há limite nem idade para a arte. “Não há música moderna nem música antiga. Há música boa e música ruim. A boa se perpetua”, finaliza.
Passarela de bambas
Outro grupo presente no cotidiano ribeirãopretano é Os Roxinóis, cujo nome se origina de um trocadinho (Roxo e “nóis”). É que o grupo foi criado por Clóvis Roxo e seus amigos, há mais de 30 anos. Desde então, fundamenta seu trabalho nas raízes da música popular, como o samba, o samba-canção, o baião e outros gêneros, sem deixar de lado o tango, o bolero, o fox, a rumba e o jazz. Muitos instrumentistas já participaram do grupo: os violonistas Horvildes Simões, Caburé, Passarinho e Zé da Conceição, o tecladista Mozart Figueiredo, o flautista e fundador Clóvis Roxo e Pinho (timba). Hoje, quem compõe o grupo é Roberto Marani (clarineta), José Augusto (acordeão), Beto Muniz (violão), Hamiltom (pandeiro e percussão) e Luizinho (percussão).
Além de se apresentarem em shopping centers, casas noturnas, clubes e eventos, Os Roxinóis valorizam o choro através do projeto “Café com Chorinho”, realizado no Museu Histórico e do Café desde 1993, que acontece aos domingos, a partir das 8h, e atrai 150 mil pessoas ao ano. “Desenvolvemos música instrumental de compositores consagrados e composições próprias, o que garante um público de perfil e idade variadíssimos. Dessa forma, damos longevidade às nossas atividades”, explica Roberto.
Com sua magia, o grupo já atraiu e incentivou diversas vezes o público jovem: pais que assistiam aos artistas pediam para que os filhos tocassem com eles. Muitos desses jovens, hoje, trabalham com música. Roberto acredita que o trabalho do Os Roxinóis pode ter aberto caminho para muitos músicos jovens. “O que fizemos foi constatar que este estilo de música não deve e nem pode parar. Vejo que surgiram vários grupos com a mesma concepção, mas cada um com seu estilo, o que implica crescimento e diversificação”, ressalta o músico. A esperança de Roberto, agora, é que a sociedade e o poder público despertem para a necessidade de projetos culturais para que a raiz cultural brasileira não se perca, reafirmando a cultura de mídia descartável e banal. “Na verdade, a sociedade entende. Só precisa do contato e da apresentação. A dificuldade está com o poder público...”, ressalta.
Música na veia
Em Ribeirão Preto, um dos representantes mais ilustres dos bambas da música é João Bosco de Queiroz, 66 anos, conhecido como Caburé. Natural de Cuiabá, assumiu Ribeirão Preto como lar ainda na adolescência. Músico nato, tocava pandeiro e violão aos cinco anos, nos bailes promovidos em sua casa, nos fins de semana, que eram animados por ele e seus nove irmãos, que atraíam a população da cidade. “Eu já nasci tocando”, costuma dizer. Aos 14 anos, chegou a Ribeirão Preto. “Da Francisco Junqueira para cima era só mato. Eu trabalhava, mas via o pessoal se apresentando na noite e pedia para tocar. Os músicos falavam que eu era muito menino. De tanto insistir, eles deixavam e eu acabava tocando melhor do que eles”, conta. 
Profissionalmente, começou aos 17 anos, quando montou o conjunto The Rebs (gíria relacionada ao nome de Ribeirão Preto). Fazia bailes na cidade e na região. “Nosso conjunto foi um dos primeiros, depois o França montou o Conjunto Capri e, mais tarde, o New Boys. Mas o The Rebs acabou e entrei para o Capri, quando conheci o França. Daí em diante, comecei a tocar sem parar”, relata.
Depois de cinco anos no Capri, mudou-se para São Paulo e, na volta, fez um show no Palestra Itália para arrecadar dinheiro para crianças carentes, que rendeu uma matéria de página inteira no jornal. O maestro Horvildes Simões leu e o convidou para tocar com ele. “Fiz o segundo violão para o Horvildes. A gente fazia show em teatro, solo de violão. Montamos, então, o grupo Os Roxinóis e começamos no Museu do Café. Quando o Horvildes morreu, eu parei”, explica. Com o maestro, Caburé gravou sete LPs.
Apaixonado pelo choro e pelo bolero, sua virtuosidade o tornava o acompanhante ideal para artistas que vinham se apresentar na cidade. Na época, muito da vida noturna acontecia em restaurantes. “Tinha a casa Gente Nossa e o Restaurante do Bosque. Eu e o França montamos, também, o Cultura do Chorinho, depois, A Volta do Boêmio, onde se tocava choro, bolero e samba. Ribeirão Preto foi bom para a música até uns 10 anos atrás, hoje não presta. Ninguém dança mais. Antigamente, tinha que ser bom na corda”, destaca.
Devido a problemas de saúde, não toca há um ano, mas mantém os vilões sempre ao lado. Agora, que se sente melhor, pretende voltar a tocar para desenferrujar os dedos. Hoje, só toca o que gosta. “Se estiver em um lugar com música, eu dou uma canja. Esse negócio de ganhar dinheiro com música não quero mais, até porque não se ganha, o povo paga uma mixaria”, destaca Caburé.
Apesar do choro exigir muita técnica, não tem muito reconhecimento no mercado. “Ganha dinheiro quem mexe com música sertaneja, em que os caras não tocam nada, ficam batendo no violão. É isso que dá raiva. Mas, é sempre assim, né?”, questiona. Conforme o cantor e instrumentista, é difícil ver bons músicos tocando na noite, hoje. “Tem meninos que tocam chorinho que são ponta firme, que estudaram. Mas a maioria não sabe, não toca nada. O que define um músico de verdade é o estudo. O cara precisa ter vergonha na cara: se vai tocar para o público, tem que saber tocar. Para fazer palhaçada, não toco, não”, conclui.
Canja presidencial
Francisco José Musse, o França, amigo há 50 anos de Caburé e parceiro na música em tantos momentos, conta uma passagem memorável da vida do violonista. “Caburé é um dos últimos boêmios de Ribeirão Preto”, assegura França, amigo e parceiro do violonista em muitos momentos, uma amizade que vem se estreitando há 50 anos. “Caburé já tocou com o irmão do João Figueiredo e para o próprio Figueiredo. Na visita que fez a Ribeirão Preto, o então presidente já sabia pelo irmão que havia um policial que tocava. O Caburé estava a serviço no dia, chegou uma viatura e o policial que estava nela disse ‘Soldado João Bosco, monta aí’. O levaram para casa para se trocar e, depois, ao Stream Palace, onde acontecia um evento. Lá estavam o Horvildes Simões e o Madinho da gaita. Tocaram duas músicas para o Figueiredo”, conta. Caburé acrescenta que o presidente pediu “Chão de estrelas” e o Maluf, que era governador, pediu “As Rosas não Falam”, e ele cantou as duas. Caburé também já se apresentou com Jamelão, Sílvio Caldas e Altemar Dutra Filho. Devido ao seu talento, aposentou-se pela banda da polícia militar.
França é mineiro, mas veio para Ribeirão Preto com 3 anos. Atualmente, aos 71 anos, segue na ativa: toca escaleta, instrumento de sopro e teclado, e percussão. Profissionalmente, começou em 60 e formou o Conjunto Capri. “Com o Capri fomos ao programa do Airton Rodrigues, tocamos em Rio Verde, Goiás, e em várias cidades da região e de Minas Gerais. Em 70, meu irmão ficou com o conjunto e eu comecei a viajar, mas nunca abandonei a música”, conta. Voltava para Ribeirão Preto nos fins de semana. “A partir de 1985, parei um pouco com as viagens, eu e Caburé entrosamos novamente na música, em relação ao choro. Também participei algum tempo do grupo Os Roxinóis. Caburé ficava 24 horas no ar, é um dos últimos boêmios de Ribeirão Preto”, assegura.
Inspirações Musicais
Em Ribeirão Preto, muitos músicos serviram de exemplo e inspiração para gerações. Um dos que não se pode esquecer é Horvildes Simões. O violonista foi professor da Unaerp, criador do disco “Gente cá da Terra”, que registrava e divulgava as obras de artistas locais. Conforme França, a música ribeirãopretana deve muito a ele. “Horvildes era um agitador cultural. Também não podemos nos esquecer de seu parceiro, Caetano Mancuso, do João Norato (o João do Cavaquinho), do Paulinho Sete Cordas, dos irmãos Edinho e Altamir Penha, do Bilo, do Peri, do João Viviano, que tocava com seu grupo no restaurante do bosque, famosíssimo pela música e pela localização: ficava dentro do bosque municipal”, recorda França. Por lá também passaram Wanderley Taffo, Bilo, Dodô, Pereira, Bolacha e Bimbim, entre as décadas de 60 e 80, artistas que, ao lado de Caburé, França, Edu e dos instrumentistas do Sexteto Colibri, do Grupo Evocação e do Roxinóis, influenciaram a juventude e mantiveram viva a alma da música autenticamente brasileira em Ribeirão Preto.