Na rota do crescimento
Números de 2018 revelam que o mercado de veículos brasileiro voltou a crescer: nos seis primeiros meses do ano, as vendas subiram 13% em relação ao mesmo período do ano passado
Em um país que se movimenta, basicamente, por rodovias, não é difícil imaginar a importância do segmento de veículos. Quando se considera, também, a cultura e a insuficiência do transporte público nacional, a relevância muda de figura e ganha proporções ainda maiores. Por esses e outros fatores, o mercado de veículos merece o devido destaque no cenário brasileiro. O segmento tem registrado bons motivos para comemorar. Dados reunidos pela Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores (FENABRAVE) mostram que no primeiro semestre de 2018, foram licenciados quase 1,7 milhão de veículos novos, entre carros, motos, caminhões e ônibus, o que significa um crescimento de praticamente 13% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram comercializadas mais de 1,5 milhão de unidades zero quilômetro.
O bom desempenho do setor no período fez com que as grandes instituições vinculadas ao segmento reajustassem suas previsões para 2018. A FENABRAVE elevou a expectativa de crescimento para o ano de 10% para 13%, em relação a 2017. Vale lembrar que o último ano foi o primeiro a registrar alta no número de licenciamentos, depois de quatro anos em queda. O período fechou com mais de 2,2 milhões de veículos vendidos, acumulando alta de 9,8%. A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) já projeta um volume de 3 milhões de unidades neste ano, o que vem animando o setor.
Retrospectiva
As boas perspectivas estão relacionadas aos sinais de recuperação da economia. Ainda longe do ideal, o mercado já lida com taxas de juros mais baixas e com a retomada do crédito, o que faz com que o consumidor reveja planos anteriormente engavetados, como, por exemplo, o de renovar a frota da empresa ou de trocar o carro particular. Esse movimento começou a ser notado no segundo semestre de 2017 e segue forte neste ano, o que é um alento para o mercado de veículos, que sofreu bastante nos últimos anos, em função da crise política e econômica enfrentada pelo país inteiro.
De acordo com Rui Flávio Chúfalo Guião, que atualmente preside o Conselho do Grupo Santa Emília Automóveis, representante das marcas Volkswagen, Toyota e Renault em Ribeirão Preto e região, com nove concessionárias, o mau momento recente não teve precedentes equivalentes. “Atuo no mercado de veículos em Ribeirão Preto há 54 anos, à frente de um grupo centenário. Diria que essa foi a pior crise dos últimos 117 anos. Para o setor, o auge aconteceu em 2016”, avalia o empresário.
Segundo Tiago Toniello, diretor do Grupo Toniello, responsável pela gestão de 23 lojas que representam 12 marcas em diversos municípios do interior de São Paulo e no Triângulo Mineiro, o princípio da má fase já completou uma década. “A crise que atingiu os Estados Unidos em 2008 acabou repercutindo por aqui também. Sentimos na pele o que é uma economia globalizada. A partir daí, houve restrições, principalmente em relação ao crédito, o que dificultou nossa sobrevivência. O nível de emprego foi afetado e o consumo despencou. Saímos de um cenário com 3 milhões de veículos vendidos, em 2013, para pouco mais de 1,5 milhão de unidades produzidas e comercializadas em 2015, isso sem contar a inadimplência, um agravante considerável”, analisa o diretor.
Para Damian Del Castillo Stéfani, engenheiro de produção mecânico, executivo do Grupo Stéfani Ribeirão Diesel, com mais de 70 anos de atuação, o grande problema da recente crise brasileira foi a falta de previsibilidade. “O pior, na minha opinião, foi o fato de que ninguém enxergava o fundo do poço, o que dificultou o planejamento e a operação das empresas. O ambiente político contaminou toda a economia: praticamente todos os setores foram afetados pela crise, inclusive o mercado automobilístico. Este setor é muito dependente do desempenho econômico do país”, avalia Damian. Segundo o executivo, uma série de ajustes foi implementada para readequar a realidade do mercado. Nesse contexto, a diversidade do Grupo, que comercializa carros, caminhões, ônibus, pneus, máquinas agrícolas e motos de diversas marcas, além de cerâmica, contribuiu para a superação do período.
Se toda crise é, também, uma oportunidade, o mau momento serviu para que o segmento buscasse se reestruturar. “O setor vem sofrendo importantes transformações há aproximadamente uma década. Se, antes, a prioridade estava no negócio, com boas margens de lucro, o fator mais importante passou a ser o cliente. Na ponta dessa cadeia, o atendimento e o valor agregado à venda ganharam importância”, destaca Evaldo Gomes Carvalho, que atua no setor desde 1988 e, desde janeiro de 2018, comanda o grupo Keiji Nissan, com lojas em Ribeirão Preto e Franca. A mudança de postura foi potencializada pela recente crise política e econômica, mas não está atrelada exclusivamente a ela. Mudanças anteriores em planos econômicos e a pulverização de marcas no mercado nacional levaram o empresariado automotivo a mudar sua postura, com vendas mais técnicas e uma dose extra de dinamismo.
Na fase aguda da crise, mais recentemente, foi preciso, também, ajustar custos, otimizar recursos e investir em gestão. “Mais uma vez, as empresas do segmento tiveram que se reinventar. Adotamos um novo modelo de gestão, mais adequado, por exemplo, ao cenário de queda no consumo. Acredito que, por conta disso, chegamos fortalecidos a este novo momento”, argumenta Tiago Wadhy Rebehy, diretor comercial do Grupo Indépendance. O economista atua no setor desde 1989 e comanda, atualmente, quatro concessionárias.
Além de medidas semelhantes, o Grupo Matriz Concessionárias apostou em recursos digitais para atrair o cliente. “Escolhemos manter os investimentos nos principais meios de comunicação, como revistas, jornais e outdoors. Fomos presença marcante, ainda, em feirões de automóveis e em eventos do gênero durante todo o ano”, enumera Eliéser Fraga, que comanda quatro concessionárias, entre uma loja exclusiva Kia, duas multimarcas e outra de locação de veículos. A ampliação da cartela de serviços e a criação de mais valor agregado, especialmente ao atendimento, também estão entre os diferenciais criados pelo setor já incorporados definitivamente.
Segundo Umberto Biagi Carvalho, a crise significou a estagnação dos números da Lagosan, que representa a marca Honda em sete municípios do interior paulista. “Vivemos um cenário estático há três ou quatro anos, o que permite dizer que a crise foi, para nós, a interrupção em um processo de crescimento. Percebemos a mudança de tendência para este ano, mas prefiro manter os pés no chão na hora de fazer uma previsão. Creio que fecharemos o ano com um crescimento de, no máximo, 5%.
O impacto da crise econômica foi, de fato, diferente em cada segmento do mercado de veículos. Marcas com modelos mais econômicos sentiram uma queda mais forte do que fabricantes de veículos com valor agregado mais alto. No Grupo Santa Emília, essa diferença ficou clara. “As vendas na Toyota até aumentaram um pouco entre 2014 e 2017, o que não se repetiu nas outras marcas que representamos. Para contornar a situação, passamos por um controle drástico de nossos estoques, reduzimos nossas despesas e entramos em estado de guerra no controle de nossas operações”, revelou Rui Flávio, que reitera a recuperação iniciada em setembro do ano passado. De acordo com o empresário, as vendas e os resultados crescem a cada mês.

Injeção de ânimo
Ainda que não de forma homogênea, a frota de veículos cresceu substancialmente em Ribeirão Preto e região nos últimos 15 anos. Segundo estudo da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (ACIRP), o número de carros e de motocicletas se aproximou das 500 mil unidades em 2017, atingindo uma média de 0,66 veículo por habitante. “A média do município é bem superior à nacional, de 1 carro para cada 4 habitantes, e saiu de 0,36 há 15 anos, o que demonstra uma expansão expressiva”, destaca Eduardo Molina, gestor de Inteligência Competitiva da Associação. De acordo com Molina, o crescimento de Ribeirão Preto, que ganhou novos bairros nos últimos anos, também estimulou a rápida motorização da população. Crescimento da renda, política de incentivos do governo em anos anteriores e o aumento do acesso ao crédito são fatores de destaque dessa equação.
De acordo com Damian Stéfani, Ribeirão Preto sempre teve uma economia pujante e, por isso, a relação de veículos por habitante é superior à media nacional. “Quando recebemos visitantes de outras regiões do Brasil, costumam sair daqui admirados pela frota nova e atualizada da cidade”, destaca o engenheiro. De acordo com ele, o mercado consumidor ribeirãopretano é muito bem informado, atualizado e aprecia bastante as novidades. Técnico e apaixonado: assim Evaldo, da Keiji Nissan, avalia o comprador de veículos de Ribeirão Preto. “A pluralidade de marcas aqui reunidas também é um diferencial importante, pois atrai consumidores de outras localidades”, complementa o empresário.
Representando um vasto portfólio de marcas, Tiago Toniello ressalta que o interior paulista, e especialmente a região de Ribeirão Preto, é um dos melhores mercados da América Latina. “O mercado local é muito promissor. Temos o agronegócio como alicerce da economia, uma excelente indústria de serviços e estamos em sintonia com as novas áreas da tecnologia, fatores que levam a classe média a um poder de consumo diferenciado. Isso repercute em todos os setores da economia, gerando uma demanda que é destaque nacionalmente, inclusive, no setor de automóveis”, analisa Tiago.
Para o diretor, o momento ainda é de cautela, mas a expectativa é contabilizar um crescimento de pouco mais de 10%. “Esta é a expectativa do setor. O crédito está crescendo 15% ao ano e a estimativa para o segmento de veículos usados é de chegar a 12%, apesar da baixa rentabilidade. A previsão para 2020 é de chegar a 3,2 milhões de unidades vendidas, o que já será um alento para o setor”, analisa o empresário.
De acordo com Eliéser Fraga, a melhora já é realidade também para o mercado de veículos seminovos. “Minhas previsões são as mais otimistas possíveis. Acredito em um crescimento de 20% para este ano”, aponta. Tiago Rebehy também prevê números grandiosos à frente do Grupo Indépendance e espera chegar a um crescimento de 100% até o final de 2018. “Estimo esse número em função do lançamento do novo SUV Citroën C4 Cactus, que está sendo produzido no Brasil e chegará ao mercado em agosto”, antecipa o economista.

Virada de tendência
Os números de veículos novos licenciados no Brasil nos últimos três anos demonstram que o mercado já alterou a curva descendente:
De janeiro a junho de 2016 - 1.592.576 veículos
De janeiro a junho de 2017 - 1.505.323 veículos
De janeiro a junho de 2018 - 1.691.621 veículos
Outro olhar
Para o economista Alexandre Assaf Neto, diretor do Instituto Assaf (Estudos Financeiros e Consultorias) e da Assaf Escola de Negócios, a recente crise brasileira não foi apenas econômica e política, mas afetou valores morais e de educação. “Na perspectiva da economia, de maneira geral, todos os setores foram afetados, porém, de forma mais acentuada nos produtos mais populares. No mercado de veículos, por exemplo, o impacto sobre a venda de veículos de luxo foi diferente daquela verificada nos populares”, ressalta o economista. Segundo Assaf Neto, apesar das desonerações concedidas pelo governo passado e dos incentivos ao crédito, o setor enfrentou as mesmas dificuldades que o restante da economia. “Mais relevante é entender que este mercado também está passando por uma transformação global bastante relevante. Estamos, talvez, no meio de um estágio de evolução desse mercado altamente complexo. Uma fase anterior mostrava que o veículo era sinal de status e, com o crescimento das cidades e das famílias, o carro passou a ser visto como bem necessário para a locomoção. No entanto, infelizmente, o custo do veículo próprio — não apenas o valor de compra, mas incluindo impostos, manutenção, combustível, etc — é muito alto para a maioria das pessoas”, salienta. Na opinião do economista, algumas outras tendências já são bastante evidentes: adaptação dos novos modelos ao trânsito intenso, redução de custos pela agregação de mais tecnologia e uso de formas alternativas de combustíveis são algumas delas.
Salão do automóvel 2018
O maior evento do segmento acontece a cada dois anos e está programado para se repetir em São Paulo de 8 a 28 de novembro. Na 30ª edição do Salão do Automóvel — o quarto maior do mundo —, estarão em exposição as mais recentes novidades do setor. Em 110 mil m² no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, estarão expostos mais de 540 veículos e serão oferecidas mais de 1.200 horas de atividades interativas, com mais de 100 eventos paralelas. Todas as marcas de automóveis comercializadas no Brasil estão confirmadas. O espaço disponível foi duplicado para ampliar, também, as possibilidades de interação entre os expositores e o público. O evento ajuda a manter elevadas as expectativas do setor para este ano.

Frota ribeirãopretana
Em 20 anos, o número de veículos em circulação em Ribeirão Preto cresceu 148%, passando de pouco mais de 215 mil em 1997 para mais de 532 no ano passado. No mesmo período, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população ribeirãopretana cresceu aproximadamente 48%. Ao todo, a cidade possui, atualmente, 532.814 veículos para 682.302 habitantes, o que equivalente a quase 1,28 habitante por carro. Confira, no quadro, a evolução dos últimos 10 anos:

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian e Ibraim Leão