Negócio social

Negócio social

Os “negócios sociais” despontam em RP, abrindo caminho para um novo tipo de empreendedorismo e para o desenvolvimento de um setor pouco conhecido

Quem tem uma ideia de negócio na cabeça, que contribua de forma direta ou indireta para a diminuição das desigualdades sociais ou com a preservação do meio ambiente e que, de quebra, gere algum lucro, está prestes a se tornar um representante do Setor 2.5. Embora pouco se ouça falar dele além das grandes capitais, o conceito não é novo e conquista cada vez maior espaço. Consiste em utilizar o modelo eficiente de gestão das empresas privadas (Segundo Setor) para gerar impacto social (objetivo do Terceiro Setor). Surgiu quando o economista bengalês Muhammad Yunus ganhou, em 2006, o Prêmio Nobel da Paz, pela criação do Grameen Bank, um modelo bancário de microcrédito para a população de baixa renda que mostrou ao mundo ser possível ter lucro e reduzir efetivamente a pobreza.

Um relatório sobre Sustentabilidade do Sistema de Inteligência Setorial do Sebrae (2013) aponta para o crescimento da procura por este modelo de negócio. Entre 20% e 30% dos novos projetos tem este perfil. Ainda não há uma regulamentação específica sobre este tipo de negócio no país. As empresas do setor 2.5 se enquadram na categoria de pequenos negócios que faturam entre R$ 600mil e R$ 3 milhões por ano.

Para financiar esses projetos, existem fundos para investimento e também aceleradoras e incubadoras, que auxiliam os empreendedores a aprimorar seu modelo de negócio. É o caso da Aceleradora 2.5 do Instituto Nacional de Empreendedorismo e Inovação (INEI), criada com a missão de prover um ecossistema de recursos para acelerar o desenvolvimento de negócios sociais inovadores e lucrativos — que caracterizam o Setor 2.5 —, e com o objetivo de fomentar a cultura do empreendedorismo social inovador. Ainda tímidas em Ribeirão Preto, principalmente na área de produtos, algumas iniciativas no segmento de prestação de serviço já existem para demonstrar o que significa pertencer a este novo setor.

Novos formatos
A Aposentfácil, por exemplo, não nasceu como um negócio social. Foi criada, em 2010, como uma microempresa voltada para o cálculo e o planejamento de aposentadoria e, no meio do caminho, mudou o direcionamento. “No fim das contas, percebemos que estávamos mais auxiliando as pessoas a planejar o futuro, óbvio que isso trazia também clientes, mas avaliamos que se nos dedicássemos exclusivamente à Educação Previdenciária, de forma gratuita e incondicional, estaríamos fazendo um grande marketing do nosso trabalho e, ao mesmo tempo, gerando multiplicadores que disseminam o conhecimento dos direitos sociais e as ferramentas para conquistá-los, produzindo um significativo impacto social”, conta o proprietário Hilário Bocchi Júnior.

Dessa forma, a empresa se tornou um modelo de negócio social com o objetivo de facilitar o planejamento e o acesso das pessoas de baixa renda aos benefícios sociais, assistenciais e previdenciários, promovendo a transferência de recursos financeiros do Estado à população mais necessitada. A Aposentfácil realiza palestras gratuitas, treinamentos, atendimentos e capacitação em casas de repouso, APAEs, hospitais, escolas e empresas. Participa também do Voluntários do Sertão, levando informação na área previdenciária para a população carente de cidades do interior da Bahia, atendidas uma vez ao ano pelo projeto. A lucratividade se sustenta nos casos que, invariavelmente, aparecem a partir deste trabalho. “Os clientes vêm de forma indireta, às vezes um pai, uma mãe ou um vizinho tem algum problema. Muitos, de posse da informação, procuram outros profissionais, mas, como nosso foco principal é a Educação, não podemos pensar que isso seja uma forma de deixar escapar clientes”, avalia Hilário.

Com a empresária Simone Crisley aconteceu diferente. Ela trabalhou durante muito tempo com gestão financeira, na área de controladoria e finanças e foi se especializando no Terceiro Setor, porque se sentia estimulada a ter outro objetivo além do lucro. “Ainda mais nesse setor onde atuo, em que se trabalha muito com o resultado, a finalidade social se mostrou um caminho para mim”, observa Simone. Assim surgiu, em 2008, a EcoSustentare, um negócio social com a missão de assessorar e orientar organizações do setor público e privado a realizarem uma gestão profissional e sustentável de seus projetos de impacto social, que, por meio da otimização de recursos econômicos, humanos e naturais, contribui para a formação de uma sociedade mais justa, responsável e transparente.

A empresa, que começou em São Paulo, veio para Ribeirão Preto em 2012 e, aqui, em função do cenário menos favorável que Crisley encontrou nas instituições do Terceiro Setor, a EcoSustentare passou a atuar mais enfaticamente junto ao Segundo Setor. “É complicado atuar diretamente nas entidades. São muito dependentes de recursos, por isso, decidi fazer o inverso: atuar nas empresas, trabalhando a questão da responsabilidade social e da sustentabilidade, procurando, sempre que possível, fazer o link com o Terceiro Setor”, explica a empresária.

Assim surgiu, por exemplo, o projeto Ações do Bem, uma iniciativa do Grupo Maubisa, desenvolvida pela EcoSustentare, que mapeou 50 organizações sem fins lucrativos da cidade, auxiliando-as na divulgação de suas atividades, em que o Grupo constatou um ponto deficitário e resolveu investir na área de responsabilidade social: a capacitação e o preparo de jovens, a partir de 16 anos, para o mercado de trabalho.

Outro exemplo de negócio social com foco no desenvolvimento do Terceiro Setor, a Eleva surgiu, em 2011, em Ribeirão Preto, como uma consequência natural do envolvimento de Emília Lemos Vasconcelos com as demandas administrativas das entidades. Com 20 anos de experiência no Primeiro Setor, Emília, muitas vezes, viu-se obrigada a auxiliar instituições filantrópicas na parte de documentação e prestação de contas para ter convênios firmados para o fornecimento de algum tipo de serviço. Por isso, optou pela exoneração do Estado e do Município para se aventurar como empreendedora social, e não se arrepende. “Com esse trabalho, ajudo diretamente as instituições e indiretamente a comunidade que elas auxiliam. Essa é a função do setor 2.5: criar uma atividade lucrativa, mas com a visão de sustentabilidade e de interesse público”, pondera Emília.

O foco da Eleva está na criação de negócios que tornem as instituições autossustentáveis, de modo a conseguirem atuar com excelência no seu objeto fim. Isso é possível, segundo Emília, porque, desde 2010, o artigo 53 da Constituição permite às entidades obterem lucro, mas, pela desinformação e falta de capacitação, muitas receiam esmiuçar as possibilidades. “A Eleva cria todo um programa de sustentabilidade para a instituição na tentativa de fazer o Terceiro Setor superar sua dificuldade de gestão e sua dependência dos outros dois setores, que geram instabilidade”, explica Emília. 

Dicas Sebrae

- Compreenda o mercado em que está inserido ou quer integrar;
- Pesquise oportunidades e fontes de financiamento;
- Identifique e mantenha o foco no impacto social desde o início;
- Informe-se sobre aspectos e características do empreendedorismo;
- Foque seu planejamento financeiro na sustentabilidade do negócio;
- Monitore os resultados e os impactos promovidos;
- Invista em apoio técnico, capacitação e desenvolvimento contínuo.

Novas possibilidades

Ponto comum na opinião destes empreendedores sociais, o desenvolvimento do Setor 2.5 em Ribeirão Preto está bastante atrelado a uma mudança de paradigma no que se refere à forma como o Terceiro Setor é visto, por si mesmo e pela população em geral, tratado, muitas vezes, mais como um apêndice indesejado do que um segmento indispensável. Emília destaca a falta de valorização desse segmento, embora seja fundamental para a economia, porque supre deficiências do Primeiro Setor e auxilia na manutenção das atividades do Segundo Setor, cuidando dos filhos de muitos funcionários no contraturno escolar.

Na opinião de Hilário, o Terceiro Setor é visto com maus olhos e perde credibilidade porque algumas instituições passaram a ser manipuladas e não prestam o serviço para o qual foram constituídas, distanciando-se da sua função primária de responsabilidade social e ambiental. Já para a empresária Simone, falta uma visão mais empreendedora dentro das próprias entidades e, consequentemente, uma maior abertura das empresas da cidade para desenvolver trabalhos conjuntos.

Renato Gayardoni D’aloia, vice-presidente da Associação Amigos de Boa Vontade Alvorada, mais conhecida como Creche Alvorada, instituição que atende 111 crianças no Jardim do Trevo, em Ribeirão Preto, explica detalhes do dia a dia de uma instituição que podem passar despercebidos e contribuir para uma visão distorcida da realidade, do papel do Terceiro Setor e da contribuição que a sociedade pode dar para sua manutenção e desenvolvimento.

Relembrando o caso de um colaborador que auxiliou na construção da creche e, no dia da inauguração, disse que procuraria outra entidade para ajudar porque ali já estava tudo pronto, Renato toca num ponto crucial — o da profissionalização das entidades — sob outra ótica. Se, por um lado, a exigência para que as entidades desenvolvam sua gestão é cada vez maior, por outro, questiona-se até que ponto pessoas físicas e jurídicas estão preparadas para dissocia-las da imagem de “pedintes” e, ainda assim, continuar investindo na sua manutenção.

Segundo D’aloia, falta a visão de que uma instituição é mantida por dinheiro, que depende dele para o pagamento de funcionários, da conta de água, de energia, a compra da carne, a manutenção da estrutura física e o investimento em melhorias, profissionalização e ampliação do atendimento. “Ter paredes pintadas e um lugar limpo e organizado não significa que não tenhamos um custo mensal de R$ 28 mil para ser atingido. Se o leite acaba na despensa, conseguimos sensibilizar pessoas através de uma campanha e repor, mas carne, por exemplo, nós não ganhamos. Ninguém doa carne e é um item que tem que estar na mesa todo dia”, comenta o vice-presidente.

Muitas vezes, ainda, as instituições promovem eventos para angariar fundos e, se o rendimento é bom — corresponde a três meses de funcionamento, por exemplo —, as pessoas se confundem, achando que está sobrando dinheiro para a entidade e, por isso, ela não precisa mais de auxílio. “Todo apoio é sempre bem-vindo”, afirma o dirigente.

Nesse sentido, o desenvolvimento dos negócios sociais e do Setor 2.5 em Ribeirão Preto pode trazer, ainda, a contribuição para uma renovação dessa ótica. Promovendo o circulo virtuoso da transformação interna nas instituições, consequentemente, quem sabe, modifique-se também a visão da sociedade sobre o papel do Terceiro Setor e sua forma de se relacionar com ele.

Texto: Yara Racy
Fotos: Julio Sian

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