No compasso da dança
Dânia Amaral discorre, a Flávia Borges Montans, sobre sua trajetória no mundo da dança
A postura correta e os gestos delicados denunciam, à primeira vista, que Dânia Amaral é uma bailarina. Mas é aconselhável buscar um segundo olhar e ouvi-la contar passagens de sua carreira para perceber o quanto é apaixonada pela dança e o tanto que esse gosto tomou conta de sua vida. Na entrevista a seguir, a jornalista e empresária Flávia Borges Montans, ex-aluna de Dânia, capta essa paixão em palavras, suspiros e até silêncios transmitidos pela professora. Em alguns momentos, uma frase da dançarina e coreógrafa norte-americana Martha Graham justifica suas respostas: “O corpo diz o que as palavras não podem dizer”.
Flávia: Como a dança surgiu na sua vida? Você sempre pensou em ser bailarina e professora?
Dânia: Eu fui aluna de uma das melhores professoras que Ribeirão Preto já teve: Regina Menezes, que tinha uma qualidade técnica e artística muito forte. Ela tinha amor pela dança e eu fui apresentada para a dança com muito amor também. Regina trazia grandes nomes para cá, mas sempre nos estimulou a buscar conhecimento fora também. Eu me formei em Ribeirão Preto, mas nunca fiquei parada aqui. Por influência dela, eu me apaixonei pela dança no primeiro instante. Na verdade, eu teria dançado de qualquer maneira, mas o estímulo dela foi fundamental. O fato de ter tido a sorte de encontrar uma professora muita boa, que me ensinou toda a parte de metodologia, toda a teoria do balé, que naquela época poucas pessoas conheciam, proporcionou uma base muito sólida. Eu viajava para os Estados Unidos e para Europa para estudar e fazer aulas. Nunca tive dificuldade de me comunicar no meio da dança por conta dessa base teórica que ela me ensinou. Isso me mostrou que não dava para ficar quieta aqui. Nas férias, eu juntava minhas coisas e passava o mês inteiro em São Paulo estudando dança. Fiz aulas com Ismael Guiser, Luís Arrieta, Halina Biernacka, entre outros grandes nomes do balé.
Flávia: Como foi a sua trajetória até chegar aqui e abrir um espaço com o seu nome?
Dânia: Durante 20 anos, trabalhei nas melhores academias de Ribeirão Preto. Aprendi muito nesse período. Trabalhei em algumas dessas escolas e em outras fui sócia. Como o balé clássico é a base para outras danças, principalmente para o jazz, eu era convidada para fazer parte dessas escolas, como a Jazz Dance, por exemplo. Conquistei muitas alunas e aonde eu ia, as carregava junto. Sempre fui do balé clássico, eu respiro balé clássico e, por isso, o carregava por onde passava. Depois de 20 anos, estava muito madura e com necessidade de ter o meu espaço. Embora me sentisse muito bem nos outros lugares onde trabalhei, não era o meu lugar, não tinha o meu cheiro, não tinha a minha personalidade. Por isso, há 16 anos, abri esse espaço. Quando vim, já tinha alunos bons formados por mim. Eu já tinha um nome constituído.
Flávia: A fidelidade dos alunos com você é muito forte. Como consegue retê-los por tantos anos?
Dânia: Chega a ser simples: quando você gosta do que faz e faz com honestidade, tem bons resultados. Esse é o retorno do meu trabalho. Eu tenho uma turma de alunas adultas, que são mães, profissionais, que pararam de dançar e agora voltaram. Elas têm um vínculo bem forte comigo pelo que eu proporcionei como professora, como dona da escola. Além disso, sempre trabalhei com bons profissionais, uma equipe bem formada, que dá continuidade ao meu trabalho. Eu tenho aqui profissionais que chegaram formados, com o peso de uma carreira muito sólida, e outros que se formaram aqui na própria escola.
Flávia: Como você concilia a sua paixão pela dança, a arte que vem de dentro e a administração de um negócio?
Dânia: Não foi muito fácil. Quando a pessoa é muito voltada à arte, ela tem algumas dificuldades de administração, principalmente na parte financeira. Ela quer promover o evento, o espetáculo, mas tem que fazer isso com o recurso disponível. E hoje o mercado exige muito. Na questão administrativa, encontrei o meu caminho oferecendo justamente aquilo que eu falo que vou oferecer. Ter um projeto forte de dança e saber administrar a equipe é muito importante. Porém, eu precisei buscar ajuda na parte administrativa, afinal uma empresa só funciona quando todos os departamentos caminham bem. Nada aqui acontece sem o meu olhar. As decisões são tomadas por mim, mas eu tenho uma equipe que me dá suporte, inclusive para eu estar em sala de aula, o lugar onde eu sou mais feliz.
Flávia: Hoje você se dedica totalmente à escola?
Dânia: Eu costumo dizer que hoje não tenho nem filho dentro de casa. Meus filhos já saíram de casa. Então, a escola é a minha preocupação constante. Aqui, eu tive muitas conquistas, evolui passo a passo, mas ainda quero crescer e isso deve acontecer de uma forma bacana, como foi até hoje. Gosto de ver a escola crescer, mas não quero perder o conteúdo.
Flávia: Você está sempre estudando, se aperfeiçoando. Esse aprendizado não tem fim?
Dânia: Não tem. Na verdade, não tem fim o professor. Para ser professor, é preciso ter algumas qualidades que são imprescindíveis. Primeiro, precisa ter paixão pelo que faz. É pela minha paixão que eu trago o aluno para mim. Também é preciso ter muita responsabilidade. O professor deve saber que ele tem que estudar, observar, ter um olhar para aquilo que ele ensina e o que o aluno recebe. Então, todos esses cuidados são necessários, principalmente na dança, porque ela mexe muito com o emocional, com a sensibilidade, com a questão do corpo. Lidar com a dança é muito delicado.
Flávia: O que a dança proporciona a uma criança, na sala de aula?
Dânia: A criança vem para cá com um sonho: dançar. Muitas vezes, os pais trazem as crianças para cá com esse sonho, mas cortam lá na frente. Isso não tem problema porque o que ela vai levar daqui para a vida dela, para a carreira, é essencial. A criança chega aqui e logo adquire um bom equilíbrio emocional, expressão, desenvolvimento físico e motor, postura, disciplina e socialização. As noções de começo, meio e fim são muito trabalhadas desde cedo. A criança vem e aprende os primeiros passos, ensaia uma coreografia, apresenta o espetáculo e recebe os aplausos. Aí ela entende o resultado de um trabalho do ano todo, o que ela ganhou com isso. O bailarino foi feito para ficar no palco e o espetáculo é o momento máximo do seu trabalho. É ali que ele transborda. Para isso, é preciso ter técnica. Então, mesmo que a criança não vire uma bailarina, só os aprendizados que ela recebe dentro da sala de aula e carrega para a vida já valem muito. Fora isso, tem a questão cultural, que é tão deficiente no nosso país.
Flávia: Você acha que a dança hoje, no Brasil, é valorizada da forma como deveria?
Dânia: Nunca é. Percebemos atitudes isoladas, mas não é como deveria. Não é como na Europa, por exemplo. Nem estou fazendo uma comparação porque não temos a mesma história cultural. A dança está há muito mais tempo na Europa do que aqui, mas ela está há menos tempo nos Estados Unidos e lá ela tem muito mais valor. As pessoas têm o hábito de consumir e de incentivar a cultura. Estive no Lincoln Center, no ano passado, e ali embaixo tinham oito restaurantes funcionando. A cultura fomenta outros segmentos, mas ela, por si só, é bacana. Não vou negar que no Brasil existem algumas atitudes isoladas, mas ainda temos essa deficiência. Uma mudança legal que vem acontecendo é o estímulo do setor privado, vindo de empresas como O Boticário, por exemplo, que quer ser o maior incentivador no campo das artes no país, patrocinando projetos culturais, mostras, espetáculos e companhias de dança. São poucas empresas que fazem isso ainda, mas são negócios de grande porte, de muita solidez. Quando vemos isso, percebemos a cultura mudando. Se não vai de um jeito, vai de outro. Esse apoio agrega muito para o público, mas também para a própria empresa. É, no mínimo, simpático a empresa apoiar uma ação que beneficia a educação das crianças. Iniciativas assim são fantásticas porque estimulam outras empresas também. Além dessa atitude nacional, tem as ações locais. Eu tenho parceiros de 20 anos, mesmo quando eu ainda não tinha escola. Essas empresas já acreditavam no meu trabalho naquela época.
Flávia: Aqui na escola, você tem algum projeto de inclusão de pessoas carentes?
Dânia: Sim, inclusive antes mesmo de ter a escola, eu já desenvolvia esse projeto. Nos lugares onde trabalhei, conseguia viabilizar, através dos proprietários, a entrada de alunos carentes. O meu projeto aqui na escola não é direcionado ao talento. Eu não estou aqui para lapidar diamantes. Aliás, acho isso muito arriscado. Na minha experiência como professora, tive alunas que vieram talhadas para serem bailarinas, mas não tinham a personalidade para serem. Nem todo o talento do mundo faz um bom bailarino. O bailarino tem que querer, ser disciplinado, ter vontade de trabalhar. Eu tive a oportunidade de trabalhar com alunos que não tinham o mínimo perfil para a dança, mas eles queriam tanto dançar que, com a paixão e a dedicação, foram parar em grandes escolas, como a do Bolshoi, em Joinville, ou até estão em companhias internacionais. Hoje, tenho 58 bolsistas, com muito orgulho. Como não tenho muito tempo para me dedicar a um projeto fora daqui, é isso o que posso fazer aqui dentro. Assim, tenho a possibilidade de dar uma oportunidade, inclusive de sociabilização. Isso ajuda a formar seres humanos responsáveis, dignos, trabalhadores. É uma oportunidade para os alunos e para os bolsistas. Hoje, eu tenho na escola professores premiados que foram bolsistas a vida toda e agora oferecem bolsa para outros alunos. Esse trabalho não é feito, como em algumas outras escolas, em que os pais dos outros alunos ajudam. É uma ajuda minha. Isso torna viável o meu sonho de ver o meu trabalho dando frutos.
Flávia: Como você avalia o nível dos espetáculos brasileiros?
Dânia: O nível é muito bom. Temos grandes coreógrafos, assim como grandes companhias e bailarinos maravilhosos. Além disso, acontecem os festivais nacionais, como o de Joinville, por exemplo, considerado desde 2005 pelo Guiness Book como o maior festival de dança do mundo. São uma vitrine. Eles reúnem os diretores das companhias brasileiras e trazem profissionais de outros países também. O Brasil tem condições de formar grandes talentos. A Myrthes Monteiro, por exemplo, apesar de hoje estar mais envolvida nos musicais, é um nome que o Brasil exportou. O nosso país é um berço maravilhoso de profissionais na área da dança.
Flávia: Quando você viaja, busca tanto o aprendizado técnico, da escola, quanto o lado artístico propriamente dito, assistindo espetáculos?
Dânia: Sim. A dança acaba virando parte da minha família. Todo mundo acaba se envolvendo também. No ano passado, fui para Nova Iorque e me hospedei em frente ao Lincoln Center, com sete teatros ali, além das escolas que eu queria visitar. Meu marido foi comigo assistir a abertura de balé do Lincoln Center, onde foi apresentado um espetáculo com coreografias de Balanchine. Para mim, um programa desses é imperdível e ele sempre me acompanha. Por isso, acabou aprendendo a gostar também.
Flávia: Hoje, para você, qual é o maior nome da dança?
Dânia: Tem vários nomes, mas um é a minha paixão como bailarino e como coreógrafo: Mikhail Baryshnikov. Sou alucinada por ele até hoje. Eu o assisti dançando, há uns quatro ou cinco anos, quando ele veio com sua companhia em Joinville. Ele dançou, com mais de 60 anos, brilhantemente. Às vezes, pego gravações mais antigas e vejo que, além de uma técnica perfeita, ele é um exímio intérprete e ainda é lindo. Tão lindo que foi parar no cinema. Baryshnikov é completo.
Flávia: O que você sente quando dança?
Dânia: Eu dancei realmente como bailarina, no palco, até os 37 anos. A última vez que dancei, nas pontas, foi o espetáculo Dom Quixote, no Theatro Pedro II. É uma maravilha, uma emoção. É aquela sensação de sair do corpo, ao mesmo tempo que é preciso estar nele para ter domínio. É só dançando que eu posso explicar. Nessa última apresentação, eu já tinha parado de dançar. Por estímulo de um professor, que já me acompanha há muito tempo, o Cassio Vitaliano, criei coragem e fui para essa audição. Minha vizinha de palco tinha 16 anos. Eu quis muito aquele momento e foi sublime. Subi ao palco, com sapatilha de ponta, usei um titi e lembro muito bem da luz no meu rosto naquele dia. Sinceramente, eu não me lembro se dancei bem ou não. Meu pé doía muito. Era um evento e houve um atraso de três horas. Mas, quando você dança, não sente nada. Enfim, foi maravilhoso. A Ana Botafogo tem uma frase muito bonita que diz que o bailarino, quando deita, tem a sensação de que o corpo chora, de tanto que sente o peso, a dor, depois que passa o espetáculo. É a música, além da força muscular, que faz o bailarino ficar tanto tempo em equilíbrio. O bailarino não pode descer da ponta antes da próxima nota. Mas não é só o prazer do palco. Tem o prazer da aula também. Eu faço aula de balé até hoje, como aluna e como professora. Eu saio mais feliz todos os dias, depois de uma aula.
DUAS FORMAS DE ADMIRAÇÃO
“Eu escolhi fazer esta entrevista com a tia Dânia, como a chamo carinhosamente, porque tenho muita admiração por ela. Ela é a minha eterna professora. Comecei a fazer balé quando era pequena, por volta dos sete anos, e frequento a escola até hoje. De vez em quando, ainda faço algumas aulas. Hoje, minha filha Maria Clara também é aluna dela. A minha paixão pela dança é muito grande e vem de casa. Na infância, eu participava de festivais, dançava várias coreografias e passava o dia todo na escola fazendo aulas de balé e jazz. A tia Dânia sempre foi um exemplo pra mim. Como professora, sempre disciplinada, atenciosa, com muito conhecimento do que ensina e, acompanhando toda a sua trajetória, hoje a vejo também como uma empreendedora da dança, uma empresária que investe na arte e na cultura, o que eu valorizo muito. Ela construiu um nome muito forte na cidade e sua escola reúne mais de 400 alunos. Ela é firme nos seus sonhos, nos propósitos e sabe como despertar o amor pela dança em todos os seus alunos.”
Flávia Borges Montans, jornalista e empresária
Texto: Máisa Valochi
Fotos: Carolina Alves