No olho do furacão

No olho do furacão

Marcelo Bigal é médico e vive há 20 anos nos Estados Unidos, epicentro mundial do novo coronavírus. À Revide, ele abordou o afrouxamento de medidas de isolamento e busca apressada por uma cura

Texto: PAULO APOLINÁRIO


O médico Marcelo Bigal, nascido em Ribeirão Preto e radicado há 20 anos nos Estados Unidos, acompanha com apreensão o avanço da pandemia do novo coronavírus em todo o mundo. Marcelo é formado em Medicina e possui doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Mudou- se para os Estados Unidos para fazer o pós- doutorado e dedicou metade da carreira no Albert Einstein College of Medicine, em Nova Iorque. Recentemente, iniciou as atividades na indústria farmacêutica, sendo o CEO de uma companhia de biotecnologia. A empresa de Marcelo tem o foco em distúrbios do sistema imunológico. Apesar da distância, ele mantinha o hábito de visitar a cidade natal ao menos quatro vezes ao ano, além de visitas a trabalho, para participar de debates, conferências e eventos na área. A última viagem foi no início de março, pouco antes do aumento vertiginoso dos casos do novo coronavírus, para acompanhar a mãe em uma cirurgia. "Sinto falta dos meus familiares e amigos, do clima, e sinto falta de um Brasil que temo não mais existir: um Brasil nostálgico, onde havia respeito e cordialidade”, revela.

Qual a opinião do senhor sobre os pedidos para que sejam "afrouxadas" as medidas quarentena nesse momento?

Afrouxar o isolamento social é irresponsável e não é baseado em evidências científicas. Vamos olhar o exemplo da Coreia do Sul, um dos países que mais rapidamente atuou e combateu a epidemia. Lá eles fazem cerca de 19 mil testes para cada um milhão de habitantes. No Brasil, fazemos cerca de 296 testes por milhão. Além dos testes, eles fizeram o isolamento social rápido e radical. Mesmo assim, tiveram 217 mortes. Agora, veja a Itália, onde eles negaram a epidemia no início dizendo que o país não podia parar. Até agora, eles tiveram 20 mil mortes. Se você olhar para os Estados Unidos, podemos ver o exemplo da Califórnia e de Nova Iorque. A Califórnia teve um isolamento social rápido, parou escolas, negócios e tudo o que não era essencial.

Até o momento, foram 683 mortes. Já em Nova Iorque, só em um dia, foram 779 mortes e 10 mil no total. Quais podem ser os efeitos práticos da subnotificação de exames no Brasil?

As projeções mostram que podemos ter uma vacina para o coronavírus entre abril e junho de 2021 e os primeiros remédios até setembro deste ano, que devem diminuir a mortalidade, mas não curar ou prevenir da doença. E qual é o papel do Estado até lá? Manter as pessoas saudáveis. É claro que nós não poderemos manter essas pessoas em confinamento até setembro. Em algum momento teremos de decidir quais grupos podem retornar e como as pessoas vão poder trabalhar em segurança. Para que tudo isso aconteça, temos de ter o mapeamento completo dos casos. É como você olhar um mapa de incêndio: temos de ver lá do satélite onde há fumaça. Sem os testes, nós não sabemos como dirigir os nossos esforços. A consequência disso é que o isolamento social vai ter que se prolongar por mais tempo.

Sobre a descoberta de medicamentos, o senhor poderia explicar como funciona esse processo e se a cloroquina pode ser considerada utilizada no tratamento ao coronavírus?

A cloroquina é um medicamento aprovado para malária, lúpus e outra doenças. Faz sentido que ela tenha sido pensada para ser usada contra a Covid-19. Contudo, os estudos publicados até o momento não demonstram que a cloroquina tenha efeitos. A mortalidade e a taxa de sobrevida de pacientes que receberam essa droga foi praticamente a mesma. Não obstante, é possível que um próximo estudo, feito com mais calma, demonstre que a cloroquina tenha feito, mas até agora, eles falharam em mostrar isso. Se você ler a bula da cloroquina, verá que ela tem uma variedade de efeitos colaterais, como doenças cardíacas. Se você continua o tratamento, há o risco de causar hipoglicemia e até cegueira. Portanto, até que estudos nos apontem uma direção um pouco mais precisa, a cloroquina não deveria ser vendida como o elixir da salvação. Há um longo processo de testes em laboratórios, animais e em grupos pequenos de pessoas antes que a droga seja administrada em larga escala. Olhe o caso das vacinas: se uma vacina possui 4% de chances de causar uma reação imunológica, ela matará muito mais do que o vírus. Existem várias vacinas e medicamentos que nunca chegaram a ser lançados por isso.

Compartilhar: