No ritmo da inclusão
Políticas afirmativas em empresas de Ribeirão Preto reforçam a cidadania no mercado de trabalho
Embora ainda distantes de serem implantadas em larga escala na sociedade, as políticas afirmativas ganham cada vez mais força, seja em universidades ou no mundo corporativo. As discussões envolvendo o acesso de negros, mulheres e pessoas com deficiência, por exemplo, no mercado de trabalho, é uma luta constante, e números poucos expressivos comprovam, ainda, a batalha.
Ações afirmativas são políticas voltadas às pessoas pertencentes a grupos discriminados e vitimados pela exclusão socioeconômica. O intuito dessas medidas é combater qualquer tipo de discriminação, seja étnica, racial ou religiosa, garantindo, assim, o acesso dessa parcela da população a serviços básicos, como emprego, saúde e educação. Empresas consultadas em Ribeirão Preto já descobriram a receita para por em prática o multiculturalismo e objetivam ações destinadas à inclusão no mundo corporativo.
Dados nacionais ainda apontam que o Brasil caminha a passos lentos, no entanto. Segundo o Instituto Ethos, menos de 5% dos executivos são afrodescendentes e apenas 0,4% são mulheres negras — em um país onde 54% da população se autodeclara negra ou parda, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo publicado pelo mesmo instituto em 2016, em parceria com Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a ONU Mulheres apontou para uma situação alarmante: a maior parte das empresas brasileiras não tem ações afirmativas para incentivar mais mulheres e negros em suas corporações e, quando há, trata-se de ações pontuais.
Segundo Bárbara Lespinassi, gerente de gente e gestão do Hospital São Lucas, 71% da liderança da empresa é feita por mulheres, sendo que há, entre o quadro de funcionários, 29 pessoas com deficiência — como síndrome de down e deficiência 100% visual — além de jovens aprendizes. “Desenvolvemos o programa ‘Diversidade e Inclusão’, pois entendemos que não basta apenas contratar a pessoa com deficiência. Existe um contexto de cultura e acolhimento com os gestores, para que eles entendam as necessidades reais da pessoa com deficiência, que vai além da deficiência em si”, argumenta a profissional. Há, também, de acordo com ela, um orçamento específico para adaptação das pessoas no ambiente de trabalho, mas há soluções simples que podem fazer a diferença, como diminuir a altura de todos os relógios de ponto para que pessoas com deficiência de baixa estatura ou cadeirantes consigam acessar a marcação de ponto. Outra iniciativa que ganha destaque é a impressão de diversos documentos em braile, medida fundamental para deficientes visuais.
A gerente explica que a empresa não tolera discriminação, e já houve até demissões por esse motivo. Ela reforça que a implantação de uma política afirmativa sempre é uma tarefa difícil, uma vez que envolve mudança de cultura e muito engajamento por parte dos envolvidos. Fazer um plano bem feito e executável, com pessoas que acreditem na causa, pode ser essencial. “Esse tipo de mudança não acontece de forma rápida. É necessário estar atento ao cenário interno e externo e adaptar as políticas internas a cultura, missão, visão e valores da empresa, inclusive fazendo com que façam parte do discurso e do dia a dia dos líderes, de forma natural e frequente”, ressalta.
Barreira rompida
O preconceito impede com que muitos tenham acesso ao mercado de trabalho, mas para Lucas Gonçalves, 36 anos, auxiliar de farmácia no Hospital São Lucas, essa barreira foi derrubada com muito suor e trabalho. Nunca, em nenhum momento, ele deixou que as dificuldades o abatessem. Fez delas um motivo para buscar o que tanto desejava e, mesmo com paralisia cerebral, pode encontrar um ambiente confortável para laborar. No entanto, essa conquista está longe de ser alcançada por muitos colegas que possuem deficiências até mais graves. A inserção no disputado mercado de trabalho cada dia mais se torna um desejo pouco acessível. “Nem todas as empresas estão preparadas para receber essas pessoas. Penso que falta recursos, mas, acima de tudo, bom senso e vontade”, frisa Lucas.
De acordo com o Ministério do Trabalho, que traz dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), entre 2011 e 2017, o número de pessoas com deficiência (PcD) no mercado de trabalho passou de 325.291 para 441.339 — aumento de apenas 116.048 pessoas. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostra que, em 2018, o total de trabalhadores nessa condição era de 442.007 pessoas — só 668 empregados a mais, de um ano para o outro. Lucas sabe bem das dificuldades que apareceram no caminho, contudo, para quem nasceu prematuramente, de quatro meses, e começou a falar apenas com oito anos, elas parecem não desanimá-lo. “Preconceito sempre vai existir, e soube lidar com ele. Tive de provar desde a infância que sou capaz, minha vida sempre foi desafiante, mas fui, também, motivado para aprender e conquistar meu espaço”, destaca Lucas, que faz questão de deixar clara a recepção que teve quando chegou ao hospital. Aos poucos, conquistou a confiança de todos. “Esse tipo de contratação favorece empresa e empregado, pois a gente aprende a se relacionar melhor e a se desenvolver no mercado de trabalho. Isso ajuda a crescer pessoal e profissionalmente”, lembra.
Mesmo no Brasil, onde a lei prevê cotas para o acesso desses profissionais ao mercado de trabalho, Bárbara percebe que algumas empresas ainda carregam preconceitos e não contratam — ou, quando fazem isso, encaram dificuldades para implantar tais medidas. “Nossa sociedade é plural e os jovens das novas gerações têm um sentimento de não discriminação e responsabilidade socioambiental crescente e bastante militante. Percebemos muitos manifestos nesse sentido e, cada vez mais, as pessoas buscam trabalhar em empresas que tenham os valores alinhados aos seus. Dessa forma, ter iniciativas afirmativas é uma questão de sobrevivência no mercado atual”, conclui a gerente.

Valores e propósitos
Ampliar a responsabilidade social e obter melhores resultados financeiros parece ser a saída para muitas empresas. Segundo José Eduardo Fernandes, professor e coordenador da Pós-Graduação em Pessoas, Gestão e Compliance nas Organizações Contemporâneas da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), é importante deixar registrado que, nos últimos três anos, empresas demitiram mais do que contrataram e, pensando na contratação de pessoas com deficiência, esse número, também, foi reduzido. “Esse cenário, de modo geral, melhorou a partir do segundo semestre de 2019. Basta ver os indicadores econômicos. A partir daí, principalmente grandes empresas da nossa região já buscam readequar seus quadros de pessoal, mesmo que timidamente. Isso inclui a contratação de pessoas com necessidades especiais”, destaca o professor.
José Eduardo acredita, ainda, que as empresas adotam tais medidas não apenas para cumprir cotas, como prevê a lei, porém, nas palavras dele, já existe um olhar diferente tanto da sociedade quanto do empresariado com relação às questões sociais, o que acarreta à empresa pensar em medidas urgentes. “Três pontos são importantes: falta estrutura física para receber os profissionais, preparação da equipe já existente, como no caso de desenvolver libras, e qualificação do trabalhador com necessidades especiais”, reforça. Embora não se possa afirmar sobre o desempenho das empresas quando adotam tais políticas, é possível pensar em questões fundamentais. “Certamente, o olhar do colaborador passa a ser diferente àquela empresa que pratica, sinceramente, ações voltadas para o ambiente social. Lembrando que os novos profissionais são muito mais engajados nas causas sociais e, portanto, sentem-se mais motivados a trabalhar em empresas com essa disposição”, finaliza o docente.
Uma empresa que também se destaca, mas pelo Programa de Aprendizes, é a Colorado Máquinas Agrícolas. O grupo acredita muito nessa iniciativa, que é a maior captação de talentos.Gislaine Yochimuta, da área de recursos humanos, deixa claro que a medida não é apenas para cumprir obrigações legais, pois o programa existe há 17 anos, sendo que a empresa atua no mercado há duas décadas. Um exemplo que a profissional cita é do gerente corporativo de peças que começou como aprendiz no almoxarifado. “Temos 12 aprendizes na empresa. Esse é o número médio e, quando pegamos uma estatística de janeiro de 2019 até janeiro de 2020, de 12, conseguimos efetivar sete candidatos, que seguem uma carreira técnica ou administrativa”, lembra.
Na empresa, todos que entram têm acompanhamento e contam com um padrinho — profissional da área que irá acompanhá-los desde o primeiro dia até a formação profissional. Gislaine acrescenta que o quadro de mulheres na empresa tem crescido a cada ano: hoje, 30% é de presença feminina. “As mulheres estão cada vez mais presentes na empresa, desde a operação até alta gestão”, enfatiza. Para Luan Henrique Junior Dinardi, mecânico trainee de 21 anos, o curso que realizou de meio período foi essencial para a conquista da vaga de contratado. O desejo de trabalhar na empresa foi realizado em janeiro de 2019 e outros investimentos serão feitos na carreira do jovem destaque este ano, que passará por mais um curso de dois anos, a fim de que possa trazer mais resultados positivos ao negócio. “Foi muita satisfação saber que seria contratado e me dediquei ao serviço. Faço aquilo que gosto, posso me aperfeiçoar mais e sempre dar o melhor de mim. Se faço isso, com certeza tenho bons resultados”, frisa. Gislaine pontua que as seleções acontecem de forma muito natural, independente de cor, religião ou sexo. “Qualquer um pode ingressar aqui. Buscamos, acima de tudo, que o profissional tenha os mesmos valores e propósitos da empresa. Quando esses valores se cruzam, digo que sempre temos um casamento legal”, observa.
Carla Tozzi Machado, supervisora da unidade de operação do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee), diz que há 1.000 jovens aprendizes espalhados por diversas empresas de Ribeirão Preto. Já no Brasil, são 80.000, segundo o Ciee. A supervisora salienta que o órgão já existe há 55 anos e foi pioneiro em programas de estágio, engajado em questões que envolvem a diversidade nas corporações, tema que Carla faz questão de evidenciar. “Periodicamente, vamos às empresas, sabemos da satisfação de ambas partes, explicamos a lei para o gestor, que está em contato direto com o aprendiz. Tenho relatos de pessoas que entraram em boas empresas e tiveram a vida completamente mudada. Elas tinham sonhos e hoje podem realizá-los. Se as empresas derem oportunidades, certamente, elas mudam algo na sociedade. A convivência com o diferente amadurece as pessoas”, destaca.
William de Faria Cavassani, 18 anos, que trabalha quase ao lado de Carla na empresa, é um funcionário contratado que possui algumas limitações físicas, como em uma das mãos. O jovem do Jardim Procópio, que pega dois ônibus por dia, formou-se no ano passado e, agora, cursará Ciência da Computação. “Quando eu soube desta vaga, tudo mudou em minha vida. É uma grande empresa que é esperança para tantos jovens. Tenho dificuldades motoras, mas compreendo tudo. Venho feliz trabalhar todos os dias e sou bem recebido. Tenho dificuldades, mas nunca me desmotivei por isso”, reforça. Para quem almeja alcançar o primeiro emprego e enfrenta as barreiras do preconceito, deixa, inclusive, um conselho. “Não desista. Você é capaz, mas é preciso persistência, muita dedicação e, acima de tudo, ter confiança em si mesmo”, finaliza William.

O termo da vez
Para os novos que chegam à empresa como contratados, por exemplo, é importante saber sobre alguns termos que as empresas adotam internamente. Nos últimos anos, o compliance vem ganhando cada vez mais destaque nas corporações. O termo significa “estar em conformidade com”, obedecer, satisfazer o que foi imposto. Bárbara Lespinassi, gerente de gente e gestão do Hospital São Lucas, explica que a iniciativa tem como norte o manual de ética e conduta empresarial. Há quatro anos, o Hospital São Lucas já possui uma comissão específica que cuida de compliance. “A comissão de ética e compliance do hospital é responsável por implementar o Programa de Integridade dentro da empresa, ligada à alta direção, fazendo treinamentos sobre o tema, analisando processos de trabalho, aprovações por alçadas, políticas específicas de ética e, também, possui um canal independente de denúncia no site aberto a qualquer pessoa (funcionário ou não). Esse canal é anônimo, sigiloso e o denunciante não sofre represália”, destaca a gerente.
O docente José Eduardo Fernandes frisa que, seja pela onda da Lava Jato, seja para resguardar o negócio, empresas já trabalham no desenvolvimento e implementação de políticas de compliance, inclusive, algumas da região já estão adiantadas nesse processo. “Ao implantar gestão de sistemas de compliance, metodologias de prevenção, canais de denúncias, identificação, análise e tratamento de fraudes, a empresa passa a ter embasamento de princípios éticos para tomar decisões nos âmbitos estratégico, tático e operacional. Esses pontos conferem um ambiente transparente e agregam valor ao melhorar a imagem e favorecer a perenidade da empresa”, conclui.