No tom da ópera

Contando com nomes de destaque no cenário operístico, Ribeirão Preto produz La Bohème, de Puccini

Ribeirão Preto tem a segunda orquestra mais antiga do Brasil em atividade — a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto —, regida por Cláudio Cruz, spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo; tem a maior companhia de repertório do Estado — a Cia. Minaz; tem o recém-conquistado Departamento de Música da USP e o um dos mais requintados teatros de ópera do país, elogiado por todos os expoentes do meio artístico que têm o privilégio de atuar em seu palco — o Theatro Pedro II. Apesar de possuir todos esses ingredientes fundamentais para a realização de óperas, a última produção do gênero — Rigoletto — ocorreu em dezembro de 2007.

Agora, a ópera La Bohème, de Giacomo Puccini, será apresentada em três récitas, nos dias 16, 18 e 20 de março, com um ensaio aberto ao público, no dia 14, quebrando um hiato de mais de três anos sem apresentações do gênero, com a intenção de desenvolver uma nova tradição em Ribeirão Preto: a de realizar pelo menos uma ópera ao ano, de forma que o município finalmente cumpra sua vocação operística. A produção do espetáculo é uma realização da Matiz Eventos, com coordenação geral de Maria Helena Spiritus e direção de Mariângela Quartim.

Foram convidados para compor o elenco o casal Fernando Portari e Rosana Lamosa, conhecido nos meios artísticos do gênero como “o casal 20 da La Bohème”, pela quantidade de vezes que protagonizou o espetáculo nos papeis do poeta Rodolfo e da costureira Mimi. Com carreira internacional em plena expansão, a dupla tem roubado a cena em teatros da Europa e dos Estados Unidos: ele esteve nos teatros La Fenice, de Veneza, na Ópera de Roma, no Teatro São Carlos, de Lisboa, e também em salas na Grécia, na Alemanha e na França. Na temporada 2007/08, apresentou-se em “Otello”, de Rossini, na Suíça, e em “Werther”, no Teatro Bellini de Catania.

Para Fernando, é importantíssimo para Ribeirão Preto sediar um espetáculo dessa magnitude, já que a cidade é um polo cultural. “Realizar uma ópera é um exercício de cidadania, de oferecer à comunidade a oportunidade de ver uma obra universal. A ópera rompe qualquer fronteira, a força da música e do teatro fazem da ópera um espetáculo único, que é apreciado e compreendido em qualquer cultura. Uma ópera, para uma cidade que está preocupada em oferecer arte à comunidade, é um espetáculo fundamental. Já fizemos ópera em Ribeirão Preto e a resposta do público é ótima, com grande repercussão”, afirma.

Rosana, a soprano artisticamente mais cobiçada do Brasil, iniciou a carreira internacional com apresentações na Ásia e na Europa, especialmente em Portugal e na Suíça, onde foi solista do Stadtatheater St. Gallen. Depois atuou em “Il Guarany”, em Lisboa, realizou concertos nos Estados Unidos, participou de “Rigoletto”, em Detroit, e de “Armide de Gluck”, no Festival de Buxton, na Inglaterra.

Rosana afirma que, devido à sua estrutura, Ribeirão Preto deveria se empenhar em proporcionar ao público mais espetáculos de ópera. “O Theatro Pedro II tem uma acústica excelente, uma vocação incrível para ópera. A direção desse teatro precisa perceber que o público responde bem à ópera, um espetáculo que traz uma memória — até hoje a gente encontra pessoas na rua que viram Rigoletto, que comentam sobre seu encantamento, que lembram da emoção que sentiram. Então, precisa haver maior conscientização da importância do espetáculo de ópera como um grande catalizador cultural”, defende.

Além da dupla, o elenco conta, ainda, com a soprano Yuka de Almeida Prado, prata da casa, professora da USP, cujas mãos ajudaram a lapidar talentos jovens, como o Jean Willian. Yuka dará vida à prostituta Musetta. Segundo ela, um trabalho de arte modifica o contexto social e econômico de uma cidade. “É importante que os empresários da região se sensibilizem com esse trabalho, que envolve muitas pessoas e muita dedicação. É um trabalho que mexe com a alma das pessoas. O país precisa desse empenho em relação à arte e à cultura, e é só com esse trabalho que nós poderemos modificar essa nação a médio e longo prazos”, acrescenta.

O baixo Sávio Sperândio, um grande cantor, segundo Cláudio Cruz, que também passa muito tempo fora do Brasil, e dará vida ao filósofo Colline. Leonardo Neiva (barítono), que interpreta Marcello, tem sido convidado pelas principais orquestras brasileiras e recentemente cantou no Chile, além de outros países. O também barítono, Wladimyr Carvalho, personificará o músico Schaunard, enquanto Gabriel Locher interpretará Alcindoro e Cleyton Pulzi dará vida a Parpignol, completando o elenco de solistas.

La Bohème

Protagonistas de Puccini, os personagens trazem à tona uma história de amor, de paixões, de adversidades, de companheirismo e da juventude, com seus sonhos e tropeços. Ambientada no Quartier Latin, em Paris, por volta no início do século XIX, La Bohème é considerada por muitos a obra-prima do compositor que, com maestria, conduz o público ao riso e às lágrimas, em um espetáculo que emociona e arrebata.

O primeiro ato se passa em uma mansarda, na véspera do Natal. Apesar da fome e do frio, Rodolfo (tenor) e Marcello tentam trabalhar, quando chegam Colline e Schaunard, com vinho, lenha, charutos e mantimentos. Eles oferecem bebida ao locatário, Benoit (baixo), que está em busca de seu aluguel. Então, a costureira Mimi bate à porta e, imediatamente, ela e Rodolfo se apaixonam.

No segundo ato, todos festejam a passagem de ano no terraço do Café Momus, quando chega Musetta, a ex-amante de Marcello, que usa todo o charme para reconquistá-lo, à custa do seu protetor Alcindoro, a quem obriga a pagar a conta.

No terceiro ato, Mimi procura Marcello para contar sobre seu sofrimento: diz que Rodolfo saiu de casa dizendo que iria deixá-la, que a atormenta com ciúmes. Procurado por Marcello, Rodolfo afirma que se enfurece porque tem medo de perdê-la, que a vida precária que oferece à Mimi a está levando à morte, já que ela sofre de tuberculose. Escondida atrás de uma árvore, Mimi escuta o sofrimento do seu amado. Os amantes dizem adeus, enquanto Marcello e Musetta discutem.

No quarto e último ato, na mansarda, os amigos se divertem com brincadeiras infantis, apesar da miséria, quando Musetta entra dizendo que Mimi está passando muito mal. De volta ao lugar, Mimi morre nos braços de Rodolfo.

Elenco de primeira grandeza

Para a ambientação da obra, também foi contratado um elenco de primeira grandeza: a cenografia ficou por conta de Chris Aizner, responsável por cenários e figurinos de grandes óperas e espetáculos apresentados nos maiores festivais brasileiros, como “A escolha do jogador”, que lhe rendeu o Prêmio da Associação dos Críticos de Arte (APCA) de melhor cenografia de 2005, em São Paulo.

Segundo Chris, o início do trabalho é justamente a compreensão da ópera, tendo em vista os cantores que farão parte do elenco. “Partimos de um conceito de que a cenografia não é decorativa, como se pensava antigamente. Implica buscar o subtexto, pensar e encontrar um ponto de comunicação que vá além da palavra. Para que a imagem cênica contribua para a ação dos atores, a gente pensa de maneira comum. Começo o processo de criação junto com o Caetano Vilela, pois é praticamente impossível enquadrar esse ideal de ópera sem a visão e a interação dele. A gente começa a trabalhar junto, a fundir essas ideias. Eu começo a esboçar, a procurar algumas referências. A partir daí, estabelecemos alguns critérios e códigos e só depois o processo começa”, conta.

O figurino é assinado pelo ribeirãopretano Olintho Malaquias, que também viaja o país pelos maiores festivais, compondo personagens teatrais e operísticos. Para ele, que volta à sua terra natal após 21 anos nesse grande evento, essa é a oportunidade de mostrar seu trabalho aos amigos e familiares. “É voltar para casa em grande estilo”, ressalta. Como essa ópera é ambientada nos anos 40, retrata a mulher que não podia se preocupar muito com figurino, até por limitações financeiras. “Como ela não tinha muito dinheiro para a troca do figurino, pensava mais no acessório. A explosão de cores, a variedade de formas estava nesses detalhes. Este era o período do chapéu, das luvas, das bolsas e dos sapatos porque o traje era basicamente militar, quase um uniforme”, explica.

Na direção cênica e na iluminação, o renomado Caetano Vilela, cujo nome se destaca no mundo da ópera devido às produções realizadas nos principais teatro paulistas e cariocas e no Festival Amazonas de Ópera, em Manaus. Seu trabalho em “Ça Ira”, do compositor e fundador do Pink Floyd, Roger Waters, recebeu o Prêmio Carlos Gomes de Música Erudita pela melhor Iluminação em Ópera. Pelo trabalho realizado na iluminação da peça “Dueto para Um”, Caetano acaba de ser indicado ao Prêmio Shell de Teatro de São Paulo, em relação às peças realizadas no segundo semestre de 2010.

Segundo Caetano Vilela, todas as cidades querem ter espetáculos de ópera, como Paulínia, que focou no cinema. “Ela promove a cultura porque traz visibilidade para a cidade. Os governantes pararam de ver a cidade rica simplesmente com indústria, cana de açúcar ou café. Estão vendo que cultura atrai outro tipo de renda, atrai turistas e dinheiro da mesma forma, modifica a relação do público com o teatro e a autoestima das pessoas”, enfatiza.

Participarão, ainda, da montagem, dois corais — o adulto, que será regido por Claudinei Oliveira, e o infantil, que terá como regente Gisele Ganade. À frente de toda essa equipe de cantores e técnicos estará o maestro Cláudio Cruz, que contará com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto que dará o tom ao evento. “Ribeirão Preto tem um teatro de ópera e, por isso, a cidade precisa montar pelo menos uma ópera por ano. Em ‘Rigoletto’ ainda usamos alguma estrutura de produção de São Paulo, mas desta vez não, estamos usando toda a estrutura de Ribeirão Preto: o coro é constituído de cantores daqui; os preparadores do coro também são de Ribeirão Preto e da região, enfim, é uma ópera de Ribeirão Preto. Só para os papéis principais estamos trazendo o que o Brasil tem de melhor. Temos vários papéis chamados de secundários, mas também muito importantes, que serão cantados por profissionais de Ribeirão Preto”, destaca Cláudio Cruz.

A realização desse projeto só foi possível graças à parceria da Prefeitura Municipal, da Secretaria da Cultura e da Fundação Pedro II. A prefeita Dárcy Vera comemora a realização de La Bohème em Ribeirão Preto, já que a montagem revela o potencial da cidade para produzir e receber eventos de grande porte. “ Meus parabéns a todos profissionais que transformaram este projeto em realidade, fortalecendo e valorizando nossos artistas e projetando Ribeirão Preto como centro produtor de grandes espetáculos”, declara.

Uma das produtoras do projeto, Isabel de Farias, diretora da Revide, destaca que esse pode ser um grande salto na projeção do município nacionalmente. “A ideia é levarmos este espetáculo para outras cidades que tenham interesse no projeto”, enfatiza. Entre os apoiadores da montagem estão, a OHL Brasil, a Usina Alta Mogiana e o Grupo Eurobike. “O Grupo OHL Brasil aposta na cultura como ferramenta de transformação social. Por isso, apoia eventos e instituições desse segmento em todo o país.

A montagem de La Bohème dará ao público de Ribeirão Preto e da região uma grande oportunidade de se aproximar da ópera, uma forma de arte pouco explorada no interior”, afirma Marcos Garcia, assessor da diretoria da Autovias/Grupo OHL. Para Patrícia Braga, gerente de marketing do Grupo Eurobike, patrocinar eventos culturais dessa magnitude é um privilégio, ainda mais em Ribeirão Preto, cidade onde as atividades da empresa foram iniciadas. “Colaborar com esta ação é muito importante para nós, já que valorizamos projetos culturais voltados à sociedade”, argumenta. Pela expectativa, tanto dos produtores e demais envolvidos quanto dos patrocinadores, o público pode esperar um grande espetáculo.

La Bohème
Quando: dias 16, 18 e 20 de março
Onde: Theatro Pedro II
Informações: Matiz Eventos
Tel.: (16) 3911.6339


Texto: Carla Mimessi
Fotos: Ibraim Leão

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