Nora e Hanna

Nora e Hanna

A cantora Nora Hanna, com a equipe da Revide: a entrevista desta semana reflete o clima descontraído deste encontro

Quem está acostumado a ver Hanna nos palcos durante os shows da banda Disco Rod Hanna, não imagina que Nora é, na verdade, uma mulher quietinha, “quase melancólica”, como define em suas próprias palavras. Um pouco tímida, dona de um jeito doce, mas determinado, a artista confessa que abriga em si uma personalidade múltipla, que se revela na medida da necessidade. Em família, a Nora exigente e amiga construiu uma linda história ao lado do marido e parceiro artístico Rodrigo Laguna e dos dois filhos, Daniel e Fábio. Já nos palcos, Hanna aparece com a irreverência encantadora, com uma capacidade única de captar e emanar as emoções e a alegria própria dos anos 70. Na conversa com a jornalista Carla Mimessi, acompanhada por Luiza Meirelles, Nora Hanna revela como a história da banda teve início e foi conciliada com a formação da família, há quase 25 anos.

CARLA: O que veio primeiro em seu encontro com Rodrigo: a paixão ou a parceria musical?
NORA: Primeiro começamos a namorar. Conheci o Rodrigo na boate Sunshine, que todo mundo frequentava. Naquele primeiro momento, não sabia que ele tinha paixão pela música mas, em uma missa de domingo, encontrei-o cantando. Aliás, foi na igreja que nós dois começamos a cantar. Já juntos, resolvemos fazer um teste para tocar em um bar da cidade. Depois de aprovados, tivemos que correr atrás de um repertório para quatro horas! Como não tínhamos tempo para ensaiar, tivemos que escolher canções que eu já sabia a letra. A Disco apareceu, pois o estilo era minha paixão. Para a nossa surpresa, o público gostou.

C: Naquela época, a Disco não era habitual, certo?
N: Não. Nos barzinhos, só se tocava MPB. Esse foi justamente o nosso diferencial. Mas a opção pela Disco foi realmente uma coincidência feliz.

C: O grupo decidiu manter o estilo por conta do sucesso inicial?
N: Foi uma opção muito natural, uma espécie de encontro. Começou nos bares e continuou com o lançamento do primeiro CD, em 1994, produzido por Kiko Zambianchi, com músicas próprias, assinadas pelo Rodrigo e uma regravação Disco. Quando fomos fazer o primeiro clipe, o diretor sugeriu que ambientássemos a produção nos anos 70, justamente porque estávamos propondo uma releitura da Disco. Para isso, precisamos providenciar figurino, que foi feito pelo Thomaz Pileggi. Depois daquele investimento, tivemos que encontrar o que fazer com as roupas que, para nós, sem dinheiro nenhum, eram tudo. Assim, decidimos subir no palco com aquele figurino. A estreia foi numa casa paulistana chamada Image. Um fato curioso: quando subimos no palco, acabou a luz e o som não funcionou. Mesmo assim, as cortinas se abriram e nós aparecemos com aquelas roupas Disco. Só pelo visual, a plateia começou a bater palma. Naquela época, não era fácil encontrar sapato plataforma ou calça boca de sino.


C: O que foi mais difícil naquele momento?
N: Tudo foi muito difícil porque banda, para sobreviver, precisava fazer bailes de quatro horas ou mais. Nós montamos um show de uma hora e meia e ninguém entendia que não tocaríamos a noite toda. Era muito difícil fechar shows. Precisamos de muita persistência, pois sabíamos do sucesso que alcançávamos com as nossas apresentações. O contratante, no entanto, muitas vezes, não conseguia assimilar nossa ideia.

C: Enquanto a banda estava nascendo, você já estava casada e com filhos pequenos. O que foi mais difícil: ser a Nora mulher ou a artista?
N: É muito complicado trabalhar com o marido. Sempre recomendo “não faça isso em casa”. É muito difícil separar o profissional do pessoal, chegar em casa e não falar de trabalho ou vice-versa. Portanto, o desgaste é natural. Mas, como fui mãe aos 18 anos, precisávamos correr atrás de um sustento para os nossos filhos. Mas tudo aconteceu na época certa porque fazíamos mais shows em Ribeirão Preto e região, o que me permitiu ser mais presente na vida dos meninos. Quando começamos a viajar por todo o Brasil, eles já tinham crescido.

C: O que a deixava mais agoniada: dar conta dos filhos ou do espetáculo no palco?
N: A agonia maior era criar os filhos sem dinheiro. Éramos estudantes quando eu engravidei e não conseguíamos ter muita certeza de como conseguiríamos comprar o leite dos meninos. As pessoas em volta também querem muito dar palpite, pois veem duas “crianças” cuidando de filhos. Era difícil para todos acreditar que a música garantiria nosso sustento. Mas eu e o Rodrigo sempre acreditamos.

C: Seus filhos participaram ativamente da sua carreira?
N: Eu nunca os levei aos shows quando pequenos. Sempre respeitei os horários da vida de criança. Hora de show não combina com hora de dormir. Eu achava melhor deixá-los com a minha mãe ou com a minha sogra. Como eu expliquei, eles já estavam maiores quando começamos a viajar — o mais novo tinha cinco anos, mais ou menos — e já não davam tanto trabalho.


C: Alguma vez passou pela sua cabeça cantar outro gênero musical?
N: Sempre ficamos entre Disco e música própria. Nunca pensei em outro gênero. As composições próprias caminham junto com o ritmo que adotamos. Já temos seis CDs, dois deles gravados ao vivo com músicas Disco e os outros com músicas próprias, que o público já incorporou e canta junto.

C: Nos shows, vocês sempre incluem as músicas autorais?
N: No nosso último show “On Broad-way”, não há música própria porque o Rodrigo ainda não foi descoberto nos Estados Unidos! Mas em todos os outros mantemos uma música ou outra.

C: Você se define como uma pessoa quietinha. Já no show, revela irreverência. Você acha que a Disco é libertadora?
N: Acho que sim. A Disco me pegou desde pequena porque era um ritmo que me deixava feliz. Lembro de entrar no carro do meu pai aos sete anos para ouvir Abba, por exemplo. Essa sensação que o estilo provoca está ligado, inclusive, à sua origem. A Disco estourou logo depois da guerra do Vietnã e queria dizer que era hora de relaxar, de se divertir, de celebrar. Acho que esse é exatamente o sentimento que a Disco passa. Como sou tímida, um pouco melancólica até, encontrei uma música que me coloca para cima.

C: Você acha que é isso que mexe tanto com as pessoas?
N: Acho. Por ser um estilo que o Rod Hanna gosta de verdade, acaba contaminando ainda mais as pessoas.

C: Como é a Nora no convívio pessoal?
N: Brinco que tem a Nora e tem a Hanna. São a mesma pessoa, mas meu lado Nora é muito “bicho do mato”. Eu gosto de ficar em casa, detesto ir a boates, não aguento ter que conversar alto. Prefiro sair para jantar com amigos em um lugar sossegado, pegar um cinema ou qualquer outro programa tranquilo que me permita estar em casa meia noite ou em torno disso. No palco, viro a Hanna, que eu também adoro, mas que só aparece no palco.

C: Como você se autodefine?
N: Sou uma pessoa amiga, mas bastante ansiosa e, por isso, as pessoas precisam ter bastante paciência comigo. Também tenho uma capacidade de ver a dor do outro e de me emocionar junto. Isso é muito importante para o palco, pois consigo captar a emoção do público e passar algo para ele. Acho que, no fim, posso dizer que sou uma pessoa sensível e intensa.

C: Há algum projeto arquivado que você ainda queira colocar em prática?
N: Tem muitos. Na parte musical, tenho muita vontade e ainda vou fazer um CD com músicas que eu adoro, que fazem parte da minha vida, mas que não são dançantes. Já tenho uma lista do que eu colocaria no CD que inclui sucessos nacionais e internacionais. Gilberto Gil, Alessi Brothers, Christopher Bross, Djavan são alguns exemplos de cantores que eu gostaria de regravar. Eu prefiro fazer releitura de sucessos cantados por homens, para evitar comparações. Outro projeto, no campo pessoal, é encontrar uma atividade fora da música, mas ainda não consigo porque falta tempo.

C: O que você faria?
N: Tenho um site com minha amiga Camila e queria fazer um espaço virtual para falar sobre educação de filhos. Nós achamos que hoje em dia os valores estão ficando perdidos, os pais não sabem mais como educar e estão criando filhos mimados, com acesso a tudo. Temos vontade de contar nossa experiência porque conseguimos criar filhos legais. Eu tenho orgulho dos meus.

C: Como você conseguiu isso, mesmo sendo jovem e em início de carreira?
N: Eu sou brava, já te contei? Sensível, intensa e brava. O fato de eu ser muito criança quando me tornei mãe me aproximou dos meninos. Nós brincávamos juntos e, depois que eles dormiam, eu continuava brincando com o videogame deles, por exemplo. Isso nos fez muito próximos. Por outro lado, sempre fui muito exigente em relação a horários, estudos, esportes e outras atividades. Assistindo a um programa que fala justamente sobre educação de filhos, vi que a recomendação é deixar claro para eles o que se espera, quais são as regras daquela casa. Na nossa casa funcionou desse jeito: com regras bem definidas.

C: Além da música e da família, quais são suas outras paixões?
N: Sou formada em Letras. Amo línguas e literatura. Costumo ler bastante, inclusive em inglês, para treinar um pouco o idioma. Também gosto muito de ir ao cinema. De viajar, então, nem se fala! Acho que o dinheiro que se investe em uma viagem é o mais bem gasto.

C: Este ano, você e o Rodrigo fazem bodas de prata. Quais foram os ingredientes fundamentais para que a parceria funcionasse?
N: O primeiro é o amor, pois sem ele não tem jeito. O segundo é a paciência que o Rodrigo sempre teve comigo. Respeito e conversa também são fundamentais. O problema de um relacionamento aparece quando as pessoas envolvidas vão se magoando e não colocam aquilo para fora.

C: Onde você acha que é mais difícil: no palco ou em casa?
N: No palco é muito fácil. Em casa sempre sou mais complexa.

C: O que você menos gosta em você?
N: Gostaria de ser menos ansiosa. A ansiedade me atrapalha muito porque, às vezes, eu tomo uma atitude da qual me arrependo depois. Vejo que se eu conseguisse esperar, se me acalmasse, faria diferente.

C: Você se sente realizada pessoal e profissionalmente?
N: Muito. Consegui vencer em uma área com muito preconceito, muito desacreditada e especialmente difícil no Brasil. Tenho uma família linda, cheia de saúde, o que me deixa ainda mais feliz com tudo o que realizei.

C: Quais são os planos para 2013?
N: Para a banda, o plano é colocar o show “On Broadway” na estrada. Já nos apresentamos em Ribeirão Preto e em São Paulo, percebemos que a receptividade do público foi ótima, e agora queremos levá-lo ao Brasil inteiro. No lado pessoal, espero estar bem próxima da minha família. Meu pai está passando por um problema de saúde e isso é só o que eu espero para 2013: saúde.


Intensidade que contagia
“Falar de Nora Hanna é falar de alegria, e não é à toa. Sua presença automaticamente nos remete à Disco, a tempos de descontração, da efervescência das boates, às inconsequentes noites adolescentes. Mas, a admiração que sinto pela artista vai além das deliciosas viagens musicais que faço de carona em suas asas: por trás da cantora há uma mulher que, em tempos difíceis, optou pela paixão em todos os sentidos: enquanto se tornava artista, também aprendia a ser esposa, a ser mãe e a ser teimosa — a lutar pelo que acreditava e queria. Hoje, o que vemos é uma mulher que pode se dizer vitoriosa em todos os sentidos, que cultivou e colheu paixões, que se sente realizada, amada, admirada e respeitada, uma generosidade da vida que retribui compartilhando com a plateia, fazendo o público feliz.”  Carla Mimessi, jornalista.


Agradecimento: Laboratório de Atividades Práticas do curso de Música da Unaerp.

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