Nos bastidores da cultura

Com um plano de ação bem definido e estruturado, a secretária da Cultura Adriana Silva remodela e potencializa as artes em Ribeirão Preto

Poucos duvidam do poder transformador das artes. A capacidade de gerar mudanças é uma das características já consagradas da cultura, por meio do teatro, do cinema, da literatura, das artes plásticas, entre outras formas. No entanto, apesar de vir ajudando a fixar na história diversos nomes no decorrer de séculos, a cultura não é um tema muito valorizado no Brasil, especialmente por parte dos dirigentes do país. Comumente, 1% dos recursos públicos, ou menos, são dirigidos à pasta, seja no âmbito federal, no estadual ou no municipal.

Apesar da escassez de recursos, as artes vêm ganhando importância por causa do interesse dos próprios artistas e do público. Em Ribeirão Preto, não é diferente e o setor vem se desenvolvendo. Basta observar o número de espaços de arte que a cidade viu surgir nos últimos tempos, a quantidade de grupos teatrais e musicais que estão ganhando espaço no cenário artístico, a expansão pela qual vem passando a Feira Nacional do Livro, que este ano, em sua 11ª edição, recebeu um público superior a 500 mil pessoas.

Desde janeiro de 2009, a cultura ribeirãopretana ganhou o trabalho da secretária da pasta Adriana Silva. Desde a infância, a jornalista descobriu a paixão pelo tema, tendo participado de grupos de teatro e de outras iniciativas artísticas na escola. Aos 15 anos, ingressou na Associação de Jovens Artistas e iniciou seu trabalho de defesa da cultura como ferramenta educacional. “Descobri essa convicção muito cedo, e continuo defendendo que as artes agregam valor à educação”, avalia Adriana, que teve a oportunidade de participar de um debate, ainda na adolescência, junto à Comissão Constituinte de Educação e Cultura. A secretária segue se aperfeiçoando na área e hoje faz doutorado na Universidade de São Carlos. Os temas educação e cultura se misturam nas pesquisas de Adriana.

Como jornalista, atuou no rádio e na TV, carreira que começou antes mesmo da conquista do diploma. Acostumada a trabalhar em várias frentes ao mesmo tempo, Adriana também iniciou cedo sua relação com a literatura. Publicou seu primeiro livro, uma reunião de contos, aos 18 anos e também escreveu o romance “Iguais, porém diferentes”. Atualmente, trabalha em seu terceiro livro e é membro da Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto.

Antes de assumir a Secretaria da Cultura, Adriana já conhecia de perto os desafios que a esperavam. Trabalhou por sete anos junto à equipe da Cultura, tendo passado por dois governos. Durante este período, teve a oportunidade de coordenar ações de incentivo à literatura e foi diretora do Instituto de Pesquisa e Estudo de Ribeirão Preto (IPERP), que abriga o Centro de Referência Histórica do Interior Paulista. “Por causa dessas experiências, conhecia o organograma e as propostas da Secretaria. Sabia também dos problemas que a Cultura tinha, especialmente a falta de verba, uma característica recorrente dessa pasta em todo o país”, afirma a secretária.

Quando assumiu o cargo, o que Adriana encontrou foi um calendário cultural realizado anualmente. “Desde o início, nossa proposta era que a Secretaria deixasse de ser um agente ‘fazedor’ de cultura e se tornasse um facilitador”, aponta. Para isso, o primeiro ano de mandato foi dedicado às discussões e ao planejamento da cultura no município. Foram realizados contatos com os órgãos estaduais e federais competentes para que a Secretaria da Cultura de Ribeirão Preto buscasse qualificação para aderir ao Sistema Nacional de Cultura. Também foram realizadas reuniões setoriais com o objetivo de entender e pontuar as necessidades de cada segmento artístico. Uma Conferência Municipal de Cultura e um Fórum de Cultura contaram com a participação de estudiosos, sociedade civil, agentes e atores do cenário cultural.

Dessas reuniões, juntamente com o trabalho da equipe técnica da Secretaria, surgiu o Plano Municipal de Cultura, aprovado em janeiro de 2010. O projeto elenca prioridades — formação, fomento e difusão da cultura, nesta ordem — e prevê ações em benefício do setor para os próximos 20 anos. “Podemos afirmar que a cultura ganhou importância, já que passou a ser pensada a longo prazo”, avalia a secretária, que se define como técnica da cultura e estudiosa de políticas públicas.

Para fomentar a cultura, a Administração Municipal criou o Programa de Incentivo à Cultura (PIC) e, por meio de editais, financia a realização de projetos de diversas entidades e de artistas. Em 2010, foram investidos R$ 200 mil, em 2011 estão sendo aplicados R$ 400 mil e em 2012, R$ 800 mil.

As principais metas para 2010 eram a viabilização das ideias inseridas no Plano e, no segundo semestre, o início da implantação. As ações propostas estão baseadas em estudos e pesquisas, característica também prevista pelo Plano. Entre as mudanças já observadas, está a criação do Departamento de Planejamento e Projetos. “Esse setor passou a participar de todos os editais, sejam federais ou estaduais, em busca de recursos para a cultura”, explica Adriana. Foi criada, também, a Rede de Pontos de Cultura, que inclui 10 pontos incumbidos de levar arte às comunidades em que se localizam, coordenadas por um “pontão”, que gerencia as atividades. “Onze entidades foram selecionadas por edital para realizarem os projetos culturais nos próximos três anos. Eles recebem R$ 60 mil por ano — R$ 30 mil repassados pela União e R$ 30 mil pelo município — e atuam como um braço da Secretaria, chegando a lugares onde o poder público, com seu orçamento, não atuaria”, defende.

Para este ano e o próximo, quando termina o mandato da atual gestão, o foco está no fortalecimento de ações na área de formação e preservação patrimonial. Alguns projetos já estão prontos e em fase de captação de recursos, como é o caso do Teatro de Arena, do Teatro Municipal, da Casa da Cultura, entre outros. “A partir de um levantamento, traçamos 12 metas para recuperar o patrimônio de Ribeirão Preto e ampliar os espaços culturais”, acrescenta a secretária. Um desses espaços é o Museu do Café, localizado no campus da USP, que já foi totalmente recuperado e está à disposição do público.

O registro das memórias e da cultura também está entre os projetos da Secretaria. Alguns livros que contam a história de pessoas e lugares historicamente importantes estão sendo publicados. Desde 2009, foram lançados seis livros e realizados oito vídeos documentários. “Até final de 2012 deverão ser lançados mais oito livros e seis vídeos com temas variados”, antecipa a secretária.

Essas metas estão sendo alcançadas, além das verbas municipais, graças aos recursos obtidos junto ao Estado e ao Governo Federal e também junto ao setor privado. Em 2010, foram investidos na recuperação do Museu do Café e na revitalização do Morro São Bento R$ 550 mil, verba proveniente do setor privado. “Quando assumimos a Secretaria da Cultura, era raro buscar as empresas para patrocinar projetos. Passamos a firmar parcerias com diversas delas e esse número vem crescendo a cada ano”, afirma Adriana, que acredita que a propaganda feita de um empresário para outro em relação ao trabalho realizado pela Secretaria é um dos fatores que ajudam a ampliar essa rede.

Para ela, a comunicação ainda é um problema a ser resolvido. “Há muitos eventos acontecendo e há um extenso público interessado, mas não contamos com a divulgação que gostaríamos. Esse é um problema que ainda temos que solucionar”, acredita a secretária. Entre as verdades em que acredita, Adriana sabe que onde tem cultura há menos dos outros problemas e pretende acelerar o trabalho no município na direção de um cenário cultural mais fortalecido.

Quando não está trabalhando, o que frequentemente acontece nos três turnos de um dia, Adriana está em casa com a família e os livros. “Somos caseiros. Gosto de ver um filme com meu marido ou de conversar com a minha filha. Se não estou fazendo uma dessas coisas, estou estudando para a conclusão do meu doutorado ou escrevendo. Esses são meus prazeres”, finaliza.

»Compromisso
“Ribeirão Preto tem sorte de ter uma secretária da Cultura como a Adriana, uma pessoa culta, preparada e muito competente. Ribeirãopretana da gema, conhece nossas histórias e problemas, e compartilha nossos sonhos. Sempre ligada à vida cultural e social da cidade, realiza ótimo trabalho à frente da Secretaria.” Maurilio Biagi Filho, empresário

»Proximidade
“Vemos o esforço da Secretaria para conseguir atender às necessidades dos artistas e produtores. Acontece que a demanda é grande, principalmente após anos de gestões engessadas. O primeiro grande passo foi o Programa de Incentivo à Cultura (PIC) que, em seu segundo ano, conseguiu dobrar a verba de projetos culturais, facilitando a atividade dos grupos artísticos. Pode-se afirmar que hoje há mais contato entre a secretária e os artistas, comunicação mais aberta e maior incentivo de ambas as partes.” Lucas Santarosa, ator

»Cultura ampla e democrática
“Nessa gestão, a Secretaria da Cultura deixou de atuar apenas como realizadora de eventos e com a participação de poucos grupos culturais passou a incentivar a ação cultural de forma mais ampla e democrática. Isso se deve principalmente ao perfil da secretária da Cultura, que vê o ‘fazer cultural’ além da realização de eventos e procura abrir espaço para todos.” Flávio Racy, ator, diretor da Cia. Teatral Ainda Sem Nome e coordenador da Casa das Artes

»Preservação da memória
“Acompanhei várias iniciativas e realizações importantes para a cultura de Ribeirão Preto desde 1992, principalmente na área de preservação do patrimônio cultural. A secretária Adriana Silva tem conduzido os trabalhos com inteligência e sensibilidade, criando e fortalecendo a noção de política pública de cultura. As expectativas para os próximos anos nunca foram tão promissoras. Até pouco tempo, era comum ouvirmos que ‘vivemos num país sem memória’. Creio que essa mentalidade está se modificando em Ribeirão Preto.” Tania Cristina Registro, historiadora do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto

Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Júlio Sian e divulgação

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