Nos bastidores da história

Nos bastidores da história

Um dos peritos criminais mais conhecidos do país, Ricardo Molina revela detalhes sobre os principais casos em que atuou

Com mais de 2.000 laudos emitidos em 25 anos de trabalho, o perito criminal Ricardo Molina esteve em Ribeirão Preto, a convite da Ordem dos Advogados (OAB), para lançar o livro “O Brasil na fita”. Na obra, publicada pela Editora Record, o autor narra, de forma clara e acessível, informações exclusivas sobre cerca de 70 casos em que atuou. Alguns deles, inclusive, marcaram a história política e policial do país. Nesta entrevista, concedida ao jornalista e coordenador editorial da Editora da Unicamp, Ricardo Lima, Molina relembra fatos importantes da carreira e revela os bastidores dessa profissão que desperta tanto fascínio entre a população. 

Ricardo: No Brasil, não existe nenhum curso de graduação voltado à formação de um perito. O que você estudou?
Molina:
Assim que terminei o ginásio, optei pelo científico. Naquela época, esse era o curso voltado para os alunos que se identificavam com a área de exatas. O cronograma privilegiava disciplinas como Matemática, Física e Química. Decidi que queria ser engenheiro. Frequentei a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) durante dois anos. Por motivos pessoais, abandonei os estudos e me mudei para São Paulo, onde me tornei um pequeno empresário. Produzia peças em acrílico. No final da década de 70, fui para Munique, na Alemanha, e passei a tocar com uma banda que se apresentava em barzinhos e em festivais pela Europa. Quando voltei para o Brasil, resolvi levar a música a sério. Passei no vestibular da primeira turma do curso de Composição e Regência da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Formado, pensei que a próxima etapa seria uma pós-graduação. Escolhi aprofundar meus conhecimentos em Linguística, pois gostava muito de semiótica. Como já trabalhava com som, de forma bem natural, acabei me especializando em Fonética. Fiz mestrado em Linguística e, ao concluir o doutorado em Ciências, fui contratado para trabalhar no Departamento de Medicina Legal da Unicamp.

Ricardo: Qual a sua exata especialização na Fonética?
Molina:
Essa é a área mais técnica da Linguística. Utilizamos equipamentos sofisticados. Efetuamos cálculos, gráficos e estatísticas. De certa maneira, é uma vertente um pouco anômala dentro das ciências humanas. Quem cursa Letras, por exemplo, não está familiarizado com esse universo. Eu, que vinha da Música e tinha passado pela Engenharia, encarava tudo com máxima tranquilidade. A Fonética está cada dia mais quantitativa e não qualitativa, como era na década de 50. Atualmente, um ouvido sensível não basta. Ter noções de conceitos da área de exatas e dominar a tecnologia é absolutamente fundamental.

Ricardo: O perito deve ter uma formação multidisciplinar?
Molina:
Com certeza. A perícia é uma atividade multidisciplinar por excelência. Além de ser necessário interagir com profissionais de outros segmentos, temos que nos entender. Posso não ser médico, mas preciso compreender o que um laudo de medicina legal diz. O meu trabalho depende do que está escrito naquele papel. Se cada descoberta ficar restrita a um departamento, nada será solucionado. O perito funciona como um articulador, reunindo todas essas informações para chegar a uma conclusão. Nessa hora, a vivência conta bastante. É importante ter a cabeça aberta, ser eclético e transitar bem por diferentes áreas do conhecimento.

Ricardo: O primeiro laudo de grande repercussão na sua carreira foi o de uma gravação que envolvia o ministro do Trabalho e da Previdência do governo de Fernando Collor, Antônio Rogério Magri, a um esquema de propina. Como esse caso chegou a você?
Molina:
No doutorado, defini a identificação de falantes como tema, um campo que, naquela época, não era devidamente utilizado pela Fonética Forense. Encontrar um especialista que pudesse certificar a autenticidade da voz de uma pessoa em uma gravação e ainda comprovar que o conteúdo não havia passado por uma edição, era impensável. Ninguém fazia isso. No início dos anos 90, já tinha emitido alguns laudos, ainda como doutorando, e o jornal Folha de São Paulo ficou sabendo do meu trabalho. Fizeram uma ampla entrevista comigo, que saiu no caderno Folha Ciência. Muita gente teve acesso a essa reportagem. Coincidentemente, em questão de dias, a fita do Magri chegou às mãos do Romeu Tuma, delegado chefe da Polícia Federal. O material poderia ser encaminhado para o Instituto de Criminalística (IC) ou para a equipe da própria Polícia Federal, mas os profissionais não tinham expertise e nem dispunham de aparelhos corretos para realizar o serviço. Quando receberam a notícia de que alguém da Unicamp teria condições de analisar aquela gravação, logo me procuraram. 

Ricardo: Foi difícil lidar com a pressão que um caso dessa importância provoca?
Molina:
Foi um verdadeiro batismo de fogo. Tinha que fazer coletiva de imprensa todos os dias. Os jornalistas dormiam nas escadas do prédio, esperando que eu emitisse o laudo. Ouvia a fita e, várias vezes, não tinha nada para divulgar. A tarefa era demorada, minuciosa, mas eles ficavam de prontidão. O país inteiro tinha interesse no resultado daquela investigação. Naquele caso, até a falta de notícia era notícia. Não estava acostumado com tanta agitação e fiquei um pouco assustado. Contei com a ajuda do assessor de imprensa da Universidade, o excepcional Eustáquio Gomes, que me ensinou a lidar com o assédio e com as armadilhas da mídia. Também enfrentei uma resistência interna, de alunos e de professores incomodados com a movimentação no campus e com as restrições de segurança que foram impostas. Eles me culpavam pelo transtorno. Pensavam, erroneamente, que era uma exigência minha. Aquilo tudo que estava acontecendo era novidade no Brasil. Acabou virando um carnaval. 

Ricardo: O caso Magri também revelou detalhes dos bastidores do trabalho de um perito. Além de identificar a voz do ministro, você afirmou que a conversa ocorreu dentro do gabinete. O que o laudo revelou?
Molina:
O Magri afirmava que a conversa, em que admitiu ter recebido uma propina de 30 mil dólares para facilitar a liberação de recursos do FGTS de uma empresa para uma obra no Acre, em 1991, não tinha acontecido dentro do gabinete. Ao ouvir o conteúdo da fita, porém, descobri dois elementos interessantes no som ambiente. O primeiro era o ruído da cadeira onde o interlocutor do ministro, Volnei Ávila, na época diretor de Arrecadação e Fiscalização do INSS, estava sentado. Conforme ele se mexia, provocava um barulho bem específico. O segundo foi o toque de um relógio, que soava a cada, exatos, 14 minutos e 56 segundos. Viajamos até Brasília, testamos a cadeira e cronometramos o relógio do gabinete do ministro. Os dois itens foram totalmente compatíveis com os da gravação. Era a prova que precisávamos. Essas são algumas das informações que o laudo fornece.

Ricardo: Este aspecto investigativo, detetivesco, desperta curiosidade do público em relação a sua profissão?
Molina:
Sim. Chamamos esse interesse crescente de efeito CSI. A TV, hoje em dia, exibe uma infinidade de séries que retratam o universo da perícia. Grande parte da população é fissurada por esse tipo de programa. Vale lembrar que aquilo é ficção. Tem gente que acredita que basta colocar uma amostra em um determinado equipamento, apertar um simples botão e o laudo sairá prontinho. Garanto que as coisas não funcionam assim.  

Ricardo: Além dos trabalhos que envolvem políticos, você esteve à frente de diversos casos policiais, como a chacina de Vigário Geral, a Favela Naval e o massacre do Eldorado dos Carajás. Esse meio é ainda mais complicado?
Molina:
Ambos são igualmente difíceis. A maioria dos processos policiais em que atuei tinha a própria polícia como foco da investigação. Isso por conta da estrutura “oficial” de perícia do nosso país. Quando chegam ao IC, as evidências são analisadas por um perito que também é policial. Assim, há uma grande chance de que o laudo seja inconclusivo e dos envolvidos serem liberados. Atendendo ao pedido da Comissão de Direitos Humanos, averiguei as mortes relacionadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), por exemplo. O material já havia sido encaminhado para o IC, mas os profissionais não concluíram que um homem, alvejado por 21 tiros, tinha sido executado. Atestaram resistência seguida de morte. Isso é impossível. Ninguém vai atirar 21 vezes em uma pessoa simplesmente porque ela resistiu a uma abordagem. No Brasil, o perito não é obrigado a interligar os dados do boletim de ocorrência com o laudo, não precisa apresentar uma resposta consistente, que faça sentido. Por isso, muitas vezes, o Ministério Público e a corporação buscam alguém de fora, independente dessa hierarquia, para fazer o serviço. Contestei e critiquei muitos relatórios do IC. Minhas análises já condenaram policiais. Isso me trouxe uma série de inimizades.

Ricardo: Em junho de 1996, surgiu um outro caso emblemático na sua trajetória: o assassinato de Paulo César Farias, o PC Farias, e da namorada dele, Suzana Marcolino. Esse é um caso de polícia e de política?
Molina:
Nesse caso, tivemos um duplo homicídio com forte caráter político. A versão oficial tentou apagar essa relação, levantando a hipótese de crime passional. O PC Farias era um arquivo vivo, prestes a contar tudo o que sabia. Ele tinha depoimento marcado no Ministério Público. Pessoas importantes seriam prejudicadas por tais revelações. Quanto a isso, não há dúvidas.  A cena do crime foi completamente alterada, ou melhor, destruída. Queimaram o colchão e as roupas de cama. Lavaram o chão com detergentes fortíssimos. Os corpos foram posicionados de forma quase hollywoodiana. Sem os vestígios, o perito fica confuso. As informações não batem, a lógica dos fatos se perde. Posteriormente, o parecer do médico legista responsável também trouxe falhas absurdas. Para o primeiro laudo, de 1996, averiguei o conteúdo de três ligações feitas por Suzana naquela madrugada para um affaire que ela teve em São Paulo. Ele não atendeu, mas o recado ficou na secretária eletrônica. Na primeira gravação, ao fundo, dá para ouvir uma voz masculina. Porém, o horário registrado é posterior ao da morte de PC, o que deixa claro que uma terceira pessoa estava naquele quarto. Tentaram alterar essa linha do tempo, deixando a entender que era o PC falando. Foram incontáveis esquisitices e discrepâncias. Com o objetivo de justificar a trajetória da bala, que não era condizente com a de um suicida, o relatório também mudou a altura da Suzana. Em 1999, fiz um laudo sobre isso, que acabou derrubando o anterior. Mesmo assim, hoje, 20 anos depois dos assassinatos, ainda não há uma resposta para a pergunta: “quem matou PC Farias?” Só saberemos se alguém confessar.

Ricardo: Em 2001, você periciou outro escândalo político: o então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (ACM), foi gravado admitindo que viu a lista de votação da cassação do deputado Luiz Estevão, conteúdo que deveria ser sigiloso. Como a análise da fita culminou na queda desse político tão poderoso?
Molina:
Conseguimos comprovar a autenticidade da voz dele na gravação, o que causou um grande rebuliço. Para não ser cassado, o ACM acabou renunciando. A prova era contundente demais. Não havia nada que ele pudesse fazer para se salvar. Nesse caso, especificamente, sofri muita pressão, dentro e fora da Universidade. Pediram para que eu não aceitasse o trabalho. Quiseram expor a minha vida, questionaram a minha competência e disseram que eu era um vendido, entre outros xingamentos agressivos. Tentaram me coagir. No meio forense, isso é normal. Em qualquer investigação, invariavelmente, você vai desagradar uma das partes envolvidas. Não tem como ser diferente. Aprendi a me esquivar dessas influências. Desempenho as minhas funções com o máximo de objetividade. Em 2003, ACM voltou ao Senado, mas não tinha, nem de longe, a mesma autoridade e morreu antes de completar o mandato.

Ricardo: No livro “O Brasil na fita”, recém-lançado pela editora Record, você revela os detalhes desses e de muitos outros casos que apurou em 25 anos de carreira. Como essa seleção foi feita?
Molina:
Fui bem eclético. Relacionei os casos de uma maneira que o leitor pudesse conhecer um pouco mais sobre os fatos que marcaram a história do nosso país através da perspectiva do meu trabalho. Além dos exemplos citados acima, menciono outros fatos que despertaram uma enorme comoção entre o público, como o esquema de compra de votos na reeleição do Fernando Henrique, o caso Gil Rugai e o desfecho trágico do sequestro de Eloá pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes Alves. Entretanto, corrupção e sangue não são os únicos temas. Em alguns capítulos, trago tópicos diferentes, como a autenticidade de uma assinatura de Ayrton Senna em um texto, o acidente aéreo envolvendo a banda Mamonas Assassinas e o drama em torno do gol anulado de Obina, no Campeonato Brasileiro de 2009. A intenção é mostrar as várias facetas do trabalho de um perito. 

Ricardo: O subtítulo, de Collor a Dilma, foi pensado em virtude do momento político que vivemos? 
Molina:
Muita gente acreditou que era uma estratégia oportunista, mas foi uma coincidência. Quando comecei esse projeto, em 2011, o subtítulo já era: “De Collor a Dilma, o que vi e ouvi em mais de vinte anos”. Não tinha as referências “do Caso Magri à Lava-Jato”, que foram acrescentadas na fase editorial. Naquela época, a popularidade da Dilma Rousseff estava no auge e a possibilidade dela sofrer um processo de impeachment não existia. O meu objetivo era, apenas, estipular um período no tempo. O livro demorou a sair e tivemos a chance de incluir a escuta da Polícia Federal que ficou conhecida como “Tchau, querida!”, uma conversa que evidenciou as relações políticas entre Dilma e Lula. Sem querer, fechamos um ciclo. Termino o livro dizendo: “O povo voltou às ruas, as caras continuam pintadas e ainda não sabemos que país é esse”. É bem isso mesmo. Ao que parece, tudo se repete. 

Uma boa perícia

“Conheço o Ricardo Molina há quase 20 anos e posso afirmar que continuo me surpreendendo com sua inteligência aguda e criativa, seu raciocínio rápido e a clareza nas explicações. Um dia, o relógio de parede da minha casa apresentou um problema. O ponteiro menor estava no número nove e o ponteiro maior, o dos minutos, girava até chegar nesse ponto, mas depois parava como se enroscasse no outro. Levando manualmente ao número 12, ele começava a funcionar novamente, rodava 45 minutos e emperrava no número 9, ‘enroscado’ no ponteiro menor. Ficava ali, marcando quinze para as nove. Comentei o caso com o Molina, que acabara de chegar para o almoço. Ele virou o relógio de ponta cabeça. O ponteiro dos minutos completou os ¾ do relógio, parando, agora, no número três. Fiquei aguardando uma explicação e ela foi muito mais simples que eu pensava: ‘A pilha está acabando. O ponteiro não tem força para subir os últimos 15 minutos e completar a hora. Ponteiros não enroscam, é só trocar a pilha’. Por trás de toda tecnologia, softwares e equipamentos sofisticados, a boa perícia sempre precisará de um bom cérebro.”  Ricardo Lima, jornalista e coordenador editorial da Editora da Unicamp.

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