Nos bastidores da Saúde

Nos bastidores da Saúde

Eduardo Amaral de Carvalho fala sobre as descobertas e desafios no setor da Saúde em entrevista com a advogada Cláudia Seixas

Em 14 de maio, a Revide acompanhou uma conversa esclarecedora a respeito da saúde. O ingresso nesse mundo tão próximo do dia a dia do cidadão, e ao mesmo tempo tão distante em termos de compreensão acerca dos bastidores e dos meandros que definem sua prática, foi possível graças à entrevista realizada pela advogada Cláudia Seixas com o pediatra e diretor administrativo da UNIMED Ribeirão Preto, Eduardo Amaral de Carvalho.

Cláudia: O senhor é natural de onde?
Eduardo: de Penápolis, estado de São Paulo.

Cláudia: A família o apoiou na escolha pela carreira médica?
Eduardo: Totalmente. Venho de uma família humilde e, mesmo tendo cursado medicina na Universidade Federal Fluminense, foi um ônus financeiro para ela. Tive apoio moral, espiritual e financeiro.

Cláudia: Em algum momento, o senhor pensou em desistir da profissão?
Eduardo: Não, até por esse exemplo de família. Quando pequenino me perguntaram o que eu queria ser e, aos quatro anos, eu respondia: médico. Eu nunca pensei em fazer outra coisa.

Cláudia: O que viu da vida quando trabalhou em locais públicos, sem recursos específicos, no Rio de Janeiro?
Eduardo: Com a dificuldade e o sofrimento da população, passei a ter contato com a primeira imagem do que seria uma gestão de saúde. Até hoje, apesar da evolução na saúde, ainda há um déficit importante na utilização correta das verbas. O Estado do Rio de Janeiro é muito pobre nesse aspecto. Naquela época, brincava-se que, quando se via alguém vestido de branco, mesmo que fosse pipoqueiro, era chamado para trabalhar no hospital. A dificuldade de mão de obra propiciou que muito cedo eu pudesse frequentar os hospitais. Isso foi fundamental à minha formação.

Cláudia: Quando chegou a Ribeirão Preto, onde trabalhou em primeiro lugar?
Eduardo: Cheguei a Ribeirão Preto no final de 1976 e, no início do ano seguinte, passei a substituir médicos efetivos da rede municipal. Naquela época, era permitido que médicos mais antigos que trabalhavam na rede, e que, por alguma razão, não pudessem cumprir integralmente seus plantões, fossem substituídos — o Município tinha uma lista de substitutos. Médicos que trabalhavam em vários plantões, sem nenhum vínculo, eram chamados de “polacos”. Fiz isso por um ano. Também não havia concurso público — a contratação era política. Fui indicado por um médico da rede pública para ser contratado, em 1977, quando ingressei no serviço público.

Cláudia: O senhor chegou a trabalhar como médico emergencialista? Por quanto tempo?
Eduardo: Durante mais de 20 anos, atendendo em pronto-socorro. Ribeirão Preto só tinha, até então, o pronto-socorro da Avenida da Saudade. Onde hoje é o Central, era infantil, da Prefeitura, mas tocado pelo Hospital das Clínicas. Só havia portas abertas de trabalho na clínica médica, embora eu já estivesse na área de pediatria. Já atuei em muitas áreas e tive dificuldade para escolher uma especialidade. Atuei em ginecologia e obstetrícia, ortopedia, urgência, participei das primeiras cirurgias. Tive a chance de trabalhar com Ivo Pitanguy, na Santa Casa do Rio de Janeiro, em atendimento à população carente. Mas um dia, encantei-me com a criança. Humildade sincera você encontra na criança e no pobre verdadeiramente pobre, que é aquele que chega ao ambulatório e fala ‘doutor, tô com uma feridinha aqui na perna, dá pro senhor passar um remedinho para eu poder continuar meu dia?’ Você olha e ele está com uma úlcera gravíssima. Se você passa uma água na perna dele, vai embora feliz.

Cláudia: Diante da possibilidade da manutenção artificial da vida, como é ou deveria ser a relação médico-paciente nos casos de pacientes terminais?
Eduardo: Essa questão implica três procedimentos: eutanásia, distanásia e ortotanásia. A eutanásia é praticar um ato médico, medicamentoso ou não, que paralise a vida naquele momento. Isso é crime e não aceito em hipótese nenhuma. Eu sou espiritualista e tenho muito cuidado na hora de abordar esse assunto com meus pacientes, pelo risco de interpretarem que estou falando de religião. Minha visão espiritualista e minha moral como médico não me permitem pensar em eutanásia. A distanásia poderia ter uma justificativa, mas tem sido um abuso. É forçar a vida através de equipamento e de aparelhos em pessoas que não têm mais condições de viver. É uma forma de agressão ao paciente, de desrespeito no momento em que este, mais do que nunca, deveria ser respeitado: a hora da morte. É obrigar o indivíduo a ficar vivo com tubos e medicamentos; obrigar aquele coração a bater, sendo que ele já não tem mais força. Esse procedimento gera conflito. A bioética sugeriu, então, um foco interessante: a USP, em São Paulo, montou uma casa que mudou os conceitos — recolhe pacientes terminais e incentiva o convívio entre eles e a família. A ortotanásia é legalizada: não se toma nenhuma atitude heroica, mas não deixa o paciente sem o carinho, a dedicação adequada, o alívio da dor, o conforto e a presença da família. A vida do paciente se extingue naturalmente, como se ele estivesse cercado de todos os seus entes queridos. Não é cometido crime e nem desrespeito em relação ao paciente: apenas deixamos que a vida cumpra seu ciclo, que ele cumpra perante Deus a sua missão, confortavelmente, com respeito, ao lado da família. O resultado emocional da ortotanásia para a família, sobretudo, é fabuloso.

Cláudia: Como o senhor encara a Medicina de 20 anos atrás em relação à época atual?
Eduardo: Totalmente evoluída e diferente. De 50 anos para cá, a Medicina já vem se transformando. Ela ficou séculos em latência, mas com o advento das escolas médicas, durante os grandes conflitos sociais, a Medicina teve uma mudança radical. Fala-se muito em guerras, mas no pós-guerra foram adquiridos conhecimentos fantásticos. Através do átomo, houve descobertas fundamentais para a realização de exames médicos e pesquisas. Os avanços tecnológicos instigados pela guerra foram largamente aplicados no campo da medicina. A descoberta das possibilidades do átomo permitiu o desenvolvimento do chip, do ultrassom, da radiologia diferenciada. Com a pesquisa do genoma humano, a Medicina evoluiu totalmente. O médico que não se adaptou, que não acompanhou as mudanças, não pode mais exercer a profissão.

Cláudia: Dizem que para ser médico é preciso ter frieza. O senhor concorda?
Eduardo: Se o sentido de ‘frieza’ diz respeito à falta de sentimento, absolutamente não. Mas não podemos nos envolver muito com a dor e com o sofrimento para que isso não atrapalhe o ato médico. Para ser médico, precisamos, acima de tudo, ser sensíveis e humanos. Às vezes, os médicos choram com seus pacientes, isso acontece com muitos colegas, e já ocorreu comigo. Mas não podemos permitir que a emotividade interfira na conduta ágil em prol do paciente para salvar sua vida em minutos. Eu sou da época em que as ambulâncias de Ribeirão Preto atendiam em domicílio. Muitas vezes, ao chegar às residências, tinha a oportunidade de vivenciar o paciente no seu habitat, via o sofrimento das condições sociais em que ele se encontrava, testemunhava situações dramáticas. Se eu me deixasse envolver pela situação, não teria o discernimento para agir com a rapidez necessária. O médico não pode ser frio, tem que ser sensível, colocar-se do outro lado e sentir a dor do paciente para atuar, mas precisa dominar as emoções para que isso não prejudique seu atendimento.

Cláudia: Diariamente, temos notícias do descaso na saúde pública nacional. O senhor, com sua experiência, pode enumerar algumas ações do poder público no sentido de melhorias?
Eduardo: Quando se fala em descaso com a saúde pública, logo pensamos em corrupção. Mas a medicina pública do Brasil é boa, nosso SUS é o maior plano de saúde do mundo. Entretanto, com um plano de saúde de âmbito nacional, os problemas também são gerais. A municipalização da saúde foi um grande avanço para a área. Houve momentos em que a verba e a aplicação da normatização da saúde estavam nas mãos do governo federal. O INAMPS, o SUS, os sistemas previdenciário e de saúde do Brasil correspondem à segunda maior arrecadação da União. A primeira é a própria União com seus impostos. Mas era impossível enxergar o que estava acontecendo na ponta — quem sabe do problema é o médico, no dia a dia. A municipalização da saúde, o Plano Conasp é apaixonante. Mas com sua aplicação vieram os problemas: na saúde municipalizada, o governo federal repassa o dinheiro para o estado, que divide a verba com os municípios. Este é obrigado a investir um percentual na saúde, mas a normatização é do governo estadual. À medida que o município passar a ter maior autonomia e a verba for direcionada de maneira contundente, fiscalizada e observada, o problema pode se resolver. Quando Adib Jatene assumiu o Ministério da Saúde, foi implantado o imposto sobre o cheque, em que o dinheiro arrecadado seria destinado à Saúde, o que teria resolvido o problema em âmbito nacional. Pouco tempo depois, ele foi à televisão e disse ‘vou embora porque o dinheiro que era destinado para essa finalidade está sendo usado para outras’. Apesar disso, a municipalização trouxe aspectos muito positivos.

Cláudia: Como concilia a Medicina e a diretoria administrativa da Unimed Ribeirão?
Eduardo: É duro (risos). Todo dirigente que começa a exercer uma profissão dessas, sente um impacto na vida pessoal, no dia a dia. Tive um problema menor porque precisei abdicar um pouco do consultório particular. Minha mãe ficou doente, sofreu 14 anos com Alzheimer, meu irmão era diretor de escola e tive que segurar toda a estrutura de família. Muitas vezes, tinha que atrasar ou sair no meio de uma consulta para socorrê-la, e percebi que isso estava afetando a clínica. Então comecei a mudar os meus planos. Já trabalhava em Cravinhos, onde fui agraciado com o título de cidadão, de uma maneira que me prendeu à cidade até hoje, porque não aconteceu por indicação política, foi um abaixo-assinado do povo pedindo que eu ganhasse esse título, o que me motivou muito e me manteve em Cravinhos até hoje, por gratidão: foram as portas que se abriram quando eu mais precisei. Cheguei a Ribeirão Preto numa época em que os hospitais eram completamente fechados. Quando entrei para a Unimed, em 1981, como médico cooperado, comecei a me encantar com o cooperativismo do trabalho médico: é uma saída interessante não só para a subsistência do médico, mas para o atendimento da população.


Cláudia: Em Ribeirão Preto, as ações empreendidas pelo poder público no sentido de melhorar os atendimentos estão dando certo?
Eduardo: Ribeirão Preto é uma cidade diferenciada porque o atendimento da saúde pública é reconhecidamente bom. Ele tem problemas, mas os encaro de uma maneira diferente. Trabalhei com o Stênio José Correia Miranda, secretário municipal da Saúde, que tem estrutura profissional e competência para tocar o setor. Já tivemos secretários da Saúde, em outras cidades, que não tinham formação em saúde. Não precisa ser médico para realizar essa função, mas precisa ter uma equipe de médicos em volta, porque há situações em que a competência profissional é necessária. A partir do Dr. Raya, Ribeirão Preto teve um desenvolvimento muito grande na área da saúde; além dos prontos-socorros foram inauguradas duas unidades de saúde primárias, na Vila Virgínia e na Vila Tibério. O Raya modificou toda a estrutura do município. O que ocorre é que a formação médica foi deteriorada. À medida que houve a criação indevida de escolas médicas, profissionais se formaram sem o treinamento necessário para desenvolver a profissão — a qualidade de ensino afetou a qualidade dos médicos. Em contrapartida, a estrutura de saúde precisa ser totalmente desvinculada da política partidária: a saúde não pode aceitar ingerência dos partidos. Quando comecei minha carreira, isso acontecia em Ribeirão Preto, mas, com o tempo, a sociedade passou a não aceitar mais isso. Nas cidades pequenas, a contratação de um médico era motivo eleitoral.

Cláudia: Hoje, Ribeirão Preto tem uma política efetiva de saúde?
Eduardo: Não. Tem uma política de saúde que precisa ser melhorada, aprofundada. Existem condições para isso e há a necessidade de montar um projeto de saúde totalmente alheio à política que não seja a de saúde.

Cláudia: O senhor acredita que as pesquisas relativas às células-tronco terão avanço significativo na cura de doenças?
Eduardo: Sem dúvida, e isso nos remete à questão da eutanásia. A célula-tronco é o caminho, é o sonho de futuro. Ela já tem dado resultado em vários ensaios nos campos da neurologia, em pacientes que não estavam mais conseguindo caminhar devido a deficiências importantes em sua condição motora e que estão sendo recuperados com a aplicação das células-tronco. O desenvolvimento dessa área não é muito rápido, mas é sério e contínuo. Não tenho dúvida de que essa descoberta afetou a eutanásia porque a célula-tronco propicia a cura e demonstra que ela é possível em pacientes que, até então, não tinham chance de sobrevivência. A ortotanásia permite que haja uma qualidade de vida, com a esperança de que novos avanços médicos ocorram. Esse é o caminho que vai revolucionar a Medicina a cada passo.

Cláudia: Que atividades o fazem esquecer os problemas diários?
Eduardo: Gosto muito de música. Ganhei da Wanda, minha esposa, uma escaleta — eu gosto de tirar música de ouvido. A Wanda tem um lado musical interessante, assim como minha filha Mônica. Fui criado ouvindo música, mas não tenho o dom de tocar. Sou muito caseiro, gosto de me sentar ao computador e gravar músicas, inventar meus CDs. Costumo brincar dizendo que criei a ‘Amaral produções’. Montei um CD do Roberto Carlos que ele não tem — peguei todas as músicas de dor de cotovelo dele e gravei em um só. Isso aumentou a paixão em casa. Gosto muito de ler, mas não tenho lido muitos romances, tenho pesquisado muito sobre a área médica e estudado pelo computador.

Cláudia: Defina em uma frase dona Wanda e Mônica.
Eduardo: Razão de ser da minha vida.

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