Nos bastidores da Stock Car
Por trás do espetáculo, muito suor e trabalho pesado

No dia 11 de agosto, o ronco forte dos motores anunciava: a Stock Car estava de volta a Ribeirão Preto. Realizada pela quarta vez na cidade, a corrida reuniu cerca de 40 mil pessoas no novo circuito, localizado no Distrito Empresarial. Quem estava por lá teve a oportunidade de conferir a vitória de Thiago Camilo, da Ipiranga-RCM, que largou na quinta posição. O piloto fez 33 voltas na pista de 2,5 km, em 41 minutos, 18 segundos e 294 milésimos, média de 110,16 km/h. Completaram o pódio Max Wilson, da Eurofarma RC, e Valdeno Brito, da Shell Racing. O show na pista foi bonito e encantou os apaixonados pela velocidade. Porém, a maioria deles nem imagina o trabalho árduo desempenhado nos bastidores para garantir a realização da prova.
Em semana de disputa, os dias são cuidadosamente cronometrados. As equipes chegam à cidade-sede na quarta-feira para erguer toda a infraestrutura dos boxes. Na sexta-feira, acontecem os treinos de reconhecimento de pista e são executados os ajustes necessários nos veículos. No sábado, mais treinos, inclusive o que vale a classificação para o grid de largada, e novos aprimoramentos nas máquinas. O trabalho começa por volta das 7h e avança até a madrugada. No domingo, a movimentação começa às 8h e, assim que a premiação é concluída, inicia-se a desmontagem.
Muitos homens sonham em conhecer melhor o universo do automobilismo profissional. Quem já faz parte dele garante que nem tudo é glamour. “As pessoas não enxergam o trabalho pesado. É uma vida que exige dedicação. São 12 etapas durante o ano, com um intervalo de duas ou três semanas de uma prova para a outra. Estamos sempre na oficina ou nos autódromos. Tem muita coisa a fazer. Cada pista tem suas particularidades e é nossa tarefa adequar os veículos para que eles respondam da melhor maneira possível àquelas condições específicas. Conseguimos modificá-los por inteiro: motor, asa, altura, entre outros itens, em busca da melhor performance. Há, ainda, os contratempos. Às vezes, os pilotos batem os carros no primeiro treino. Temos que correr para consertá-los e deixá-los em condições para voltar à pista o mais rápido possível. É uma rotina difícil, mas prazerosa. Na verdade, é um vício. O envolvimento se torna tão grande que não tem jeito de largar”, comenta o coordenador técnico Francisco Carvalho, que está na Red Bull Racing desde 2005.
A escuderia, que é de Petrópolis, no Rio de Janeiro, possui 15 profissionais que atuam nas provas. O mecânico Thiago Maller está nessa lista. “Queremos ganhar. Se não tiver entrosamento, fica impossível atingir essa meta. Dependemos uns dos outros e tudo envolve a sincronia. Por isso, somos amigos de verdade. Temos também muitos parentes atuando na mesma equipe. O amor por esse mundo está no sangue. Assim, é comum ver pai e filho, irmãos, sobrinho e tio lado a lado nos boxes. Quando eu nasci, meu irmão já estava na área. Portanto, foi muito natural que eu fizesse a mesma escolha”, recorda Thiago.
Desde 2009, Andreas Mattheis é o proprietário da escuderia e chefe da equipe, que tem como pilotos, atualmente, Daniel Serra e Cacá Bueno. Segundo ele, a pessoa já nasce predisposta a gostar desse esporte. “Está no DNA. A paixão é um ingrediente imprescindível. Além disso, é preciso organização, estratégia, atenção aos detalhes e habilidade para montar um time com esse mesmo sentimento”, resume o Andreas. Aos 58 anos, ele diz que nem pensa em parar. Todos estavam animados, aguardando resultados positivos para essa etapa. Cacá ficou em quarto, mas lidera o ranking da competição. Daniel ocupou apenas a 25º colocação.
Entre os 33 pilotos inscritos, um despertava maior comoção entre os torcedores. Marcos Gomes, da Carlos Alves Competições, nasceu e foi criado em Ribeirão Preto. Com uma carreira consolidada, que começou aos 13 anos, no kart, Marcos despontou na Stock Car como o melhor estreante em 2007 e, desde então, luta pelo seu primeiro título. Para ele, que ocupou o lugar mais alto do pódio na etapa de Cascavel, no dia 16 de junho deste ano, vencer aqui teria um gosto especial. Antes de entrar no carro, estava concentrado, ansioso e apreensivo. “Essa é a hora mais complicada. Quem fala que não fica tenso está mentindo. Por mais que a gente já tenha passado por essa situação várias vezes, a adrenalina toma conta. O coração dispara”, revela. O piloto largou na 11ª posição. Demonstrando muita vontade de vencer, fez boas ultrapassagens, ficou parte da corrida em sexto lugar, mas não completou a prova, terminando em 23º. Mesmo assim, Marcos assegura que valeu a pena. “Tem um longo caminho que nos traz até aqui. Preparação física, eventos com patrocinadores, estudos, estratégias e viagens. Não é só entrar no carro e pilotar. Temos dias de vitórias, outros de derrotas. O importante é que trabalho com o que gosto e consigo viver disso. É uma realização”, conclui.
Os espectadores
Uma hora antes da prova, Carlos Tadeu Pagano (na foto)passeava tranquilamente entre os boxes. Fã do automobilismo, ele esteve nas quatro provas realizadas em Ribeirão Preto. “Esse interesse vem de família. Meus pais e meus tios pilotavam kart, então, eu cresci nesse meio. Adoro ver a preparação das equipes nos bastidores antes de acompanhar a aventura na pista”, explica. O empresário estava com o sobrinho, José Victor Cassilato (na foto ao lado), de São Paulo. “É a primeira vez que venho na Stock Car. Já tinha visto algumas vezes pela televisão, mas por acaso. Não acordava cedo pra assistir. Como era um mundo que eu não conhecia, tinha uma certa curiosidade de ver como tudo funcionava. Por isso, quando recebi o convite, aceitei prontamente. Foi uma experiência interessante. Não tinha ideia que era assim. As escuderias são extremamente profissionais. Quem sabe, agora que eu criei referências, não me animo para acompanhar o campeonato”, indaga o jovem.
Essa é a segunda vez que o gerente de mercado, José Luis Clemente Marques, confere a etapa de Ribeirão Preto. “Sei um pouco de tudo: da história da Stock Car, da parte mecânica dos carros, dos pilotos. Gosto de visitar os boxes para sentir como a equipe está antes da corrida. Geralmente, a adrenalina impera no ar. É um esporte fascinante, pela tecnologia, pelo risco e por desafiar os limites do ser humano. Ouvir o ronco do motor traz uma emoção indescritível”, declara José Luis. Antes da prova, o gerente declarou a sua torcida para a Ipiranga, escuderia do campeão da etapa, Thiago Camilo. O outro piloto da equipe, Galid Osman, ficou em 16º. 
Personagem de destaque
A expectativa de correr em Ribeirão Preto era enorme. Apesar de ter nascido em São Paulo, foi nessa cidade do interior que Helio Castroneves cresceu e deu as primeiras aceleradas. Depois de algumas tentativas frustradas, por conta da incompatibilidade de agendas, o tricampeão das 500 Milhas de Indianápolis conseguiu confirmar sua presença na sétima etapa da Stock Car 2013. Infelizmente, logo no primeiro treino, a alegria se transformou em preocupação, depois de uma batida no muro de proteção ocasionada por problemas nos freios. Os exames não constataram nenhuma lesão, mas apontaram contusões e fortes dores no corpo do piloto. Por isso, os médicos orientaram Castroneves a não competir. Mesmo barrado na pista, o atual líder da Fórmula Indy fez parte da festa. Mostrou ânimo e simpatia, atendeu aos fãs e comentou a prova. “Foi um espetáculo maravilhoso. Fiquei feliz por estar aqui em Ribeirão Preto para ver isso tudo acontecer. Espero voltar no ano que vem, mas para correr, não para ficar apenas olhando”, ressalta o piloto. 
O circuito
Pela primeira vez, o circuito foi montado no Distrito Empresarial, na Zona Norte, região mais afastada do centro da cidade. A troca foi motivada pelo grande desenvolvimento urbano constatado no antigo local de prova, na Zona Sul, que diminuiu os espaços para a montagem da pista. A extensão do trajeto percorrido pelos pilotos é parecida – 2.395 m no antigo e 2.298m no atual, mais a área dos boxes, totalizando 2,5 Km. A principal diferença fica por conta da largura da pista, que é maior. Esse fator possibilita mais pontos de ultrapassagem, algo raro na maioria dos circuitos de rua. Com retas curtas, algumas subidas e descidas, a pista desconhecida gerou ansiedade entre os participantes, que tiveram um dia a mais para treinar e se familiarizar com o traçado. O novo formato também foi bom para os espectadores, que puderam conferir a corrida mais de perto.