Nova chance

Nova chance

Forçados a buscar por um recomeço, muitos refugiados encontram morada em um país totalmente distinto. Em Ribeirão Preto, muitas famílias deixam sonhos para trás à procura de melhores condições de vida

Faisar Al Atrache é um garoto de dez anos que deixou a Síria com a família em busca de melhores condições de vida no Brasil. “Queria uma cidade limpa, sem terroristas, com pessoas felizes, crianças brincando nas ruas, bastante mato, vista bonita, muitas árvores, fazendas, um bom lugar para criar bons amigos”, afirma. Assim como ele e o irmão Karim, muitas crianças almejam construir um futuro melhor longe de qualquer violência. Com tamanha riqueza de detalhes e muita perspicácia, o menino, que se escondia atrás do sofá para fugir dos barulhos da guerra, narra, durante quase toda a conversa, o sofrimento vivido pela família, que conviveu por um período com aviões lançando mísseis e quebrando os vidros da janela da residência. 
Karim, ao lado do irmão Faisar, sonham em viver em um lugar sem guerras e ao lado da família
Milhões de mulheres, crianças e homens são forçados a deixar suas casas, fugindo de conflitos, violência e perseguição. Segundo informações da ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, mais da metade dos expatriados do mundo são crianças, em grande parte, desacompanhadas. A Síria foi o país que mais gerou refugiados no mundo: cerca de 824.400 indivíduos fugiram de conflitos que assolam o território. Ainda de acordo com dados da agência, atualmente, tem os maiores níveis de deslocamentos já contabilizados pelo órgão. Mais de 70,8 milhões de pessoas foram forçadas a deixar o local de origem em busca de condições mais favoráveis. Desse total, 25,9 milhões são de refugiados. Um dado mais alarmante: a cada minuto, 25 pessoas são forçadas a abandonar o local onde vivem para fugir de conflitos e perseguições. 

Esse foi o motivo pelo qual a família de Faisar decidiu escolher Ribeirão Preto como destino. Vindos de Al-Sweida, sul da Síria, eles chegaram à cidade em 2015 para recomeçar a vida. No Sul da cidade, uma família os acolheu, oferecendo moradia gratuita, conseguindo trabalho e bolsas de estudo para os dois filhos. Rowaina Al Atrache descreve que, no início, tudo parecia mais fácil, mas os anos foram passando e, com eles, as dificuldades, que insistem em permanecer. “A situação não está fácil, é difícil para todos, imagina para nós, que somos estrangeiros. Os filhos estão crescendo e percebemos que essas dificuldades estão aumentando”, destaca a técnica de laboratório, que sequer consegue atuar como biomédica no Brasil, em virtude de seu diploma ainda não estar revalidado. 
Rowaina e a família fazem comida árabe para complementar a renda famíliar
O marido, que é contador, labora como auxiliar em um escritório, pois passa pela mesma situação que a esposa. Mesmo tendo uma advogada à frente desses casos, há três anos, eles esperam por uma resposta positiva. Rowaina, que nasceu no Brasil e aos dois anos foi para Síria, sente muita falta da família, que continua presenciando a guerra. No ano passado, terroristas atacaram a cidade da família e mataram, em cerca de três horas, mais de 200 pessoas. 

Quando questionados sobre o que esperam para o futuro, são enfáticos ao dizer que não sabem. “Somos muito estressados, não falamos bem a língua. Moramos 10 meses em São Paulo, aqui é bem mais tranquilo, fomos bem acolhidos, mas precisamos de mais. Agora, já estamos procurando um segundo emprego. Se for na área, melhor, caso não, aceito qualquer trabalho”, diz a técnica de laboratório. Rowaina, a sogra, que vive também com a família e o esposo Aymen Al Atrache tentam adquirir uma renda extra, fazendo comida árabe e vendendo, por exemplo, no Parque Municipal Dr. Luis Carlos Raya, mas há quem prefira encomendar diretamente com o casal. Os pratos são variados, entre eles, esfirras de carne, quibe e coalhada, tão tradicionais na culinária árabe.

Em meio ao caos
“Crise de comida, quando consegue é pouca e cara. Se comprava comida, não comprava o que vestir. Minha menina sempre vivia enferma, melhorou aqui, porque se alimenta melhor”, assim descreve a venezuelana desempregada Yolima Del Valle Zacarias Martinez, de 25 anos. Recém-chegada em Ribeirão Preto, instalada na casa de parentes, ela declara a vontade de regressar e melhorar as condições de vida da família. “É triste ver que aqui você sai e vê muitas coisas para comprar. Lá não tem nada. Estou feliz porque estou comendo, mas triste porque a família ficou”, reforça. 
Cindy já sofreu discriminação em um supermercado por ser venezuelana
Foi por meio da igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias que Yolima e sua família puderam recomeçar. A cunhada da jovem, Cindy Delcarmen Cedeño Morales, de 20 anos, que já foi discriminada em um supermercado de Ribeirão Preto devido a sua nacionalidade, narra que estava acostumada com o que o governo fazia, mas chegou um momento de escolher entre comida, fralda para filha e leite. Mesmo o marido com mais de um emprego e ela trabalhando como pedagoga, ainda que não graduada, não era suficiente para sobreviver. “Quando chegamos aqui, comemos até arroz e manteiga, mas é melhor isso do que comer só feijão na Venezuela”, reforça a jovem, que trabalha na função de porteira e tem o desejo de juntar dinheiro para mandar à família. 
“Se comprava comida, não comprava o que vestir”, afirma Yolima
Carolina Pedroso, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Unaerp, que estuda o país governado por Nicolás Maduro, diz que há projeções de economistas apontando que a Venezuela irá se recuperar daqui a pelo menos 30 anos.

Desvendando a crise
Um quebra-cabeça chamado Venezuela. Difícil é juntar essas peças que foram desmontadas há anos e parece insistir em continuar como um enigma. Contudo, por meio de uma especialista referência em crise na Venezuela, é possível entender as dimensões desse caos que parece não ter fim. Coordenadora do curso de Relações Internacionais da Unaerp, Carolina Pedroso estuda o país governado por Nicolás Maduro. Segundo ela, os números começam a sinalizar a crise a partir de 2013, mas as origens dela remontam desde o começo do século XX. Foram anos arrastando problemas e, agora, a população está pagando um preço alto. “Não há mais investimento no setor petroleiro, o Estado quebrou e o país não tem capacidade de alimentar sua própria população. A Venezuela sofre uma série de sanções internacionais, os Estados Unidos deixam de comprar petróleo, é todo um cerco, e nenhum governo na história foi capaz de resolver esses problemas”, argumenta Carolina. 
“O Estado quebrou e o país não tem capacidade de alimentar sua própria população”, destaca Carolina
Comida por meio de contrabando, comércio ilegal que funciona nas fronteiras, grande fluxo de drogas e aumento da criminalidade são consequências graves à população. “É muito chocante sair às ruas e ter que carregar muito dinheiro. Lembro-me de um almoço com um grupo de seis professores, em um restaurante comum, e pagamos exatamente o valor do salário mínimo, à época”, lembra a estudiosa.

Segundo Carolina, a imigração acontece de forma voluntária, já o refugiado não tem escolha. A Agência da ONU para Refugiados considera que o termo refugiado se refere a pessoas que se encontram fora de seu país por perseguições, motivos de raça, religião, opinião política ou participação em grupos sociais e que não possa (ou não queira) voltar para casa. Há, também, definições mais amplas que consideram esses grupos como pessoas que deixaram seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos. 
Carolina explica que os haitianos não vêm porque são perseguidos politicamente, ou por raça, mas porque as condições de vida são tão deterioradas que não há como sobreviver. A professora explica que no caso do Haiti, o Estado nunca funcionou, e diferente da Venezuela, estão mais acostumados a situações mais degradantes. Possuem menos rede de imigração. Sírios e libaneses possuem comunidades mais tradicionais, espalhadas por diversos locais, o que possibilita melhor a adaptação. “Essa crise nos faz refletir e valorizar muito o que temos no Brasil. Preocupa-me, também, o estado de saúde mental dessas pessoas que passaram por muitos traumas. Isso me assusta e é um problema social com que devemos tomar todo cuidado”, ressalta. 

Olhar para essas famílias é enxergar que, em meio a tantas dificuldades, algo prevalece: a descoberta pelo novo e o desejo incessante de retornar e encontrar a família. No caso do haitiano Onel Pierre, a mãe faleceu enquanto já estava no Brasil e ele não teve chance de estar no Haiti para participar do funeral. Muitos deixam sonhos para trás e embarcam nessa aventura, às vezes, sem volta. Porém, para o sírio Faisar, de apenas dez anos, é melhor não pensar, pelo menos por enquanto, nesse retorno. “Eu sei que a vida é difícil, mas temos que voltar para nossos deveres”, destaca. 


Em busca de qualificação
Segundo a professora Paula Martucci, profissional de recursos humanos e que desenvolve trabalhos com carreira, liderança e assertividade, um caminho a ser traçado por esses refugiados, quando já estão bem instalados e dominam melhor a língua, é buscar por qualificação profissional. A orientação é também de que seja elaborado um bom currículo, que represente exatamente a pessoa, ainda que ela não tenha tantas experiências profissionais. “É preciso procurar profissionais e empresas que ajudam a se recolocar no mercado de trabalho. É preciso se engajar em cursos técnicos e há muitos gratuitos na cidade. Se possuem acesso à internet, penso que já têm o mundo nas mãos”, observa a especialista. Ainda que seja um currículo simples, é preciso seguir esses passos e uma dica importante dada pela profissional é tentar se inserir em grupos de vagas de emprego que podem ser encontrados no Facebook.


Missão nobre
O líder religioso Mateus Vilela, juntamente com outros colaboradores, é quem acolhe, em grande parte, venezuelanos que querem chegar à cidade. O trabalho, executado em várias partes do mundo, é conhecido por levar esperança às famílias que estão desoladas, seja pela guerra, por catástrofes naturais ou outros problemas. A cada primeiro domingo do mês, alguns membros da igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, presente em 178 países, fazem um jejum, a oferta, como costumam dizer. O que é arrecadado nessa missão de ficar dias sem comer vai para pessoas que necessitam de acolhimento em todo mundo. No caso da família dos venezuelanos citados na reportagem, foram oferecidos casa, móveis vindos de doação, alimentação, remédios e demais necessidades foram supridas. “Geralmente, fazemos um plano de autossuficiência, de três meses. Dentro desse tempo, a ideia é encaixar essas pessoas em trabalhos e cursos. Boa parte desses refugiados tem conseguido se manter e enviar dinheiro à família”, reforça o religioso. Na fronteira, há um casal de missionários que acolhe os venezuelanos e depois envia às famílias para os estados. Em Ribeirão Preto, há 14 igrejas. Cerca de 70 famílias estão espalhadas nessas unidades e recebendo assistência. “O problema do ser humano é o egoísmo. As pessoas se esquecem de que fomos criados seres individuais para viver em coletivo. Imagina como o mundo seria diferente se cada um fizesse um pouco”, pontua Mateus.


Refúgio de paz
Ela certamente é a mãe a que muitos haitianos desejam ter. A aposentada Marisa Honório decidiu que, enquanto tiver saúde, irá se empenhar a dar assistência a haitianos que baterem à sua porta. Ela se encarrega de organizar toda a documentação, leva à Polícia Federal, dá andamento ao CPF e carteira de trabalho, além de ensinar o português para que possam conseguir um trabalho mais rápido. “Eu procuro me colocar no lugar do outro, sempre soube do sufoco que passam na cidade”, descreve Marisa. Assim, os refugiados se sentem em casa e começam a fazer parte de uma família, que, talvez, nunca tenham tido até então. 

Onel Pierre, a esposa Ferna Saloman e o primo Telemaque Almandeau vivem de aluguel e sequer possuem televisão em casa. Segundo Marisa, a grande dificuldade que enfrentam, além da língua e do preconceito racial é não terem o direito de fazer compras parceladas, o que os obriga a juntar dinheiro por meses, caso precisem comprar um móvel, por exemplo. “Eu vim para cá porque lá falta serviço e o presidente rouba muito. Só não passava fome porque meu pai trabalhava demais”, destaca Onel, que trabalha pesado com hidrojato, limpando caixas de açúcar e álcool, serviço que exige bastante força braçal. Ele trabalha quase de segunda a segunda, em alguns casos, viajando pelo Brasil. “Viemos para trabalhar, então, não há trabalho difícil”, lembra o haitiano, que quando concedeu entrevista, disse que a falta de atividades no trabalho era motivo para estar de folga. 

O primo, que chegou à cidade há três meses, perdeu parte do dedo em uma máquina de cortar blocos e deve ficar afastado dos afazeres por pelo menos 15 dias. “Cortei o dedo e é difícil, agora, me acostumar no trabalho. Queria mesmo era aprender a trabalhar com computador”, comenta o jovem. Ainda que o sonho esteja distante, Marisa deseja construir uma ONG com serviços essenciais a essas pessoas, inclusive, com área jurídica, para que não sofram racismo no trabalho e demais preconceitos. “Eles têm sorte de me terem aqui, pois sempre corro para resolver tudo para eles. Muitos não querem ajudar, mas é preciso que tenhamos um tratamento mais humanitário”, conclui a aposentada.

Texto: Bruna Romão || Fotos: Ibraim Leão, Júlio Sian e Luan Porto

Compartilhar: