Nova geração de talentos
Grupo de Ribeirão Preto demonstra e habilidade no esporte
Quem vê um atleta no auge da carreira, participando de competições de grande relevância e conquistando resultados impressionantes, nem imagina a longa trajetória percorrida até chegar àquele momento de glória. Independente da modalidade, para obter uma performance de alto nível e sentir o sabor da vitória, é preciso batalhar. Geralmente, os treinamentos ocupam boa parte do dia e são extremamente rigorosos, tanto na parte física quanto no quesito estratégia. As técnicas e os movimentos são repetidos inúmeras vezes, em busca da perfeição em cada mínimo detalhe. Disciplina, concentração, esforço, determinação, hábitos saudáveis e algumas privações também fazem parte, inevitavelmente, da rotina de um campeão..jpg)
Conciliar tudo isso com maestria não é uma tarefa fácil, nem mesmo para os mais experientes. Porém, em Ribeirão Preto, um grupo de jovens talentos tem mostrado habilidade de sobra para despontar no mundo dos esportes e ainda dividir as atenções entre os estudos, a família e os amigos. É o caso de Nayara Lahr Barbanera, que pratica o Concurso Completo de Equitação (CCE), uma modalidade olímpica do hipismo que funciona como um triatlo. Disputada em dois ou três dias, é composta de três provas: Adestramento, salto clássico e cross country. Após o encerramento de todas as etapas, ganha o conjunto (cavaleiro e cavalo) que menos perder pontos. Com apenas 13 anos e competindo há pouco mais de um, ela já coleciona títulos importantes. Depois de uma temporada brilhante, venceu o Grande Prêmio de CCE, realizado em Barretos, e, com isso, sagrou-se campeã brasileira de CCE 2013 na categoria novatos, vice-campeã de CCE 2013 pela Associação Brasileira de Hipismo Rural (ABHIR) e foi eleita a Amazona Revelação de 2013.
O parceiro de Nayara nessas conquistas foi M’amulet, da raça holandesa KWPN. “Ele é meu primeiro cavalo. Esteve comigo em todas as competições e me proporcionou momentos de alegria. Nossa relação é de cumplicidade e de amizade, dentro e fora das pistas”, revela a adolescente, que se diz apaixonada por esses animais. “Em 2008, visitei uma hípica em Santos, cidade em que eu vivia com a minha família à época, e foi lá que descobri essa afinidade. Queria estar perto dos cavalos e o CCE me permitia isso. Apesar de grandes e fortes, esses animais podem ser muito dóceis e amáveis. Parece que eles têm o dom de nos compreender”, relata Nayara. No final do ano, a atleta recebeu de presente dos pais uma égua da raça Brasileiro de Hipismo (BH). Land Uleika está em fase de adaptação para competir ao lado de Nayara nos próximos campeonatos.
Mesmo com tanta responsabilidade, a menina tira de letra a rotina apertada. “É relativamente fácil, pois gosto do que faço. Vou à escola de manhã. À tarde, estudo mais um pouco em casa e vou para o Centro Hípico Guega, onde me divirto com os meus colegas até a hora do treino. Faço as aulas, sempre assessorada pelos meus instrutores José Augusto e Guega, cuido dos cavalos e, ao final do dia, retorno para casa. Reservo a noite para descanso, games e TV, entre outras atividades. Aos finais de semana, saio com minha família e amigos para passear. Está tudo bem estruturado”, descreve Nayara, que sonha em representar o Brasil em competições oficiais e pretende graduar-se em Veterinária. “Para continuar cuidando dos cavalos”, justifica.
Leonardo Akel Daher, de 15 anos, é outro esportista que dá seus primeiros passos rumo à profissionalização. A modalidade escolhida surgiu de maneira inesperada. “Até então, gostava de basquete. Fui convidado para fazer uma aula experimental para conhecer o squash e logo me identifiquei. É uma atividade bem dinâmica, que trabalha todas as partes do corpo de forma intensa, e, consequentemente, queima muitas calorias”, descreve. O exercício, que começou como um passatempo, acabou se transformando em um assunto sério para o estudante do 2º ano do Ensino Médio. “Descobri que esse esporte poderia me ajudar a ser aceito em uma universidade americana. Isso foi um estímulo e tanto para que eu decidisse me dedicar com mais afinco”, comenta o atleta. O desejo dele é se formar em uma instituição renomada internacionalmente, na área de exatas, mas ainda não conseguiu definir um curso específico.
Com tanto entusiasmo, a raquete só tem folga no domingo. Apesar de treinar, de fato, quatro vezes por semana, Leonardo aproveita os outros dias para jogar e aprimorar o desempenho. “O mais fantástico do squash é que ele não requer nenhum aspecto físico para que o atleta obtenha sucesso. É o esporte que acaba se adaptando ao estilo do praticante. Aos poucos, com força de vontade e perseverança, os resultados vão aparecendo. Fico satisfeito em ver a minha evolução”, comemora. Por enquanto o jovem já esteve em quatro campeonatos, cada um disputado em uma cidade diferente. Foi campeão em duas oportunidades, em Ribeirão Preto e em Sumaré. Em breve, Leonardo vai entrar em quadra para novas competições, que vão trazer mais maturidade e enriquecer o currículo. A ideia de Leonardo é continuar exatamente nessa trajetória que traçou, combinando a vida pessoal e o esporte na medida certa.
O judô também ganhou destaque nos últimos anos. Gabriel Penha Queiroz Pinto, de 19 anos, integrante da equipe do Centro Universitário Barão de Mauá, é um dos responsáveis por colocar a arte marcial em evidência na cidade. Ele começou a carreira aos seis anos e, desde então, coleciona prêmios. Entre eles, foi vice-campeão paulista, vice-campeão na Copa São Paulo e terceiro colocado na Copa Revelação em 2011. No ano passado, conquistou o primeiro lugar no InterUnesp, na categoria acima de 75 kg. Com destreza e habilidade para aplicar golpes precisos, o atleta treinou com a Seleção Brasileira de Judô. “Foi uma honra ter uma preparação assim, com pessoas diferentes e que são referência no esporte. Aprendi muito. Além disso, encontrei alguns dos meus próximos adversários. Estudá-los de perto faz toda a diferença para que eu possa melhorar o meu rendimento e entrar nessa temporada com um ritmo bem forte”, afirma Gabriel.
O poder de concentração lapidado no judô trouxe incontáveis benefícios. “Esse recurso ajudou demais na hora do vestibular, por exemplo”, confessa. Atualmente, ele cursa o segundo ano de Agronomia na Unesp de Jaboticabal. “Quando fui aprovado, tive que mudar um pouco os meus costumes, pois o curso é em outra cidade e em período integral. Todo momento que tenho livre faço questão de ocupar com o treinamento: seja na academia, no tatame ou correndo pelas ruas para ganhar condicionamento físico. Para manter o peso, tenho uma dieta especial, que sigo durante todo o ano. É difícil administrar tudo, mas quando a pessoa realmente quer, ela consegue”, opina. Cheio de expectativas, Gabriel faz planos para o futuro. Se tudo der certo, a faixa marrom logo será substituída pela preta e, mais uma vez, ele vai subir no degrau mais alto do pódio, trazendo orgulho para o município, para a equipe, para o sensei Rogério Quintela e para os pais Rogério Queiroz Pinto e Jordana Penha, os maiores incentivadores.
Aliás, o suporte da família é essencial para consolidar a carreira desses jovens talentos. Algumas vezes, os próprios pais servem de inspiração para que os filhos sigam o caminho do esporte. Foi o que aconteceu com Michel Velludo. Na infância, ficava observando o pai, Renato, mais conhecido como Tato, arrasar nas pistas, desafiando os limites da velocidade em cima de uma moto. Campeão paulista em duas categorias, campeão brasileiro e vice-campeão brasileiro, recebeu um chamado da Honda Brasil para participar do Campeonato Mundial, na etapa do Rio de Janeiro, em 1997. Voltou à competição em 1999 e em 2000. “Não tenho como negar que me espelhei nele. De início, era tudo uma brincadeira. Dirigia uma minimoto pela chácara dos meus avós. Aos poucos, fui me animando ao constatar que as pessoas enxergavam um grande potencial em mim. Conforme fui crescendo, as possibilidades surgiram e eu aproveitei. Em 2003, com oito anos, já estava competindo”, lembra o garoto.
A lista de vitórias é extensa. Porém, a mais emblemática foi a convocação para um teste na Espanha. Com os índices obtidos, passou para a fase final e ficou entre os 50 melhores do mundo. Hoje, com 19 anos, Michel integra a equipe Tato Racing e disputa provas de Motovelocidade na categoria GP 1000 Light. Em Ribeirão Preto, cuida do físico na Acahdre, onde realiza uma série de exercícios especialmente desenvolvida para ele. “É um treino funcional para pilotos, trabalhando o corpo e o equilíbrio. Tem, ainda, a parte aeróbica para aguentar o cansaço durante as provas”, salienta Michel. A parte prática, com a moto, só acontece uma vez por mês, já que não há nenhum autódromo na região. Mesmo passando por um período agitado no âmbito particular, porque está prestando vestibular para Engenharia Mecânica, ele está otimista com a classificação na temporada 2014.
Tato comemora o sucesso do filho. “Nossa história é bem semelhante. Assim como o Michel, comecei muito cedo e tive o privilégio de contar com a presença constante do meu pai. Isso é fundamental para que o atleta tenha a confiança necessária para vencer e para que esteja preparado para encarar as derrotas e os erros, que são completamente normais. Vê-lo pilotando é uma sensação maravilhosa. Fico feliz por saber que ele está fazendo algo que gosta. Por outro lado, é triste constatar que meu filho enfrenta as mesmas dificuldades que eu tive na minha época. A falta de apoio e de incentivo ao esporte continua sendo um sério problema. Espero que essa nova geração consiga reverter esse quadro”, finaliza.
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Carolina Alves, Julio Sian e Ibraim Leão
Produção de Moda: Marcela Versiani e Mel Cândido
Estagiária de produção de Moda: Julia Verzola