Nova realidade

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Com perdas na distribuição acima de 59%, aos 50 anos de atividades, o Daerp adota mudança de gestão, com austeridade e transparência

Responsável pela captação de água do Aquífero Guarani, abastecimento da população, coleta e tratamento de esgoto, o Departamento de Água e Esgotos de Ribeirão Preto (Daerp) chega aos 50 anos com o desafio de reverter os altos percentuais de perda na distribuição de água e reconquistar a confiança da população. Apesar de subir oito posições em relação à pesquisa de 2018, onde aparecia em 21º lugar, Ribeirão Preto está atrás de cidades de menor porte, como Franca (23,24%) e Maringá, com percentual de perdas de 22,50%. O município figura em 13º lugar no Ranking do Saneamento 2019, divulgado no dia 23 de julho pelo Instituto Trata Brasil, que apresenta os números das 100 maiores cidades brasileiras. Os dados utilizados para a elaboração desse ranking são do Sistema Nacional de Saneamento (SNIS) do Governo Federal.

Os números já foram mais alarmantes: em 2017, acumulava perdas no sistema de distribuição de água (59,36%) e no faturamento total (59,83%), por isso, foram investidos esforços em ações austeras para recuperar a credibilidade dos consumidores. Apesar de ainda alto, comparado ao índice do ano anterior, de 66,8%, o empenho resultou, já nos primeiros doze meses, em uma redução de sete pontos percentuais. Acrescida a essas perdas, a credibilidade da empresa também foi abalada em decorrência das diversas Comissões Especiais de Estudo (CEEs) e Comissões Parlamentares de Inquéritos (CPIs) abertas pela Câmara Municipal nos últimos dez anos. Foram executados processos para investigar, por exemplo, a qualidade dos serviços prestados na distribuição de água e no reparo asfáltico realizado após consertos nas vias públicas, além do apontamento de supostas irregularidades no contrato do Daerp.

Para reverter esse quadro, a autarquia da Prefeitura Municipal busca melhorar a qualidade dos serviços oferecidos e alcançar a universalização do saneamento básico. Com um orçamento de R$ 308 milhões para 2019, no ano passado, os maiores gastos foram de R$ 103,6 com pessoal, encargos e repasse financeiro ao Instituto de Previdência dos Municipiários (IPM), R$ 70,9 com energia elétrica e R$ 64 milhões com tratamento de esgoto, realizado pela Ambient.

“Pensar e planejar o Daerp para os próximos 50 anos é prioridade”, frisa Afonso

De acordo com o superintendente da empresa, Afonso Reis Duarte, o Daerp recuperou a capacidade de pagamento e de investimentos. Saiu de um déficit financeiro de R$ 20 milhões, em 2016, para um superávit de R$ 30,7 milhões, em 2017, e R$ 63,5 milhões, em 2018, além de uma disponibilidade líquida de R$ 18,6 milhões negativa para R$ 69,7 milhões, em 2017, e de R$ 84,9 milhões, em 2018, positivos. “Nestes dois anos e meio, os principais investimentos ultrapassaram R$ 54,4 milhões com recursos próprios e recursos da União via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”, aponta Afonso.

O gestor lembra, ainda, que, por intermédio da Ambient, o Daerp já concluiu, neste período de governo, 96% das obras de 97,2 km de interceptores com investimentos de R$ 137,7 milhões. Muitas medidas administrativas foram implementadas, como a implantação do software de gestão comercial GSAN; os novos 115 de atendimento ao usuário e o Regulamento de Serviços em substituição ao de 1986; o ponto digital biométrico; o cartão combustível; o sistema de monitoramento e rastreamento da frota de veículos; a reativação do Conselho Sanitário Consultivo; a Agência Reguladora; o Comitê Permanente de Gestão e Controle de Perdas e Eficiência Energética, entre outras medidas.

Pensar e planejar o Daerp para os próximos 50 anos é o mais importante, segundo Afonso. Com investimentos de R$ 150 milhões, a empresa pretende mudar toda a concepção de abastecimento de água e garantir a segurança hídrica em Ribeirão Preto. Ao contrário do que acontece hoje, o sistema levará água para os reservatórios e distribuí-la por gravidade. Foram projetados e serão executados 58 setores de distribuição, criando os Distritos de Medição e Controle (DMCs), o que — aliado à automação, válvulas redutoras de pressão e de vazão, automação, centro de comando e controle (CCO), controle de vazamentos não visíveis, substituição de 132 mil hidrômetros —, permitirá fazer a gestão da distribuição e do abastecimento, objetivando reduzir os percentuais de perdas para 25% a 30% até 2021.

Encontrar fonte alternativa de abastecimento de água também é uma grande preocupação, segundo Afonso. “Em de 2019, faremos a licitação Projeto Básico de Captação de Água do Rio Pardo, abrindo possibilidades de uso dessa fonte a partir de 2026. Além da gestão profissionalizada e da universalização do saneamento básico, esses são os legados que queremos deixar para esta e para as próximas gerações”, estima o superintendente.

Balanço positivo

Nogueira afirma que, desde 1º de janeiro de 2017, o Daerp está em franca recuperação de credibilidade

Destacando a feliz coincidência em comemorar o cinquentenário da empresa criada pelo pai, em 1969, o prefeito Antônio Duarte Nogueira Júnior considera positivo o balanço de desempenho do Daerp, apesar dos percalços que teve de enfrentar neste meio século. “O Departamento enfrentou toda sorte de ingerência, desvios de recursos e finalidades e frequentou, por isso, as páginas policiais, mas, desde 1º de janeiro de 2017, está em franca recuperação de credibilidade, em virtude de uma gestão austera e transparente, que está elevando a qualidade dos serviços prestados e a confiança dos consumidores”, relata o chefe do Executivo.

Dados divulgados em julho de 2018 apontava a cidade entre as dez melhores do estado de São Paulo e entre as 13 melhores do país no ranking de acesso a saneamento básico, divulgado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES). Nogueira estima concretizar, até o fim deste ano, 100% de água tratada, de esgoto coletado e tratado e de coleta de lixo domiciliar com destinação adequada. “Será um marco no saneamento da cidade e exemplo para outras cidades do mesmo porte ou até maiores que Ribeirão Preto. Seremos, com certeza, uma referência nacional em saneamento básico”, estima o prefeito.

Para alcançar esses resultados, a Prefeitura investe aproximadamente R$ 137,2 milhões na implantação de 97 quilômetros de interceptores e coletores de esgoto e estações elevatórias para a coleta total do esgoto. As obras devem ser concluídas neste semestre. Outros R$ 12,2 milhões estão direcionados à substituição de 42 quilômetros de novas redes de água e R$ 6,1 milhões, à construção de cinco novos reservatórios. Também serão investidos na setorização de distribuição de água mais de R$ 121 milhões. “O projeto está cadastrado no Ministério do Desenvolvimento Regional e faz parte do Programa de Gestão e Redução de Perdas e Eficiência Energética, que prevê também a contratação de busca de vazamentos não visíveis e detecção de fraudes em ligações. A previsão é reduzir em 50% as perdas totais até 2021”, estima Nogueira.

O prefeito aponta, ainda, que a preservação do Aquífero Guarani está contemplada no planejamento. A fonte alternativa de abastecimento também terá início de prospecção neste ano, com a contratação do projeto básico do programa Rio Pardo, com previsão de captação de água de superfície a partir de 2026. O prefeito ressalta que a principal ação para concretizar todos os projetos foi profissionalizar a gestão e dar eficiência ao atendimento. Entre as iniciativas, estão a redução dos gastos desnecessários, com diminuição de horas extras e plantões, mais treinamento, novos equipamentos e melhoria nas condições de atendimento. “Os reparos de vazamentos que chegaram a demorar até seis meses, hoje são feitos, em média, em quatro dias e os urgentes podem acontecer no mesmo dia”, explica Nogueira.

Impacto econômico

Édison Carlos é presidente executivo do Instituto Trata Brasil

O presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, avalia as perdas de água como um sinônimo da eficiência do sistema de produção e de distribuição das empresas operadoras. O aumento dos percentuais mostra, segundo ele, que há um problema de gestão e que os investimentos na redução não vêm sendo suficientes para combater o problema. “Mais preocupante é pensar que, num momento de crise hídrica, não será suficiente pedir para que a população economize água se as empresas continuarem perdendo bilhões de litros por deficiências diversas”, avalia. Édison lembra que a perda de água em Ribeirão Preto tem um histórico muito turbulento, com índices altos entre 2010 e 2011, seguidos por uma queda forte no indicador de perda em 2015. “Não havia uma explicação técnica para essa melhoria na cidade, mas a empresa operadora do município confirmava esses valores da faixa de 15% até 25% de perda”, recorda.

Enquanto a média no Brasil é de 38% de perda, a partir de 2016 os indicadores voltaram ao que era antes, na faixa de 50% a 60%, um número, de acordo com o executivo absurdamente alto. “Esses números são inadmissíveis, ainda mais para uma cidade com o nível técnico e econômico de Ribeirão Preto. Esses dados demonstram uma falta total de controle sobre as redes de água. Precisa ser feito um investimento urgente, porque, significa que, em cada 100 litros de água, 60 se perdem no caminho. Isso é um absurdo para qualquer lugar do mundo”, lamenta Édison.

Medidas como colocação de bombas com controle de vazão, caça-vazamentos e troca de redes são algumas das ações que Édison aponta como cruciais para reverter as perdas. O presidente indica que o problema não é só financeiro, mas também ambiental, porque a cidade tem que tirar muito mais água da natureza para cobrir essa perda no momento em que a humanidade vive uma incerteza com relação à água. “No caso em Ribeirão Preto, que usa a água do Aquífero Guarani, a responsabilidade deveria ser maior ainda, porque é um recurso natural protegido que a cidade usa, mas, que deveria consumir com critério e não com perdas desse tamanho, absurdamente altas”, conclui.

Instalação de interceptores de esgoto na avenida Antônio Helena Zerrenner

Novos investimentos

R$ 6 milhões na renovação da frota com a aquisição de 86 novos veículos e máquinas (cinco retroescavadeiras, 13 caminhões, 36 motocicletas, 20 automóveis, seis pick-up’s e seis minivans)

R$ 20,2 milhões para aumentar a oferta de água em 1,8 milhão de litros por hora e a reserva em mais 6,8 milhões de litros de água (dez novos poços e cinco reservatórios)

R$ 12,2 milhões aplicados na substituição de 42 km de redes antigas de água

R$ 11,3 milhões usados na compra e na substituição de 132 mil hidrômetros

R$ 2,6 milhões em 4.377 metros de redes adutoras e 1.450 metros de redes de esgoto

R$ 2,1 milhões investidos em 64 bombas submersas

Números expressivos

204 mil ligações de água

2.320 quilômetros de redes de água

203 mil ligações de esgoto

1.936 km de redes de esgoto

2 estações de tratamento

116 poços

118 reservatórios

148.700 m³ é a capacidade de reserva

132.678.670 m³ de água são captados por ano

840 funcionários

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